Jun 23, 2026 | Casa comum, Permanecei no amor

Educadora Social | Estudante de Doutoramento UMinho

A Noite do Algoritmo

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Uma outra leitura de São João da Cruz

Ao longo das próximas linhas tentarei fazer uma leitura do nosso tempo à luz da mística de São João da Cruz, aproximando a experiência espiritual da “noite escura” do contexto atual dominado por algoritmos e pelo excesso de informação com que somos bombardeados. Tal como a luz de Deus, por ser excessiva, ultrapassa a capacidade da inteligência humana e se converte em noite na alma, também o fluxo infindável de dados e de previsões técnicas pode ofuscar o discernimento e obscurecer a verdade. Entre a noite luminosa de Deus e a claridade saturada da tecnologia, procurarei refletir sobre o caminho do desapego, do silêncio e da liberdade interior, onde o ser humano reencontra a responsabilidade ética e a capacidade de amar – pois só o coração, e não a máquina, pode realmente conhecer este comando.

Vivemos numa era em que a clareza dos dados e da inteligência artificial (IA) parecem desofuscar todos os caminhos da vida humana. Cada determinação, cada escolha, cada gesto está, de algum modo, mediado por sistemas que calculam, preveem e antecipam resultados. Estaremos nós, humanos, preparados para tal? A sensação de controlo poderá ser sedutora mas, paradoxalmente, gera uma cegueira interior, talvez aquela cegueira humana de que nos quis advertir Saramago no seu livro «Ensaio sobre a Cegueira»: não se trata da ausência de visão física, mas a incapacidade moral de aceitar o outro, de sentir empatia e de assumir responsabilidade, como se caminhássemos de olhos abertos por um mundo que insistimos, por comodidade ou medo, em não ver. Realmente parece que nós, homens e mulheres do séc. XXI, quanto mais clareza tecnológica amontoamos, menos capacidade para discernimos possuímos.

É neste contexto que vislumbro e nele resplandece a frase de São João da Cruz: «Para chegar ao que não sabes, hás‑de ir por onde não sabes» (Subida do Monte Carmelo I, 13, 11).

À luz da tradição carmelita, esta cegueira de que vimos falando não é estranha à experiência espiritual descrita por São João da Cruz. De facto, a sua “noite” não nasce da falta de luz, mas do seu excesso: Deus brilha tanto, mas tanto, que a Sua claridade ultrapassa a capacidade dos olhos e da inteligência em acolher toda a verdade. Como quando fitamos o sol e cegamos, também aqui a luz demasiado intensa se transforma em noite, em verdadeira noite da alma. Por isso: «Oh alma espiritual, limpa o pó, o argueiro e a névoa dos teus olhos e, então, o sol brilhante te iluminará e verás com clareza» (Chama de Amor Viva 3, 38). Sim, talvez o nosso tempo testemunhe algo semelhante: saturado de dados e de informação, o algoritmo pode ofuscar em vez de iluminar, tornando difícil o encontro do sentido e da verdade.

Vejamos!

I Parte

«Para chegar ao que não sabes»

A meu ver, «para chegar ao que não sabes» remete para o início da travessia, do caminho que passarei a explicar: trata-se dum conhecimento que não se confunde nem com a simples acumulação de informação, nem como poder da razão e do raciocínio; de uma sabedoria que ultrapassa o entendimento e envolve ética, amor e, sobretudo, liberdade de escolha.

Em torno a nós e dentro de nós Deus cintila, aliás, com tal intensidade que a sua luz é maior do que a nossa capacidade de receber toda a verdade; por isso, a própria claridade se transforma em noite na alma, na razão e na capacidade de receber e de perceber.

São João da Cruz ensina-nos que o ser humano não alcança o essencial apenas pelo estudo ou pela técnica; que só chega ao que verdadeiramente importa quando atravessa a noite dos sentidos e do espírito, ao ponto de se desapegar das próprias certezas e abandonar a ilusão de possuir e de saber. Na Subida do Monte Carmelo, explica com clareza que este caminho exige desapego total:

«Para chegar a gostar de tudo, não queiras ter gosto em nada.
Para chegar a possuir tudo, não queiras possuir algo em nada.
Para chegar a ser tudo, não queiras ser algo em nada.
Para chegar a saber tudo, não queiras saber algo em nada».

E continua: «A alma espiritual encontra nesta desnudez a sua quietude e sossego. Não cobiçando nada, nada a cansa ao subir e nada lhe pesa ao descer, pois está no centro da sua humildade» (Subida do Monte Carmelo I, 11-13).

A expressão «que não sabes» refere-se a um saber que não pode jamais ser encarcerado pela razão. É verdade que este saber somente se revela na experiência do incógnito enquanto absoluto, no abandono das próprias conveniências e no silêncio interior que emana da alma (ou, poderíamos dizer também, «no silêncio interior que irradia da alma»). É um saber que se conquista pela pobreza de alma, pela humildade e pelo abandono do controlo, lembrando-nos que o discernimento humano exige coragem para enfrentar o incerto, para rasgar fronteiras e deixar-se ir em «confiança cega» de que também nos fala Santa Teresinha.

Completo este raciocínio, lembrando-me também da grande mulher que foi Edith Stein. Sendo ela uma conversa pela via da mística carmelitana, vem ela a comungar com esta perspetivam ao afirmar que a consciência humana só se abre à realidade que a transcende quando abandona a segurança do entendimento próprio. Edith Stein foi uma filósofa judeo-alemã, discípula de Husserl, convertida ao Catolicismo; entraria depois no Carmelo e morreu mártir em Auschwitz. A sua trajetória une filosofia, mística carmelita e testemunho de entrega total, o que a torna especialmente relevante neste contexto de busca da verdade pelo despojamento total, bem para além do mero entendimento racional.

Lembrarei também Soren Kierkegaard, com quem tive grandes batalhas no meu 12.º ano de escolaridade. Aponta ao filósofo que a verdade profunda exige decisão, risco e salto na fé, trespassando aquilo que não se conhece. Aliás, Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo cristão, justamente por insistir na dimensão pessoal, arriscada e comprometida da fé, mais do que numa adesão puramente intelectual.

Talvez seja desta forma que alcançaremos ao «chegar ao que não sabes», não como recusa da inteligência ou da reflexão ou do estudo, mas pela via da purificação, permitindo que o Espírito, e não apenas a razão, conduza as escolhas humanas. Esta travessia é particularmente relevante, aliás, direi mais que necessária nesta era de algoritmos, em que a confiança excessiva em dados e previsibilidades pode anestesiar a capacidade de discernir, de julgar e de nos fazer descontinuar o «amar o Amado que carece de ser amado».

II PARTE

«Hás-de ir por onde não sabes»

Se na primeira parte estávamos perante o objetivo da travessia, nesta segunda parte postamo-nos diante da urgência de assinalar o caminho desta mesma travessia. Não é suficiente desejar o conhecimento ou a sabedoria; é preciso percorrer o caminho do desconhecido, aceitar a incerteza e confiar na condução do Espírito.

Na Noite Escura, São João da Cruz descreve a experiência da alma guiada por Deus na escuridão da seguinte forma:

«Nesta noite ditosa,
Em segredo, pois que ninguém me via,
Nem via eu mais cousa,
Sem outra luz nem guia
Senão a que no coração ardia.
Só esta me guiava
Mais certa do que a luz do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu o bem sabia
Em parte onde ninguém aparecia».
(Noite Escura, Estrofes 3 e 4)

Ir por onde não sabemos significa entregarmo-nos à experiência do desconhecido, abandonar o apego às certezas e dispensar a ilusão de controlo, permitindo que a Verdade se revele no tempo certo.

É, aliás, na noite da alma, no silêncio e na escuta interior, que se manifesta o verdadeiro discernimento. Como quando olhamos o sol e cegamos, também aqui o excesso – e não a carência – pode ofuscar a visão interior: e assim restamos na noite porque nos encontramos sob um excesso de luz a mais os nossos olhos.

Que caminho! Que exigência! Que máxima nos deixou São João da Cruz!

Trata-se de um caminho que exige coragem e desapego. De uma travessia espiritual que implica abrir mão do nosso ego, da necessidade de controlar os resultados, da pressa em chegar ao destino, ao saber. São João da Cruz ensina-nos que o ser humano não alcança o essencial apenas pelo estudo ou pela técnica; só chega àquilo que verdadeiramente importa quando atravessa a noite do espírito e se desapega das próprias certezas:

«Acorrem as donzelas,
No encalço dos teus rastros, ao caminho;
Ao toque de centelhas,
Ao perfumado vinho,
Emanações de bálsamo divino».
(Cântico Espiritual, Estrofe 25)

Assim, com força e ternura, e sob o influxo da graça, a alma que se entrega e se liberta de tudo, consome-se livremente no amor do Amado que vigorosamente a seduz e a atrai. E eis que aqui nos encontramos, em travessia, onde tudo se torna uma exigência ética porque as nossas decisões estão frequentemente mediadas por algoritmo, seja na medicina, como na justiça, nas políticas públicas, na educação, na religião, nas guerras, nas relações… tudo, tudo, tudo! E muito embora estas ferramentas sejam úteis, elas não substituem a consciência, o julgamento ético e a responsabilidade humana, porque caminhar «por onde não sabes» talvez seja um ter de permanecer vigilante, mesmo quando a tecnologia oferece previsibilidade de soluções e clareza de opções. Não se trata de que estas ferramentas não sejam úteis, pois o são, trata-se antes de fazer prevalecer o imperativo maior de sondar e escutar a própria consciência, de discernir o bem do mal, de decidir pelo justo, mesmo sem evidência ou segurança absolutas.

Aliás, este caminho é também experiência de liberdade, através do qual a alma se abre à noite do espírito e à verdadeira purificação dos sentidos que «só se realiza quando realmente começa a do espírito. É por isso que à noite que dissemos ser dos sentidos pode-se e deve-se chamar antes uma correção e travão do apetite do que purificação” (Noite Escura II, 3, 1).

É neste estado de desapego (alcançado pelo toque da luz da graça e pela purificação) que se aprende a amar sem possuir, a julgar sem provas e a responder e a aderir sem certezas, confiando totalmente na ação de Deus e experimentando a verdadeira liberdade espiritual.

Que grande teste!

Mas é este teste não pode ser mecanizado ou previamente calculado. De facto, o algoritmo pode aprender padrões, mas não pode amar, nem cuidar ou discernir. E aqui reside o poder da consciência e do não saber humanos. Sim, na visão de São João da Cruz, o verdadeiro caminho da humanidade passa pelo desapego, pela coragem de se sair de si e pela abertura ao desconhecido, onde a liberdade, a responsabilidade e a ética encontram o seu fundamento mais profundo.

Finalizo. Considerando que a frase de São João da Cruz é e será sempre um verdadeiro mapa para a liberdade – ética, moral, espiritual – constitui-se também como um despertar que nos recorda que o verdadeiro conhecimento, a responsabilidade e o amor só se encontram na passagem pela noite, na coragem de abandonar o controlo, na entrega silenciosa ao mistério que ultrapassa toda a razão.

O mundo anda a refletir estas coisas. E refletindo precisa de pensar, por exemplo, nas consequências do louco crescimento de perfis falsos e de conteúdos manipulados pela Inteligência Artificial, disponíveis a toda a hora para debitar bites e terabites de fakenews geradas para condicionar e confundir. Na sua Mensagem para a 60.ª Jornada Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Leão XIV exorta-nos a «custodiar as vozes e os rostos humanos» – e sim, creio bem que nas linhas do texto que nos precede nos encontramos em sintonia com o Santo Padre. Aliás, num mundo cada vez mais dominado por imagens e sons artificiais, o Papa insiste em recordar que cada voz e cada rosto encerram em si mesmos identidade, história e humanidade, que são dons sagrados que jamais alguma tecnologia poderá imitar ou substituir. Proteger estas dimensões antropológicas é, assim, um ato de respeito pela dignidade de cada homem e de cada mulher e uma forma de proteger a verdade da vida humana. Urge-se, pois, que se use a tecnologia com responsabilidade, evitando manipulações e fraudes que promovam uma comunicação genuína e respeitosa. E ao valorizarmos a proximidade, o silêncio interior e o diálogo humano verdadeiro – mesmo nos espaços digitais – estamos a construir em nossos dias uma humanidade mais humana, mais consciente, mais segura e mais profundamente conectada à essência de cada ser, revivificando o facto de que a verdadeira comunicação nasce da alma e não apenas da aparência digital.

A noite do algoritmo como aqui a tratamos, entende-se como um excesso de dados e de informação que, por saturação, impede o encontro da verdade. Sim, o caminho tem de ser outro. Tem de ser o caminho do discernimento, da compreensão e da aceitação do Outro tal como ele é em si mesmo. Um mundo regido ou manipulado por algoritmos é previsível e de calculo fácil, pelo que o alerta de Leão XIV mantém a sua urgência: de facto, apenas o humano – e não a máquina – pode discernir, escolher e amar ao estilo dos místicos, ao estilo de Jesus, com a intensidade de quem se deixa transformar pelo Invisível.

REFERENCIAS

Bild_finder. (s.d.). We are controlled [Imagem]. Pinterest. https://pt.pinterest.com/pin/1135610862304533937/

Kierkegaard, S. (2013). Pós‑escrito conclusivo não científico às migalhas filosóficas (A. L. M. Valls & M. M. de Almeida, Trad.). Editora Universitária São Francisco / Vozes.

São João da Cruz. (2005). Obras completas (6ª ed.). Edições Carmelo.

Saramago, J. (1995). Ensaio sobre a cegueira. Caminho.

Stein, E. (2007). Ser finito y ser eterno: Ensayo de una ascensión al sentido del Ser. In Obras completas III – Escritos filosóficos (etapa de pensamiento cristiano). Ediciones El Carmelo.

Verónica Parente

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
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