Médica do Carmelo de Coimbra e Carmelita Secular

Imã Lúcia – a clarividência da humildade

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– Pelas mãos de um Anjo ou de um pecador, é sempre o mesmo Senhor.

Foi no decurso da sagrada Eucaristia do passado domingo, o primeiro desta Quaresma – o domingo é o dia do Senhor! –, que ao meu espírito acorreu a ideia de reflectir sobre o tema deste pequeno texto. Também ele surge na sequência das lembranças de mais uma de tantas histórias que vivi no seio do meu saudoso convívio com a nossa querida Irmã Lúcia.

Perante mim surge, frequentemente, no momento da distribuição da sagrada Comunhão, a constatação de um facto que quase sempre me deixa interiormente constrangida e até perplexa. É notória, muitas vezes, por parte de muita gente que se dirige ao Altar no acto da Comunhão Eucarística, procurar recebê-la do sacerdote que faz a distribuição das sagradas partículas, segregando assim, ostensivamente, os ministros extraordinários da Comunhão, que procedem, igualmente, à sua distribuição. Quantas vezes nos deparamos com filas extensas de pessoas que se perfilam diante do celebrante, enquanto a seu lado aqueles permanecem olhando para a assembleia, aguardando que alguém venha na sua direcção receber Jesus que se dá em Corpo e Alma naquela admirável manifestação do Seu misericordioso e infinito Amor!

Confesso que me entristece e constrange o coração!

É então que vem à minha memória mais uma admirável lição de humildade e sabedoria da nossa saudosa Irmã! E como isso tanto revela e ilustra os traços do seu carácter!

Com efeito, testemunhei, nesse tempo bendito em que privei com ela, no seio da comunidade carmelita, histórias, factos, eventos e conversas que para mim são, simultaneamente, doces memórias, saudade, formação, conversão, vida!

Encontrando-se já muito debilitada e recolhida em sua cela, assistia à missa por meio de um sistema áudio de comunicação interna que, no Carmelo, permite às irmãs doentes ouvir e acompanhar as celebrações efectuadas na Capela do mosteiro. Sempre lúcida até ao último dia da sua vida terrena, tinha por hábito viver intensamente todos os momentos celebrativos, esperando, pacientemente, o final dos mesmos para, só então, comungar o seu «Jesus Escondido na Hóstia Consagrada» como tão sabiamente referia!

E, nesse momento tão esperado, recebia a Prioresa que dela se abeirava para lhe levar a ansiada Comunhão. Era, nessa altura, a Irmã Maria Celina de Jesus Crucificado quem estava encarregada de o fazer e, fazendo-o, com muita doçura e carinho, ao aproximar-se, lhe dizia:

– Irmã Lúcia, veja lá! A irmã, que recebeu a Jesus em Comunhão na Hóstia Sagrada directamente das mãos dum Anjo, agora é das mãos de uma pecadora que O vai comungar!

E, prontamente, a irmã respondia:

– Das mãos de um Anjo ou de um pecador, é sempre o mesmo Senhor!

Quanta doçura e singeleza continha esta sua resposta!

Ela que mergulhara o seu olhar na profundidade do olhar do Anjo e do de Nossa Senhora, elevando para o alto a sua alma, curvava-se, agora, diante da doce mas humana pequenez da mensageira que lhe levava o seu Jesus, elevando-a assim também à dignidade de Angélico Ostensório!

Deitada no seu leito de sofrimento, qual patena humana ansiosa de acolher o Seu Senhor, olhava, agora, debaixo para cima, abraçando com todo o seu coração, quem dela se abeirava para uma vez mais, a unir ao Amor da sua vida, o seu Jesus Eucarístico!

Oferecia o seu sacrifício e oferecia-se em sacrifício pleno! Configurando-se com Aquele a Quem se oferecera em menina e ao longo de toda a sua vida, transportava a Cruz dos muitos sacrifícios com que fora confrontada, abraçando-os com coragem e intrepidez, sem nunca sentir qualquer dúvida ou desânimo.

– É por Vosso Amor, ó Jesus!

– É tudo por causa de Nossa Senhora!, referia humildemente, ao ser confrontada perante a grandiosidade da expansão da Mensagem pelo mundo!

E quando em Fátima testemunhei a seu lado a imensa multidão que se aglomerava no enorme recinto do Santuário aos pés do Altar, onde Sua Santidade o Papa São João Paulo II se preparava para a beatificação dos seus amados primos, Jacinta e Francisco, não pude conter as lágrimas de alegria e comoção perante a humildade desta mulher, que não se cansava de exclamar:

– É tudo por causa de Nossa Senhora!

Branca Paúl

Médica do Carmelo de Coimbra e Carmelita Secular

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