Dez 30, 2025 | Cinzas e pão, Cultura

A recepção de São João da Cruz em terras lusas (I)

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Em breves linhas procuraremos explorar a recepção de São João da Cruz em Portugal. Quando na primavera de 1585 calcorreou Portugal de lés a lés, desde Vila Verde de Ficalho até Lisboa, de facto, ainda que de modo ténue, ele já cá tinha chegado. Não temos provas, temos suspeitas. A primeira edição dos seus textos só acontecerá em pós a sua morte, mas é justo suspeitar que na sequência da sua reclusão em Toledo – o meridiano da sua vida –, nada mais ter escrito os Romances, Fonte e a primeira versão do Cântico Espiritual, estes chegaram de viva voz às mãos das carmelitas daquele mosteiro e, desde aí, a mais um e a mais outros, sabe-se lá bem até onde.

Se aqui quase só falará da vida intramuros da Descalcez, não é de descartar o acesso de estranhos aos textos do Doutor Místico, tal como já sucedera com os de Santa Teresa – haja em vista, por exemplo, que o arcebispo de Évora, D. Teotónio de Bragança (1530-1602) era discípulo e muito amigo da Santa, ao ponto de em 1598 ter patrocinado a edição do Caminho de Perfeição e das suas Cartas. Por aqueles dias, aliás, Portugal e Castela são um só reino, um só domínio e talvez se possa dizer que partilham o mesmo substrato cultural – o castelhano é, aliás, língua franca em Portugal. Talvez tudo isso e algo mais tenha em conta Frei Belchior de Santa Ana quando na Crónica dos Carmelitas Descalços escreveu que «a famosa cidade de Lisboa, afeiçoada do trato dos filhos de Santa Teresa, desejava casa das filhas, não se prometendo menos delas do que se via neles».

  1. uma longa e lenta aproximação inicial

Por três vias e a três tempos penetrou San Juan de la Cruz em Portugal, mormente a sua poesia mística. A primeira, pela via mais óbvia; a segunda e a terceira, pelo demorado contacto directo com os seus textos.

A via de entrada mais óbvia, pelo menos a mais vigorosa, teve lugar com a fundação de comunidades Descalças em Lisboa – sabemos que, às primeiras horas da fuga, em Toledo, copiaram as primícias dos seus versos; depois as Carmelitas Descalças volveram a fazer o mesmo em Beas, bem como noutros lugares. Quer o Santo falasse num retiro, numa homilia ou num locutório era frequente que uma irmã ou religioso sempre estivesse escrevendo o que dissesse ou declarasse. Eram palavras que se entesouravam para as horas de agrura, as de oração a sós e também para os momentos comuns. E depois voavam pelas grades dos locutórios em modo de cartas. Sim, foi pela via epistolar, a mais directa e mais óbvia, que o registo da palavra de São João da Cruz primeiramente aqui penetrou. Necessitaríamos de testemunhos directos, eu sei, mas o seu desconhecimento não funda a sua inexistência, pelo que tomo por verdade que a troca epistolar entre irmãs e irmãos Carmelitas era por aquele então a forma mais célere de divulgação de ideias – tenha-se em conta que à hora da sua morte em Úbeda, a 14 de dezembro de 1591, a Descalcez tem já duas fundações na lusa capital: o convento de São Filipe, à Pampulha, do ramo masculino, fundado em 1581, e o mosteiro de Santo Alberto, do ramo feminino, fundado em 1585[1]. Óbvio é que daqui para lá correm correios e de lá para cá correios correm.

O fundador do Carmo de São Filipe é o P. Ambrósio Mariano de São Bento, entrado na Ordem pela mão de Santa Teresa e conhecedor, em primeira mão, do perfil e talha de Frei João da Cruz, embora hostil a ambos. A fundadora do mosteiro do Carmelo de Santo Alberto, a Madre Maria de São José, foi arvorada e assumida como um dos mais resilientes baluartes do espírito teresiano-sãojoanista no contexto da Descalcez e não só. Ambas figuras descalças que a terras lusas se achegaram rodeadas de frades e monjas são da segunda geração da Descalcez, é certo, logo são bons conhecedores dos Pais Fundadores – como, pois, não falariam eles dos pais? Falaram, com certeza.

Se do P. Ambrósio Mariano brotou certa animosidade contra os Fundadores, já o mesmo não se deu nem com a Madre Maria de São José, nem com o P. Jerónimo Graciano da Mãe de Deus que, em pós o seu provincialato (1582-1585), sucedeu àquele no priorato de São Filipe de Lisboa, depois que se achegou a Portugal com patente de Vigário Provincial[2]. Aliás, o P. Graciano é tão afim a São João da Cruz e, sobretudo, a Santa Teresa que, as origens e o desenvolvimento do Carmo Descalço, tanto em Espanha como em Portugal, não são entendíveis sem a sua valorosa acção vinculada e devedora de ambos. Passou por cá dois anos de brilhante actuação e de imensos frutos, que tornaram possível que em Lisboa se tenha expandido o perfume da doutrina de Santa Teresa (morta em 1582) e não se ignore jamais a sólida substância espiritual de Frei João da Cruz, fogo de Deus ainda vivo. Porém, no que será uma regra duradoura, embora ainda se esteja nos primeiros passos, a vantagem vai, naturalmente, para a Madre.

As segunda e terceira vias são as de contacto directo com os textos publicados do Doutor Místico; num primeiro momento e não apenas nos intramuros Descalços, Portugal leu-os em castelhano, tido por cá como língua culta – recorde-se que durante o domínio filipino, é bastante comum as edições em castelhano serem, além de lidas, também impressas em Portugal. Sabemos que a primeira edição castelhana das obras de Frei João da Cruz viu a luz em 1618, em Alcalá de Henares[3]. Ela chegou cá certamente, não haja dúvidas. Já, porém, a primeira edição da versão portuguesa dos textos joãocrucianos data apenas de 1942[4] – mais de trezentos anos depois!

As três vias são, pois, estas: a intimidade da vida claustral; o acesso às edições castelhanas e, muito posteriormente, às portuguesas.

Tal como daqui decorre, três são também os tempos ou etapas da aproximação de Portugal a São João da Cruz. O primeiro – de 1581 a 1618 – coincide com a vinda dos Descalços e Descalças para Portugal e prolonga-se até à data da primeira impressão castelhana das suas obras; o segundo, inicia-se com a circulação das edições das suas obras e primeiras biografias, com o seu auge à data da sua canonização (26 de dezembro de 1726) e extingue-se em 1834, com a exclaustração; e o terceiro, inicia-se com as celebrações do IV centenário do seu nascimento (1942) até nossos dias. Como é sabido, a segunda metade do séc. XIX e o primeiro quartel do séc. XX, mercê das grandes convulsões sócio-políticas que em Portugal se produziram e prolongaram a exclaustração, não favoreceram a aproximação claustral aos textos do Pobre de Fontiveros.

Como atrás deixamos dito, à extensão da incursão dos textos joãocrucianos em Portugal durante o primeiro momento chegamos por via indirecta. É sabido de ciência certa que às primeiras horas ou do dia 16 ou do dia 17 de Agosto de 1578, isto é, um curto par de horas depois da hollywoodesca fuga nocturna do cárcere conventual de Toledo, as monjas do Carmelo da Cidade Imperial escutam Frei João da Cruz a recitar canções que traz gravadas no papel e no coração. Dizem que as sabia tão de memória que as recitou calmamente, o que permitiu que logo fossem registadas! Sabemos ainda que na Primavera de 1579, sendo já prior do Calvário, na Andaluzia, dali se desloca ao Carmelo de Beas, a fim de confessar e instruir as Descalças daquele mosteiro, e que igualmente lhes permitiu copiassem as referidas Canções (são as 30 primeiras estrofes do Cântico Espiritual), e ainda a Fonte e os Romances[5]e, certamente, as demais. Porque evocamos tal? Porque, desde as origens da Descalcez, essa é uma prática tão promovida que se tornou comum entre as monjas teresianas: copiar (para uso próprio, comunitário e porque não alheio!) os textos e ditos espirituais, inclusive, largos parágrafos dos sermões e das práticas formativas dos Fundadores. Não sabemos até onde poderiam chegar tais textos, mas é certo que eles circulavam pela muito concorrida via epistolar – haja de relevar-se, por exemplo, que dois enormes e exemplares bastiões da Descalcez, a Madre Maria de São José e a Madre Ana de Jesus – prontamente circularão pela Europa: Maria de São José, para Lisboa; a Bem-acenturada Ana de Jesus, por Paris e Bruxelas. É óbvio que em caminhando levam nas carroças os amores que lhes aqueciam e embalavam o coração: além de outras, as palavras de fogo de Frei João da Cruz. E atrás de si seguia o caudal epistolar. A nós parece-nos, sem provas, mas fazendo fé na típica solidariedade feminina mongil da Descalcez que, bem antes de tempo, estas cópias e alguns fervorosos testemunhos orais faziam e fizeram caminho muito antes da publicação oficial dos seus textos[6]!

O segundo período a que nos referimos é o que vai desde a primeira edição das obras (1618) até à data da sua canonização (1726). – O período em torno à beatificação parece não ter produzido em Portugal nada de muito excelente ou relevante[7] –. Socorrendo-nos dum estudo que entre nós se fez sobre o assunto, Pinharanda Gomes anota apenas que em 1675 se publicou um Serman de S. João da Cruz, da autoria do jesuíta P. Lourenço Ribeiro, que o proferira dois anos antes[8].

Ora, como nos decénios seguintes as suas obras espirituais não serão editadas em português – embora se fossem lidas em castelhano –, teremos de relevar, além da sua leitura em castelhano, a apresentação de biografias suas por cá publicadas e de algumas obras espirituais de autores Descalços influenciadas pela sua doutrina. Três são as biografias que apareceram neste período (excluindo uma que não chegou a ser publicada e que se acha perdida):

i. Em 1641 apareceu em Madrid uma biografia do Santo da autoria do P. Jerónimo de São José, companheiro de São João da Cruz; desta se fez uma tradução a cargo do padre jesuíta Baltazar Guedes, que veio a publicar-se em Coimbra, no ano de 1675, com o títuloRetrato Debuxado do Beato Fr. Joam da Cruz Primeiro Descalço a Carmelitana Descalça e Companheiro inseparável da Santa madre, e Doutora Tereza de Jesus[9];

ii.A segunda foi escrita com intencional sentido pastoral pelo bispo do Porto D. Fernando Correia de Lacerda, sob o título Historia da vida do beato P. S. Joam da Cruz, Primeiro Carmelita Descalço Reflexoens de sua Vida, e foi publicada em Lisboa no ano de 1680[10];

iii. A terceira tem por autor José Pereira Baião e intitula-se Vida do Glorioso S. João da Cruz, Doutor Mystico, Primeiro Carmelita Descalço, e foi publicada em Lisboa em 1727.

Entre as obras espirituais de autores Descalços lusos, escritas durante este período sob influência da doutrina espiritual do pai da Descalcez apresentamos, por ordem cronológica[11]:

  1. Frei Lucas de S. Pedro, autor do Diálogo entre Suzana e Sofia, editado em Roma em 1634;
  2. Frei António de Jesus, Obras Místicas de Excelente Doutrina. Esta obra está considerada perdida, bem como as de Frei António da Expectação, que fez escola no Buçaco, e nas quais era manifesta a influência do Doutor Místico;
  3. Frei Pedro da Cruz Juzarte, Instrução Geral para o caminho de Perfeição, editado em Lisboa em 1650;
  4. Frei José do Espírito Santo, Catena Mystica Carmelitana, editado em Madrid, em 1676;
  5. Frei António do Espírito Santo, Directorium Mysticum, editado em Lugduni, em 1677;
  6. P. Manuel Consciência, Novena para a Festa do Mystico Doutor S. Joam da Cruz, Primeiro Carmelita Descalço, Segundo Fundamento da sua Reforma, publicado em Lisboa, no ano de 1715
  7. Frei Sebastião da Conceição, Estímulos del Amor Divino, editado em Madrid, em 1720;
  8. Frei Ângelo de Santa Maria, Breviarii Moralis Carmelitanis, editado em Lisboa em 1724;
  9. Frei José do Espírito Santo, Enucleatio Mística Theoligiae, cuja edição crítica saiu em Roma, no ano de 1927.

Além destas obras, há ainda quem faça notar[12] o influxo de São João da Cruz na obra Vindícias da Virtude e Escarmento de Virtuosos, de Frei Francisco da Anunciação, OESA; e noutro lugar, o mesmo investigador[13], afirma o mesmo sobre as Máximas Espirituais[14], do varatojano Frei Afonso dos Prazeres. Já Ébion Lima encontra influências de São João da Cruz na obra do Padre Manuel Bernardes[15].

Especialmente sobressalientes foram as festividades celebradas no ano de 1727, o sequente à sua canonização; e estas em dois andamentos: com especial júbilo e glória, nos sermões e na realização do Triunfo da Canonização celebrados e promovidos pelo Convento do Carmo de Lisboa – da Antiga Observância – e, em andamento menor, por parte dos Descalços, por especial dever de recato contemplativo, um pouco pelas igrejas da Ordem em Portugal, mas com maior relevo no Convento dos Remédios de Lisboa[16].

Após este breve fulgor, ao longo da segunda metade do século XIX e primeira do século XX, a dura penumbra da noite caiu sobre os claustros que poderiam ler o Doutor Místico. Em razão disto, o que mais importará é fazer-se a aproximação aos homens e mulheres da cultura, isto é, aqueles que entre nós, lusos, fora do claustro e, no tal terceiro momento, mais e melhor leram e assumiram São João da Cruz; aliás, bem mais e bem melhor que nós, os frailunos, mongis e eclesiásticos. E esses são, sobretudo, os poetas. – O terceiro momento tem, pois, o seu prelúdio com ocorrência do IV centenário do seu nascimento, 1942 –, como noutro texto se verá.


[1] LOUREIRO, José João – Cronologia a Ordem dos Carmelitas Descalços em Portugal (1581 – 2016). In TEIXEIRA, Joaquim, Frei – A Reforma Teresiana em Portugal. Marco de Canavezes: Edições Carmelo. p. 23. [22-29]

[2] VECHINA, Jeremias, Pe – Carisma do Carmelo Teresiano. In TEIXEIRA, Joaquim, Frei – A Reforma Teresiana em Portugal. Marco de Canavezes: Edições Carmelo. p. 62. [37-68]

[3] BENNASSAR, Bartolomé – Recepción y audiencia de Juan de la Cruz en Francia. In GARCÍA SIMÓN, A. – Actas del Congreso Internacional Sanjuanista. Vol. II. Valladolid: Junta de Castilla y León. 1993. p. 395. [pp. 395-403].

[4] JAIME DE SÃO JOSÉ, OCD, Pe. – S. João da Cruz. Porto: Porto Editora, 2ª ed, 1947, p. 246.

[5] Cfr JAVIERRE, Jose Maria – Juan de la Cruz: un caso límite. Salamanca: Ediciones Sígueme. pp. 651. 691.

[6] Cfr JAIME DE S. JOSÉ, OCD, Pe. – Vida e doutrina de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz. Elvas: Carmelitas Descalços. 1948. p. 408.

[7] Cfr GOMES, J. Pinharanda – Imagens do Carmelo Lusitano: Estudos sobre história e espiritualidade Carmelitas. Lisboa: Paulinas. 2000. p. 162.

[8] Cfr GOMES – Imagens. p. 162.

[9] Cfr GOMES – Imagens. p. 162.

[10] Cfr GOMES – Imagens. p. 163.

[11] Cfr GOMES – Imagens. pp. 183-186.

[12] Cfr TAVARES, Pedro Vilas Boas – Beatas, inquisidores e teólogos: Reacção portuguesa a Miguel de Molinos. Dissertação de doutoramento em Cultura Portuguesa apresentada á faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, 2002, pp. 66-64. < file:///E:/Dados/Downloads/4738TD01P000079611%20(1).pdf> (consultada em 7 de janeiro de 2022.

[13] [13] Cfr TAVARES, Pedro Vilas Boas – Beatas, inquisidores e teólogos: Reacção portuguesa a Miguel de Molinos. Dissertação de doutoramento em Cultura Portuguesa apresentada á faculdade de Letras da Universidade do Porto. Porto, 2002, pp. 66-64. < file:///E:/Dados/Downloads/4738TD01P000079611%20(1).pdf> (consultada em 7 de janeiro de 2022.

[13] TAVARES, Pedro Vilas Boas – Papel dos Jesuítas no anti-quietismo em Portugal. A Companhia de Jesus na Península Ibérica nos sécs. XVI e XVII: Espiritualidade e cultura: Actas do Colóquio Internacional, Maio 2004. Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Instituto de Cultura Portuguesa; Universidade do Porto, Centro Inter-universitário de História da Espiritualidade, 2004, p. 501. [487-504]

[14] AFONSO DOS PRAZERES, FREI – Máximas Espirituais, 2 tomos. Lisboa: Miguel Rodrigues. 1737.

[15] Cfr LIMA, Ebion – O Padre Manuel Bernardes: sua vida, obra e doutrina espiritual. Lisboa-Rio de Janeiro: Morais Editores, 1969. p. 157.

[16] Cfr GOMES – Imagens. pp. 166-177.

Frei João

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