Neste ano dedicado a São João da Cruz, a Casa Geral OCD de Roma propõe uma leitura muito inovadora dos seus escritos sobre a criação, por meio de um diálogo entre textos escolhidos na sua obra e outros selecionados na Encíclica Laudato Si do Papa Francisco. Os escritos do santo são repletos de natureza que o santo considera como «uma pegada do Amado» para quem busca a união com Deus. Por isso, gostava de acompanhar João da Cruz pelos montes e vales da Andaluzia, onde passou a maior parte da sua vida a seguir o seu encarceramento no convento carmelita de Toledo.
A Reforma do Carmelo encontra-se muito ameaçada após as sucessivas fundações de conventos de irmãs e irmãos descalços. A discórdia instala-se entre calçados e descalços, levando ao rapto de João de Cruz em Ávila em dezembro de 1577. Preso no convento do Carmo em Toledo, é duramente maltratado por não renunciar à descalcez. Numa noite de agosto de 1578, João da Cruz, com 36 anos, consegue fugir, levando consigo alguns papéis com os seus principais poemas. Com a ajuda de um cónego, permanece uns tempos e em segredo num hospital de Toledo para restabelecer a saúde. Daí vai para Almodovar del Campo e participa num Capítulo de Descalços no início de outubro: é decidida a sua nomeação como prior no convento do Calvário, numa serra da Andaluzia oriental e João parte imediatamente dirigindo-se para sul. (1).
Quem quiser também caminhar com João da Cruz para o seu novo destino pode fazê-lo com muita facilidade. A Província Ibérica ocd criou um site Camino de San Juan de la Cruz – Un camino hacia el interior, que apresenta um guião de caminhadas em colaboração com os respetivos municípios. Foram reconstituídos os itinerários da região que o santo percorreu a pé, geralmente acompanhado por um irmão. Calcula-se que caminhou cerca de 20.000 kms na Andaluzia para cumprir as suas múltiplas missões e atividades de prior, fundador, mestre de obras, autor de escritos sobre o Amor… e mestre espiritual junto das carmelitas e irmãos, durante a sua estadia de 1578 a 1588 (2).
O site foi também concebido como «caminho para o interior», este caminho «que pode ser percorrido mesmo sem o percorrer». Tal como o percorreu João da Cruz, preso na sua pequena cela escura, humanamente desamparado e maltratado, como Deus Pai deixou o Seu Filho na Cruz redentora da humanidade. E João descobriu que a luz da fé brilhava na sua alma enamorada de Cristo Jesus. Como o sol que já não conseguia ver, este sol de que não sentia o calor aprazível, mas que continuava a regular a luz das estações do ano e daí o crescimento das criaturas, das sementes até aos seus frutos. Na escuridão repetia e rezava palavras das Escrituras e o Espírito Santo inspirava-lhe outras que, todas juntas, formaram as canções dos poemas que nos deixou, particularmente o Cântico Espiritual, carregado de metáforas da natureza. Não, o João da Cruz que saiu em segredo de Castela, e entrou na Andaluzia pela senda estreita do desfiladeiro de Despeñaperros na Serra Morena, não era o mesmo. Dez anos depois de ter abraçado a Reforma teresiana, iniciava-se para ele uma vida transfigurada pelo Amor de Deus.
Ainda em outubro de 1578, chegou João da Cruz ao convento de Jesús María do Monte de La Peñuela, fundado cinco anos antes na vertente sul da Serra Morena. Havia de passar mais vezes por este convento nas suas idas e voltas para tratar de assuntos da Ordem em Castela, por gostar de lá estar pela solidão e silêncio do lugar (3). Sem demora segue caminho para leste, passando por montes e vales da Andaluzia oriental, e particularmente o vale de Guadalimar aos pés das serras, ou melhor, montanhas béticas. Talvez fosse até Beas de Segura. Vindo de La Peñuela, o acesso ao convento de Nossa Senhora do Monte Calvário era mais fácil por Beas; fundado em 1576, encontrava-se na serra de Cazorla, a 10 kms a sul de Beas, onde Teresa de Jesus, no ano anterior, tinha fundado um convento de descalças, com Ana de Jesus como prioresa. O Calvário, embora muito isolado, estava bem posicionado numa vertente soalheira do vale encaixado do Guadalquivir. Lá o esperavam cerca de 30 frades, a maior parte jovens que já conheciam o frei João.
O P. Crisógono de Jesus ocd oferece uma descrição muito interessante da subida de João da Cruz para o Calvário (4). As vertentes norte que dominam Beas são agrestes e pedregosas; o caminho atinge os 1000 m por altos e baixos, com uma vegetação mista de árvores atlânticas (pinheiro bravo) e arbustos mediterráneos. A vertente sul do lado do Guadalquivir oferece uma paisagem verdejante com a mesma mistura de plantas, a que acrescem azinheiras, sobreiros e olmeiros, e na horta do convento, árvores frutíferas (5).
Um ambiente completamente novo para o recém-chegado e pobre castelhano da aldeia de Fontiveros, marcado pela recente vivência dos nove meses na prisão de Toledo. João da Cruz compreendeu rapidamente que doravante devia integrar este ambiente no seu magistério. Durante os meses que ficou no Calvário, dividiu o seu tempo entre a vida conventual, as visitas das irmãs em Beas e o início da redação das suas obras. Moderou as penitências excessivas dos seus irmãos e levava-os fora do convento para a oração no meio da paisagem, louvando a beleza da criação como imagem da formosura de Deus (6). Em Beas, assistia espiritualmente as irmãs com os sacramentos todas as semanas, de sábado a segunda-feira. Mas também partilhava com elas, como verdadeiras irmãs, a sua experiência de vida por meio das sentenças dos Ditos, das canções do Cântico espiritual composto na prisão e da redação da Subida que comente o poema Noite Escura, escrito em 1578-79.
Como diz o P. Emílio Martinez, «após este prolífico período entre os seus irmãos do Calvário e as suas freiras de Beas», João da Cruz é nomeado reitor do Colégio da Reforma em Baeza num momento de apaziguamento das tensões. Acabam estes tempos mais tranquilos antes de assumir maiores responsabilidades após a fundação da Província dos Descalços pelo Papa em 1580.
Referências:
Fichas de leitura dos escritos de S. João da Cruz publicadas em português de janeiro a agosto de 2026 em https://carmelitas.pt/category/joaodacruz/fichas-joaodacruz/
- Martínez, Emílio J. ocd, João da Cruz, o rosto humano do mistério, Ed. Carmelo, Marco de Canaveses, 2025
- https://caminodesanjuandelacruz.org/ ou https://www.turismobeasdesegura.es/san-juan-de-la-cruz
- durante 1767, se fundó La Carolina -en honor a Carlos III-, en una amplia extensión que incluía el “Desierto de La Peñuela”. Poco después, los frailes se trasladaron a Cazorla
- Crisógono de Jesus, ocd (1904-1945), São João da Cruz, Ed. Carmelo, Oeiras, 1986 (tradução da 11ªed.), p. 217-218.
- A descrição revela também uma experiência direta da subida, mas de tudo isto resta muito pouco na atualidade. Nos finais do século XIX, após a crise da filoxera, o olival invadiu a província de Jaen, como nota o autor. Entretanto, permanecem ainda núcleos ou pequenas manchas de várias espécies de pinheiros (hoje protegidas), que a investigação paleoecológica e biogeográfica do último quarto do século passado considera naturais, contrariando o modelo do equilíbrio climácico apenas constituído por folhosas (azinheiras, sobreiros e . [Los bosques ibéricos, una interpretación geobotânica, M. Costa Tenorio, C. Morla Juaristi y H. Sainz Ollero (Ed.), Planeta, Barcelona, 2001, (1ªed.1997)]
- Crisógono de Jesus, p. 223.


