Mai 5, 2026 | Cultura, Trans(formar)-Se

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

A Leitura da Bíblia: uma porta aberta para a renovação da vida

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Santa Teresa de Jesus terá dito em determinada altura que «nós somos os livros que lemos». Na senda do que afirmou Santa Teresa, permitam-me que partilhe aqui um pouco da minha experiência com os livros e com a leitura.

Aprendi a ler aos seis anos, em casa, por iniciativa dos meus pais. Assim que isso aconteceu compraram-me um livro da “Anita”. Na altura não havia assim tanta escolha em termos de literatura infantil. Como era o único livro em que estava autorizada a mexer, lia-o e relia-o vezes sem conta. Entretanto, na viagem para Portugal, aos sete anos, pelo Natal, ofereceram-me dois livros que marcaram esta primeira fase da minha infância. O primeiro deles intitulava-se “Mulherzinhas”, de Luísa Alcott, da Didáctica Editora. A melhor versão para a infância deste extraordinário livro. Irrepreensível no texto e nas fabulosas ilustrações. O segundo foi “Vida de Jesus”, editado pelo Centro do Livro Brasileiro em Lisboa. Posso considerar que este é o livro da minha vida porque foi nele que pela primeira vez me encontrei com narrativas que eu própria conseguia ler sobre Jesus. Jesus fascinou-me.

Assim, o meu primeiro contacto com a Bíblia foi aos sete anos e conhecer Jesus mudou o meu projeto de vida. Logo nessa altura fiquei atraída pela bondade e compaixão de Jesus para com os mais pobres e os doentes. Imaginava o seu olhar, ao mesmo tempo terno e poderoso, capaz de penetrar nas feridas e anseios mais profundos de pessoas concretas como o leproso (Mt 8, 1-4) ou o paralítico junto à piscina de Betesda (Jo 5, 1-16). Mas foi a ressurreição do filho da viúva da Naim (Lc 7, 11-17) que mais me impressionou, simplesmente porque aquela situação chamou a atenção de Jesus que se compadeceu de uma mulher que tinha acabado de perder a sua única riqueza: o filho.

As palavras de Jesus: «Não chores», li-as e senti-as como sendo dirigidas a mim e a toda a humanidade. Aquele olhar misericordioso até ao âmago do ser transformou-se, para mim, na luz que me guia. Uma bondade completa, gratuita, sem outro interesse que não o próprio bem – curar as dores da humanidade, abraçar o sofredor como alguém com um valor infinito. Isto, para mim, é ainda hoje, o mundo virado do avesso. Onde o pobre e o sofredor são invisibilizados, desprezados e esquecidos, Jesus dá-lhes existência comunitária, reconhece-os na sua dignidade, afirma a sua presença como valiosa e importante para o próprio Deus.

A vida e as palavras de Jesus tornaram-se, pois, para mim na fonte mais pura da minha alegria e na inspiração do meu projeto de vida: eu simplesmente queria ser como Jesus. Por isso, a curiosidade por conhecer a cultura do povo onde nasceu Jesus, compreender a sua história, aprofundar o valor e o sentido dos textos, quer do Antigo, quer do Novo Testamento não mais deixou de ser o centro das minhas mais profundas motivações.

Quando aos nove anos iniciei a minha catequese, em São Paulo, a minha mãe comprou uma Bíblia ilustrada para jovens, que ainda hoje existe na casa dos meus pais. Aí, não só eu, mas todos os meus irmãos, pudemos contactar com a história de Israel e começar a entender o povo do qual tinha vindo Jesus, qual a sua experiência de fé, as suas idolatrias, as suas fragilidades e também a sua grandeza. Esta passou a ser a nossa leitura dos fins de semana. Mas faltava-me conhecer o texto na sua totalidade. Por isso, quando em minha casa se comprou um exemplar completo da Bíblia, tratei de ler de uma assentada os livros do Génesis e do Êxodo. Desde então, nunca mais me cansei de ler, de procurar e de aprender. Cheguei a frequentar um ano de hebraico bíblico, à distância, na Universidade Hebraica de Jerusalém, para aprender um pouco mais. Ainda que as minhas ocupações laborais agora não me permitam dar continuidade a este curso, faço tensões de o retomar brevemente. Não perco oportunidade de ir conhecendo e divulgando este grande e majestoso livro que, quanto a mim, deveria ser a base de todos os ensinamentos e de toda a humanização.

No dia 23 de Abril, por se celebrar a morte de Miguel de Cervantes, celebra-se também o Dia Mundial do Livro.  Nesse dia, na minha escola, as professoras responsáveis de coordenar as Bibliotecas Escolares decidiram fazer uma exposição de Bíblias, dedicando a exposição da Biblioteca durante a Semana da Leitura à Bíblia, o Livro por excelência.  Pediram-me, então, a colaboração para elaborar essa pequena exposição escolar. Tal desafio pôs-me o coração em sobressalto porque nunca me abandona o desejo de iluminar o mundo inteiro com a beleza e a inspiração para a vida que constantemente encontro na leitura e no estudo dos textos bíblicos. Assim, lancei mão de muitos dos meus livros: diversos exemplares de Bíblias, dicionários e enciclopédias dedicados à Bíblia e livros de estudo diversos. Elaborei, ainda, uma breve explicação para poder enquadrar a exposição e torná-la compreensível a crianças, jovens e adultos. Apercebi-me da surpresa e entusiasmo que emergiu deste primeiro contacto com os livros e com um pouco da história da construção dos textos bíblicos e da compilação do cânone bíblico.

O conhecimento da Bíblia, quer pela leitura direta dos textos, quer pelo seu estudo e meditação abrem-nos um novo mundo a partir do contacto com realidades tão antigas, que se perdeu no tempo o nome do autor, quanto transformadoras, como são os Evangelhos. É possível encontrar verdadeiras obras primas da literatura, como é o livro de Job, juntamente com poesia, canto e narrativa didática, ao mesmo tempo que histórias de vida e ensinamentos morais.

A Bíblia é efetivamente uma biblioteca.

Perante a oportunidade que surgiu de partilhar um pouco do meu fascínio por este maravilhoso livro com a restante comunidade escolar emergiu dentro de mim a consciência de que este mundo em que vivo perde muito por não conhecer a Bíblia, não só pela imensa riqueza cultural que contém e transmite como pela profundidade e luminosidade das mensagens que perpassam as narrativas, os salmos e ditos sapienciais e proféticos, os Evangelhos e as cartas. Por isso, desejo que neste mês da Leitura, em que a escrita pode ser considerada  a mais importante invenção humana, transmitindo conhecimento, experiência e reflexão acumulada ao longo de séculos nos livros, esse mundo fantástico que se abre diante dos nossos olhos apenas com um gesto, muitos possam redescobrir na Bíblia e, sobretudo, nos Evangelhos a fonte da sua alegria de viver e tenham  a oportunidade de reconhecer o potencial criativo e transformador que desperta em nós, como tem acontecido comigo ao longo da minha vida.

Helena Castro

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

Santa Teresa de Jesus terá dito em determinada altura que «nós somos os livros que lemos». Na senda do que afirmou Santa Teresa, permitam-me que partilhe aqui um pouco da minha experiência com os livros e com a leitura.

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