A 15 de junho de 1921, Lúcia de Jesus, de quatorze anos, despediu-se da sua família e da sua terra, Fátima, e daquele cantinho tão especial, a Cova da Iria. Na despedida recordou a Virgem do Carmo e aí mesmo, ao receber a vocação de Carmelita Descalça, pediu a proteção a Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face: «Recordei a minha querida Nossa Senhora do Carmo e nesse momento senti a graça da vocação à vida religiosa e o atrativo pelo Claustro do Carmelo. Tomei por protetora a minha querida Teresinha do Menino Jesus» (Sob o Olhar de Maria, p. 122). Teresinha respondeu a essa confiança tendo para com Lúcia muitas atenções. Vejamos algumas: Teresinha recorreu ao Papa para ser Carmelita Descalça. Assim o fez também Lúcia. Teresa insistiu com o Papa, Lúcia também. Ambas conseguiram o que queriam quando as circunstâncias não lhes pareciam favoráveis.
Distanciadas no tempo, Teresinha e Lúcia são irmãs quási-gémeas.
Ao pressentir a morte, Teresinha ofereceu a sua vida por várias causas. Entre outras intenções ofereceu-a pelas crianças que seriam batizadas no dia da sua morte. Uma dessas crianças foi Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, o futuro Papa Paulo VI, que sempre se mostrou agradecido a Teresinha, tendo sido ele, por fim, quem agilizou a entrada de Lúcia de Jesus no Carmelo. E a meu ver, o encontro entre Lúcia e Paulo VI, a 13 de maio de 1967, parece-me ser uma das rosas de Teresinha.
Na sua primeira confissão, que precedeu a sua primeira comunhão, Lúcia sentiu a sua fragilidade de pecadora diante da iminência de receber o próprio Deus. Vai daí acolheu o sábio conselho do sacerdote que a confessou e confiou-se a Maria. Em resposta, Maria mostrou-lhe o seu sorriso e prometeu-lhe proteção. Isso mesmo vivera Teresinha uns anos antes: doente, vulnerável, sem se poder valer, foi curada pelo sorriso e proteção de Maria. Esse feliz dia era um 13 de maio, o dia de Fátima, o dia de Maria, o dia de Lúcia. Para ambas esse sorriso traz serenidade, confiança e paz.
Na recente exortação apostólica C’EST LA CONFIANCE, o Papa Francisco diz que Teresinha é mestra de evangelização, porque com a sua vida nos conduz ao que é essencial, indispensável, urgente e constitutivo do ser cristão. Diz também que, ainda que todos os ensinamentos e normas da Igreja tenham importância, há um ensinamento e uma norma que supera todos os demais: o amor misericordioso e infinito de Deus Pai, manifestado em Jesus. São palavras que evocam a descoberta de Teresinha ao ler os capítulos 12 e 13 da primeira epístola de São Paulo aos Coríntios: existem muitos ministérios importantes, mas o amor é que os move a todos! Na vida de Teresinha transparece a misericórdia do Pai; e na de Lúcia, a Mensagem de Fátima que, no seu cerne, recorda a misericórdia de Deus que aguarda ser acolhida pelo homem.
Teresinha e Lúcia dizem o mesmo: Deus ama-nos e deseja ser por nós amado! Ambas deram também uma resposta semelhante – a da confiança e do abandono – nas circunstâncias tão diversas por que passaram. Amamos a Deus quando confiamos Nele e nos deixamos encontrar e agraciar por Aquele que tudo dá. O abandono e a gratidão vividos e ensinados por Teresinha são também traços de Lúcia. Sim, Lúcia e Teresinha viveram da confiança, e permitiam que Deus fosse o interlocutor do seu caminhar.
Por fim, Teresinha e Lúcia encontram-se também no grande amor a Maria.
Teresinha conheceu bem o interior de Maria, a ponto de compreender que ela partilhou na terra a humilhação de Jesus. Ele, sendo Deus, feliz e glorioso, escolheu ser esmagado pelo pecado (que é finito), para revelar a misericórdia do Pai (que é infinita). Sendo o salário do pecado a dor e a morte, Jesus quis escapar à sua amargura e tragédia no Jardim das Oliveiras, dizendo: «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice» (Mateus 26:39); mas confiou na promessa do Pai. Maria aprendeu esta forma divino-humana de viver. Fez a sua peregrinação na terra com uma fé árida, humilde, pura, sem triunfos terrenos, capaz de acolher o sofrimento. Se não assumisse esta forma de seguimento, não poderia participar da glória nem colaborar na redenção. Ela foi aprendendo, com a sua experiência pessoal, que a redenção tem meios próprios, pequenos, humildes, desconcertantes. O caminho de Maria, de Teresinha e de Lúcia foi todo de confiança e amor. Confiar é ter a esperança de que Deus é Deus e isso basta. É concluir com Paulo: «Tudo posso naquele que me fortalece» (Filipenses 4:13). É aceitar a promessa de Jesus: «Basta-te a Minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza» (2 Coríntios 12:9-10). É alegrar-se nas próprias fraquezas, necessidades e angústias, com a segurança que nelas se manifesta algo novo da bondade de Deus Pai. É saber-se forte porque se é fraco nas mãos do Amado.
Lúcia procurou viver, humildemente, as virtudes de Maria; e por isso, foi totalmente carmelita. Lembro bem como o povo português reconheceu isso mesmo quando na sua procissão fúnebre cantou o Avé de Fátima e acenou lenços brancos de despedida como faria diante da imagem da Capelinha, porque Lúcia, a Carmelita Descalça, foi presença e transparência de Maria.
A mensagem de Lúcia assenta no triunfo do Imaculado Coração de Maria. E também isso a une a Teresinha. Ambas cantam, afinal, o triunfo do Coração de Maria que vem do triunfo da ressurreição de Jesus.
Maria, a querida Mãe dos Carmelitas, quer-nos nesta luta e nesta vitória. Uma vitória que não é triunfalista, nem soberba ou altaneira, mas servidora da decisão de Deus de a todos salvar.
Acompanhados por Lúcia de Jesus e por Teresinha do Menino Jesus, confiemos a Maria o que temos e o que somos. E que o nosso amor e gratidão a Maria nos permitam identificar na nossa vida as oportunidades de também nós optarmos pelo caminho da fé pura, desnuda, confiada e simples.


