A Graça de Natal

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Neste Claustro, neste silêncio que escuta e onde o nosso coração pode ouvir a voz de Deus, através de quem o visita, a nossa alma abre-se ao momento que estamos prestes a viver: o nascimento de Jesus, Deus feito Menino. A cada ano, renova-se o desejo de O conhecer e amar mais, o nosso coração dilata-se, o nosso entendimento recebe novas luzes, ao abeirar-nos da grandeza do amor de Deus por nós.

Hoje detenho-me diante do presépio. Não há de ser um presépio grande nem barulhento, mas pequeno, silencioso e humilde como o coração de Santa Teresa do Menino Jesus. Como ela, também o meu coração me diz que o Natal feito de confiança absoluta neste Deus que se faz criança e vem à minha vida, vem nascer simples nas minhas pobrezas e limitações.

Conta-nos Teresinha, esta jovem Carmelita Descalça e grande Doutora da Igreja, no seu Manuscrito A:

Foi preciso Deus fazer um pequeno milagre para me fazer crescer num instante, e esse milagre fê-lo no dia inesquecível de Natal. Nessa noite luminosa que esclarece as delícias da Santíssima Trindade, Jesus, o doce pequeno Menino de uma hora, mudou a noite da minha alma em torrentes de luz… Nessa noite em que Ele se fez fraco e sofredor por meu amor, tornou-me forte e corajosa; revestiu-me com as suas armas; e desde essa noite bendita, não fui vencida em nenhum combate; antes, pelo contrário, caminhei de vitória em vitória e comecei, por assim dizer, «uma corrida de gigante!…» (Ms A 44v)

Posso imaginá-la, com a sua ternura e claro olhar de menina de 13 anos, a ganhar consciência de que Deus a queria exatamente como era: frágil e sensível, mas a abrir o seu coração à graça de Deus para que, sem perder a simplicidade de criança, se pudesse tornar uma mulher adulta, a viver do amor e da confiança, que a conduziria, a “passo de gigante” à santidade.

Essa experiência, depois da missa de Natal, marcou o início de uma nova etapa espiritual onde Teresinha se sentiu liberta de si mesma, da sua hipersensibilidade, pronta para deixar de ser escrava das suas próprias emoções e livre para agradar só a Jesus. Foi o nascimento da sua vocação de amor, fundida muitas vezes com o sacrifício, pois sabemos que não há amor sem sacrifício. Esta “corrida de gigante” culminaria na proposta espiritual do já conhecido “pequeno caminho”, um caminho de confiança e abandono total a Deus nas mais pequeninas coisas.

Este pequeno caminho é acessível a todos e qualifica a nossa vida pessoal e relacional, pois ele passa pela valorização das coisas pequenas, dos gestos, das palavras e pensamentos de cada dia. Este novo estilo de vida desobstrui caminhos, deixa que Deus nasça em mim, cresça e permaneça em mim; permite que a luz daquele Menino ilumine os meus cantos escuros, os meus medos e dúvidas, as minhas limitações e fragilidades. Deus não pede que sejamos perfeitos, mas que Lhe permitamos que nasça em nós, que O recebamos com a inocência de uma criança e toda a ternura de quem confia, permitindo a transformação da nossa infância interior num coração adulto no amor.

Para Santa Teresinha, a graça do Natal de 1886 foi o início de um processo de libertação interior que lhe permitirá amar “até dar a vida”, sem grandes obras, sem barulho, simplesmente deixando Deus agir nela. Quando Deus nasce no coração de cada um dos seus filhos, o primeiro a mudar não é o mundo ao nosso redor, mas a nossa maneira de olhar e de amar. Quando deixamos Deus nascer no nosso coração tudo muda: o nosso olhar, as nossas prioridades e a capacidade de perdoar e de amar.

Mas o Natal de Teresinha não se entende plenamente sem a presença silenciosa e maternal da Virgem Maria, modelo perfeito de confiança. Maria foi precisamente aquela que abriu o próprio coração a Deus e deixou que Ele nascesse nela, ao ponto de se tornar a própria Mãe do Salvador. Quando Teresinha contempla o presépio, vê refletido nele o coração de Maria: humilde, obediente, cheio de amor, mas sem grandes feitos espetaculares.

Assim como Maria confiou a Deus a sua vida inteira, também Teresinha aprende que a verdadeira santidade começa quando nos abrimos à graça divina em cada detalhe da vida do dia a dia, em cada pequeno ato de amor, em cada sacrifício silencioso.

Como Teresinha podemos dizer que é na simplicidade, na confiança e na entrega diária que a graça do Natal se torna viva, tal como Maria nos ensinou com o seu Fiat humilde e generoso.

Que a Virgem do Carmo, a Mãe terna e silenciosa do presépio, nos envolva com o seu manto e nos ensine a acolher a graça que Deus quer derramar sobre cada um de nós.

Isabela Neves

Neste Claustro, neste silêncio que escuta e onde o nosso coração pode ouvir a voz de Deus, através de quem o visita, a nossa alma abre-se ao momento que estamos prestes a viver: o nascimento de Jesus, Deus feito Menino. A cada ano, renova-se o desejo de O conhecer e amar mais, o nosso coração dilata-se, o nosso entendimento recebe novas luzes, ao abeirar-nos da grandeza do amor de Deus por nós.

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