Quem seria louco de querer o que Deus não quer?
(São Rafael Arnáiz Báron)
Caro leitor e cara leitora,
Hoje gostaria de falar-vos de São Rafael Arnáiz Báron. E porquê? Porque este ano, 2026, estamos a viver um ano jubilar de São João da Cruz e também porque gostaria de refletir acerca da doença. Muitos de nós ou enfrentamos a cruz da doença ou conhecemos alguém que sofra com ela, por vezes até pessoas que amamos muito. E o testemunho de vida e de espiritualidade do Irmão Rafael parece-me excelente, não só porque ele foi um grande admirador de São João da Cruz, mas porque ele próprio levou vida de doente. Eu espero que o testemunho do Irmão Rafael nos ajude a todos.
I.
São Rafael Arnáiz Báron: quem foi este jovem que morreu aos 27 anos e que foi canonizado pelo Papa Bento XVI? Quem foi este jovem que hoje é considerado um dos «maiores místicos dos tempos modernos»?
O Irmão Rafael foi um jovem trapista espanhol. Sonhava ser arquiteto, mas largou tudo pela vida monástica. Gostava de ler, escrever e desenhar. A doença da diabetes sacarina fê-lo sair do Mosteiro de San Isidro de Dueñas e regressar a casa. Foi muito doloroso para ele, mas não se deixou desanimar. Voltou novamente para o mosteiro, desta vez já não como monge, mas como oblato. Faleceu. Foi um jovem aparentemente comum, mas totalmente enamorado de Cristo. E, por isso, deixou um rastro luminoso.
Sabiam que o autor mais citado nos seus escritos é São João da Cruz? Ele também gostava muito de Santa Teresa de Jesus e de Santa Teresa do Menino Jesus. Embora pertencente à Ordem Beneditina, pegou nos grandes autores carmelitas descalços e leu-os. E é tão lindo ver como este jovem deixou-se educar por eles. Isso é a prova de que a doutrina de São João da Cruz e de Santa Teresa de Jesus não é pesada para os jovens, mas verdadeiramente acolhedora. Um coração aberto e generoso deixa-se fascinar e instruir por aqueles que ensinam com paixão e entusiasmo. É isto que os jovens anseiam: por professores que ensinam com autoridade e a única autoridade que existe é a do amor. Podemos ouvir muitas vozes de forma respeitosa, mas estéril, mas quando amamos aqueles que nos falam o nosso ouvido torna-se fecundo e deixa-se fecundar.
Sobre São João da Cruz, o Irmão Rafael escreveu à sua tia Maria (que mais tarde se tornaria carmelita descalça): «Querida tia Maria: Não me admira nada o que me dizes da consolação e paz que o Senhor te deu ao leres São João da Cruz. Aconteceu o mesmo comigo… Um dia antes tínhamos lido em Sonsoles: “Não colherei as flores nem temerei as feras…” Pois bem, percorri todo o caminho com este pensamento e a ajuda de Maria. Via passar as povoações, pessoas e paisagens e com o volante apertado nas mãos e – porque não? – com muita vontade de chorar, continuava, continuava estrada fora sem me deter».
Rafael confessa, então, que a leitura de São João da Cruz lhe trazia consolação e paz. E isto pode ensinar-nos algo sobre como lidar com a juventude: os jovens estão sedentos da Verdade nua e crua, pois são sensíveis à realidade. Não se contentam com meias-verdades, com conteúdos deslavados e com respostas superficiais. Muitos jovens lidam com batalhas internas bastante dolorosas. E é por isso que, muitas vezes, seguem vozes que estejam dispostas a ajudar-lhes a se autoconhecerem. Não é à toa que os jovens procuram tantos artistas musicais, cinematográficos e literários para escutarem alguém falhar-lhes daquilo que eles sentem e experienciam na sua vida interior. São João da Cruz apresenta-nos uma jornada espiritual autêntica e que nos dissuade de ilusões: tantas vezes, no nosso interior, atravessaremos tentações, combates, desertos e purificações, também sentiremos a companhia doce de Jesus, claro, mas entenderemos que nesta vida o caminho mais seguro e honesto é o de deixar-se acompanhar por Jesus até ao Calvário. A Cruz, antes da alegre ressurreição, ilumina e mapeia todo o nosso percurso até lá. A Cruz quotidiana é bússola de amor e não obstáculo ou fracasso. E este jovem captará bem esta verdade.
No caso do Irmão Rafael, é belo perceber como São João da Cruz guiou, orientou e educou este jovem num conhecimento interior cada vez mais profundo e luminoso acerca de Jesus Cristo. A escrita honesta de São João da Cruz, longe de horrorizar ou espantar Rafael, fê-lo entender a grandeza da vida espiritual, principalmente à luz da Cruz. Tanto é que podemos encontrar este desabafo nos escritos do Rafael: «Quando tenho alguma dúvida ou qualquer coisa de que não estou certo; quando a tentação aperta ou me deixo levar por alguma fraqueza…, procuro fazer um acto de humildade aos pés da tua Cruz, e beijar o teu Divino Sangue que escorre dos teus pés, pelo madeiro…, pedir-Te protecção, ajuda e conselho… O que Tu me inspiras, nesse momento, é isso que eu faço. Bendita solidão em que só Tu recolhes as minhas penas, em que só Tu recebes as minhas lágrimas, e para quem são exclusivamente os meus fervores, os meus anseios de amor, os meus desejos de padecer um pouco da Tua Cruz».
Rafael foi sensível aos ensinamentos de São João da Cruz no que diz respeito a não se deter nas consolações, mas a seguir Jesus inclusive nos momentos de secura, de aparente distância e de trevas interiores. Aprendeu a seguir com felicidade o caminho da Cruz, a enamorar-se pelo Cristo crucificado. E não duvido que essa educação que o Irmão Rafael herdou de São João da Cruz tenha sido fulcral para encarar corajosamente a dura prova da doença e também o facto de não ter sido o monge que ele sonhou ser.
II.
A melhor forma de conhecer como o Irmão Rafael lidava com a sua doença, é ir diretamente aos seus escritos e deixar o leitor a sós com eles. Para tal, farei uso do Capítulo 18 do livro «Saber esperar – pensamentos» editado em Portugal. Transcreverei alguns excertos:
558. Vida de enfermo…, tristeza para o que confina a sua felicidade ao presente.
Vida de doente, vida talvez sem esperanças, vida que só vive para esperar a morte…, ditoso o que espera, e na sua doença não vê mais que a Vontade de Deus!
559. Estou há uns dias na enfermaria da Trapa, separado, como é natural, da vida de comunidade. (…) Bendito seja Deus que, sem eu o merecer, me prova.
562. Ele, que tudo dispõe, e o dispõe bem, leva-me à solidão e, mostrando-me o vazio imenso do nada, que é tudo o que está fora dele…, convida-me a pensar; obriga-me, na minha inutilidade, a procurar o seu apoio; de tudo me separa para melhor me unir a Ele.
564. Tudo isto vou pensando, à medida que correm as horas, sentado no meu cadeirão e ouvindo as sinetas que anunciam os atos da Comunidade.
Às vezes, custa pequenos sofrimentos chegar a essa paz de alma, a essa alegria santa de viver cumprindo a nossa condição de enfermos!
566. Algumas vezes, entristeci-me ao ver-me nesta situação, no Mosteiro onde se vive em contínua penitência; algumas vezes, as minhas exceções na regra humilharam-me… como fui tonto!
567. Quanto amor próprio encerrava o meu coração! Que tristeza tão estúpida a do que não pode fazer penitência pública! Quanta soberba se pode ocultar num jejum ou numa ruidosa disciplina!…
568. Humilhação! Que mal entendemos essa palavra! Notei que para se humilhar é preciso abaixar-se… e onde me vou eu abaixar?… Estou, porventura, elevado? Para o cristão, a verdadeira humilhação é que o elevem.
569. Eu não vejo humilhação em esfregar soalhos ou retretes. Já não me envergonho de não poder jejuar, e de passar a vida vendo como, pouco a pouco, se vão acabando as forças…, que não eram minhas, e que agora Deus me tira.
Acaso tudo isso me impede de amar a Deus?
570. De que me serve a saúde, se mais do que tenho não me pode dar? Quem sabe se com ela ofenderia a Deus!
Sou feliz com o que tenho, a nada aspiro que não seja Deus, e tenho Deus na pequena Cruz da minha enfermidade.
571. De que me posso queixar?… Se na minha vida não vejo mais que misericórdias divinas!… Como não amar a solidão, se é nessa solidão que me ensina a única ciência, que é o desprezo do mundo e a arte de o amar?
572. Quanta alegria se pode encerrar nos muros de uma enfermaria! Que felicidade poder amar a Deus na inutilidade de tudo, e sentindo-me incapaz de nada!
573. Como se dilata a alma, quando recolhida em si mesma, vê que a terra não é o seu centro, que não é o corpo, tão débil, enfermo e cheio de misérias, o seu lugar de habitação…; quando vê que só é Deus quem o enche, e que apenas um véu o separa dele…, cortina de fumo que é a vida, e que ao menor sopro se rasga!…
574. Como se dilata a alma ao ver a misericórdia de Deus! «Na tribulação me dilatastes», diz o profeta David.
Que suave é o penar para o que espera!
Que doce é esperar com o coração em paz!
575. Vida de enfermo…, vida de oração, de trabalhos descansados na tranquilidade e no repouso. Olhos que olham ao longe sonhando em horizontes de luz! Algumas vezes recordo-me do mar!…
Vida de enfermo…, longas horas pensando em Deus, que parece tardar em chegar!
576. Livros que me falam dele; sobre a mesa tenho as revelações de Santa Gertrudes!… Quanto essa santa amou Deus! E também ela esteve assim, toda a sua vida, enferma.
Estudos, filosofia, um volumoso dicionário de latim…, papéis cheios de traduções e…, não o posso remediar, também de bonecos e gatafunhos.
579. (…) Digamos, pois, como Job… Não tenho saúde? Não importa. O Senhor ma deu, o Senhor ma tirou! Bendito seja o nome do Senhor!
580. Deus é muito bom comigo; à medida que passam os dias e os anos, vou verificando que a grande misericórdia de Deus para comigo consiste em me ter enviado esta doença, que é para mim, crê-me, o meu verdadeiro tesouro.
581. Quereria que a minha pobre e enferma vida fosse uma chama em que se fossem consumindo por amor todos os sacrifícios, todas as dores, todas as renúncias, todas as solidões.
582. A minha doença é uma mina inesgotável de sofrimentos físicos e morais… Bendita seja a tua mão, ó bom Jesus…; eu beijo-a e adoro-a tanto quando com ela me açoitas como me acaricias; bendita seja a tua Vontade!
583. Quando, depois de comer, me levanto da mesa, e como homem carnal, miserável e material, vá chorar os sofrimentos da minha doença aos pés do Sacrário… Ah! Se eu fosse anjo não choraria, mas sou homem…; e homem como há poucos, Deus o sabe.
584. Senhor, ajuda-me, atende-me na tentação, não me deixes, Senhor, pois, eu só, que poderei fazer?
Sofro, Senhor, Tu o sabes…, até quando prolongarás esta minha vida, inútil para ti e para todos? Pois, ainda que em momentos de generosidade desejo sofrer pelo mundo inteiro, e me ofereço a ti para o que Tu queiras…, são tão poucos os momentos em que penso assim…, é tanta a sensualidade da minha carne e a fraqueza do meu espírito, que já vês, Senhor, quantas vezes desfaleço.
III.
É forte, não é? Para Rafael, aceitar a doença não foi um percurso linear, mas uma aprendizagem. E podemos achar que a doença não está relacionada com a oração, mas não é verdade. Quando nos esforçamos para aceitar a vontade de Deus, estamos a orar. É uma oração prolongada no tempo.
Com a doença, Rafael sentiu-se reduzido e aniquilado. E a conversa com o Padre Sandoval na noite anterior à sua saída do mosteiro é muito esclarecedora. Transcreverei as suas palavras:
«Quando deixei o mundo despedi-me de todos até à eternidade e todas as Astúrias souberam pela imprensa que a Graça tinha triunfado em mim sobre a natureza… Agora volto ali desfeito, inútil, com a mortalha na mala. Que dirá o mundo, tão propenso a escandalizar-se? Eu não vou, eu quero morrer aqui, gostava que esta noite fosse a última da minha vida!»
«Ah, Padre, agora compreendo o que me disse no outro dia, aquilo de “nada, nada, nada” como ensina São João da Cruz. Eu era feliz na Trapa, tinha conseguido desprender-me das criaturas e não ambicionava mais do que Deus…, mas ainda guardava uma coisa, o amor à Trapa e a quanto há nela; mas Jesus, que é muito zeloso do carinho dos seus filhos, também quis que me desprendesse do meu amado mosteiro».
Ambos começaram a rezar o Santo Rosário e, entre lágrimas, Rafael foi recuperando a serenidade.
Agora, conseguimos vislumbrar melhor como a doença foi muito disruptiva para Rafael. Ele que se tinha despedido do mundo, tinha agora de regressar a ele. Ele que se tinha despedido das pessoas, tinha agora de revê-las. E com isso um sentimento de vergonha, talvez. O medo de ter fracassado. O desgosto de um sonho interrompido. A desilusão pública de ter anunciado algo que não se cumpriu. Mas que, em simultâneo, lhe deu uma compreensão maior de São João da Cruz. No momento da tristeza, a doutrina deste santo impediu-o de cair, diríamos, no desespero ou perplexidade. Pois entendia, embora que possivelmente contrariado, que a situação estava envolta num mistério do amor de Deus. Era um convite mais profundo para se despir de todos os gostos e apegos e para se unir ainda mais a Jesus e só a Jesus.
Quer fosse monge, quer fosse secular, Rafael era isto: uma alma enamorada de Deus. Fosse no mosteiro, fosse no mundo, Rafael era filho de Deus e a sua vida seria uma vida de amor. Seja na saúde, seja na doença.
Mais tarde, Rafael regressaria ao Mosteiro de San Isidro de Dueñas, já não como monge, mas como oblato. Viveu santamente a sua doença, junto de Jesus e Maria. Morreu para este mundo e nasceu para o Céu. Morreu jovem, mas feliz. Doente, mas realizado.
Ainda hoje podemos ouvir São Rafael Arnáiz Báron dizer-nos com um sorriso fraterno no fundo das nossas consciências: Quem seria louco de querer o que Deus não quer?


