1. Há milénios que, em chegando a primavera, belicosos, os reis partem para a guerra. Assim, em nossos dias, mesmo se livres dos antigos estados d’alma, já que neste particular a tecnologia potenciou capacidades que estilhaçaram as fronteiras entre estações.
Não só pelas guerras, mas mormente por esse tão infame flagelo, hoje, mais que ao tempo em que os reis apreciavam as flores da primavera enquanto limiar para a guerra, tais confrontos fratricidas correm o sério risco de fazer elidir o nosso belo planeta azul da co-irmandade da nossa galáxia. É nisto que me fixarei.
Há guerra em fundo. Muita guerra no mundo. Mesmo sem contar aquela que late em tantos contextos próximos de nós – em certos bairros, ruas e até lares. O que, por enquanto, nem umas nem outras apagam é o pipilar frágil dum passarinho com frio, saltaricando pelo meu jardim, nem esse lento espetáculo que é ver cair de castanho maduro as folhas das árvores, enquanto, brincando, por entre elas, um cachorro abocanha pequenas bolotas outonais que corre a depor nas mãos duma criança.
2. Se em engano não lavro, faltam, agora mesmo, seis minutos para a meia noite. Não sei, em verdade, donde ou a que horas me lês, leitor, leitora, mas desculpar-me-ás: não, não me engano – é o Relógio do Fim do Mundo quem, zeloso, mo confirma, como acabo de verificar.
O Relógio do Fim do Mundo é um relógio simbólico criado pela Universidade de Chicago no ano de 1947, após a deflagração das bombas atómicas sobre as cidades nipónicas de Hiroshima e Nagásaki. Poucos o conhecem, mas ele existe. Foi iniciado com os ponteiros aos sete minutos para a meia noite, sendo que Meia Noite significa o apagar do nosso planeta em holocausto total. Entretanto, no ano de 2010, o relógio avançou um minuto, recordando a toda a Humanidade, especialmente aos nossos ingénuos governantes, digo ingénuos porque ninguém, especialmente eles, parece ter-se dado conta de que, desde aquela data, ficámos ainda mais perto do fim. E ficar mais perto do fim, é bom lembrar, é ficarmos sem saída para lugar algum, pois para ninguém jamais existe Planeta B; eu sei que a expressão é devedora de certas agendas, mas seja de quem seja, tal é a verdade. Aliás, será bom não esquecer que este terrífico ano de 2022, em que ainda navegamos, foi o ano em que a voz das armas nucleares, mesmo que em surdina, de novo se voltaram a impor como infeliz trunfo no tabuleiro da morte, logo, portanto, mais do fim tal discurso nos foi aproximando.
3. Estamos em crise. Estamos em guerra. Estamos em risco civilizacional.
Aqui, ali e além, Caim continua sem saber de Abel, mesmo se o acaba de sacrificar no altar da raiva, do ódio, da inimizade, do ciúme. Porém, neste contexto, o real perigo duma Guerra Nuclear, as irreversíveis e desastrosas alterações climáticas, o aquecimento global do planeta e os riscos inerentes à aplicação das novas tecnologias são apenas três dos grandes perigos que, qual afiada e pesada espada, pendem hoje por um fio sobre a cabeça da Humanidade. Mas eles são mais, sim, pelo que, de acordo com o recrudescer das tensões mundiais, ou pelo seu aliviar, os minutos do fatídico relógio se adiantam (ou se podem atrasar; o que não tem acontecido…). E visto não sermos meninos, bem sabemos que a tendência é para que se adiantem.
4. Diz-se que o mundo e as vitórias no mundo são dos cépticos, dos que duvidam da condição humana; e talvez sejam. Ficam-se eles na solapa e isso lhes basta para vencer, que cada derrota da Humanidade mais os acirra e faz medrar; e assim se consolam. Já eu, porém, me quero e nos quero a rezar pelos jovens, em idade de verdes sonhos, e do erguer firme da alma esperante por madura seara que venha, mesmo se é verdade que dum lado da ladeira, alçando-se, vejo subindo tribos em guerra e do outro lado em guerra subindo tribos vejo. Então diante do altar eu vou e ergo o coração a Deus, pedindo para que dentre as velhas oliveiras surjam rebentos capazes de bandeirar a esperança: Meu Deus, dá-nos jovens ardentes, dá-nos, ao menos, três jovens ardentes, bem mais ardentes que o escuro fogo que se propõe destruir-nos! Nesta noite, antes da meia noite, dá-nos, Senhor, jovens abrasados pelo teu Fogo Santo!
E para jamais me render a esses cépticos, que não atam nem desatam, realista para sempre eu seja, para melhor ver e, quem sabe, um pouco melhor aquecer os meus tremores e dúvidas, aproximo-me da esperança que no outono os meninos portam nos olhos pelos parques da cidade.
Há anos que fechei a televisão, mas é-me impossível não sofrer com os noticiários que desta ou daquela forma me sobrecargam e assediam: Guerra na Ukrania, Insurgência no Myanmar, Guerra Civil no Iémen, e outras menos mediáticas: Guerra do Tigré, na Eritreia, no Sudão; e outras muitas. Muitas. E a estas junte-se a crise da inflação galopante, as sucessivas ondas da covide, as injustiças e conflitos sociais, a sensação do aumento de insegurança, dos roubos e dos crimes contra velhos, mulheres e crianças; e como se tudo isto fora pouco, ferem-me ainda os repetitivos e frios jorros de notícias de última hora sobre tornados, furacões, tufões e vulcões que cospem fogo e cinzas, de montanhas que se esbarroncam e matam, de glaciares que desaparecem como o nevoeiro da manhã e, em certos lugares, a inexorável subida dos níveis da água, afogando, implacáveis, terras e rebanhos, património e estilos de vida…
Ah, meu Deus como sobreviver a tanto mal que enfileira o ódio e a morte e nos torna os dias tão duros, tão inseguros?
5. Pensando bem, penso eu muitas vezes, é melhor não pensar muito nisto, e andar para a frente. – Tarefa dura e cruel, digo-me, para porém mais me espevitar. – E é que ainda há pior notícia que estas: quando me cai a ficha, dou comigo a pensar que não sabendo nem quando nem como, também eu tenho um fim à minha espera, pois tenho de morrer para este escuro mundo. E morrendo eu, comigo morre um mundo de serviço, de livros, de sonhos, de projectos, de jardins, de esperanças, de bênçãos, de amigos. E quedo-me mudo; e se, inteiro, mudo não me ficar, bole-se-me por dentro o coração, e daquele profundo poço rezo, para que o fim se me achegue em bendita misericórdia… E sim, quero-me sem deixar de louvar e rezar a Deus à Hora de Vésperas, para que a servidão, as bênçãos, os livros, os sonhos, os jardins, os caminhos e os projectos não sejam os meus, mas os de Deus, única forma de também eu tocar a luz que chameia sem apagar a candeia.
6. Como algures já deixei dito não visitei muitos países, nem por ora tenho sede de mais. Quem por esse mundo já foi em modo, e antecipadamente se dedicou a ler e estudar roteiros turísticos, impossível não ter reparado, e depois visitado, os inevitáveis ex-libris das cidades – que maravilhas o engenho humano não ergueu ao longo dos séculos! Entre todos eles os que mais me foi dado surpreender nem são os edifícios majestosos e belos, nem os riscos luminosos e impossíveis, nem as eurekas benditas, mas as ruínas. E eis que agora reparo: uma sede tenho eu: visitar Jericó, na Palestina, talvez a cidade mais antiga do mundo, reconstruída pelo menos sete vezes, ao longo da sua multimilenar história! Enquanto, porém, não puder subir àquelas, irei às das Carvalheiras, na minha cidade. São mais humildes, dúvida não há, mas igualmente interpeladoras.
Como são espantosas as ruínas! E como tanto me interpela esse quase-pó de sonhos, de conquistas, de impérios! E, apesar de tudo, com que orgulho e exultação as preservam os povos agora ungidos pela tecnologia de ponta! Com que afinco todos nos fincamos no pó para sobressairmos sobre os demais! Será, por isso, meu Deus, que tanto nos atrai a guerra e a destruição em massa ainda em nossos dias?
Sim, quão demasiadas vezes nos dedicamos a exibir e a contemplar orgulhosas ruínas que não passam de fantasmas de reis passados, cujo vigor era, testemunhamo-lo hoje, como de palitos esquecidos sobre a mesa!
De Alcântara (Brasil) a Micenas (Grécia), de Machu Picchu (Peru) a Angakor (Cambodja) que vemos nós, senão ruínas e mais gloriosas ruínas?
Ruínas!
Tudo passa, tudo muda, tudo se acaba!
Como quão rápido se esfumam as glórias do mundo!
Como tanto se espantam os nossos olhos com os restos de pó de vanglórias alheias!
7. Por estes dias, a natureza exibe-nos a sua face mais mortiça e decadente. Até há pouco carregadas de viço, de vida, e de frutos, as árvores chovem-nos agora amplos tapetes de folhas de mil encanecidos tons. Tudo que era viço decai agora. Tudo, tudo cai por terra – impossível não lembrá-lo ao contemplarmos as árvores nuas!
8. Tudo cai, tudo daqui se esvai.
Tudo aqui carece de sabor de eternidade, menos o amor; menos o amor, sim, assim a esperança nos dê e guie com a sua mão pequenina!
9. Neste domingo penúltimo do tempo comum, dentro de portas, a Igreja comunica notícias do fim do mundo aos seus filhos e filhas – afinal já Jesus alertou os discípulos a tempo para isso, e convém que também hoje não nos adormilemos: chegará o fim, achegar-nos-emos ao fim.
Sim, eis que o fim se (nos) achegará, mas não entremos em desespero, porque nós não seguimos nem palavras dos Maias, nem de Nostradamus, nem as de outros quaisquer visionários! Nós seguimos (e amamos) as palavras de Jesus, e estas são boas e sãs, porque são Boa Nova do homem das boas notícias. Alerta, sim, mas sem medo, porque ainda que o mundo se acabe, nós não sabemos se tal virá a ser dentro de seis minutos ou de seis biliões de anos.
10. Coragem e confiança para estes dias tão duros como as noites frias, pois, afinal, nem um só cabelo cairá da nossa cabeça sem licença do Senhor. Coragem e confiança!
Entretanto, comamos, trabalhemos, divirtamo-nos e descansemos, sonhemos, rezemos, demos as mãos e semeemos fartura e fraternidade, que a seu tempo – cuja meia noite só Deus conhece – dormiremos, que o morrer cristão se diz: «dormir no Senhor»! E nEle depois despertaremos, porque o amor é mais forte que a morte, e a porta que nos abre definitivamente para Deus é Ele-mesmo, enquanto tudo para todos!
10. Semearei ainda que de véspera.
* Este texto foi escrito em finais de novembro de 2022, mas continua atual como o leitor verificará.


