Jun 23, 2026 | Casa comum, Permanecei no amor

Educadora Social | Estudante de Doutoramento UMinho

A Noite do Algoritmo

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Uma outra leitura de São João da Cruz

Ao longo das próximas linhas tentarei fazer uma leitura do nosso tempo à luz da mística de São João da Cruz, aproximando a experiência espiritual da “noite escura” do contexto atual dominado por algoritmos e pelo excesso de informação com que somos bombardeados. Tal como a luz de Deus, por ser excessiva, ultrapassa a capacidade da inteligência humana e se converte em noite na alma, também o fluxo infindável de dados e de previsões técnicas pode ofuscar o discernimento e obscurecer a verdade. Entre a noite luminosa de Deus e a claridade saturada da tecnologia, procurarei refletir sobre o caminho do desapego, do silêncio e da liberdade interior, onde o ser humano reencontra a responsabilidade ética e a capacidade de amar – pois só o coração, e não a máquina, pode realmente conhecer este comando.

Vivemos numa era em que a clareza dos dados e da inteligência artificial (IA) parecem desofuscar todos os caminhos da vida humana. Cada determinação, cada escolha, cada gesto está, de algum modo, mediado por sistemas que calculam, preveem e antecipam resultados. Estaremos nós, humanos, preparados para tal? A sensação de controlo poderá ser sedutora mas, paradoxalmente, gera uma cegueira interior, talvez aquela cegueira humana de que nos quis advertir Saramago no seu livro «Ensaio sobre a Cegueira»: não se trata da ausência de visão física, mas a incapacidade moral de aceitar o outro, de sentir empatia e de assumir responsabilidade, como se caminhássemos de olhos abertos por um mundo que insistimos, por comodidade ou medo, em não ver. Realmente parece que nós, homens e mulheres do séc. XXI, quanto mais clareza tecnológica amontoamos, menos capacidade para discernimos possuímos.

É neste contexto que vislumbro e nele resplandece a frase de São João da Cruz: «Para chegar ao que não sabes, hás‑de ir por onde não sabes» (Subida do Monte Carmelo I, 13, 11).

À luz da tradição carmelita, esta cegueira de que vimos falando não é estranha à experiência espiritual descrita por São João da Cruz. De facto, a sua “noite” não nasce da falta de luz, mas do seu excesso: Deus brilha tanto, mas tanto, que a Sua claridade ultrapassa a capacidade dos olhos e da inteligência em acolher toda a verdade. Como quando fitamos o sol e cegamos, também aqui a luz demasiado intensa se transforma em noite, em verdadeira noite da alma. Por isso: «Oh alma espiritual, limpa o pó, o argueiro e a névoa dos teus olhos e, então, o sol brilhante te iluminará e verás com clareza» (Chama de Amor Viva 3, 38). Sim, talvez o nosso tempo testemunhe algo semelhante: saturado de dados e de informação, o algoritmo pode ofuscar em vez de iluminar, tornando difícil o encontro do sentido e da verdade.

Vejamos!

I Parte

«Para chegar ao que não sabes»

A meu ver, «para chegar ao que não sabes» remete para o início da travessia, do caminho que passarei a explicar: trata-se dum conhecimento que não se confunde nem com a simples acumulação de informação, nem como poder da razão e do raciocínio; de uma sabedoria que ultrapassa o entendimento e envolve ética, amor e, sobretudo, liberdade de escolha.

Em torno a nós e dentro de nós Deus cintila, aliás, com tal intensidade que a sua luz é maior do que a nossa capacidade de receber toda a verdade; por isso, a própria claridade se transforma em noite na alma, na razão e na capacidade de receber e de perceber.

São João da Cruz ensina-nos que o ser humano não alcança o essencial apenas pelo estudo ou pela técnica; que só chega ao que verdadeiramente importa quando atravessa a noite dos sentidos e do espírito, ao ponto de se desapegar das próprias certezas e abandonar a ilusão de possuir e de saber. Na Subida do Monte Carmelo, explica com clareza que este caminho exige desapego total:

«Para chegar a gostar de tudo, não queiras ter gosto em nada.
Para chegar a possuir tudo, não queiras possuir algo em nada.
Para chegar a ser tudo, não queiras ser algo em nada.
Para chegar a saber tudo, não queiras saber algo em nada».

E continua: «A alma espiritual encontra nesta desnudez a sua quietude e sossego. Não cobiçando nada, nada a cansa ao subir e nada lhe pesa ao descer, pois está no centro da sua humildade» (Subida do Monte Carmelo I, 11-13).

A expressão «que não sabes» refere-se a um saber que não pode jamais ser encarcerado pela razão. É verdade que este saber somente se revela na experiência do incógnito enquanto absoluto, no abandono das próprias conveniências e no silêncio interior que emana da alma (ou, poderíamos dizer também, «no silêncio interior que irradia da alma»). É um saber que se conquista pela pobreza de alma, pela humildade e pelo abandono do controlo, lembrando-nos que o discernimento humano exige coragem para enfrentar o incerto, para rasgar fronteiras e deixar-se ir em «confiança cega» de que também nos fala Santa Teresinha.

Completo este raciocínio, lembrando-me também da grande mulher que foi Edith Stein. Sendo ela uma conversa pela via da mística carmelitana, vem ela a comungar com esta perspetivam ao afirmar que a consciência humana só se abre à realidade que a transcende quando abandona a segurança do entendimento próprio. Edith Stein foi uma filósofa judeo-alemã, discípula de Husserl, convertida ao Catolicismo; entraria depois no Carmelo e morreu mártir em Auschwitz. A sua trajetória une filosofia, mística carmelita e testemunho de entrega total, o que a torna especialmente relevante neste contexto de busca da verdade pelo despojamento total, bem para além do mero entendimento racional.

Lembrarei também Soren Kierkegaard, com quem tive grandes batalhas no meu 12.º ano de escolaridade. Aponta ao filósofo que a verdade profunda exige decisão, risco e salto na fé, trespassando aquilo que não se conhece. Aliás, Kierkegaard é considerado o pai do existencialismo cristão, justamente por insistir na dimensão pessoal, arriscada e comprometida da fé, mais do que numa adesão puramente intelectual.

Talvez seja desta forma que alcançaremos ao «chegar ao que não sabes», não como recusa da inteligência ou da reflexão ou do estudo, mas pela via da purificação, permitindo que o Espírito, e não apenas a razão, conduza as escolhas humanas. Esta travessia é particularmente relevante, aliás, direi mais que necessária nesta era de algoritmos, em que a confiança excessiva em dados e previsibilidades pode anestesiar a capacidade de discernir, de julgar e de nos fazer descontinuar o «amar o Amado que carece de ser amado».

II PARTE

«Hás-de ir por onde não sabes»

Se na primeira parte estávamos perante o objetivo da travessia, nesta segunda parte postamo-nos diante da urgência de assinalar o caminho desta mesma travessia. Não é suficiente desejar o conhecimento ou a sabedoria; é preciso percorrer o caminho do desconhecido, aceitar a incerteza e confiar na condução do Espírito.

Na Noite Escura, São João da Cruz descreve a experiência da alma guiada por Deus na escuridão da seguinte forma:

«Nesta noite ditosa,
Em segredo, pois que ninguém me via,
Nem via eu mais cousa,
Sem outra luz nem guia
Senão a que no coração ardia.
Só esta me guiava
Mais certa do que a luz do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu o bem sabia
Em parte onde ninguém aparecia».
(Noite Escura, Estrofes 3 e 4)

Ir por onde não sabemos significa entregarmo-nos à experiência do desconhecido, abandonar o apego às certezas e dispensar a ilusão de controlo, permitindo que a Verdade se revele no tempo certo.

É, aliás, na noite da alma, no silêncio e na escuta interior, que se manifesta o verdadeiro discernimento. Como quando olhamos o sol e cegamos, também aqui o excesso – e não a carência – pode ofuscar a visão interior: e assim restamos na noite porque nos encontramos sob um excesso de luz a mais os nossos olhos.

Que caminho! Que exigência! Que máxima nos deixou São João da Cruz!

Trata-se de um caminho que exige coragem e desapego. De uma travessia espiritual que implica abrir mão do nosso ego, da necessidade de controlar os resultados, da pressa em chegar ao destino, ao saber. São João da Cruz ensina-nos que o ser humano não alcança o essencial apenas pelo estudo ou pela técnica; só chega àquilo que verdadeiramente importa quando atravessa a noite do espírito e se desapega das próprias certezas:

«Acorrem as donzelas,
No encalço dos teus rastros, ao caminho;
Ao toque de centelhas,
Ao perfumado vinho,
Emanações de bálsamo divino».
(Cântico Espiritual, Estrofe 25)

Assim, com força e ternura, e sob o influxo da graça, a alma que se entrega e se liberta de tudo, consome-se livremente no amor do Amado que vigorosamente a seduz e a atrai. E eis que aqui nos encontramos, em travessia, onde tudo se torna uma exigência ética porque as nossas decisões estão frequentemente mediadas por algoritmo, seja na medicina, como na justiça, nas políticas públicas, na educação, na religião, nas guerras, nas relações… tudo, tudo, tudo! E muito embora estas ferramentas sejam úteis, elas não substituem a consciência, o julgamento ético e a responsabilidade humana, porque caminhar «por onde não sabes» talvez seja um ter de permanecer vigilante, mesmo quando a tecnologia oferece previsibilidade de soluções e clareza de opções. Não se trata de que estas ferramentas não sejam úteis, pois o são, trata-se antes de fazer prevalecer o imperativo maior de sondar e escutar a própria consciência, de discernir o bem do mal, de decidir pelo justo, mesmo sem evidência ou segurança absolutas.

Aliás, este caminho é também experiência de liberdade, através do qual a alma se abre à noite do espírito e à verdadeira purificação dos sentidos que «só se realiza quando realmente começa a do espírito. É por isso que à noite que dissemos ser dos sentidos pode-se e deve-se chamar antes uma correção e travão do apetite do que purificação” (Noite Escura II, 3, 1).

É neste estado de desapego (alcançado pelo toque da luz da graça e pela purificação) que se aprende a amar sem possuir, a julgar sem provas e a responder e a aderir sem certezas, confiando totalmente na ação de Deus e experimentando a verdadeira liberdade espiritual.

Que grande teste!

Mas é este teste não pode ser mecanizado ou previamente calculado. De facto, o algoritmo pode aprender padrões, mas não pode amar, nem cuidar ou discernir. E aqui reside o poder da consciência e do não saber humanos. Sim, na visão de São João da Cruz, o verdadeiro caminho da humanidade passa pelo desapego, pela coragem de se sair de si e pela abertura ao desconhecido, onde a liberdade, a responsabilidade e a ética encontram o seu fundamento mais profundo.

Finalizo. Considerando que a frase de São João da Cruz é e será sempre um verdadeiro mapa para a liberdade – ética, moral, espiritual – constitui-se também como um despertar que nos recorda que o verdadeiro conhecimento, a responsabilidade e o amor só se encontram na passagem pela noite, na coragem de abandonar o controlo, na entrega silenciosa ao mistério que ultrapassa toda a razão.

O mundo anda a refletir estas coisas. E refletindo precisa de pensar, por exemplo, nas consequências do louco crescimento de perfis falsos e de conteúdos manipulados pela Inteligência Artificial, disponíveis a toda a hora para debitar bites e terabites de fakenews geradas para condicionar e confundir. Na sua Mensagem para a 60.ª Jornada Mundial das Comunicações Sociais, o Papa Leão XIV exorta-nos a «custodiar as vozes e os rostos humanos» – e sim, creio bem que nas linhas do texto que nos precede nos encontramos em sintonia com o Santo Padre. Aliás, num mundo cada vez mais dominado por imagens e sons artificiais, o Papa insiste em recordar que cada voz e cada rosto encerram em si mesmos identidade, história e humanidade, que são dons sagrados que jamais alguma tecnologia poderá imitar ou substituir. Proteger estas dimensões antropológicas é, assim, um ato de respeito pela dignidade de cada homem e de cada mulher e uma forma de proteger a verdade da vida humana. Urge-se, pois, que se use a tecnologia com responsabilidade, evitando manipulações e fraudes que promovam uma comunicação genuína e respeitosa. E ao valorizarmos a proximidade, o silêncio interior e o diálogo humano verdadeiro – mesmo nos espaços digitais – estamos a construir em nossos dias uma humanidade mais humana, mais consciente, mais segura e mais profundamente conectada à essência de cada ser, revivificando o facto de que a verdadeira comunicação nasce da alma e não apenas da aparência digital.

A noite do algoritmo como aqui a tratamos, entende-se como um excesso de dados e de informação que, por saturação, impede o encontro da verdade. Sim, o caminho tem de ser outro. Tem de ser o caminho do discernimento, da compreensão e da aceitação do Outro tal como ele é em si mesmo. Um mundo regido ou manipulado por algoritmos é previsível e de calculo fácil, pelo que o alerta de Leão XIV mantém a sua urgência: de facto, apenas o humano – e não a máquina – pode discernir, escolher e amar ao estilo dos místicos, ao estilo de Jesus, com a intensidade de quem se deixa transformar pelo Invisível.

REFERENCIAS

Bild_finder. (s.d.). We are controlled [Imagem]. Pinterest. https://pt.pinterest.com/pin/1135610862304533937/

Kierkegaard, S. (2013). Pós‑escrito conclusivo não científico às migalhas filosóficas (A. L. M. Valls & M. M. de Almeida, Trad.). Editora Universitária São Francisco / Vozes.

São João da Cruz. (2005). Obras completas (6ª ed.). Edições Carmelo.

Saramago, J. (1995). Ensaio sobre a cegueira. Caminho.

Stein, E. (2007). Ser finito y ser eterno: Ensayo de una ascensión al sentido del Ser. In Obras completas III – Escritos filosóficos (etapa de pensamiento cristiano). Ediciones El Carmelo.

Verónica Parente

Educadora Social | Estudante de Doutoramento UMinho

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