Para Santa Margarida Maria de Alacoque[1] a devoção ao Coração de Jesus, não é um acessório de piedade, uma simples devoção, aliás, jucundíssima: é todo o Cristianismo posto em prática, ou, como dizia o Cardeal Pie, «é a quinta essência do Cristianismo e um sumário substancial de toda a religião»[2].
Creio padecer, ou ter padecido – uma vez que já posso formular este meu estado no particípio passado – de uma grande dificuldade em admitir a imagem do Sagrado Coração de Jesus na sua dimensão estética; creio também poder dizer que esta dificuldade que foi minha, poderá ser também uma dificuldade generalizada no âmbito de uma mentalidade secularizada, moderna, pós-moderna, enfim, contemporânea, de qualquer representação visual da realidade transcendente, principalmente a cristã como por exemplo a representação de uma Ressurreição de Cristo ou um êxtase de um santo. Assim, mesmo para alguém com fé, talvez esta imagem, a do Sagrado Coração de Jesus, à priori, se apresente difícil não na questão simbólica mas na sua compreensão mais superficial, sensorial, sentimental.
Quanto à minha experiência sobre este assunto – a única de que posso falar com verdadeira propriedade – esta mentalidade estava impregnada de toda uma retórica cultural que advoga que o abstracionismo nas artes visuais radica, sobretudo, na crença de que a realidade invisível não é suscetível de ser conhecida nem representada por formas figurativas uma vez que esta é inacessível aos sentidos corporais. Ora, esta crença cultural na qual fui formada entrou em rota de colisão com a minha fé católica assente, em primeira instância, numa experiência concreta e fundante com a realidade que me transcende e à qual aderi por um movimento livre da minha vontade. Se, por um lado, tinha aprendido academicamente que o invisível é uma realidade que não pode ser conhecida objetivamente a minha experiência pessoal da realidade na fé, respaldada pela de muitos, falava-me de uma realidade transcendente objetiva não só capaz de ser conhecida, mas também capaz de ser representada figurativamente. Foi, no entanto, a própria História da Arte, integrada no sistema maior das Ciências Sociais e Humanas, que a certa altura me fez reconhecer que se tratava de dimensões distintas de realidade: uma ao nível humano na sua dimensão imaterial psicológica na vivência das emoções, sentimentos e ideias subjetivas que mormente se materializa pela composição de linhas, cores, manchas e texturas criando um vocabulário inteiramente subjetivo e a realidade divina que, apesar de totalmente transcendente, se tornou absolutamente objetiva alicerçado na Encarnação divina criando um vocabulário muito concreto e universal. O homem, portanto, na sua subjetividade é capaz de conhecer Deus porque Deus, a realidade mais transcendente possível, se tornou objetiva e visível em Jesus Cristo.
Na fé católica uma imagem nunca é apenas um objeto estético, mesmo na camada mais profunda do entendimento; a sua veneração é possível na medida em que, contemplando uma imagem estamos, de facto, diante da realidade que ela representa (CC §477). Nada é, portanto, superficial nem inútil ou apenas “decorativo” por sua natureza. Os altares, nas igrejas, não são apenas modos de deleitar o olhar num espaço de oração e recolhimento; não deixando de o ser, são mais do que isso, uma vez que nos põem, aqui e agora, diante da realidade para a qual fomos criados, o Céu. Deste modo não poderia nem quereria deter-me na apreciação puramente estética, sensível e sentimental da imagem do Sagrado Coração de Jesus e fixar-me em impressões subjetivas – ser feio ou ser bonito, gosto ou não gosto.
À luz da doutrina católica, então, a imagem do Sagrado Coração de Jesus coloca-me diante da realidade objetiva do próprio Coração de Jesus. Deve ficar claro, no entanto, e como premissa, o argumento de que esta imagem não é criação humana: a produção da imagem sensível enquanto realização plástica, pela pintura ou pela escultura é, sim, realização humana, mas a sua criação conceptual enquanto ideia fundamentada na realidade da Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo, no plano da Redenção, é divina. Para compreender melhor esta verdade é necessário não só a vida na fé, como ainda recordar e integrar a verdade de que esta comunicação entre Deus e homem é possível porque Deus entrou na História e o próprio Deus não é uma abstração. Deus tem um coração de carne, em Jesus Cristo. Deus fez-Se carne. Deus ama com um coração de carne, igual ao nosso.
No parágrafo 2563 do Catecismo da Igreja Católica o coração é-nos apresentado como o lugar da decisão, no mais profundo das nossas tendências psíquicas. É a sede da verdade e do encontro, por excelência, entre Deus e os homens. No Seu coração de carne, no exercício da Sua plena liberdade, Deus amou-nos não no abstrato, mas no concreto – não a todos, mas a cada um; não no geral, mas cada um na sua identidade única.
A devoção do Sagrado Coração de Jesus fundamenta-se na Revelação pública e oficial, isto é, nas Sagradas Escrituras e na Tradição, por isso é tão antiga quanto a própria Igreja; mas Santa Margarida Maria de Alacoque a quem o Sagrado Coração de Jesus se revelou misticamente, deu-nos uma forma concreta carregada de símbolos que remetem para esse amor salvífico. Cada elemento da sua composição comunica, por isso, um significado particular que nos revela a essência do amor de Deus na Sua doação redentora:
- O Coração remete-nos para o centro vital onde operam os sentimentos e as emoções onde nos compadecemos e alegramos, onde amamos e nos atribulamos. No contexto da devoção, representa o amor infinito de Deus pela humanidade e por cada um, onde sofreu a Sua Paixão.
- O Fogo representa o ardor do amor divino que queima com intensidade, amor eterno. Simboliza também o Espírito Santo e o fogo transformador do amor de Deus.
- A Coroa de Espinhos evoca o sofrimento e a paixão de Jesus Cristo, que suportou a dor da crucifixão por amor à humanidade. Os espinhos representam também as ofensas e pecados que ferem o Coração de Jesus Cristo.
- A Cruz, é o símbolo da redenção e da vitória de Jesus sobre a morte. Representa o sacrifício supremo que Cristo ofereceu por nossos pecados e a promessa da vida eterna.
- O Sangue e fala-nos da vida doada por Jesus Cristo, derramada por amor à humanidade e a cada um de nós. Simboliza também a redenção, a purificação dos pecados e a criação do homem novo.
Indo mais além da leitura simbólica desta imagem a fim de entrar nesta devoção com maior intensidade encontrei num devocionário antigo de 1958[3], aquela leitura que me pôs na justa realidade para onde me aponta toda esta iconografia e a partir da qual me rendi à resolução plástica da representação do amor de Deus inteiramente doado:
O PLANO DO SALVADOR NA REVELAÇÃO DO SEU CORAÇÃO: SALVAR DE NOVO O MUNDO
Estratégia divina. Era de os homens, depois de Deus, num rasgo de infinita misericórdia e abatimento, ter revestido a natureza humana e consumado a redenção do género humano no alto da Cruz, depois da instituição da Igreja e das divinas prodigalidades da Eucaristia;… era de esperar, digo, que se rendessem a tais excessos de caridade, aproveitassem os frutos da redenção e correspondessem a tantas finezas de um Deus apaixonado de amor pelos mesmos homens. Mas não!… Deus – que mistério este da ingratidão humana! – Deus não conseguiu fazer-Se amar… O que fará agora Deus, vendo-se assim desprezado pelas suas miseráveis criaturas? Onde ir excogitar novos meios de vencer o nosso obstinado coração, se a revelação está fechada, se a Encarnação é já felizmente o único verdadeiramente consolador na história do nosso planeta, se a redenção está consumada e uma e outra subsistem permanentes no altar?
Abandonar de vez os homens, entrega-los aos seus próprios caprichos e às horríveis consequências dos seus desvarios?…
Assim o parece exigir a justiça divina irritada, e mais ainda o seu próprio amor desprezado, a sua misericórdia ultrajada…
Mas não! Deus é sempre Deus; e como se durante esses longos séculos cristãos estivesse pensando no modo de ainda nos render ao seu amor, ei-lo que aparece de novo a escorrer sangue, envolvido em chamas, circundado de espinhos e encimado pela cruz. O que quer? Pede o nosso coração, quer o nosso frio amor!
Um Deus que se torna mendigo dos homens, e pede que Lhe apaguem a sede que tem de ser por eles amado! Agora já não impõe só o preceito da caridade, não faz valer os direitos da Sua autoridade infinita: pede, e pede, não como Senhor, mas como amante; pede com as Suas chagas, com o Seu sangue, com a Sua cruz, com as finezas delicadíssimas da Sua generosidade sem limites!
Que epopeia de amor esta estratégia divina!…
Não obstante ter de haver, de facto, uma qualidade estética e técnica que deve integrar a totalidade da obra de arte, a imagem é, enfim, a mesma, sempre a mesma, mas o olhar que a compreende muda porque radica, agora, na compreensão da realidade que representa.
[1] Santa Margarida Maria de Alacoque nasceu no dia 22 de julho de 1647 em Verosvres, na Borgonha (França). Foi uma monja visitandina, mística cristã, santa católica, vidente do Sagrado Coração de Jesus em 1675 a quem Jesus incumbiu a divulgação e devoção da imagem do Seu Coração.
[2] Abranches, S – O Coração de Jesus aberto ao coração dos homens – 1958, Livraria Católica
[3] Abranches, S. – 1958


