Set 15, 2026 | Caminhamos juntos, Casa comum

Carmelita Secular

O caminho na noite

Partilhar:
Pin Share

“Long Dark Night”, de Nick Cave, e a Noite Escura de São João da Cruz

Em 2026, celebramos o Ano Jubilar de São João da Cruz: trezentos anos sobre a sua canonização e cem sobre a proclamação como Doutor da Igreja. As datas dão-nos uma ocasião para voltar aos seus escritos. Mas o que nos leva a permanecer neles é outra coisa: a impressão de que aquele homem, tão distante do nosso tempo, ainda sabe dizer alguma coisa sobre o que vivemos. Até sobre aquilo que mal conseguimos explicar a nós próprios.

É talvez por isso que o encontramos onde menos esperamos.

“Long Dark Night”, terceiro single do álbum Wild God, lançado em 2024, nasceu desse encontro. Ao apresentar a canção, Nick Cave disse que se inspirara num dos maiores e mais poderosos poemas de conversão alguma vez escritos. E acrescentou, com uma simplicidade desarmante, que, no fundo, era uma bonita canção country.

O poema é a Noite Escura, de São João da Cruz. Em oito estrofes, alguém se levanta e sai de casa durante a noite. Vai às escondidas, por uma escada secreta, ao encontro do Amado.

De um lado, temos um frade carmelita cuja poesia cresceu à sombra da prisão de Toledo, onde o encerraram os irmãos da própria ordem. Do outro, um músico australiano com uma vida atravessada pela dependência, pela perda e pelo luto. Seria apressado aproximá-los como se falassem da mesma experiência ou a partir da mesma fé. Ainda assim, há qualquer coisa naquela noite que permite escutar um através do outro.

A reflexão de Tomáš Halík sobre uma fé que também se vive na angústia ajuda a abrir essa possibilidade. Há encontros que começam precisamente quando as certezas deixam de chegar.

A noite tem horas

Quando ouvimos falar de uma “noite escura”, pensamos quase sempre num período difícil. Uma doença, uma perda, uma crise. Algo que se atravessa como se pode, à espera de que passe e a luz regresse.

É uma leitura compreensível. O poema, porém, leva-nos um pouco mais longe.

Na Subida do Monte Carmelo, São João da Cruz compara este caminho às horas de uma noite:

«A primeira, a dos sentidos, é parecida à primeira parte da noite, quando se começa a carecer do objeto das coisas. A segunda, que é a fé, compara-se à meia-noite, por ser totalmente escura. A terceira, que é Deus, compara-se à aurora que precede imediatamente a luz do dia».

São momentos diferentes de uma só noite. Mesmo a aurora ainda pertence a ela: anuncia o dia, mas não é o dia.

No poema, aliás, nunca assistimos ao amanhecer. A alvorada aparece apenas na quinta estrofe, numa comparação em que a noite acaba por ser declarada mais amável.

Vale a pena demorarmo-nos aqui. Se esperarmos apenas que a escuridão termine, talvez nos escape o que acontece dentro dela. Para São João da Cruz, a noite é já lugar de encontro. A luz plena fica além desta vida; por agora, há vislumbres, e aprende-se a caminhar com eles.

Mas como se caminha assim?

Na obra do santo, a fé, a esperança e a caridade sustentam esse percurso. Cada uma corresponde a uma potência da alma: a fé ao entendimento, a esperança à memória, a caridade à vontade. E a sua ação passa por libertar a alma daquilo a que se agarra. A propósito da memória, escreve:

«Quanto mais a alma limpar a memória das formas e recordações que não são de Deus, tanto mais em Deus terá a memória e mais vazia para esperar que Ele a preencha plenamente.» (Subida do Monte Carmelo, livro III, capítulo XV)

Estas palavras exigem cuidado, sobretudo quando as aproximamos do luto. Purificar a memória não pode ser entendido, sem mais, como apagar as recordações ou deixar para trás quem morreu.

No caso de um pai que perdeu dois filhos, como Nick Cave, seria particularmente insensível transformar esta passagem numa explicação da sua dor. Não sabemos o que se passa na intimidade de outra pessoa, e uma canção não nos dá esse acesso.

Podemos, no entanto, reconhecer aqui uma pergunta: como continuar a amar alguém cuja presença já não podemos recuperar?

Talvez a esperança permita guardar a memória sem lhe pedir o impossível. As recordações continuam connosco, mas não conseguem devolver-nos quem perdemos. Aprender a viver com essa distância leva tempo e não obedece a uma fórmula. Deus não ocupa o lugar de um filho. A esperança pode, ainda assim, abrir espaço para que a vida prossiga, levando consigo esse amor.

O início da noite

Há um pormenor que aproxima as duas obras e que facilmente passa despercebido: ambas começam num espaço doméstico. Antes das grandes interpretações, há uma casa e alguém no silêncio da noite.

«Em uma noite escura, / Com ânsias, em amores inflamada, / Ó ditosa ventura! / Saí sem ser notada, / Estando a minha casa sossegada»

O último verso regressa no fim da estrofe seguinte. No comentário em prosa, a casa tem um significado preciso: representa as potências e os apetites da alma, que precisam de sossegar para que a saída seja possível.

Mas a imagem chega-nos antes da explicação. A casa adormeceu. Alguém se levanta e sai.

E sai «às escuras, segura». A expressão surpreende porque junta duas coisas que, para nós, raramente andam juntas. Gostamos de saber onde pomos os pés. Procuramos sinais, garantias, alguma confirmação de que vamos na direção certa. Aqui, a segurança nasce de uma confiança que já não depende de ver o caminho.

Na canção de Cave, o primeiro refrão parece deter-se à entrada dessa experiência: «Talvez uma longa noite escura esteja a chegar.»(“Maybe a long dark night is coming down.”)

O “talvez” deixa tudo em suspenso. Ainda não sabemos o que vem, nem quanto tempo ficará.

Os cabelos

No sonho do narrador surge uma figura desconhecida. Tem longos cabelos e pousa junto da cama:

«Através da porta do meu sonho irrompeu / Nenhum zombie, nenhum ogre, nenhum demónio ali / Mas um homem voador com longos cabelos esvoaçantes / Que pousou na grade de ferro da minha cama / Oh Senhor, penteando os seus longos cabelos brancos…» (“Through the door of my dream burst / No zombie, no ogre, no devil there / But a flying man with long trailing hair / Who perched upon the iron rail of my bed / Oh Lord, combing his long white hair…”)

A imagem é estranha, quase desconcertante. No entanto, os cabelos também têm um lugar inesperado no poema de São João da Cruz. Surgem na sétima estrofe, já na intimidade do encontro:

«Da ameia a brisa amena, / Quando eu os seus cabelos espargia, / Com sua mão serena / O colo me feria / E os meus sentidos todos suspendia.»

Há uma proximidade entre estas cenas que merece atenção: o corpo em repouso, os cabelos, um toque que fere. Os gestos não coincidem. No poema, é a mão que fere; na canção, são os cabelos que golpeiam. Em São João da Cruz, o toque suspende os sentidos. Em Cave, o efeito fica em aberto, e o refrão devolve-nos à noite.

Não precisamos de fazer corresponder cada pormenor para ouvir um possível eco. Os cabelos aproximam a canção de uma das passagens mais físicas do poema, depois de a estrofe anterior nos ter mostrado o Amado adormecido sobre o peito da amada.

O encontro místico tem corpo. Há uma mão, um pescoço, o movimento dos cabelos. Talvez seja também isso que prende Cave ao poema: a maneira como uma experiência difícil de dizer se torna próxima através de gestos tão concretos.

Meia-noite

«Nessa noite ditosa, / Em segredo, pois que ninguém me via / Nem via eu mais cousa, / Sem outra luz nem guia, / Senão a que no coração ardia.»

«Nem via eu mais cousa.» Quem caminha já não consegue orientar-se pelo que vê. Resta-lhe aquela luz interior, que o poema descreve como ardor. Não permite distinguir o que está à frente, mas mantém vivo o desejo de avançar.

É a hora da fé, a meia-noite que São João da Cruz diz ser totalmente escura. A canção de Cave parece permanecer aí durante grande parte do tempo, sem pressa de resolver o que a noite trouxe.

O próprio santo aproxima esta experiência da paixão de Jesus. No horto, Jesus pede que o cálice lhe seja afastado e entrega-se à vontade do Pai. Na cruz, o abandono toma a forma de um grito: «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?»

Os evangelhos contam que, em pleno dia, as trevas cobriram a terra. Ao comentar esse momento, São João da Cruz fala do «maior abandono que recebeu nos sentidos durante a sua vida» e acrescenta: «Mas, foi também com ele que realizou a maior obra da sua vida, maior do que as obras e milagres que tinha feito no céu e na terra, que foi reconciliar e unir pela graça o género humano com Deus.» (Subida do Monte Carmelo, livro II, capítulo 7)

São palavras difíceis. Não tornam o sofrimento desejável nem autorizam ninguém a explicar, de fora, a dor dos outros. Dizem, antes, que o abandono sentido por Jesus não tornou impossível a sua entrega. Naquele momento em que a presença do Pai parece faltar, a relação com Ele continua a exprimir-se, mesmo que seja num grito.

Talvez por isso esta passagem ajude a compreender a noite escura. A ausência de consolo não permite concluir que se está sozinho.

O nome

A certa altura, a figura da canção diz o nome do narrador. E ele espanta-se: como podia aquele desconhecido sabê-lo, se nem ele próprio sabia o seu nome?

«Ó Senhor, a pentear os seus longos cabelos brancos e a dizer o meu nome / Como podia ele saber, se nem eu sabia o meu nome?» (“Oh, Lord, combing his long white hair and saying my name / How could he know, when I did not even know my name?”)

O gesto de pentear os cabelos e a revelação do nome pertencem à mesma cena. Há qualquer coisa de familiar naquele movimento, apesar da estranheza de quem o faz. É nesse ambiente, junto da cama, que o narrador se descobre conhecido.

No poema, a quarta estrofe abre uma possibilidade de aproximação:

«Só esta me guiava / Mais certa do que a luz do meio-dia / Aonde me esperava quem eu o bem sabia / Em parte onde ninguém aparecia»

O Amado já a espera. Ela ainda atravessa a noite, mas a relação que a move existe antes da chegada. Não vê o caminho e, no entanto, sabe para quem vai.

Há também uma particularidade no verbo escolhido: «sabía», no original castelhano. Podemos deter-nos nele sem o obrigar a dizer mais do que diz. Não há aqui uma referência explícita ao nome, mas há um conhecimento íntimo, difícil de reduzir ao simples reconhecimento de alguém.

Nos comentários, São João da Cruz descreve a noite como «oculta e secreta para quem a sofre» e fala de Deus a ensinar a alma «sem que ela faça alguma coisa ou a entenda» (Noite Escura, livro I, capítulo 9, e livro II, capítulo 5).

Reconhecemos, por vezes, alguma coisa desta experiência: só mais tarde percebemos o que se estava a transformar em nós. Enquanto acontece, faltam-nos palavras. Na leitura do santo, essa falta de compreensão não impede a ação de Deus.

É a esta luz que o nome dito na canção ganha uma ressonância particular. O narrador não recebe uma explicação para a noite ou para a perda. Recebe o seu nome da boca de outro. Quando já não sabe dizer quem é, alguém o reconhece.

A aproximação ao poema pode fazer-se aqui, sem confundir as duas obras. Em ambas, o encontro depende de uma relação que a personagem não domina por inteiro. Há alguém à sua espera, alguém que sabe dela.

São Paulo dá palavras a esta esperança quando escreve que agora vemos como por um espelho, em enigma, e conhecemos apenas em parte; um dia conheceremos como somos conhecidos. Por enquanto, pode bastar esta confiança: o pouco que sabemos de Deus não mede tudo o que Ele sabe de nós.

A alvorada

«Ó noite que guiaste! / Ó noite amável mais do que a alvorada! Ó noite que juntaste / Amado com amada, / Amada no Amado transformada!»

Nesta estrofe, a noite é tratada como alguém a quem se agradece. Foi ela que guiou e tornou possível a união. A voz do poema chega a preferi-la à alvorada.

Mas é preciso escutar de onde vem este louvor. Fala quem já encontrou o Amado. Quem ainda está a meio do caminho talvez só consiga sentir o medo, a demora ou o cansaço.

Não podemos exigir a quem sofre que agradeça a sua noite. A estrofe nasce de uma experiência de união e olha para trás a partir dela. Usá-la como uma resposta pronta à dor seria esquecer o percurso que a tornou possível.

Na última estrofe, já quase não há movimento:

«Quedei-me e olvidei-me, / O rosto reclinei sobre o Amado, / Cessou tudo e deixei-me / Deixando o meu cuidado / Por entre as açucenas olvidado»

Depois da saída e da procura, chega o repouso. A amada deixa de estar ocupada consigo. Pode abandonar o cuidado porque encontrou em quem descansar.

É uma imagem delicada da confiança. Não há uma explicação final de tudo o que aconteceu. Há um rosto reclinado sobre o Amado e, por momentos, a possibilidade de deixar de segurar a própria vida com tanta força.

Uma bonita canção country

No fim, apetece voltar à observação de Cave. Uma bonita canção country.

A frase parece ligeira depois de tudo isto. Talvez faça bem ouvi-la assim.

Antes dos comentários e dos tratados, o poema de São João da Cruz era uma canção. As imagens já lá estavam: a casa sossegada, a escada secreta, a luz no coração, os cabelos, as açucenas. A explicação em prosa viria depois, procurando acompanhar aquilo que os versos tinham conseguido dizer de outra maneira.

Quatro séculos e meio mais tarde, Cave escuta o poema e escreve a sua própria canção. Podemos ouvi-la sem conhecer os graus da oração ou o sentido de cada imagem na obra do santo. Entramos num sonho, vemos uma figura junto da cama e ouvimos um nome que o narrador já não sabia.

A noite continua. A canção não nos dá a certeza de que esteja prestes a acabar.

Talvez seja aí que este encontro entre Cave e São João da Cruz mais nos toque: alguém continua sem ver o caminho, mas descobre, no escuro, que há quem o conheça.

A música: https://youtu.be/J7cgUhkEB_U?si=EZCu9Ia9ZYKhAA2B

Júlio Pereira

Carmelita Secular

Partilhar:

Artigos

Relacionados

A urgência de deixar-se habitar pelo Amor

A urgência de deixar-se habitar pelo Amor

Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

read more

A Noite do Algoritmo

Uma outra leitura de São João da Cruz Ao longo das próximas linhas tentarei fazer uma leitura do nosso tempo à luz da mística de São João da Cruz, aproximando a experiência espiritual da “noite escura” do contexto atual dominado por algoritmos e pelo excesso de...

read more

Os jovens e o Carmelo

Quando a Igreja portuguesa apresenta e traz á luz o Quadro de Referência Para a Pastoral Juvenil, o Autor fala aqui, no Claustro, de pastoral juvenil, entre os carmelitas descalços portugueses. E que base sólida temos nós, Carmelitas, para oferecer aos jovens portugueses?

read more