Andando de passeio por este Claustro com S. João da Cruz no pensamento, eis que me salta à vista o Dito de Luz e Amor nº 20 deste nosso Doutor da Igreja. É uma das suas muitas afirmações de grande profundidade, que bebe do coração da teologia espiritual. Creio bem que se trata da purificação da intenção e do amor desinteressado.
Comecemos, pois, esse texto exatamente pelas palavras do Santo Doutor Místico:
«Uma obra feita às escondidas e sem querer que se saiba, por pequena que seja, agrada mais a Deus do que mil feitas com vontade de que os homens as vejam. Quem faz as coisas por Deus no amor mais puro, pouco se importa que os homens as vejam, pois nem as faz para que o próprio Deus as conheça. E ainda que Ele nunca as viesse a conhecer, não deixaria de Lhe prestar os mesmos serviços com a mesma alegria e pureza de amor»[1].
Do muito que o nosso frei João escreveu, este aviso faz parte de uma coleção de conselhos que se viria a chamar Ditos de Luz e Amor, do qual este é o número 20. Este seu magistério espiritual, apoiado em frases curtas e inesquecíveis, oferecidas no âmbito do sacramento da confissão e da direção espiritual, ainda hoje nos tocam pela sua perene atualidade.
Como grande mistagogo, porque homem de experiência de Deus, Frei João quer acompanhar-nos no caminho, ajudar-nos a empreender um profundo encontro pessoal com Ele, abrindo-nos ao mistério e acompanhando-nos pelas veredas da fé.
Uma obra às escondidas! Fino no falar e muito lúcido este frei João! Chama-nos à atenção que pode estar na nossa ação um subtil desejo de ser visto e reconhecido, de que podemos estar a fazer por vaidade, para sermos admirados, daí o acento colocado no escondimento, afirmando que uma pequena obra escondida agrada mais a Deus do que mil feitas para serem vistas.
Creio que temos de ter cuidado na leitura que fazemos deste seu pensamento porque não está a coisa em desvalorizar as obras exteriores, mas em purificar o motivo pelo qual elas são feitas. O importante para João é o desapego ao reconhecimento dos outros, e que tudo façamos com pureza de intenção e verdadeira liberdade interior.
Se o que fazemos é por puro amor significa que não esperamos retorno. Ama porque ama! Ama-se porque se tem consciência de que essa é uma decisão que vale por si mesma, não é fruto de um capricho.
Mais difícil de viver é quando nos diz: nem as faz para que o próprio Deus as conheça. Faz sem esperar recompensa e consolação. Creio que aqui se trata do verdadeiro abandono de que Santa Teresinha, sua discípula, também nos falou. Mesmo quando não sentimos a presença de Deus e não vimos os frutos das nossas ações, continuamos a amar e a servir com a mesma liberdade e alegria porque já não precisamos da aprovação dos nossos irmãos.
Nestes tempos que nos tocaram viver, cheios de frenesim, e de uma cultura do descartável, pautada pela necessidade de reconhecimento, a proposta de São João da Cruz é audaciosa: fazer o bem sem contabilidades nem exibições. Dar a Deus o protagonismo, purificando o coração e deixando de alimentar o nosso ego, que por vezes parece ter vontade própria!
E porque Deus nos quer santos e sonhou para cada um de nós um propósito de amor e felicidade, a nossa vida não deve ser empecilho a essa santa vontade: o nosso critério de santidade não deve ser o brilho exterior, mas uma transparência interior cada vez maior.
Numa carta dirigida às Carmelitas Descalças de Beas, escutamos um conselho de como chegar à perfeição espiritual:
«A partir do momento em que a pessoa sabe o que lhe aconselharam para seu proveito, já não precisa de ouvir nem falar mais, mas apenas pô-lo verdadeiramente em prática, com diligência e em silêncio, através da sua humildade, caridade e desprezo de si mesma. (…) Na verdade, é impossível tirar proveito se não se fizer e sofrer tudo virtuosamente e em silêncio[2].
E começamos a ganhar consciência de que já não nos falta luz, mas fidelidade e de que é chegada a hora de passar da escuta à prática. E como o tempo que nos tocou viver é de um intenso barulho, resultante do excesso de exposição ao som e à imagem, criemos um escudo de silêncio! Um silêncio que cale o nosso ego, renunciando a falar de nós próprios e de procurar reconhecimento.
No silêncio deixamos de nos apoiar nas nossas próprias palavras para buscarmos, e nos apoiarmos, na palavra com sentido, na Palavra que falou Deus. E porque Deus habita nesse espaço de silêncio, o crescimento espiritual acontece e as nossas relações humanas qualificam-se. Mas como acontece de forma escondida, a seguir pede-nos o Senhor, que nos desapeguemos de nós próprios, para não cairmos em amores desordenados que nos empobrecem e não nos deixam amar livremente.
A Regra do Carmelo fala-nos do silêncio[3]: «no silêncio e na esperança está a vossa força» citando o profeta Isaías (Is 30,15). Silêncio não é apenas não falar, é interioridade, recolhimento e escuta do outro e do próprio Deus. Quando fazemos silêncio interior, deixamos de viver na agitação, no medo ou no ruído constante e tornamo-nos capazes de escutar, de confiar e de perceber a presença de Deus.
Para São João da Cruz, a relação do homem com Deus fundamenta-se na iniciativa divina. É Deus quem se comunica primeiro, é Deus que inicia a relação, é Deus quem nos procura primeiro. Assim, o que podemos chamar a sua pedagogia do escondimento abre-nos o caminho da escuta, do acolhimento da sua iniciativa, permitindo-nos mudar comportamentos e atitudes, sem necessidade de sermos vistos, a perseverarmos sem aplausos e a sofrer, se necessário for, sem ruído. Cada dia que passa, seja por nós vivido com maior liberdade interior e menos palavras, mais humildade e silêncio diante de Deus.
[1] Dito de L:uz e Amor nº 20.
[2] Carta nº 8.
[3] Regra nº 21.


