Mar 31, 2026 | Caminhamos juntos, Casa comum

Carmelita Secular

O futuro da humanidade passa pela família!

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Na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, o Papa João Paulo II faz uma afirmação que contundente: “O futuro da humanidade passa pela Família” (86).

Desde os primórdios da humanidade, a família tem tido um papel fundamental na organização social e tem sido o lugar onde a pessoa encontra proteção, identidade e sentido. Em diferentes culturas e em diferentes épocas, a família é esse espaço de transmissão de vida, de preservação de valores e de educação das gerações seguintes.

Em cada momento, a família foi uma instituição confrontada com diversos desafios e os tempos atuais não são diferentes. As rápidas transformações culturais, as dificuldades económicas, a promoção do individualismo e a cultura do provisório colocam diretamente em causa a estabilidade e a missão da família na nossa sociedade. Não podemos também deixar de ficar apreensivos ao olhar para a realidade familiar das nossas comunidades paroquiais. O aumento de divórcios entre casais cristãos, a diminuição da participação nos sacramentos, em especial a eucaristia, a falta de compromisso na catequese dos filhos, são sintomas de um mal que vai atingindo as famílias cristãs hoje e pondo em causa a sua unidade e relevância.

Ciente desta realidade, a Igreja Católica continua a defender com renovada esperança a Família como um pilar insubstituível da sociedade e como caminho de santidade.

O exemplo da Família de Nazaré

A Sagrada Família de Nazaré é o espelho da vocação e missão de todas as famílias cristãs. Mesmo sem compreenderem muito bem o que lhes estava a acontecer, Maria e José aceitam e confiam no desígnio de Deus para as suas vidas. Em família, vivem uma vida simples, marcada pelo trabalho, pela oração e pelo amor conjugal. Uma vida não isenta de dificuldades desde a primeira hora: não conseguiram um lugar digno para o nascimento do seu filho e logo depois tiveram de fugir para o Egipto. No entanto, tudo viveram com total confiança em Deus Pai, transformando o seu lar num verdadeiro santuário onde Deus se fez realmente com o nascimento de Jesus.

Na Família de Nazaré, podemos ver a centralidade da vontade de Deus na vivência da família; a obediência de Maria que acolhe a vontade de Deus sem reservas; a fidelidade de José a Maria e ao projeto de Deus para as suas vidas, garantindo sustento e segurança para a sua família e a obediência filial de Jesus aos seus pais, permitindo-o crescer como homem em sabedoria, estatura e graça (Lc 2, 52). A família de nazaré ensinamos que uma família constrói-se na fidelidade às pequenas coisas de cada dia, vividas com amor e comunhão com Deus.

O lar como espaço de crescimento cristão

O Concílio Vaticano II recorda que a família cristã é chamada a ser “Igreja doméstica” (Lumen Gentium, 11), lugar onde a fé é vivida e transmitida de geração em geração. Como referiu o Papa Bento XVI, “na família nascem e crescem as primeiras experiências de comunhão, de partilha, de respeito e de perdão, que são fundamentais para a vida em sociedade” (Angelus, 31/12/2006). O Papa Francisco insiste que “o lar deve continuar a ser o lugar onde se aprende a reconhecer os motivos e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo” (Amoris Laetitia, 287).

Entre outras, podemos destacar três dimensões importantes da família cristã: Escola de virtudes onde se aprende a amar, a perdoar, a partilhar e cuidar; lugar de oração onde se reza em família, se é inserido na participação dos sacramentos e onde cada gesto quotidiano é uma oportunidade de encontro com Deus; Lugar onde Deus se faz presente e continua a realizar o seu desígnio de Amor e de Vida. A realização de cada uma destas dimensões implica diretamente cada um dos membros da família a viver de uma forma coerente e dar o exemplo entre si, especialmente dos pais para os filhos. Ensina-se a amar, amando, a perdoar, perdoando, a rezar, rezando.

Desafios atuais colocados à família

Alguns dados retirados da PORDATA. Em 2023, realizaram-se 36.980 casamentos; verificaram-se 17.430 divórcios e a idade média ao primeiro casamento é de 34,3 anos nas mulheres e 35,8 nos homens. Ainda que estes dados se refiram aos casamentos civis, sabemos que o divórcio está cada vez mais presente entre os casais que se casam pela Igreja (o objetivo desta reflexão não é entrar na questão acerca da indissolubilidade do Sacramento). Refletindo nas possíveis causas para este fenómeno, podemos aflorar algumas ideias:

1. Cultura do individualismo.

A relação conjugal pressupõe uma doação mútua e um compromisso total que o individualismo põe em causa. O “Eu” muitas vezes sobrepõe-se ao “Nós”. “Casamos para fazer o outro feliz!”. É nesta confluência de vontades (do que cada um deseja para o outro) que se alcança a realização pessoal.  Há uns meses, circulou um vídeo muito interessante no Instagram sobre o compromisso no matrimónio cristão. Basicamente dizia o seguinte. «Não nos casamos porque nos amamos, casamos para nos amarmos. Numa cerimónia cristã, o sacerdote não pergunta aos noivos “Como te sentes? Estais apaixonados?” Antes pergunta: “estais dispostos a amar-vos?” “Prometeis amar-vos e respeitar-vos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte vos separe?”» Há uma virtude no compromisso, em não desistir, em dar todos os dias o melhor de si para que a relação se fortaleça e para que a família se mantenha unida.

2. Secularização e Trabalho

As famílias têm perdido o hábito da oração e da participação na vida sacramental. Tantas vezes, as atividades extracurriculares dos filhos (desporto, música, dança, …) impõem-se à organização familiar e põem em causa o tempo para participarem na eucaristia em família, para estarem em família e dialogarem entre si. Muitas destas atividades são organizadas para o fim de semana, ocupando o tempo que poderia ser aproveitado para estarem uns com os outros, para criarem memórias. As responsabilidades laborais também tiram tantas vezes demasiado tempo à família. Por outro lado, desde cedo é imposta socialmente uma cultura de busca do sucesso que coloca as crianças entre inúmeras atividades e ocupações, podendo gerar ansiedade e frustração no seio da família.

3. Influência dos meios digitais

A falta de diálogo ou a comunicação ineficaz entre os diferentes membros da família pode originar problemas e relacionamento e quebras de vínculos afetivos. O progressivo alheamento face à situação “do outro”, desgasta a relação familiar e torna-a mais frágil para lidar com problemas e dificuldades que possam surgir.  O uso dos meios digitais em ambiente familiar intensificou este gradual isolamento: as pessoas estão no mesmo espaço, por exemplo, à mesa da refeição, onde cada um está no seu mundo, sem que hajam interações entre si.

Família sinal de esperança na Igreja e no mundo

Terminamos com um pequeno excerto do Discurso do Papa Francisco em Filadélfia em 2015 na Vigília de Oração com as Famílias.

“Na família há dificuldades. Nas famílias discutimos. Nas famílias, às vezes, «voam os pratos». Nas famílias os filhos dão dor de cabeça. Não vou falar das sogras. Mas nas famílias sempre, sempre, existe a cruz. Sempre. Porque o amor de Deus, o Filho de Deus, também nos abriu este caminho. Mas nas famílias também, depois da cruz, há ressurreição, porque o Filho de Deus nos abriu esse caminho. Por isso, a família é – perdoai-me a palavra – uma fábrica de esperança; esperança de vida e ressurreição, porque foi Deus quem abriu esse caminho. E os filhos. Os filhos dão trabalho. Nós, como filhos, dêmos trabalho. Na família há dificuldades, mas essas dificuldades são superadas com amor. O ódio não supera nenhuma dificuldade. A divisão dos corações não supera nenhuma dificuldade. Só o amor é capaz de superar a dificuldade. Amor é festa, o amor é a alegria, o amor é seguir em frente. (…) a família é bela, mas custa, traz problemas. Na família, às vezes, há inimizades. O marido briga com a mulher, ou olham-se mal, ou os filhos com o pai. Dou-vos um conselho: Nunca termineis o dia sem fazer as pazes na família. Numa família não se pode terminar o dia em guerra. Que Deus vos abençoe. Que Deus vos dê forças. Que Deus vos incentive a seguir em frente. Cuidemos da família. Defendamos a família, porque nela o nosso futuro está em jogo.”

Júlio Pereira

Carmelita Secular

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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