Professora numa Escola artística

Carta aos Artistas – João Paulo II – 1999

A todos aqueles que apaixonadamente procuram novas «epifanias» da beleza para oferecê-las ao mundo como criação artística

«Deus vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa» (Gn1,31)

Descobri a Carta aos Artistas do Papa João Paulo II muito tarde; considerando que ela foi escrita em 1999, descobri-a quase 20 anos depois. Como eu, haverá muitas pessoas e talvez muitas outras a venham a descobrir ainda mais tarde. E isso não é mau em si, porque toda a descoberta traz consigo a potência de uma epifania: uma coisa descobre-se a partir de uma circunstância da vida, de uma abertura a uma novidade e o deslumbramento pode ser total e imediato porque, de algum modo, essa coisa estava velada e revelou-se e ao revelar-se actualiza-se, potenciada pela ânsia do momento; esse deslumbramento, depois de nos atingir, se não nos paralisa, e é bom que não, faz-nos começar a levantar véu por véu até ao descobrimento total, que não sabemos quando é.

Estou nessa fase, do levantar dos véus, e ainda levantei tão poucos que até me assusto com o que ainda há de vir. “Assustar-me” é um modo de dizer o espanto sobre a realidade que se me vai abrindo neste mundo de analogias com Jesus Cristo com que fomos criados e em que Deus insiste, amorosamente, em nos manter. Então, é esse levantar de véus que me proponho fazer aqui com quem me quiser acompanhar.

Também, será sempre na perspetiva de artista e na fé no Deus Uno e Trino, amoroso e pessoal, nosso Criador e o Artista por excelência, o Único, o Uno, a Comunhão de Pessoas, que eu irei manifestar as minhas descobertas, que não serão mais do que pequeníssimos ensaios, tateantes, e que gostarei de partilhar. Deste modo, muito provavelmente, não encontrarão um discurso fluido, académico e completamente lógico em si, pois me deixarei livre para um processo de descoberta com dúvidas, hesitações, avanços e recuos conforme se me forem abrindo as portas e apontando direções. Contudo, para se não tornar um vaguear desordenado, seguirei parágrafo a parágrafo da sequência da Carta aos Artistas descobrindo a Carta ao ritmo necessário, ao longo destas participações na revista Claustro.

Como artista toca-me, desde o início, o atributo que o Papa João Paulo II nos confere, o de construtores geniais de beleza, confirmando aqui uma das semelhanças com Deus, pela criação do homem à Sua imagem e semelhança. Da Sua imagem somos o espelho na Sua Unidade e na Sua Trindade de onde o Verbo encarnou conferindo-nos, a nós, essa semelhança. O próprio Deus nos inspirou, a partir do Seu ato criador e como conclusão, ao ver que tudo era belo, o desejo inextinguível e profundamente humano, porque divino em Jesus Cristo, de criação artística. Devemos compreender, no entanto que, como criaturas, seres em Cristo criados, Imagem consubstancial do Pai, a partir de Quem foi dado todo o ser e por isso participantes, nós, do Ser Divino, distanciamo-nos de Deus no efectivo poder criador a partir do Nada tal como Deus o fez na origem do mundo. Converte-se este humano e inextinguível desejo de criar, então, num poderoso desejo construtivo e transformador. Construir, na amplitude do seu sentido a partir da ordem divina de submetermos e dominarmos toda a matéria, é também um poder criativo espiritual isto é, re-criador do invisível, do que transcende, do que completa a realidade divina em nós, do que dá significado à obra e atribui um sentido à forma através das quatro grandes faculdades do espírito: consciência, vontade, memória e imaginação.

Há, no entanto, que fazer uma inversão de pensamento, uma árdua mudança de paradigma no conceito de imagem, pois compreenderemos esta realidade da imagem e semelhança com Deus tanto melhor quanto compreendermos que nos mantemos reféns de um conceito Clássico de imagem em que esta assume o valor de representatividade pela sua substituição do original, o valor de cópia pela sua reprodutibilidade e, atualmente, o valor de ilusão pela sua desmaterialização virtual, perdendo sempre qualidades em relação ao original; deste modo perde, em simultâneo, o seu valor de unicidade e originalidade conferido pela realidade cristã de imagem – nós, imagem de Deus, originais em Cristo, consubstancial ao Pai. Deus criou-nos, à Sua Imagem e semelhança, com um desejo inextinguível de criação artística e, é nesta imagem que somos de Deus, nesta originalidade, que reside todo o mistério que só poderá ser aflorado ao compreender, interiorizar e viver o verdadeiro sentido do que é ser imagem.

Construir, transformar, fazer, edificar, criar, fundar, inventar são tudo ações que não podem ser interrompidas no curso da vida humana. Resultam vitais para o indivíduo e para as sociedades; cada pessoa na sua experiência única de vida e cada geração na sua experiência partilhada, deixa-nos as marcas de um tempo, de um pensamento, de uma inquietação, de um relance de sabedoria plasmado nas obras criadas. Somos um palimpsesto de memórias, como dizia Baudelaire em “Paraísos artificiais” – donde só é útil retirar este conceito – memórias sedimentadas mas não aniquiladas que nos servem de matéria prima, primeiríssima matéria, para a construção artística tornada visível pela transformação dela mesma. Nesta transformação somos chamados à colaboração na transfiguração, matéria redimida, ao encontro da beleza original. Porque quando criamos na sintonia com o Espírito de Deus no fim da obra também a contemplamos vendo que é tão bela.

https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1999/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists.html

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