Convido a uma reflexão, digna de uma ida (e volta) à Lua, ou qualquer Planeta ou Estrela. Tudo menos ficar no mesmo sitio. Tanto alarido, e não é para menos, pois o convite que aqui lanço, é uma viagem/desafio, mão na mão com S. João da Cruz, à perceção individual sobre o envelhecimento e a velhice. Amor.
Lendo as sábias palavras do nosso Santo, percebemos que o envelhecimento pode ser compreendido não como um simples declínio, mas como um despojamento amoroso que conduz à verdade essencial da vida. De quem o vive e de quem o acompanha. Essencial.
Com esta visão de amor, o tempo que passa vai retirando o que é acessório. As forças diminuem, as agendas tornam-se mais leves, as urgências perdem o ruído. E, nesse silêncio progressivo, cumpre-se o que o nosso Santo exprime com tanta delicadeza: Para vires a ser tudo, não queiras ser coisa alguma (Cf.). Envelhecer é aprender esta verdade sem violência, aceitando que a plenitude não nasce da acumulação, mas da entrega. E eu? Consigo ver isto? Ser coisa alguma…Hoje.
Para São João da Cruz, a verdade não se impõe; revela-se no amor. Também o envelhecimento ‘verdadeiro’ não se mede apenas em anos, mas na capacidade de amar com menos medo e mais liberdade. Quando já não é preciso provar nada, o coração torna-se mais transparente. O amor deixa de ser posse e passa a ser presença -discreta, fiel, profundamente humana. Vida.
Há, neste caminho, uma sabedoria própria da idade avançada: a de reconhecer que o essencial permanece quando tudo o resto passa. No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor (Cf.), recorda o Santo. O entardecer não é o fim do dia, mas o momento em que a luz se torna mais suave e verdadeira. Assim é o envelhecer bem vivido: uma luz menos intensa, mas mais profunda. Luz que não encandeia, pelo contrário, torna tudo nítido. Paz.
Somos convidados a perceber que nesta etapa, a pessoa é convidada a habitar a verdade com mansidão, a verdade do corpo que muda, da memória que seleciona, da vida que se simplifica. Não há pressa. Há confiança. O envelhecimento, mão na mão com São João da Cruz, é uma noite habitada pelo amor, onde se aprende que Deus, e a vida, não se encontram no excesso, mas na quietude. Que estranha melodia nos dias de hoje. Confiança.
E assim, pouco a pouco, envelhecer torna-se um ato espiritual: um consentimento sereno à verdade do amor, que não envelhece. Onde não há amor, que eu ponha amor (Cf.), escreve São João da Cruz. Nesta frase cabe toda uma pedagogia do envelhecer. Com o passar dos anos, tornam-se mais visíveis as ausências: relações que se perderam, silêncios que doem, fragilidades próprias e alheias. Mas o envelhecimento amadurecido não se fixa na falta, nas falhas; responde-lhes. Não espera ser consolado para consolar, nem ser compreendido para compreender. Aprende, antes, a semear amor como um gesto livre, mesmo em terrenos áridos. É um desafio querer ver…Assim, a idade avançada pode tornar-se um lugar de fecundidade discreta: onde o mundo oferece menos, o coração oferece mais. E nesse movimento simples, quase invisível, a pessoa envelhece por dentro com verdade, transformando a carência em dom e o tempo em graça. Benção.
Ao defender um amor puro, portanto desapegado de tudo o que não fosse a vontade divina, São João da Cruz oferece-nos uma chave particularmente luminosa para compreender o envelhecimento (físico e interior). Com os anos, a vida convida, muitas vezes sem pedir licença, a soltar o que já não pode ser retido: papéis sociais, reconhecimentos, capacidades, até certas imagens de nós próprios. Esse desapego, quando vivido com mansidão, não empobrece; purifica o amor. Amar deixa de ser condicionado pelo retorno, pela utilidade ou pela necessidade de controlo, e passa a alinhar-se com uma confiança mais profunda na vida tal como ela se dá. O envelhecimento torna-se, então, um exercício silencioso de liberdade interior: amar menos por apropriação e mais por consentimento, até que o amor, liberto de tudo o que é acessório, permaneça simples, inteiro e verdadeiro. Fiat.
A vida de São João da Cruz recorda-nos, com particular eloquência, que a fragilidade física não impede a fecundidade profunda. Pequeno de estatura, frequentemente doente, marcado pelo cansaço e pela privação, foi precisamente nesse corpo vulnerável que se gerou uma obra espiritual de extraordinária densidade. O paralelo com o envelhecimento é claro e consolador: quando o corpo abranda e a força diminui, não é a capacidade de criar sentido que se perde, mas apenas a forma como ele se expressa. Sentido.
Por fim, tal como em São João da Cruz, a grande obra da idade avançada deve ser abraçada pela intensidade interior, pela profundidade do olhar, pela palavra essencial, pela presença que sustém. Assim, a fragilidade do corpo pode tornar-se lugar de maturidade, onde a vida, longe de se apagar, se concentra e se cumpre. Abraçar a vulnerabilidade (minha) e do próximo é um desafio, que se torna mais suave, mão na mão com S. João da Cruz.
Ultimo desafio: ler a última palavra de cada paragrafo e pensar como posso, hoje, fazer esta viagem. Ir.
S. João da Cruz, Subida ao Monte Carmelo.


