Jul 12, 2022 | Casa comum, Por onde andas

Formador de Metodologias de Investigação e Professor de EMRC

O ADN e alguns ecos de um leigo carmelita descalço

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Perdoar-se-á o excessivo tom autobiográfico deste texto. Escrevo-o como um preito de gratidão e homenagem. O futuro trará contributos mais assertivos e desafiantes.

Escrevo estas minhas primeiras linhas no Funchal. É dia 22 de maio, domingo. São 08h00. Levantei-me muito cedo, ainda antes das 04h00 para apanhar o avião. Mas (ainda) não tenho sono. Sento-me numa esplanada, junto ao mar. À minha esquerda, um grupo de adolescentes bebe cerveja, entre gargalhadas. Percebo que não dormiram na noite anterior e que, não tardará muito, deverão regressar ao hotel. Olhando para aquele que parece ser um barco pirata, recordo-me da minha adolescência e de algumas patetices próprias desta idade.

Ainda no avião, gizei o plano para este dia. No topo da minha agenda, está a visita ao Pe. Dias. Como gosto do Pe. Dias, da sua energia, da sua simplicidade, da sua bondade e da sua alegria. O Pe. Dias que conheci há 30 anos, é o Padre Dias de agora. É mesmo.

Levanto-me, dou um grande passeio e vou à Igreja do Carmo. Há missa às 09h30. Como gosto de contemplar o Monte Carmelo, a cruz e as três estrelas que compõem o brasão do Carmo. Por vezes, quando tenho de enfrentar um desafio e não me apetece nada, digo para mim mesmo Zelo Zelatus Sum Pro Domino Deo Exercituum.

Decorei essa sonante citação bíblica (I Reis, 19,10), em latim, no meu 10.º ano, e pese embora já tivesse a disciplina de Latim, foi o Pe. Tomás que me ensinou a tradução. Como foi o Pe. Tomás que me traduziu mais umas dezenas de textos!… O professor da disciplina, que por acaso era também padre, desconfiava. A minha sorte é que os testes não me corriam mal, ainda que a minha lentidão nas traduções fosse assinalável.

Admirava a sabedoria e santidade do Pe. Tomás! A sua ingenuidade também me fascinava. E, claro, nunca conheci ninguém, pessoalmente, que controlasse tão bem uma bola de futebol. Como se orgulhava do seu Osasuna, de ter treinado com o Atlético de Madrid e com o Beira-Mar.

Mas o que mais me impressionou foi ter olhado para o seu rosto, numa eucaristia, onde eu era acólito, e ter ficado impressionado com o seu rosto tão imóvel, em pé e de olhos fechados. Parecia estar bem dentro de si mesmo, no tal castelo interior habitado pelo seu Mestre, em profunda contemplação. Não vira nada igual. Nem até hoje. Quando fecho os olhos para rezar, lembro-me, muitas vezes, do Pe. Tomás. Com saudades.

Depois da missa, presidida pelo Pe. Noé vou à sacristia. Chama-me e pergunta-me o que quero. Apresento-me e digo que gostaria de visitar o Pe. Dias, pois tinha sido seu “aluno”. O Pe. Noé reconhece-me, diz-me que o Pe. Dias não está, pede-me o número de telefone e que, assim que pudesse, me telefonaria.

Recebo a chamada pela tarde, já depois, portanto, do almoço. Que refrescante ouvir a voz do Pe. Dias. Combinámos a hora e lá fui eu.

Fui por ele muito bem recebido e pelo Pe. João, ordenado há cerca de 3 anos. Bebi um cálice de vinho da Madeira e comi um bolo que parecia uma tigelada. Avivamos memórias e rimos muito.

Foi uma professora de inglês do meu 5.º ano (a minha escola era a Escola Preparatória Frei Bartolomeu dos Mártires, em Viana do Castelo) que me falou de um encontro de miúdos no seminário do Carmo onde se jogaria à bola (era a 5 minutos a pé da minha casa). Eu e mais meia dúzia de colegas inscrevemo-nos, autorizados pelos pais. No entanto, só apareci eu. Fui aí que conheci o Pe. Dias. Também o Pe. David.

O Pe. David é para mim uma figura mítica. Não o vi sorrir muitas vezes. Mas cantava e tocava bem, como o Pe. Dias. Lembro-me da última vez que terei visto o Pe. David. Foi junto à minha casa. Não sei o que estaria a fazer. Talvez a jogar à bola, num largo que havia no bairro da CP. Olhei para ele, ele olhou para mim. Disse-me que tenha acabado de celebrar a eucaristia no convento das carmelitas e perguntou-me: “o que andas a fazer?”. Não me lembro o que respondi. Mas ainda hoje escuto essa pergunta em mil e uma situações da minha vida. Aquela pergunta, com aquela mesma voz, daquele mesmo rosto com aquelas barbas negras compridas.

O que andas a fazer?

O meu primeiro funeral foi precisamente o do Pe. David Castro. Tinha que ir. Conheci um santo. E nunca antes me tinha morrido alguém.

Foi o Pe. Dias e o Pe. David – imagine-se – quem me ensinaram as duas únicas canções que sei cantar de princípio a fim, além do “Atirei o pau ao gato”, do “Frére Jacques” e do “O nosso galo é bom cantor”. São o “Guiado pela mão com Jesus eu vou” e o “Um certo dia à beira-mar” mais conhecido, talvez, por “Jovem Galileu”. Já cantei ambas milhares de vezes para adormecer os meus três filhos. Também eles as sabem cantar. Claro. Não só eles. Também os alunos do Profeta Miqueias. Profeta Miqueias?! Sim, além de Customer Training Specialist for Portugal and Spain (fica melhor em inglês) de que falarei adiante, sou ainda docente de EMRC de 1.º ciclo e Jardim de Infância no Externato Maria Droste, em Ermesinde. No Jardim de Infância lembrei-me, num rasgo invulgar, em mim, de criatividade pedagógica, de interpretar o papel de um profeta trapalhão de seu nome Miqueias. Este profeta conta histórias bíblicas, adaptando-as em registo infantil, explica-as, reza, canta (já sabem o quê…) e faz muitas palhaçadas com a sua bengala (é a minha bengala de finalista de Teologia; ainda bem que a guardei – nunca pensei que um dia me seria muito útil). Por vezes, não poucas, na rua, ouço “OLÁ PROFETA MIQUEIAS!!”. E tenho mães que me dizem, “Ia com o meu filho às compras e só cantava “Guiado pela mão com Jesus eu vou”, toda a gente ria e dizia “que adorável criança”!

Pois, tudo isto se deve ao Pe. Dias. Também ao Pe. David.

Depois de um primeiro encontro no seminário (chamavam-lhe pré-seminário), fui a um segundo, a um terceiro…. E ainda hoje me pergunto: o que me terá motivado? Era, afinal, o único da minha turma que ia àqueles encontros. E amigos, naquela altura, não me faltavam. Por que terei continuado a ir? Havia ali algo de especial. Eu nem sequer era catequizando. Não tinha, de facto, experiência eclesial.

Quis entrar no seminário, não me lembro bem se no 7.º ou 8.º ano. Os meus pais não consideraram que fosse uma boa ideia e a minha mãe, se calhar em desespero, disse-me que teria de fazer turnos à noite no hospital e que eu teria de cuidar da minha irmã (o meu pai, nessa altura, e durante muitos anos, estava a trabalhar longe de casa, como chefe de estação ferroviária). Compreendi e adiei a decisão.

Compreendi também, anos mais tarde, após ter verificado que esses turnos nunca se verificaram, que a minha mãe simplesmente, me queria junto a si.

No 10.º ano era, formalmente, pré-seminarista, isto é, fazia a vida de seminário e ia dormir a casa. Todos os dias. Levanta-me muito cedo para ir à Oração da Manhã. Despertava-me um rádio/relógio sintonizado na Rádio Renascença. “Renacença, está no ar; Renacença é o programa Despertar”. E lá eu despertava.

No 11.º ano, vou para Braga. Gostei muito desse primeiro ano em Braga. Era uma turma fantástica aquela que tive na Escola Secundária Sá de Miranda. Gostava muito de os reencontrar a todos.

A comunidade, por sua vez, era constituída pelo Pe. Carlos Vechina, pelo Pe. Pereira, pelo Pe. Queirós e, claro, pelo Fr. João, o meu formador de postulantado.

Era uma comunidade engraçada e muito heterogénea. Fiquei, porém, muito triste, quando o Pe. Queirós decidiu deixar a Ordem e assumir o papel de pároco diocesano. Admirava muito o Pe. Queirós. Outro santo.

O Fr. João era especial (ainda o é). Teve uma grande influência na minha vida, embora não o saiba. Mas sobre isso, talvez escreva um outro texto.

No 12.º ano, julgo que terei tido uma depressão (que ninguém reparou, apesar de evidente) motivada por um desgosto amoroso. Gostava muito daquela rapariga. Mesmo muito. Tudo acabou. Numa conversa com um amigo disse-lhe que queria ser missionário. Ela ouviu e perguntou com os olhos mais tristes que alguma vez vi: “Então e eu?”. Fiquei a olhar, sem saber o que responder.

Conhecia-a numa viagem de estudo ao Algarve. Era do meu ano, da minha Escola, mas não da minha turma. Fiquei tão apaixonado que, no Mosteiro dos Jerónimos, já na viagem de regresso, pedi, com toda minha força, ao Santo António para namorar com ela. Ele ouviu-me. Não tinha como não ouvir, isso com toda a certeza.

Sendo seminarista, namorei com ela durante três meses. Uma senhora devota viu-me a namorar e telefonou, chocada, ao Pe. Pereira. O mesmo padre que, por coincidência ou não, me viu numa paragem do autocarro a despedir-me dela. Todo atrapalhado disse-lhe que era minha prima e que há muito tempo que não a via. Nunca me censurou ou repreendeu. Também gostava muito do Pe. Pereira.

Após três meses, e porque eu não quis sair do seminário, tudo acabou. Fiquei muito triste por mais de um ano. Meses mais tarde via-a, e no mesmo instante em que a vi, os meus olhos ficaram lacrimejantes, fixos no chão. Acho que os dela também. Rezo por ti. Espero que sejas feliz.

O Pe. Carlos era o historiador e arquivista. Também benfiquista. Admirava as suas rotinas. Todas as manhãs, lá ia para o seu computador e para as suas crónicas conventuais. Celebrava uma missa (não-dominical) em 17 minutos, com o missal a 2 metros de distância dos seus óculos que mais pareciam binóculos.

Durante o postulantado, fiz a Visita Pascal na Correlhã, junto a Ponte de Lima. Invoco esta memória porque foi marcante e não por que as pessoas me chamavam de “padre” mas pelo contraste entre a riqueza e a pobreza, entre a abundância e a miséria, entre casas senhoriais e casas onde chovia em cima da cama. Percebi que ser cristão é também, de modo especial contribuir para a transformação da sociedade, uma sociedade mais justa e solidária. É, também, uma “praxis” como me ensinou o Fr. João.

Vou a Úbeda fazer o noviciado. Foi um dos anos mais especiais da minha vida. Teria 17 ou 18 anos. Com esta idade, a nossa personalidade já esta definida. Mas aqueles 12 meses, mudaram-me um pouco.  Digo muitas vezes que aprendi muito. E quando me perguntam, “mas aprendeste o quê?”, confesso que tenho dificuldades em responder. Que 12 meses de aprendizagem sobre a interioridade, abertura e comunicação com o Transcendente! Um Transcendente com rosto: o rosto de Jesus Cristo.

O meu mestre foi o Pe. Emílio, outro santo. Como santo era o Pe. Fidel. O Padre Prior era o Pe. António José. Havia ainda, além dos Irmãos Paco e Pepe, o Pe. Angel, que andava sempre de hábito. Eram todos excelentes seres humanos e excelentes religiosos Carmelitas Descalços. A 6 minutos a pé, ficava o convento das carmelitas descalças, donde eu trazia as melhores madalenas e tortas de chocolate que alguma vez comi. A Irmã Adriana, a sua alegria, a sua bondade, a sua ternura estão no meu coração.

Se hoje trabalho profissionalmente como Customer Training Specialist for Portugal and Spain, na empresa EBSCO que fatura mais de 2,5 mil milhões de dólares anuais, e onde em quase cinco anos, já realizei milhares de sessões de formação para alunos, professores, investigadores, médicos, enfermeiros, etc, em centenas de instituição académicas, científicas, hospitalares e governamentais, etc., em Portugal e Espanha, foi porque aprendi “espanhol” naqueles 12 meses de noviciado em Espanha.  E ao viajar por toda a Espanha, procuro, em cada cidade, uma Igreja dos Carmelitas Descalços, onde entro e rezo. Maluqueira, talvez.

Há três anos, vindo da Universidade de Almería, onde tinha dado uma formação a alunos e professores, parei e dormi em Úbeda.  Era tanta a emoção!

Na manhã seguinte, vou ao museu São João da Cruz que fica integrado no Convento.  A guia pergunta-me se conhecia alguma coisa da história daquele santo. Respondo que não (assim sou eu) e vai explicando cada peça daquele museu. Estava comovido. Eu que 20 anos antes, tinha sido guia daquele mesmo museu (centenas de vezes em castelhano e inglês) e sabia cada peça de cor, a sua origem, especificidades, etc.). Procurei estar ali como se fosse a primeira vez mas não era. Aliás, acho que ali sempre estive.

Toquei a campainha do Convento. Toquei uma vez, duas e três e lá uma voz desconhecida pergunta o que quero. Digo quem sou e pergunto se posso ver o Pe. Fidel. Dizem-me que já morreu. Pergunto pelo Irmão Francisco e dizem-me que já morreu. Paro de perguntar. Tenho medo. Percebo que, sim, sempre ali estive, mas não é por isso que o tempo inexoravelmente, não deixa de passar. Volto mais tarde para ir à missa na capela do Mausoléu de São João da Cruz. Não posso acreditar. Era o Pe. António José. No final, com poucas expetativas, vou à sacristia e digo apenas “Padre António José”. Como se estivesse, há anos à minha espera, responde-me “Nuno, como estás e como estão os teus olhos?”. Lembrava-se mim, do meu nome e perguntara-me – algo raríssimo na minha vida – de uma doença degenerativa que tenho nos meus olhos. “Estou bem”, respondo e falo do que faço e da minha família. Termino com um grande abraço. Foi uma verdadeira epifania, como algumas outras que vou tendo no quotidiano da vida.

Vou também ao convento das Carmelitas. E quem me atende? A Irmã Adriana.

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!” “Para sempre seja louvado e sua Mãe, Maria Santíssima”.

Pergunto-lhe, sem saber que era a Irmã Adriana, pois não se vêm as irmãs por detrás do torno – “Boa tarde, posso falar com a Irmã Adriana?” “Nuno, és tu?!” Pergunta-me, 20 anos depois de a ter visto e ouvido pela última vez. “Sim, sou eu, Adriana”. Deixo de a ouvir por uns segundos, mas a porta ao fundo à direita abre-se e é ela. Damos um grande abraço, pedindo-me desculpa por estar com um hábito de trabalho. Falo de mim. Ela fala dela. É agora a Madre Priora daquele convento. Diz-me que ainda guarda a carta que lhe escrevi no meu primeiro ano de professo simples. Nem me lembrava.

A irmã Adriana é uma santa. O seu coração é puro. O seu olhar límpido. Os seus pensamentos simples. As suas palavras bondosas, como as de Maria.

Fui, pois, professo simples, no Porto, onde estudei, como carmelita, dois anos. Do noviciado, em Úbeda, para o Porto, houve uma mudança muito grande, a vários níveis.

A Faculdade de Teologia foi uma grande desilusão intelectual (hoje está muitíssimo melhor). O Pe. Mário, que eu admirava muito, sai.

Digo ao Pe. Carlos, meu formador, que quero sair. O Pe. Carlos diz-me que poderá ser uma crise normal e pede-me para esperar mais um ano e decidir. Caminho, como carmelita, mais um ano e a crise não se vislumbra passageira. Nesse segundo ano, com o Fr. Vasco já em Braga, não tinha verdadeiros amigos condiscípulos.

Não foram as circunstâncias humanas acima identificadas. Foi um discernimento vocacional. Encontrávamo-nos em setembro. No dia seguinte, renovaria os votos. Não dormi um único segundo nessa noite. Acho que estive com o olhar fixo no teto do meu quarto, invocando a ajuda de Santa Teresinha que sempre me acorre (a minha filha mais nova chama-se Carolina Teresinha também por isso, mas essa seria uma outra história para contar).

Tomo banho, visto-me (mas não o hábito) e encontro o Pe. Jesus (outro santo) já na sacristia. É o primeiro a saber “Pe. Jesus, não vou renovar os votos”. O seu olhar não me censura. Compreende e respeita a minha decisão. Vão chegando outros padres, incluindo o Pe. Provincial e também o meu condiscípulo, e a todos anuncio, com dor mas com coragem (que pensei que não tivesse) que não iria renovar.

A situação é tensa.

O formador diz-me que tenho que sair imediatamente. “Claro que sim” – penso eu. Diz-me ainda que a minha decisão tem a ver com o egoísmo e que eu sofreria muito.

A segunda parte é verdade. O bem é uma luta diária. A vida de marido, pai e profissional é uma vida que envolve também sofrimento. Quanto ao egoísmo, não me parece. Egoísta seria eu permanecer na Ordem quando não me reconheceria com vocação.

Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida e das mais importantes.

Outra das mais importantes foi aquele primeiro encontro de pré-seminário no meu 5.º ano, com o Pe. Dias e o Pe. David. Como mudou a trajetória da minha vida e o que sou hoje.

Aprendi com Santa Eufrásia que “a gratidão é a memória do coração”. Estou profundamente grato aos Carmelitas Descalços. Eu sou Carmelita Descalço. Em tudo o que faço. É por esse motivo que não participo no encontro de ex-seminaristas.  Também não gosto da palavra, é certo. Mas, o que importa, é que eu sou Carmelita Descalço. É o meu ADN. O melhor de mim tem a ver com este ADN. O que sou hoje, o melhor de mim, tem a ver com aquela experiência do humano e do sagrado. Tem a ver com o “Flos Carmeli”

Parece que tudo faz algum sentido.

Nuno Henriques

Formador de Metodologias de Investigação e Professor de EMRC

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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