Voltemos a subir ao miradouro da graça que é a Cruz e, desde aí, procuremos avistar a fonte da Sabedoria. Bem sabemos que esta fonte está escondida, mas o Verbo aponta-nos o caminho para lá chegar: “Eu e o Pai somos Um”. Ser um com o Pai.
A Sabedoria é o “sabor” do amor com que somos amados por Deus. Ela implica o conhecimento de estarmos a ser amados por Deus e o conhecimento da obra que Deus realiza em nós. Quando Deus nos concede este dom significa que Ele mesmo já nos introduziu no Seu mistério. Já nos faz participar d’Ele, ensinando-nos a viver aí. O mistério de Deus é para nós o que é o líquido amniótico para o bébé em gestação no ventre de Sua mãe. O mistério de Deus são entranhas maternas onde Deus nos “gera”. A Sabedoria de Deus conhece-se, aprende-se, contempla-se, saboreia-se e vive-se em Deus. A Sabedoria aprende-se fixando os olhos da alma em Deus e vendo, na fé, como Deus faz. Digamos que todo o caminho percorrido até aqui é para podermos chegar a “este fixar os olhos da alma em Deus” e “vê-l’O” a agir.
Abrindo o livro da vida encontro claramente um antes e um depois do encontro com a cruz. Um encontro que fez da Cruz o berço do meu novo nascimento e forjou em mim a consciência de estar nas mãos do Pai e me acolher, dos lábios do seu coração, como Palavra pronunciada por Ele, participando assim no Seu mistério e convertendo-me na Sabedoria da Cruz de Deus. Isto não acontece dum momento para o outro, nem duma única vez. Pelo contrário é um conjunto de manifestações amorosas de Deus, ao longo duma relação de amizade com Ele, e que não são mais do que um deixar-se amar. É deixando-nos amar por Ele que aprendemos a Sua Sabedoria e deixamos que Ele nos transforme nela.
Hoje queria apenas falar do momento da entrada da Sabedoria de Deus na minha vida, como fruto do nascimento da Cruz e dom do Espírito Santo. Trata-se do momento em que dentro de mim ressoaram fortemente as palavras do Pai: “Do Egipto chamei o meu Filho”. Aparentemente estas palavras parecem não dizer muito, mas na sua essência íntima elas expressam a comunhão com Deus-Pai na sua própria realidade divina. É o que Deus Pai fez comigo e o que quer fazer com cada um de nós. Vejamos o texto:
«Quando eras ainda menino,
Eu amei-te, e chamei do Egipto o meu filho.
Entretanto, Eu ensinava-te a andar,
trazia-te nos meus braços,
era Eu quem cuidava de ti.
4Segurava-te com laços humanos,
com laços de amor eterno,
fui para ti como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto;
inclinei-me para ti para te dar de comer.»
Este texto do profeta Oseias introduziu a minha alma no movimento de ascensão de Jesus ao céu. Jesus fala-nos da Ascensão dizendo: “Saí do Pai e vim ao mundo agora deixo o mundo e volto para o Pai.” É este movimento de voltar para o Pai, para estar com Ele, viver em comunhão de vida com Ele. Na realidade, é uma ascensão, porque enquanto movimento de vida o Pai eleva-nos até Si numa união de graça e amor.
A Força do Amor que o Pai nos tem faz com que Ele nos chame da terra do Egipto, quer dizer, nos chame da terra da escravidão em que os sentidos nos prendem, para nos fazer viver a Sua própria vida. Aqui, a “ascensão” é uma elevação da condição natural à condição divina. Não é apenas aspirar às coisas do alto, mas ser elevado até elas pelo Pai e participar delas em comunhão de amor com o Pai, por graça de Deus.
Deus escolheu para mim, como caminho espiritual a percorrer, um percurso inédito, que me encanta, porém reconheço que exige o meu tudo e o tudo de cada um de nós. O percurso vai da Cruz ao Verbo e do Verbo ao Pai. Num primeiro momento sou consciente da chamada do Pai a deixar o Egipto, com o objectivo de me fazer sua filha. Depois, do Ser materno e paterno de Deus totalmente voltado sobre mim, enxertando-me em Cristo, forjando a minha identidade de filha muito amada do Pai.
Há todo um sentir da ternura de Deus derramado sobre nós a ensinar-nos a comunhão com Ele:
«Eu ensinava-te a andar,
trazia-te nos meus braços,
era Eu quem cuidava de ti.»
Depois a passagem do amor natural para o espiritual:
«Segurava-te com laços humanos,
com laços de amor eterno».
E o conhecimento por amor em que aprendemos a conhecer como somos conhecidos, isto é, conhecemos tudo como manifestação de graça e amor, porque é assim que Deus vê em graça e amor. O sermos elevados ao nível do rosto de Deus representa o olharmos com os seus olhos, o conhecermos com o seu conhecimento.
«fui para ti como os que levantam
uma criancinha contra o seu rosto;»
Por fim, o sair de Si de Deus para se fazer nossa vida. É o ser alimentado com a vida de Deus que é a comunhão trinitária.
«inclinei-me para ti para te dar de comer».
Ser chamada pelo Pai da terra do Egipto é ser chamada para ser filha e permanecer na casa paterna, com o Pai, em graça e amor. A casa paterna é a verdadeira fonte.
Até ao presente falei do momento da entrada da Sabedoria na minha realidade concreta. Agora, no hoje da minha consciência de ser Sabedoria da Cruz de Deus, vou partilhar o que o Espírito me diz ser permanecer na fonte da sabedoria, a casa paterna.
A minha linguagem é a do “peixe na água”, a água é a palavra que o Pai pronuncia e navego aí, vivo na Palavra do Pai e, por isso, o ar que respiro é o da Sagrada Escritura, o que faz com que o Verbo seja a minha própria palavra e experimente o movimento vital que cada Palavra encerra.
Não sair da casa paterna, no Seio Trinitário, é permanecer no Pai, no próprio acto de geração do Verbo, que é comunicação de vida divina, e disto falam o salmista e o evangelista S. Mateus a respeito de Jesus: “Tu és meu Filho eu hoje te gerei”. Não há diferença entre o acto de permanecer na casa do Pai e o “eu hoje te gerei”, são a mesma coisa porque na realidade trata-se da comunicação da vida divina, da vida do próprio Deus.
Esta comunicação de vida divina tem a propriedade de nos transformar em Cristo, precisamente por ser este o dinamismo das Três Pessoas divinas: o Pai dizer-se no Filho e o Filho dizer-se no Pai. Como no-lo diz Jesus: “Tudo o que o Pai tem é meu e tudo o que é meu é do Pai”. E os dois dizem-se, em nós, no Espírito de Amor, que é comunicação de vida dos Dois, porque o Espírito “dirá tudo o que tiver escutado de Jesus” e Jesus, por sua vez, diz a cada um de nós: “Não vos chamo servos, mas amigos porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai.”
Permanecer na casa do Pai é participar no movimento de geração do Verbo, na paternidade do próprio Pai Eterno, ser filhos no Filho, no próprio Amor divino como fonte de vida divina.
Participar na vida do próprio Deus Vivo é estar no Seio Trinitário e viver em contínua celebração dos Três, porque é entre os Três que se faz a obra, isto é, que vivemos, nos movemos e existimos.
Não sair da casa paterna é ainda deixar que se cumpra em nós a profecia de Natã a David: Deus anuncia que te vai construir uma casa; que os teus descendentes se sentarão no Seu trono para sempre; Ele será para ti um pai e tu serás para Ele um filho.
Esta casa é o movimento vital do próprio Deus, enquanto comunicação de vida infundida em nós pelo Espírito Santo. E a descendência eterna é sermos enxertados em Cristo até podermos chegar a ser Cristo. Transformados em Cristo por união de graça e amor, já não vivemos nós, mas Cristo em nós. A união e a transformação no Verbo como plena comunhão com a Trindade – Ele é a nossa cabeça e para aí nos chama como seu corpo.
Tudo é condescendência amorosa do Eterno Pai que quer fazer de nós filhos muito amados, em quem põe as suas complacências. Pôr em nós as suas complacências é encontrar em nós “lugar”, abertura para a sua revelação de amor, para Ele se dizer em nós em comunicação de vida e amor.
Devemos ao Pai a adoração, por nos querer junto d’Ele, e nos enviar Jesus para estarmos com Jesus, por Jesus e em Jesus, no Espírito transformador, na casa paterna que é o Seio Trinitário.
Diz a Sabedoria: “O Senhor criou-me como primícias da sua actividade (…) Eu estava a seu lado como arquitecto, cheia de jubilo dia após dia, deleitando-me continuamente na sua presença. (…) Deleitava-me sobre a face da terra e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens.”
Ao rezar este texto do livro da Sabedoria vejo como arquitecto da construção da casa paterna o Verbo Eterno, que, tal como o Pai tem as suas complacências com os seus filhos, também Ele tem as suas complacências sobre a face da terra, estando com os filhos doa homens. Estas delícias estão no facto da Sabedoria, o Verbo Eterno, enquanto palavra pronunciada pelo Pai, fazer de nós palavras de Deus, acolhidas do Seio Trinitário no Verbo Eterno.
A garantia de permanecermos na casa paterna está em que: “a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”. O Espírito é que em nós clama: Abbá – Pai e nos faz beber da fonte da Sabedoria.
O nosso desafio é o encontro com o Pai, com o projecto de vida e amor que Ele nos oferece e que faz de todos nós filhos muito amados.
O Papa Francisco começa a falar-nos do Pai desafiando-nos a recordar quem somos. Diz-nos Ele, citando S. Paulo: «não recebestes um espírito de escravidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: “Aba! Pai!”» (8, 15). E confirma-o recorrendo de novo ao Apóstolo: «A prova de que sois filhos é que Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: “Aba, Pai!’’» (Gl 4, 6). Aqui está condensada toda a novidade do Evangelho. Depois de ter conhecido Jesus e ouvido a sua pregação, sentimos florescer no nosso coração a confiança n’Ele: pode falar com o Criador chamando-o “Pai”! A expressão é tão importante para os cristãos, que muitas vezes se conservou intacta na sua forma originária: “Aba”!
É raro que no Novo Testamento as expressões aramaicas não sejam traduzidas em grego. Devemos imaginar que nestas palavras aramaicas tenha permanecido como que “gravada” a voz do próprio Jesus. Trata-se de ter, por assim dizer, todo o mundo de Jesus derramado no próprio coração.
Dizer “Aba” é algo muito mais íntimo e mais comovedor do que simplesmente chamar a Deus “Pai”. Nós continuamos a dizer “Pai nosso”, mas com o coração somos convidados a dizer “Papá”, a ter com Deus um relacionamento como o de uma criança com o seu pai, que diz “papá”, diz “paizinho”. Com efeito, estas expressões evocam afeto e calor, algo que nos projeta no contexto da infância: a imagem de uma criança completamente envolvida pelo abraço de um pai que sente ternura infinita por ela. E por isso, para rezar bem é necessário chegar a ter um coração de criança! Não um coração suficiente: assim não se pode rezar bem. Como uma criança no colo do seu pai, do seu papá, do seu paizinho.
Mas certamente são os Evangelhos que nos introduzem melhor no sentido desta palavra. O que significa para Jesus esta palavra? O “Pai-Nosso” adquire sentido e cor, se aprendermos a recitá-lo depois de ter lido, por exemplo, a parábola do pai misericordioso, no capítulo 15 de Lucas (cf. 15, 11-32). Imaginemos esta prece pronunciada pelo filho pródigo, depois de ter experimentado o abraço do seu pai, que tinha esperado por muito tempo, um pai que não se recorda das palavras ofensivas que ele lhe dirigira, um pai que agora lhe faz entender simplesmente a falta que tinha sentido dele. Assim descobrimos como aquelas palavras adquirem vida e força! E interrogamo-nos: como é possível que Tu, ó Deus, conheças unicamente o amor? Tu não conheces o ódio? Não — Deus responderia — Eu só conheço o amor. Onde se encontram em ti a vingança, a pretensão de justiça, a raiva pela tua honra ferida? E Deus responderia: Eu só conheço o amor!
O pai daquela parábola tem modos de agir que recordam muito o espírito de uma mãe. São sobretudo as mães que perdoam os filhos, que os defendem, que não interrompem a empatia em relação a eles, que continuam a amar, mesmo quando eles já não mereceriam mais nada.
Deus procura-te, mesmo que tu não o procures. Deus ama-te, ainda que tu o tenhas esquecido. Deus vislumbra em ti uma beleza, não obstante tu penses que desperdiçaste inutilmente todos os teus talentos. Deus é não só um pai, mas é como uma mãe que nunca deixa de amar a sua criatura. Por outro lado, há uma “gestação” que dura para sempre, muito além dos nove meses da gestação física; trata-se de uma gestação que gera um circuito infinito de amor.
Para nós, rezar significa dizer simplesmente “Aba”, dizer “Papá”, “Paizinho”, “Pai”, mas com a confiança de uma criança. Nunca vos esqueçais de dizer: “Pai”.»
Juntos, na fonte da Sabedoria, ousamos chamar a Deus de Pai:
Pai,
Eu dou-te graças
Por seres um Deus que nos atrai
Com laços humanos e vínculos de amor,
Por nos envolveres com a tua ternura,
E com a abundância da tua graça
Nos ensinares a andar nos teus caminhos.
Obrigado por seres o meu Pai
E o nosso Pai,
Aquele que nos sustem a vida
Com o Pão da vida eterna
E a luz do Cordeiro imolado por nosso amor.
Obrigado por nos levares pela mão
E nos convidares a ter um coração de criança,
Que se abandona sossegada e tranquila
Ao colo do Pai.
Conhecer que Tu és nosso Pai
Dá alegria ao nosso coração,
Porque nada há fora de Ti e do Teu Amor,
Nada há fora da comunhão de vida e amor que nos ofereces,
Nada há fora do projecto de vida que sonhastes para nós.
Tu és o nosso Pai
E quando olhas para nós
Vês que tudo é muito bom,
Porque nada nos acontece sem que Tu o permitas,
Para uma maior comunhão de amor contigo
E para nossa felicidade.
Bendito sejas, ó Pai,
Porque só Tu és a fonte da Vida e do Amor,
A fonte da Sabedoria,
Que nos faz sentir como a menina dos Teus olhos,
Os filhos muito amados em quem pões as Tuas complacências.
Obrigado Pai
Porque a delícia do Teu coração
É sentires alegria de sermos e vivermos
Como Teus filhos.
Não deixes que alguma vez saíamos da casa paterna
E nos separemos do Teu amor,
Porque em nós, no segredo do nosso coração,
O Teu Amor clama:
Abba – Pai.


