Jul 12, 2022 | Casa comum, Por onde andas

Formador de Metodologias de Investigação e Professor de EMRC

O ADN e alguns ecos de um leigo carmelita descalço

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Perdoar-se-á o excessivo tom autobiográfico deste texto. Escrevo-o como um preito de gratidão e homenagem. O futuro trará contributos mais assertivos e desafiantes.

Escrevo estas minhas primeiras linhas no Funchal. É dia 22 de maio, domingo. São 08h00. Levantei-me muito cedo, ainda antes das 04h00 para apanhar o avião. Mas (ainda) não tenho sono. Sento-me numa esplanada, junto ao mar. À minha esquerda, um grupo de adolescentes bebe cerveja, entre gargalhadas. Percebo que não dormiram na noite anterior e que, não tardará muito, deverão regressar ao hotel. Olhando para aquele que parece ser um barco pirata, recordo-me da minha adolescência e de algumas patetices próprias desta idade.

Ainda no avião, gizei o plano para este dia. No topo da minha agenda, está a visita ao Pe. Dias. Como gosto do Pe. Dias, da sua energia, da sua simplicidade, da sua bondade e da sua alegria. O Pe. Dias que conheci há 30 anos, é o Padre Dias de agora. É mesmo.

Levanto-me, dou um grande passeio e vou à Igreja do Carmo. Há missa às 09h30. Como gosto de contemplar o Monte Carmelo, a cruz e as três estrelas que compõem o brasão do Carmo. Por vezes, quando tenho de enfrentar um desafio e não me apetece nada, digo para mim mesmo Zelo Zelatus Sum Pro Domino Deo Exercituum.

Decorei essa sonante citação bíblica (I Reis, 19,10), em latim, no meu 10.º ano, e pese embora já tivesse a disciplina de Latim, foi o Pe. Tomás que me ensinou a tradução. Como foi o Pe. Tomás que me traduziu mais umas dezenas de textos!… O professor da disciplina, que por acaso era também padre, desconfiava. A minha sorte é que os testes não me corriam mal, ainda que a minha lentidão nas traduções fosse assinalável.

Admirava a sabedoria e santidade do Pe. Tomás! A sua ingenuidade também me fascinava. E, claro, nunca conheci ninguém, pessoalmente, que controlasse tão bem uma bola de futebol. Como se orgulhava do seu Osasuna, de ter treinado com o Atlético de Madrid e com o Beira-Mar.

Mas o que mais me impressionou foi ter olhado para o seu rosto, numa eucaristia, onde eu era acólito, e ter ficado impressionado com o seu rosto tão imóvel, em pé e de olhos fechados. Parecia estar bem dentro de si mesmo, no tal castelo interior habitado pelo seu Mestre, em profunda contemplação. Não vira nada igual. Nem até hoje. Quando fecho os olhos para rezar, lembro-me, muitas vezes, do Pe. Tomás. Com saudades.

Depois da missa, presidida pelo Pe. Noé vou à sacristia. Chama-me e pergunta-me o que quero. Apresento-me e digo que gostaria de visitar o Pe. Dias, pois tinha sido seu “aluno”. O Pe. Noé reconhece-me, diz-me que o Pe. Dias não está, pede-me o número de telefone e que, assim que pudesse, me telefonaria.

Recebo a chamada pela tarde, já depois, portanto, do almoço. Que refrescante ouvir a voz do Pe. Dias. Combinámos a hora e lá fui eu.

Fui por ele muito bem recebido e pelo Pe. João, ordenado há cerca de 3 anos. Bebi um cálice de vinho da Madeira e comi um bolo que parecia uma tigelada. Avivamos memórias e rimos muito.

Foi uma professora de inglês do meu 5.º ano (a minha escola era a Escola Preparatória Frei Bartolomeu dos Mártires, em Viana do Castelo) que me falou de um encontro de miúdos no seminário do Carmo onde se jogaria à bola (era a 5 minutos a pé da minha casa). Eu e mais meia dúzia de colegas inscrevemo-nos, autorizados pelos pais. No entanto, só apareci eu. Fui aí que conheci o Pe. Dias. Também o Pe. David.

O Pe. David é para mim uma figura mítica. Não o vi sorrir muitas vezes. Mas cantava e tocava bem, como o Pe. Dias. Lembro-me da última vez que terei visto o Pe. David. Foi junto à minha casa. Não sei o que estaria a fazer. Talvez a jogar à bola, num largo que havia no bairro da CP. Olhei para ele, ele olhou para mim. Disse-me que tenha acabado de celebrar a eucaristia no convento das carmelitas e perguntou-me: “o que andas a fazer?”. Não me lembro o que respondi. Mas ainda hoje escuto essa pergunta em mil e uma situações da minha vida. Aquela pergunta, com aquela mesma voz, daquele mesmo rosto com aquelas barbas negras compridas.

O que andas a fazer?

O meu primeiro funeral foi precisamente o do Pe. David Castro. Tinha que ir. Conheci um santo. E nunca antes me tinha morrido alguém.

Foi o Pe. Dias e o Pe. David – imagine-se – quem me ensinaram as duas únicas canções que sei cantar de princípio a fim, além do “Atirei o pau ao gato”, do “Frére Jacques” e do “O nosso galo é bom cantor”. São o “Guiado pela mão com Jesus eu vou” e o “Um certo dia à beira-mar” mais conhecido, talvez, por “Jovem Galileu”. Já cantei ambas milhares de vezes para adormecer os meus três filhos. Também eles as sabem cantar. Claro. Não só eles. Também os alunos do Profeta Miqueias. Profeta Miqueias?! Sim, além de Customer Training Specialist for Portugal and Spain (fica melhor em inglês) de que falarei adiante, sou ainda docente de EMRC de 1.º ciclo e Jardim de Infância no Externato Maria Droste, em Ermesinde. No Jardim de Infância lembrei-me, num rasgo invulgar, em mim, de criatividade pedagógica, de interpretar o papel de um profeta trapalhão de seu nome Miqueias. Este profeta conta histórias bíblicas, adaptando-as em registo infantil, explica-as, reza, canta (já sabem o quê…) e faz muitas palhaçadas com a sua bengala (é a minha bengala de finalista de Teologia; ainda bem que a guardei – nunca pensei que um dia me seria muito útil). Por vezes, não poucas, na rua, ouço “OLÁ PROFETA MIQUEIAS!!”. E tenho mães que me dizem, “Ia com o meu filho às compras e só cantava “Guiado pela mão com Jesus eu vou”, toda a gente ria e dizia “que adorável criança”!

Pois, tudo isto se deve ao Pe. Dias. Também ao Pe. David.

Depois de um primeiro encontro no seminário (chamavam-lhe pré-seminário), fui a um segundo, a um terceiro…. E ainda hoje me pergunto: o que me terá motivado? Era, afinal, o único da minha turma que ia àqueles encontros. E amigos, naquela altura, não me faltavam. Por que terei continuado a ir? Havia ali algo de especial. Eu nem sequer era catequizando. Não tinha, de facto, experiência eclesial.

Quis entrar no seminário, não me lembro bem se no 7.º ou 8.º ano. Os meus pais não consideraram que fosse uma boa ideia e a minha mãe, se calhar em desespero, disse-me que teria de fazer turnos à noite no hospital e que eu teria de cuidar da minha irmã (o meu pai, nessa altura, e durante muitos anos, estava a trabalhar longe de casa, como chefe de estação ferroviária). Compreendi e adiei a decisão.

Compreendi também, anos mais tarde, após ter verificado que esses turnos nunca se verificaram, que a minha mãe simplesmente, me queria junto a si.

No 10.º ano era, formalmente, pré-seminarista, isto é, fazia a vida de seminário e ia dormir a casa. Todos os dias. Levanta-me muito cedo para ir à Oração da Manhã. Despertava-me um rádio/relógio sintonizado na Rádio Renascença. “Renacença, está no ar; Renacença é o programa Despertar”. E lá eu despertava.

No 11.º ano, vou para Braga. Gostei muito desse primeiro ano em Braga. Era uma turma fantástica aquela que tive na Escola Secundária Sá de Miranda. Gostava muito de os reencontrar a todos.

A comunidade, por sua vez, era constituída pelo Pe. Carlos Vechina, pelo Pe. Pereira, pelo Pe. Queirós e, claro, pelo Fr. João, o meu formador de postulantado.

Era uma comunidade engraçada e muito heterogénea. Fiquei, porém, muito triste, quando o Pe. Queirós decidiu deixar a Ordem e assumir o papel de pároco diocesano. Admirava muito o Pe. Queirós. Outro santo.

O Fr. João era especial (ainda o é). Teve uma grande influência na minha vida, embora não o saiba. Mas sobre isso, talvez escreva um outro texto.

No 12.º ano, julgo que terei tido uma depressão (que ninguém reparou, apesar de evidente) motivada por um desgosto amoroso. Gostava muito daquela rapariga. Mesmo muito. Tudo acabou. Numa conversa com um amigo disse-lhe que queria ser missionário. Ela ouviu e perguntou com os olhos mais tristes que alguma vez vi: “Então e eu?”. Fiquei a olhar, sem saber o que responder.

Conhecia-a numa viagem de estudo ao Algarve. Era do meu ano, da minha Escola, mas não da minha turma. Fiquei tão apaixonado que, no Mosteiro dos Jerónimos, já na viagem de regresso, pedi, com toda minha força, ao Santo António para namorar com ela. Ele ouviu-me. Não tinha como não ouvir, isso com toda a certeza.

Sendo seminarista, namorei com ela durante três meses. Uma senhora devota viu-me a namorar e telefonou, chocada, ao Pe. Pereira. O mesmo padre que, por coincidência ou não, me viu numa paragem do autocarro a despedir-me dela. Todo atrapalhado disse-lhe que era minha prima e que há muito tempo que não a via. Nunca me censurou ou repreendeu. Também gostava muito do Pe. Pereira.

Após três meses, e porque eu não quis sair do seminário, tudo acabou. Fiquei muito triste por mais de um ano. Meses mais tarde via-a, e no mesmo instante em que a vi, os meus olhos ficaram lacrimejantes, fixos no chão. Acho que os dela também. Rezo por ti. Espero que sejas feliz.

O Pe. Carlos era o historiador e arquivista. Também benfiquista. Admirava as suas rotinas. Todas as manhãs, lá ia para o seu computador e para as suas crónicas conventuais. Celebrava uma missa (não-dominical) em 17 minutos, com o missal a 2 metros de distância dos seus óculos que mais pareciam binóculos.

Durante o postulantado, fiz a Visita Pascal na Correlhã, junto a Ponte de Lima. Invoco esta memória porque foi marcante e não por que as pessoas me chamavam de “padre” mas pelo contraste entre a riqueza e a pobreza, entre a abundância e a miséria, entre casas senhoriais e casas onde chovia em cima da cama. Percebi que ser cristão é também, de modo especial contribuir para a transformação da sociedade, uma sociedade mais justa e solidária. É, também, uma “praxis” como me ensinou o Fr. João.

Vou a Úbeda fazer o noviciado. Foi um dos anos mais especiais da minha vida. Teria 17 ou 18 anos. Com esta idade, a nossa personalidade já esta definida. Mas aqueles 12 meses, mudaram-me um pouco.  Digo muitas vezes que aprendi muito. E quando me perguntam, “mas aprendeste o quê?”, confesso que tenho dificuldades em responder. Que 12 meses de aprendizagem sobre a interioridade, abertura e comunicação com o Transcendente! Um Transcendente com rosto: o rosto de Jesus Cristo.

O meu mestre foi o Pe. Emílio, outro santo. Como santo era o Pe. Fidel. O Padre Prior era o Pe. António José. Havia ainda, além dos Irmãos Paco e Pepe, o Pe. Angel, que andava sempre de hábito. Eram todos excelentes seres humanos e excelentes religiosos Carmelitas Descalços. A 6 minutos a pé, ficava o convento das carmelitas descalças, donde eu trazia as melhores madalenas e tortas de chocolate que alguma vez comi. A Irmã Adriana, a sua alegria, a sua bondade, a sua ternura estão no meu coração.

Se hoje trabalho profissionalmente como Customer Training Specialist for Portugal and Spain, na empresa EBSCO que fatura mais de 2,5 mil milhões de dólares anuais, e onde em quase cinco anos, já realizei milhares de sessões de formação para alunos, professores, investigadores, médicos, enfermeiros, etc, em centenas de instituição académicas, científicas, hospitalares e governamentais, etc., em Portugal e Espanha, foi porque aprendi “espanhol” naqueles 12 meses de noviciado em Espanha.  E ao viajar por toda a Espanha, procuro, em cada cidade, uma Igreja dos Carmelitas Descalços, onde entro e rezo. Maluqueira, talvez.

Há três anos, vindo da Universidade de Almería, onde tinha dado uma formação a alunos e professores, parei e dormi em Úbeda.  Era tanta a emoção!

Na manhã seguinte, vou ao museu São João da Cruz que fica integrado no Convento.  A guia pergunta-me se conhecia alguma coisa da história daquele santo. Respondo que não (assim sou eu) e vai explicando cada peça daquele museu. Estava comovido. Eu que 20 anos antes, tinha sido guia daquele mesmo museu (centenas de vezes em castelhano e inglês) e sabia cada peça de cor, a sua origem, especificidades, etc.). Procurei estar ali como se fosse a primeira vez mas não era. Aliás, acho que ali sempre estive.

Toquei a campainha do Convento. Toquei uma vez, duas e três e lá uma voz desconhecida pergunta o que quero. Digo quem sou e pergunto se posso ver o Pe. Fidel. Dizem-me que já morreu. Pergunto pelo Irmão Francisco e dizem-me que já morreu. Paro de perguntar. Tenho medo. Percebo que, sim, sempre ali estive, mas não é por isso que o tempo inexoravelmente, não deixa de passar. Volto mais tarde para ir à missa na capela do Mausoléu de São João da Cruz. Não posso acreditar. Era o Pe. António José. No final, com poucas expetativas, vou à sacristia e digo apenas “Padre António José”. Como se estivesse, há anos à minha espera, responde-me “Nuno, como estás e como estão os teus olhos?”. Lembrava-se mim, do meu nome e perguntara-me – algo raríssimo na minha vida – de uma doença degenerativa que tenho nos meus olhos. “Estou bem”, respondo e falo do que faço e da minha família. Termino com um grande abraço. Foi uma verdadeira epifania, como algumas outras que vou tendo no quotidiano da vida.

Vou também ao convento das Carmelitas. E quem me atende? A Irmã Adriana.

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!” “Para sempre seja louvado e sua Mãe, Maria Santíssima”.

Pergunto-lhe, sem saber que era a Irmã Adriana, pois não se vêm as irmãs por detrás do torno – “Boa tarde, posso falar com a Irmã Adriana?” “Nuno, és tu?!” Pergunta-me, 20 anos depois de a ter visto e ouvido pela última vez. “Sim, sou eu, Adriana”. Deixo de a ouvir por uns segundos, mas a porta ao fundo à direita abre-se e é ela. Damos um grande abraço, pedindo-me desculpa por estar com um hábito de trabalho. Falo de mim. Ela fala dela. É agora a Madre Priora daquele convento. Diz-me que ainda guarda a carta que lhe escrevi no meu primeiro ano de professo simples. Nem me lembrava.

A irmã Adriana é uma santa. O seu coração é puro. O seu olhar límpido. Os seus pensamentos simples. As suas palavras bondosas, como as de Maria.

Fui, pois, professo simples, no Porto, onde estudei, como carmelita, dois anos. Do noviciado, em Úbeda, para o Porto, houve uma mudança muito grande, a vários níveis.

A Faculdade de Teologia foi uma grande desilusão intelectual (hoje está muitíssimo melhor). O Pe. Mário, que eu admirava muito, sai.

Digo ao Pe. Carlos, meu formador, que quero sair. O Pe. Carlos diz-me que poderá ser uma crise normal e pede-me para esperar mais um ano e decidir. Caminho, como carmelita, mais um ano e a crise não se vislumbra passageira. Nesse segundo ano, com o Fr. Vasco já em Braga, não tinha verdadeiros amigos condiscípulos.

Não foram as circunstâncias humanas acima identificadas. Foi um discernimento vocacional. Encontrávamo-nos em setembro. No dia seguinte, renovaria os votos. Não dormi um único segundo nessa noite. Acho que estive com o olhar fixo no teto do meu quarto, invocando a ajuda de Santa Teresinha que sempre me acorre (a minha filha mais nova chama-se Carolina Teresinha também por isso, mas essa seria uma outra história para contar).

Tomo banho, visto-me (mas não o hábito) e encontro o Pe. Jesus (outro santo) já na sacristia. É o primeiro a saber “Pe. Jesus, não vou renovar os votos”. O seu olhar não me censura. Compreende e respeita a minha decisão. Vão chegando outros padres, incluindo o Pe. Provincial e também o meu condiscípulo, e a todos anuncio, com dor mas com coragem (que pensei que não tivesse) que não iria renovar.

A situação é tensa.

O formador diz-me que tenho que sair imediatamente. “Claro que sim” – penso eu. Diz-me ainda que a minha decisão tem a ver com o egoísmo e que eu sofreria muito.

A segunda parte é verdade. O bem é uma luta diária. A vida de marido, pai e profissional é uma vida que envolve também sofrimento. Quanto ao egoísmo, não me parece. Egoísta seria eu permanecer na Ordem quando não me reconheceria com vocação.

Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida e das mais importantes.

Outra das mais importantes foi aquele primeiro encontro de pré-seminário no meu 5.º ano, com o Pe. Dias e o Pe. David. Como mudou a trajetória da minha vida e o que sou hoje.

Aprendi com Santa Eufrásia que “a gratidão é a memória do coração”. Estou profundamente grato aos Carmelitas Descalços. Eu sou Carmelita Descalço. Em tudo o que faço. É por esse motivo que não participo no encontro de ex-seminaristas.  Também não gosto da palavra, é certo. Mas, o que importa, é que eu sou Carmelita Descalço. É o meu ADN. O melhor de mim tem a ver com este ADN. O que sou hoje, o melhor de mim, tem a ver com aquela experiência do humano e do sagrado. Tem a ver com o “Flos Carmeli”

Parece que tudo faz algum sentido.

Nuno Henriques

Formador de Metodologias de Investigação e Professor de EMRC

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