Que posso eu escrever
Com a minha pena?
Como posso descrever
Nas palavras de um poema
A tua vocação
A tua missão
A tua vida toda entregue
A servir Jesus
E o irmão
João da Cruz?
Que posso eu dizer
De ti, João da Cruz
João de Cristo enamorado
João peregrino da luz
João sedento do amado
Jesus
Tu O procuras
Onde é que te escondeste,
Amado e me deixaste com gemido?
Como o cervo correste,
havendo-me ferido;
saí, clamei por ti, havias partido.
E como a amada do Cântico dos Cânticos
Tu o buscas
por esses montes e ribeiras;
não colherei as flores
nem temerei as feras,
e passarei os fortes e as fronteiras.
E afirmas com toda a convicção
Que viver para amar
é o teu único serviço:
Minha alma ao bem Amado
se voltou, dedicada a seu serviço.
Não guardo mais o gado
nem mais tenho outro ofício,
pois é somente amar o meu exercício.
Ensina-nos, João
A amar assim Jesus
Com todo o coração
Seguindo-O nos caminhos do mundo
Carregando a sua cruz
Como anúncio de ressurreição.
Contigo queremos procurar a Fonte
Aquela eterna fonte que não a vê ninguém
E que bem sei onde é e de onde vem
Embora seja noite.
Contigo queremos
Fazer de Jesus-Eucaristia
O Eterno Pão da Vida
Que sacia a nossa fome e sede
Nas nossas noites de deserto e dor.
Esta viva fonte que desejo
Neste Pão da vida, aí a vejo
Embora seja noite.
Contigo queremos seguir as estradas
Que nos levam até Aquele
Que é tudo no nada
Do nosso ser
E que tantas vezes parece longe…
Ó chama de amor viva,
que ternamente feres
da minha alma o mais profundo centro!
Se já não és esquiva,
acaba já, se queres,
este meu tormento
de Te procurar e não Te ver!
Tu que experimentaste a sabedoria
De nada saber de Deus
Quanto mais O conhecias
Este saber não sabendo
é de tão alto poder,
que os sábios discorrendo
jamais o podem vencer,
que não chega o seu saber
a não entender entendendo,
toda a ciência transcendendo.
E é de tão alta excelência
aquele sumo saber,
que não há arte ou ciência
que o possam apreender;
quem se soubera vencer
com um não saber sabendo,
irá sempre transcendendo.
Contigo queremos descobrir
Em Jesus Cristo o único sentido
Da vida
Até ao ponto de desejarmos morrer
Para eternamente viver
Uma existência cumprida
Naquele que é o tudo do nosso ser:
Vivo sem viver em mim
De tal maneira a sofrer
Que morro por não morrer.
Em mim eu não vivo já
Sem Deus não posso viver
Sem Ele e sem mim, a ver
Este viver que será?
Esta vida que eu vivo
É privação de viver
E um contínuo morrer
Até que viva contigo.
João da Cruz
João do Evangelho vivido
Num poema de amor
A Jesus
Em ti o Reino é cumprido
Num caminho de ânsia e dor
Para encontrar a luz
Que nos guia nas noites escuras
De solidão e agruras
Ao encontro de Jesus
A fonte que mana e corre
Embora seja noite.


