Caro irmão e cara irmã,
Ao início, este texto que estais a ler, seria sobre a relação entre São João da Cruz e os jovens, do ponto de vista biográfico e documental. No entanto, decidi escrever algo diferente, uma carta aberta: o testemunho de um jovem, amante da poesia, que encontrou os poemas de São João da Cruz.
Este não é um testemunho emocional, espiritual ou das minhas experiências de vida, mas apenas um testemunho que diz respeito ao meu percurso de leitura, no fundo. Cada vida é singular e só Deus sabe como São João da Cruz impactou positivamente outras vidas, mas eu não posso escrever a partir da interioridade dos outros, mas da minha. É o meu testemunho e vale o que vale.
Nasci em 2001 e fui criado numa zona minimamente rural, mas a dada altura estudei Teatro e mais tarde Estudos Clássicos na universidade. Na adolescência, dentro do curso de Teatro, estudei História das Artes e pude visitar museus na Espanha e na Itália, graças a uma professora que proporcionou tais viagens. Essa professora, inclusive, também era uma amante de Literatura e influenciou-me bastante.
Na altura, assim como tantos e tantos adolescentes, eu atravessava uma fase difícil. E na adolescência, corremos o risco de tantas vezes nos fecharmos na nossa dor. Mas recordo-me que tive de ler uma tragédia grega chamada «As Troianas» de Eurípides. Nela, acompanhamos a tristeza e a angústia de algumas mulheres vítimas da guerra. Além disso, a primeira peça na qual representei, dentro do curso, foi a «Antígona» de Sófocles, uma peça na qual acompanhamos o luto de uma família destruída. Abrir o nosso coração diante do sofrimento do outro, mesmo que esse outro seja uma personagem dramatúrgica ou ficcional, ajuda-nos, creio, a desenvolver a empatia e a tomar consciência de que há outros sofrimentos no mundo para além do nosso. Assim, fui continuando a cultivar uma vida de leitura e, além disso, fui percebendo que a minha vontade, dentro do mundo do Teatro, seria mais a de ser dramaturgo do que propriamente ator.
Ao longo dos anos, portanto, e gradualmente, fui tendo acesso a um grande património histórico, desde tragédias gregas, mestres renascentistas, – na pintura, escultura e arquitetura –, epopeias (Homero), filosofia (como Platão) e literatura clássica como Dante, Shakespeare, Cervantes e mais. Tudo isso me fascinava, pois tinha um coração inquieto. A Humanidade, com todas as suas contrariedades, desde a harmonia à violência, desde a beleza ao grotesco, as diferentes culturas e nações, as diferentes religiões, a riqueza e a pobreza, enfim, tudo isso me intrigava profundamente. O mundo parecia um caleidoscópio tão colorido e estilhaçado. Mas ainda havia algo que eu não poderia esquecer: as minhas origens.
Ao mesmo tempo que me abria para um mundo artístico e intelectual, as minhas origens rurais e marcadas pela fé católica pareciam contrastar. Eu parecia um habitante entre dois mundos. E Fé e Arte pareciam divorciar-se.
Nessa altura, abarcando Teatro e Estudos Clássicos, tive uma amiga escritora. Uma amiga com quem podia partilhar os meus poemas, as minhas reflexões e as minhas narrativas. Era alguém que me dava um solo seguro para eu desabrochar os meus talentos como pétalas. É tão bom termos alguém que confia no nosso potencial. Nós jovens precisamos muito disso, de adultos que confiem no nosso potencial, mesmo com todos os nossos defeitos e imperfeições. Estamos a crescer. E a melhor forma de crescermos saudáveis, é sentirmo-nos amados e valorizados.
Nessa altura, o Cristianismo para mim era algo como que diluído. Em Espanha e Itália, vi muitas pinturas religiosas, com temáticas recorrentes como a Anunciação e a Crucificação. Mas ao mesmo tempo, também vi muitas pinturas pagãs, onde o nu e o erótico eram tão frequentes, por exemplo. Além disso, as correntes mais modernas como o impressionismo, o surrealismo e a arte abstrata e pop realmente distanciavam-se bastante da Fé. Era um contraste grande, para ser honesto. Assim, a Fé parecia apenas mais uma temática entre tantas outras, uma expressão entre tantas outras. Que vinha não só a perder protagonismo no mundo cultural atual, como na minha própria vida. E acho que essa experiência durante a adolescência seja frequente na vida de tantos jovens. Vivemos num mundo onde Jesus parece não ser considerado, seja na arte, no desporto, na educação, na filosofia, na política, na ciência e outros espaços.
E é nestes momentos que nós tomamos consciência da importância dos catequistas na nossa vida, e todos aqueles que nos transmitiram uma fé vivida no quotidiano, pois muitas vezes eles são como que uma voz que clama no deserto anunciando Jesus num mundo globalizado.
Hoje, tenho gratidão por ter nascido numa paróquia, por ter tido catequese e pelas minhas avós, por exemplo, que mostravam um grande carinho por Jesus e por Maria. E quando saí da “aldeia” para descobrir novos horizontes, agradeço por ter tido uma professora que me mostrou tantas catedrais. Nos museus, de facto, a Fé parecia mais diluída, mas nas catedrais, Fé e Arte pareciam unidas num matrimónio fecundo.
Mas na altura, dentro de mim, ainda não existia propriamente esse matrimónio. Pois eu tinha a ideia errada, no fundo, de que a Fé era castradora. De que a Fé impedia o humano de se libertar, de ser autêntico, pois colocava limites e margens a uma força criativa que, por vezes, tendia a ser tão expansiva e desgovernada, quase caótica, diria. Na altura, eu ainda não tinha a perceção a fundo de que o ser-humano, realmente, é desarmonioso devido ao pecado original relatado no Génesis, pois na altura eu também não acreditava realmente em Adão e Eva, mas considerava como uma espécie de mito. Eu apenas via que o humano ao mesmo tempo que procurava capturar a harmonia, era desarmonioso. E eu não entendia profundamente porquê, pois faltava-me a fé nessa verdade. Pois nós realmente descendemos de Adão e Eva, não é um mito, mas a verdade. Então, devido às consequências da queda, claro que há em nós uma força que periga desgovernar-se, que realmente procura expandir-se para além das margens. Ir além das margens nem sempre no sentido de transcendência, mas de transgressão. Mas, em simultâneo, nem sempre no sentido de transgressão também, mas de busca sincera por escrever, poetizar, musicar, desenhar, pintar e esculpir uma realidade fragmentada, complexa, assustadora, tentadora, confusa e concreta, parece-me.
Porém, nessa fase da minha vida, conheci a obra de um escritor que me impactou bastante: J D Salinger. Salinger foi um escritor norte-americano do século XX e grande parte da sua obra pulicada debruça-se sobre a família Glass, uma família de artistas cujo filho mais velho suicidou-se. Duas obras «Franny & Zooey» e «Carpinteiros, levantai alto o pau de fileira» dão voz a três dos seus irmãos após o suicídio. É realmente algo profundo e intenso, e especialmente em «Franny & Zooey» a religião tem grande destaque. Esses dois jovens irmãos debatem-se sobre arte, intelectualidade e fé. Eu nunca percebi se Salinger era cristão ou agnóstico, até porque na sua obra nota-se um grande interesse pela filosofia oriental. Mas seja como for, Salinger deu-me algo precioso: a noção de que a Fé pode estar presente na Literatura moderna. Que a Literatura também pode ser um veículo para falar de Jesus. Ainda que as suas personagens não sejam explicitamente cristãs. Ou ainda que o Cristianismo seja para elas somente uma questão para meditar, em jeito de filosofia, e não um encontro pessoal com Cristo Ressuscitado e presente na Eucaristia.
Também houve uma escritora que me marcou profundamente: Elena Ferrante, deste nosso século XXI. Também formada em Estudos Clássicos, Elena Ferrante escreveu a tetralogia napolitana «A Amiga Genial». Uma história que acompanha a vida, desde a infância ao envelhecer, de duas amigas talentosas que nascem num bairro pobre e violento. É uma história fortíssima que fala sobre pobreza, pouca escolaridade, relações difíceis entre pais e filhos, violência doméstica, casamentos destruídos e até a perda de uma filha. Mas não só, pois nela acompanhamos o percurso de Elena Greco (Lenú) que através dos estudos, consegue escapar, aparentemente, do bairro e tornar-se uma escritora, uma mulher académica de alta-cultura. Mas que, em simultâneo, não consegue escapar às suas origens humildes. Esse sentimento de quem deambula por entre dois mundos que parecem inconciliáveis, o do «bairro» e o da «elite», é algo que eu podia compreender e que, finalmente, via descrito num livro de uma forma tão honesta. Também eu, como referi quase no início, sentia esse desequilíbrio, no fundo, essa incompreensão por existirem tantos contrastes. O talento, embora não tão explícito, é um tema fundamental nessa obra, mas sem a conexão com a sua dimensão espiritual. Portanto, de onde surge essa força misteriosa dentro de nós que nos faz querer criar? Também eu, longe da Igreja, ainda não tinha essa noção de que o talento pode ser uma vocação ou um dom de Deus.
Portanto, essas leituras, de alguma forma, tumultuavam o meu coração, pois dialogavam intimamente comigo: fé, ruralidade, arte, academismo, sonhos brilhantes e as origens.
E foi justamente durante esse mosaico de contradições aparentes, praticamente, que surgiu no meu horizonte um homem que ao mesmo tempo que destoava de tudo, parecia harmonizar tudo: São João da Cruz. Pobre, sacerdote, poeta, profundo, universitário, artista, enamorado de Cristo, Doutor da Igreja, santo. Alguém que ora atravessando o mundo das gentes humildes, ora o mundo dos letrados e académicos, soube manter um coração apaixonado por Jesus. E transformar essa paixão em Arte. Ensinando, assim, que em Jesus não tem de haver divisões, mas pelo contrário, união. Nele todos somos um. E Nele, todos os nossos talentos e percursos de vida podem confluir no plano de salvação.
Em Salinger, para mim pessoalmente, faltava algo, pois inquietava-me a leitura mas não me saciava, pois refletir sobre Jesus como figura histórica apenas não era suficiente, era preciso uma amizade com Ele, vivo e ressuscitado, de coração para coração. E aqui em Ferrante também sentia que faltava algo que verdadeiramente pudesse unir esses dois mundos, algo necessário não só na narrativa ficcional, mas neste nosso mundo real e atual, pois só o amor de Deus nos pode unir e ajudar a usar os nossos talentos e conhecimentos para o bem de todos. E a Igreja Católica, Esposa de Cristo, é prova disso. Talentosa, erudita, humilde, carismática e popular, ela traz para a humanidade a unidade na diversidade. E dá-nos o maior bem de todos: Jesus na Hóstia Consagrada, Deus que Se dá como nosso alimento, porque Deus Uno e Trino é loucamente apaixonado por cada um de nós e nos quer eternamente Consigo no Paraíso. E é esse amor que São João da Cruz soube tão bem poetizar.
Como disse no início, este não é um testemunho emocional, espiritual ou das minhas experiências de vida, por isso não escreverei sobre como São João da Cruz me impactou nessas diversas áreas, mas concentrar-me-ei apenas na questão literária; por isso, se este testemunho soar a «crítica literária» ou «ensaio» é natural.
Um homem que escrevia poemas de amor para Deus. E um Deus muito concreto: Uno e Trino e Eucarístico. O Deus da minha infância, o Deus dos meus tempos de catequese. Um Deus não temível, frio, distante ou abstrato, mas um Deus de ternura diante do qual a alma se pode desfazer em mil expressões de doçura, encanto e felicidade. Esse homem que ousou cantar o amor de Deus fez-me peregrinar numa profunda jornada interior, onde pude conciliar Fé, Arte e Intelectualidade. E não ter medo de Deus, mas admiração e gratidão. Vontade de aproximação. Esse é o poder que um poema honesto pode suscitar em poucas palavras. Não devemos subestimar a força da Poesia.
De todas as artes, a Literatura é a que mais me fascina. Acho interessante, claro, a habilidade de conjugar cores nas pinturas e a capacidade de conjugar voz e instrumentos musicais. Mas a Literatura, essa capacidade de riscar letras negras num papel branco e suscitar tantas emoções, recordações e reflexões, encanta-me. A arquitetura da narrativa, o desenvolvimento das personagens, o que é dito e o que fica por dizer e a modulação da voz narrativa, é tão fascinante. E na Poesia, temos de selecionar bem as palavras que caberão num verso e como arquitetaremos a estrofe, é um jogo entre ser lacónico e essencial, seletivo e autêntico. Tem algo de precisão cirúrgica e musicalidade. Tem algo de lúdico e tenso, como quem tenta apanhar um peixe fugidio com a mão num lago. Apanhar uma ideia, uma imagem, uma sensação, como um rastro de luz no ar. E para mim, a melhor descrição do ato da escrita é aquela que Elena Ferrante dá no seu ensaio «As Margens e a Escrita», ou seja, a de uma mão que mergulha num balde. E desse balde, no nosso interior, tiramos tanto. Tanta luz e escuridão, tantas memórias e impressões, tanto que é imprevisível. Por mais que tenhamos gestado uma história, meditado muito nela e planejado antes de iniciar o seu processo de escrita, diante do papel em branco, para a compor, arriscamos e colocamos a mão num balde escuro, sem saber ao certo o que a nossa mão encontrará.
E eis aqui um homem que tira do tesouro do seu coração, do seu balde, tanta luz e sabedoria. São João da Cruz condensa em poucas palavras conhecimentos profundamente meditados e assimilados, pois ele próprio explicará os seus poemas, como a «Noite Escura», por exemplo. Há toda uma doutrina mística por detrás de alguns dos seus poemas. Mas mesmo que fosse algo que ele pudesse explicar num tratado espiritual apenas, ele teve o génio de transformar essa linguagem em beleza poética. É a sua fé, a sua relação de amizade com Jesus, que influencia a sua arte. Conjugando assim Fé e Arte num matrimónio fecundo. E gostaria de transcrever aqui alguns versos ou estrofes que me encantam:
Aonde Te escondeste,
Amado, e me deixaste num gemido?
Qual veado fugiste
Havendo-me ferido.
Atrás de Ti clamei: tinhas partido!
Pastores, se subirdes
Além pelas malhadas ao outeiro
E porventura virdes
Aquele a quem mais quero,
Dizei que sofro, peno e a morte espero! (…)
Mil graças derramando
Passou por estes soutos com pressura
E, assim os indo olhando,
Com sua só figura
Vestidos os deixou de formusura.
Mostra a tua presença,
Matem-me tua vista e formosura,
Pois olha que a doença
De amor jamais se cura
Senão com a presença e a figura.
(Cântico Espiritual)
Ó chama de amor viva
Que ternamente feres
A minha alma no mais profundo centro!
Pois já não sendo esquiva
Acaba já, se queres,
Rasga a tela deste doce encontro! (…)
Quão manso e amoroso
Acordas em meu seio
Onde em segredo tu sozinho moras!
E em teu aspirar gostoso,
De bem e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!
(Chama de amor viva)
Vivo sem viver em mim
E tanto espero ao viver,
Que morro por não morrer. (…)
A vida que agora vivo
É privação de viver,
É um contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Não vivo por o querer,
Que morro por não morrer. (…)
Se me começo a aliviar
Por ver-te no Sacramento,
Aviva o meu sofrimento
O não te poder gozar; (…)
E se me alegro, Senhor,
Com esperança de ver-te,
Ao ver que posso perder-te
Logo dobra a minha dor;
Vivendo em tanto pavor
E esperando em tal sofrer,
Eu morro por não morrer.
Arranca-me desta morte,
Ó meu Deus, e dá-me a vida; (…)
Oh meu Deus!, quando será
Que poderei eu dizer
Vivo já por não morrer?
(Coplas da alma que sofre por ver a Deus)
A poesia de São João da Cruz é honesta. É escancarada. É lamechas. E é por isso que é tão boa. É uma poesia que não esconde o sofrimento, que não esconde os medos da alma, que não esconde a sensação de perigo espiritual que a pode ameaçar, e não esconde os seus sentimentos íntimos. Não tem medo do ridículo. Não tem medo de falar abertamente da vida e da morte, da vontade de partir para a eternidade. Não é uma poesia que camufla ou que idealiza. Mas que na sua emotividade é brutalmente honesta. Desarma o leitor. Arranca o leitor de uma distância segura e obriga-o, diria, a confrontar-se com a sua própria vida espiritual. Eis um génio literário que escreve com o coração. Um escritor que destila beleza a partir de dentro, de uma interioridade habitada por Deus. Quando leio São João da Cruz, leio um homem que não teme o ridículo e isso fascina-me tanto. Por ser tão humano, quase piegas, é que pode poetizar o divino na sua verdadeira essência: amor. Grandeza também, claro, mas uma grandeza que não intimida, mas que alenta e que convida à ternura. Pois Jesus, na Sua glória, não nos quer amedrontar, mas abraçar e acarinhar.
Claro que São João da Cruz não foi o único autor católico que li, claro. Também gosto muito, por exemplo, da poesia de Santa Teresa de Jesus, Santa Teresa do Menino Jesus e Santa Isabel da Trindade. Inclusive, o «Último Retiro» de Santa Isabel da Trindade é um dos textos mais extraordinários que já li em toda a minha vida. É um joia literária e espiritual. E acredito que a obra e o exemplo de São João da Cruz ajudou estas mulheres a desenvolver os seus talentos. Pois um verdadeiro artista, além disso santo, tem essa capacidade: de despertar em nós os talentos que enterramos. De querer desabrochar apesar dos nossos medos e inseguranças. São pessoas inspiradoras, assim como Santa Hildegarda que também compôs músicas cujas letras são tão poéticas e teológicas, além de uma peça de Teatro musical. E por isso, ainda hoje, no século XXI, Santa Hildegarda continua a inspirar tantas pessoas a desenvolver as suas potencialidades. Uma pessoa que vive a sua fé e a sua arte com alegria e autenticidade, claro que irradia e cativa. E evangeliza, claro. Também os poemas de São João da Cruz evangelizam.
Quando eu era mais jovem, não sabia que se podia ser artista e santo. Talvez por isso eu considerasse que esses dois mundos colidiam. Mas felizmente os textos dos papas e do magistério da Igreja Católica têm-me ensinado bastante. São João Paulo II foi ator e dramaturgo. Gabrielle Bossis, a enfermeira francesa do século XX com quem Jesus comunicava, também era dramaturga, também era uma mulher artística. E hoje vejo como a relação com Jesus não sufoca os nossos talentos, pelo contrário, orienta-os, harmoniza-os, potencializa-os e diviniza-os. Jesus quer realmente que nós sejamos felizes. Que não tenhamos medo de acreditar Nele, no Paraíso, na Sua Divina Misericórdia e no Seu amor que supera toda a lógica humana: por isso é que Ele está verdadeiramente presente na Hóstia Consagrada. Porque quer estar pertinho de nós, estreitar os nossos corações ao Dele. Ser o nosso melhor amigo, o nosso alimento, a nossa vida. Só Ele nos pode ajudar a ser os artistas santos que Deus Pai e o Espírito Santo também sonharam para nós. Seja qual for a nossa arte, pois viver em si já é uma arte. É preciso viver com criatividade.
Como jovem, falo a todos os outros jovens, meus irmãos e irmãs: como São João da Cruz, não tenham medo de ser lamechas. Lembrem-se sempre de que Jesus é querido. Jesus é doce. Deus só sabe amar. Deus é misericórdia infinita. Tragam os vossos pecados para a confissão sacramental e, nesse tribunal de misericórdia, experienciem a leveza de terem sido curados e restaurados pela graça sacramental. Comunguem Jesus com carinho, mesmo nas noites escuras da alma. A purificação apenas nos unirá mais a Ele. Tudo o que Ele mais quer é essa união, a nossa santificação, a nossa alegria e amizade. Rezem o terço todos os dias, sejam crianças no colo da Mãe. Peçamos a Maria a graça de confiar cegamente no amor de Deus como ela confiou. Pois só assim, com os pés bem firmes na certeza de que somos infinita e eternamente amados, é que podemos dar Jesus aos outros, mesmo através da nossa arte. Não sejamos artistas pelo sucesso, mas pelo gozo de criar. Pois essa alegria que Deus nos deu, a de criarmos seja um poema, uma história, uma música, uma pintura, uma cerâmica, uma tapeçaria, seja o que for que requeira o nosso génio criativo, tempo, paciência e dedicação, é uma alegria tão boa e que dá sentido ao nosso labor. E quer tenhamos reconhecimento quer não, isso em nada abalará essa alegria. Pois há maior felicidade em dar do que em receber. Ponhamos os nossos talentos a render para o Céu, dando almas a Jesus, evangelizando através dos talentos que Ele nos dá. E se temos medo de que isso nos transvie ou faça cair na vaidade ou seja o que for, peçamos-Lhe a graça da humildade. Claro que como humanos, continuaremos cheios de imperfeições, mas unidos a Ele, Jesus ajudará a que tudo concorra para o nosso bem e para o bem dos outros.
Até chegar à poesia de São João da Cruz, eu atravessei uma grande floresta de dúvidas, pisei solos instáveis, falhei muitas vezes, percebi o que seria óbvio às avessas, lendo fui procurando, e procurando fui-me equivocando às vezes também, mas avancei; Deus faz-nos sempre avançar. Este é o meu testemunho. Não posso escrever pelos outros, mas por mim. Vale o que vale.
Os santos são os nossos irmãos já no Céu, eles realmente ajudam-nos, por mais que de forma misteriosa e invisível. E neste testemunho tentei refletir acerca de como até um santo nos pode ajudar do ponto de vista literário, através da sua poesia. Claro que nunca é só poesia, claro que nunca é só literatura. A Arte tem um poder, pois pode influenciar-nos positiva ou negativamente. E eis aqui um homem, São João da Cruz, que usou o poder da Arte para aproximar as almas de Deus, que a usou para influenciar positivamente. Hoje, nós precisamos tanto de pessoas como ele. Do fundo do coração, sou grato a Deus por ter colocado São João da Cruz no meu caminho.


