Jun 10, 2026 | Perspetivas

A grande Igreja

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Após momentos fortes de formação, um grupo de jovens frades carmelitas descalços, no qual me incluía, visitou a Basílica da Sagrada Família de Barcelona. Foi uma experiência impactante e um belo complemento à formação carmelitana, onde não faltou a voz de São João da Cruz…

Estava um homem de passagem por uma terra quando se deu conta de um grupo de trabalhadores da construção civil, mais ou menos disperso, que partiam pedra. Aproximou-se de um deles. Viu que estava cansado e que, sempre que levantava o martelo para partir pedra, suspirava de impaciência. Perguntou-lhe:

– Bom dia! Que fazem por aqui?

– Parto pedras – respondeu-lhe, crispadamente.

Não satisfeito com a resposta (mais ácida do que esperava), afastou-se em direção a outro trabalhador que se encontrava mais adiante. Ao aproximar-se, viu que também ele estava cansado. Hesitante, perguntou-lhe:

– Bom dia! Que fazem por aqui?

– Bom dia. Vou trabalhando para ganhar a vida – respondeu-lhe, sem tirar os olhos do que estava a fazer.

O homem ainda ficou à espera que a resposta prosseguisse, mas nada. Afastando-se, frustrado, pensava: «…não me sabem dizer o que eu quero…». Passou então a observar os restantes trabalhadores, à procura de alguém que lhe pudesse dizer algo mais. Reparou num deles que, animado, levantava bem alto o martelo. Também estava cansado, mas não o fazia com um olhar vidrado nem com um suspiro impaciente: cantarolava! Esperançoso, aproximou-se e perguntou-lhe:

– Bom dia! Que fazem por aqui?

– Bom dia! Como está tudo consigo? Então não vê ali, ao fundo da colina, que estamos a construir uma «grande Igreja»?

Lembrei-me desta história quando, há alguns dias, fui a Barcelona para um encontro de frades. Chegámos na quinta-feira, ao final do dia; na sexta-feira tivemos formação carmelitana e, no sábado, pudemos visitar o centro da cidade. Fomos à Basílica da Sagrada Família, obra do Venerável Servo de Deus Antoni Gaudí (1852–1926). Trata-se de um arquiteto catalão muitas vezes descrito como louco ou génio, cuja vida uniu genialidade artística e uma «fé cristã de grande densidade»[1]. Com o tempo, a sua obra tornou-se expressão explícita da sua espiritualidade, culminando na dedicação quase exclusiva à Basílica da Sagrada Família, concebida como um louvor a Deus.

Nos últimos anos de vida, Gaudí viveu com grande austeridade, centrado na oração e na Eucaristia, entendendo a sua arquitetura como missão espiritual. Após um período de crise entre 1894 e 1898, do qual resultou uma «mudança espiritual na sua vida»[2], «Gaudí renuncia a fazer a suagrande obra (…) e começa a fazer a obra que, a seu juízo, corresponde à vontade de Deus. A Sagrada Família é uma obra desenhada em termos grandiosos, quase desmesurados, o que leva Gaudí a reconhecer os seus limites pessoais face a um projeto que entende não ser apenas humano»[3].

Talvez não seja do agrado de todos, mas, para mim, entrar na Basílica da Sagrada Família foi uma experiência extraordinária. O exterior (não o interior) está carregado de imagens e referências bíblicas; recordo, com particular intensidade, a fachada lateral esquerda – a fachada da Paixão. Ao entrar, o que mais me impressionou foi a imagem de bosque que Gaudí procurou transmitir: as colunas da Igreja são feitas de materiais diferentes, porque representam árvores diferentes, e o seu topo divide-se em várias pequenas colunas, que simbolizam os ramos, que sustentam o teto da basílica.

No interior não há altares laterais e as imagens são escassas. Ao centro, por cima do altar, encontra-se um Cristo crucificado. Na porta do lado direito – fachada do Nascimento – está uma imagem de São José; na porta do lado esquerdo – fachada da Paixão –, uma imagem de Nossa Senhora. Na porta situada no final da nave central encontra-se uma imagem, relativamente pequena, do patrono de Barcelona. Assim, as coordenadas segundo as quais nos movemos dentro da basílica são a nossa história, ponto de entrada para a nossa relação com Jesus – simbolizada no patrono da cidade –, São José e Nossa Senhora, que nos centram no seu Filho, presente no centro.

Ou, como diria Santa Teresa de Jesus, uma porta seria guardada por São José e a outra por Nossa Senhora, e Cristo caminharia connosco. Porque eles nos guardariam, compreendi que tinha uma grande obrigação de servir esta Família[4].

Mas não me lembrei apenas de Santa Teresa. A dinâmica exterior-interior impactou-me particularmente. Gaudí desejava que a «grande Igreja» expressasse «o sentimento da Divindade com as suas infinitas qualidades e atributos», unindo «a grandeza à severidade», sobretudo numa época em que os edifícios civis adquiriam notável relevância e em que a grande Igreja «nunca deve ser inferior a eles»[5]. No tempo de Gaudí, a Catalunha vivia um período de crescente anticlericalismo. Ele pretendia que todos os que passassem pela basílica pudessem conhecer a vida de Cristo e entrar em contacto com o Mistério, pois «num edifício religioso manifesta-se o carácter religioso, que tende sempre ao mais grandioso, desde o momento em que o seu objectivo é um mistério»?[6].

Assim, passando pela vida de Cristo (exterior), entra-se na relação com Ele (interior). Daí a sensação de uma Igreja aparentemente despida ou vazia: na verdade, está cheia do essencial, de Deus. A ideia parece ser a de que Gaudí nos exorta, ao entrar na Igreja, a «“entra[r] na cela”» da tua alma, expulsa[r] tudo, excepto Deus e o que te ajuda a procurá-lo»[7].

São João da Cruz diria o mesmo de outra forma. Para ele, a catedral da sua vida – aquilo que lhe dá sentido – é Cristo. E centra-se ele, de modo particular na imitação de Cristo, porque «esta vida, se não é para imitá-Lo, não é boa»[8]. Aconselha, portanto, a viver conformados com a Sua vida, a qual devemos «refletir para saber imitar e comportar-se em tudo como Ele»[9].

É mediante este conhecimento de Cristo que entramos na sua espessura, isto é, «na espessura de Vossas obras extraordinárias e juízos profundos (…). Esta espessura da sabedoria e da ciência de Deus é tão grande e profunda que a alma, por mais que a conheça, pode sempre entrar mais adentro»[10]. «A vida espiritual é uma interiorização progressiva (…) [porque Deus é] ouvido ou descoberto nas profundezas»[11]: «O centro da alma é Deus»[12].

A questão da noite escura relaciona-se precisamente com isto que a Basílica da Sagrada Família nos recorda: a necessidade de fazer espaço para Deus[13]. Este esvaziamento, o não ficar preso às criaturas e aos seus sucedâneos, não é desprezo do mundo nem dos prazeres que ele oferece. Trata-se de uma reorientação das prioridades: «conhecer as criaturas por Deus, e não a Deus pelas criaturas»[14]. São João da Cruz não quer o “nada” pelo “nada”, mas o nada em vista do Tudo.

Este caminho, que vai da contemplação da vida de Cristo (exterior) até à entrada e ao caminhar na sua espessura (interior), faz-se no amor. Isto é absolutamente central, porque «o amor não só assemelha como submete o amante àquilo que ama»[15]. Importa, por isso, «ama[r] como Deus quer ser amado»[16] isto é, amar segundo a razão: «não estejas à espera do gosto para praticar a virtude, pois basta a razão e o entendimento»[17]. Amar segundo a razão é «prestar atenção à razão para fazeres o que ela te indicar no caminho para Deus»[18]. Assim entendido, «o amor é a inclinação da alma, a força e a capacidade que tem para chegar até Deus; é pelo amor que a alma se une a Deus»[19].

Nem sempre, porém, acertamos com a porta de entrada.

«Na zona central do edifício [que Gaudí desenhou para o colégio da Companhia de Santa Teresa,] há um lanço de escadas que fica cortado por uma parede e que, portanto, não conduz a lado nenhum. Gaudí parece indicar, com esta imagem surpreendente, que há caminhos que parecem ser acesso a Deus, mas que na realidade são falsas vias, como também indica São João da Cruz»[20].

Pode-se concluir que esta experiência evocada pela Basílica da Sagrada Família encontra uma ressonância na doutrina de São João da Cruz: a passagem do exterior ao interior, do sensível ao essencial. Tal como Gaudí conduz o olhar da multiplicidade simbólica exterior para o espaço interior, também São João da Cruz orienta a alma para um caminho de progressiva interiorização, no qual tudo o que não é Deus vai sendo retirado para que o infinito possa preencher esse espaço[21]. A «grande Igreja» acaba por revelar-se, assim, imagem da própria pessoa chamada a tornar-se morada de Deus. Neste sentido, parece que a mística sanjoanina encontra neste aspeto da Basílica da Sagrada Família uma imagem.

Para terminar, a expressão «grande Igreja», utilizada por A. Gaudí num texto da sua juventude, suscita curiosidade. O arquiteto utiliza-a com o ‘I’ maiúsculo e por isso optámos por mantê-lo. Pode-se ver aqui um certo jogo de palavras entre o sentido das palavras igreja (minúscula) e Igreja (maiúscula). Está claro no seu texto que Gaudí se refere em primeiro lugar ao edifico igreja, mas de modo mais amplo refere-se a toda a Igreja, o corpo de Cristo. De fato, Gaudí vive a sua relação com Deus mediada pela sua arquitetura: construindo o edifício igreja em comunhão com Deus contribui na construção da Igreja, o corpo de Cristo.


[1] Armand Puig, Antoni Gaudi, vida y obra (Barcelona: arpa, 2024) 70.

[2] A. Puig, Antoni Gaudi (Barcelona: arpa, 2024) 131.

[3] A. Puig, Antoni Gaudi (Barcelona: arpa, 2024) 133.

[4] Cfr Santa Teresa de Jesus, Vida 32,11; 33,14; Relação 30.

[5] A. Puig, Antoni Gaudi (Barcelona: arpa, 2024) 67.

[6] A. Puig, Antoni Gaudi (Barcelona: arpa, 2024) 50.

[7] Santo Anselmo, Proslogion, cap. I.

[8] São João da Cruz, Carta 25.

[9] São João da Cruz, 1Subida do Monte Carmelo 13,3.

[10] São João da Cruz, Cântico Espiritual 36,10.

[11] Maria-Eugénio, Quiero ver a Dios (Editorial de Espiritualidad: Madrid, 2002) 19.

[12] São João da Cruz, Chama de amor viva 1,12.

[13] Cfr Ian Matthew, The impact of God (Great Britain: Hodder & Stoughton, 1995) chpt. 1.

[14] São João da Cruz, Chama de amor viva 4,5.

[15] São João da Cruz, 1Subida do Monte Carmelo 4,3.

[16] São João da Cruz, Ditos de luz e amor 59.

[17] São João da Cruz, Ditos de luz e amor 36.

[18] São João da Cruz, Ditos de luz e amor 43.

[19] São João da Cruz, Chama de amor viva 1,13.

[20] A. Puig, Antoni Gaudi (Barcelona: arpa, 2024) 112.

[21] Cfr São João da Cruz, Chama de amor viva 3,18.

Pedro Silva

Após momentos fortes de formação, um grupo de jovens frades carmelitas descalços, no qual me incluía, visitou a Basílica da Sagrada Família de Barcelona. Foi um verdadeiro e regenerador banho espiritual, e um belo complemento à formação carmelitana, onde não falou a voz de São João da Cruz, nosso pai.

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