O Papa Francisco convidou-nos a viver o Jubileu da Esperança e muitas atividades se dinamizaram a partir deste convite, nomeadamente as peregrinações aos lugares santos em Roma. Muitos grupos se deslocaram até à Sede de Pedro para manifestar a sua esperança no Ressuscitado e jubilar com a humanidade, anunciando esta alegre notícia de que a fé cristã é uma fé viva. O simples facto de sairmos do nosso conforto e irmos, durante uns dias, até Roma para estar com o Papa, estando também com os outros, sujeitando-nos a condições de desconforto por vezes intensas, como aconteceu no Jubileu dos Jovens, com cerca de um milhão de jovens em Roma, é já por si um enorme sinal de esperança. Mas viver o dia-a-dia na espera de um pouco de paz, não desistindo da fé professada, inclusive perante o risco de uma morte violenta como está a acontecer em diversas partes do mundo (Nigéria, República Democrática do Congo, Síria, Sudão…) é para poucos. Os cristãos perseguidos no mundo são paradoxalmente o maior sinal de que a fé cristã é uma fé que move montanhas, que inquieta e transforma vidas ao ponto de uma pessoa que acredita realmente em Jesus Cristo e na sua Ressurreição não poder, nem sequer sob ameaça de morte, abdicar desse tesouro precioso. Efetivamente, Cristo continua a morrer, em tantos irmãos e irmãs que diariamente dão a sua vida por aquilo/Aquele em que(m) acreditam. É o testemunho existencial da vida cristã no tempo atual, com os desafios e inquietações de agora que nos dá razões para a esperança[1]. Tal como afirma S. Paulo: “Alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Col 1, 24). Mas os cristãos vivem estas tribulações na esperança, confiados nas palavras de Jesus: “No mundo, tereis tribulações; mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!” (Jo 16, 33). Ao contrário de promessas fáceis, de um sucesso estrondoso e estridente, Jesus chama-nos à fé e à esperança no turbilhão do tempo presente.
Por isso, nem mesmo com a morte do Papa Francisco, a Igreja esmoreceu no seu desejo de continuar a tornar este Jubileu num grande anúncio da esperança que é Jesus nas nossas vidas. E, ainda no final do Ano Jubilar da Esperança, o Papa Leão XIV faz as suas primeiras visitas pastorais a dois países onde os cristãos não são a maioria – Turquia e Líbano. Acontecimentos diversos da história da Igreja dão à Turquia um papel incontornável, dentre eles o facto de ali se ter realizado, há 1700 anos, o Concílio de Niceia, o primeiro Concílio Ecuménico. Os vários gestos praticados por Leão XIV marcaram a sua mensagem de paz e respeito entre as religiões e de unidade entre os cristãos. Ele não rezou na Mesquita Azul porque, a rezar, tê-lo-ia feito na Basílica/Mesquita de Santa Sofia, onde atualmente os cristãos não conseguem entrar senão para visitar. Na Basílica de Santa Sofia celebrou S. João Crisóstomo, considerado o maior pregador da história da Igreja, no século IV. Ainda em Antioquia, João Crisóstomo conseguiu vencer o “cisma meleciano” a reconstruir a unidade da Igreja, que tinha sido rompida por cerca de 70 anos. Os temas dos seus discursos eram práticos e inquietantes: “Que importa se a mesa eucarística está cheia de cálices de ouro, quando o teu irmão morre de fome?”[2] Mas foi este seu compromisso com a caridade e com a verdade que o levou, mais tarde, a ser expulso de Constantinopla, hoje Istambul, numa intriga montada entre Teófilo, patriarca de Alexandria e Flávio Arcádio, Imperador do Império Romano do Oriente, tendo vindo a morrer no exílio. Ser efetivamente cristão, fiel ao estilo de Jesus, desprendido de futilidades e focado na meta que é humanizar a humanidade, sempre foi um grande desafio. Ser misericordioso, viver em verdade, ser coerente e íntegro, promover a paz, a caridade e a concórdia nas relações humanas é tarefa para uma vida inteira. Mas é no regaço da Cruz que a salvação acontece: “Ó Cristo, que, sobre a Tua Cruz, acolheste o nosso mundo humano, o mundo de ontem, de hoje e de amanhã; faz que o velho mundo do pecado, rejuvenesça na Tua Ressurreição; faz que rejuvenesça por meio de todos os corações humanos visitados pelo poder da Redenção”[3]. Abandonar o mundo velho do pecado é a maior dificuldade da humanidade e uma tarefa a sempre em laboração.
O aumento das perseguições aos cristãos no ano Jubilar da Esperança, a visita do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano, coloca mais uma pedra na construção do duro caminho para a unidade dos cristãos e do diálogo inter-religioso. A forma exuberante e jubilosa com que o Papa Leão XIV foi acolhido no Líbano, é também um sinal de esperança. O Papa, seguindo as pegadas de Cristo, que não parou de anunciar a Boa Nova a toda a humanidade, levou consigo a palavra de Esperança ao povo libanês, mas também necessária a todos os caminhantes e operadores de paz. O facto de o Papa visitar o Líbano é um gesto que confirma que o esforço e efetivação da construção da paz são possíveis, não apenas no Médio Oriente, sempre tão conturbado por agitações sucessivas e guerras civis intermináveis, mas em todas as partes do mundo onde haja homens de boa vontade. Em 1989, o Acordo de Taif acabou com a guerra civil que devastava o país desde 1975, tendo procurado e conseguido um equilíbrio entre cristãos e muçulmanos no governo do país: o presidente é sempre um cristão maronita, o primeiro ministro é sempre sunita e o presidente da Assembleia Nacional é sempre xiita. No mundo imperfeito dos seres humanos, pessoas de boa vontade de diferentes religiões e sensibilidades religiosas, puseram de parte ódios antigos e criaram condições para o seu povo viver em paz. Agora com a presença de terroristas no seu país, a ameaça de uma guerra com Israel é enorme e não está a ser fácil conter o desejo de vingança.
Por isso, a presença do Papa Leão XIV no Líbano, é também a denúncia dos crimes hediondos perpetrados por homens violentos, a coberto e com a conivência de regimes políticos fracos ou pouco transparentes e, ainda, com o silêncio escandaloso de muitos organismos de política internacional. O Papa afirmou com imagens, palavras e gestos que a paz é um compromisso de toda a humanidade e de todas as religiões, não havendo qualquer possibilidade de justificar o uso da violência para impor uma determinada visão do mundo. Assim se evidencia que quem o faz não é religioso, mas criminoso. Ter a missão de construir a paz significa fazer emergir a verdade no meio da confusão, da manipulação e do silêncio cobarde e cúmplice. Diz o Papa Leão XIV: “o Médio Oriente precisa de novas abordagens para rejeitar a mentalidade da vingança e da violência, superar as divisões políticas, sociais e religiosas e abrir novos capítulos em nome da reconciliação e da paz. O caminho da hostilidade mútua e da destruição já foi percorrido por demasiado tempo (…)”. Esta mensagem aplica-se a todo o mundo, a todas as pessoas e nações. É este o desafio que Cristo continua a fazer a cada um de nós, chamando-nos a dar testemunho da esperança num mundo onde a paz continua a ser possível, se educarmos os nossos corações para a paz, como afirmou Leão XIV. Tal como ao Líbano, neste fim de Ano Jubilar da Esperança e início de Advento, Jesus chama-nos: “Levanta-te! Sê casa de justiça e fraternidade. Sê profecia de paz”.
Votos de um profundo Advento na alegria da esperança em Jesus Cristo.
[1] A este propósito vale a pena ler o livro de José Luís Martín Descalzo – Razões para a Esperança, da Editorial Missões, Cocujães
[2] João Crisóstomo, In Evangelium S. Matthaei, hom. 50:3-4: PG 58, 508-509
[3] Orações de João Paulo II, Edições S. Paulo, Lisboa, 1994


