“Long Dark Night”, de Nick Cave, e a Noite Escura de São João da Cruz
Em 2026, celebramos o Ano Jubilar de São João da Cruz: trezentos anos sobre a sua canonização e cem sobre a proclamação como Doutor da Igreja. As datas dão-nos uma ocasião para voltar aos seus escritos. Mas o que nos leva a permanecer neles é outra coisa: a impressão de que aquele homem, tão distante do nosso tempo, ainda sabe dizer alguma coisa sobre o que vivemos. Até sobre aquilo que mal conseguimos explicar a nós próprios.
É talvez por isso que o encontramos onde menos esperamos.
“Long Dark Night”, terceiro single do álbum Wild God, lançado em 2024, nasceu desse encontro. Ao apresentar a canção, Nick Cave disse que se inspirara num dos maiores e mais poderosos poemas de conversão alguma vez escritos. E acrescentou, com uma simplicidade desarmante, que, no fundo, era uma bonita canção country.
O poema é a Noite Escura, de São João da Cruz. Em oito estrofes, alguém se levanta e sai de casa durante a noite. Vai às escondidas, por uma escada secreta, ao encontro do Amado.
De um lado, temos um frade carmelita cuja poesia cresceu à sombra da prisão de Toledo, onde o encerraram os irmãos da própria ordem. Do outro, um músico australiano com uma vida atravessada pela dependência, pela perda e pelo luto. Seria apressado aproximá-los como se falassem da mesma experiência ou a partir da mesma fé. Ainda assim, há qualquer coisa naquela noite que permite escutar um através do outro.
A reflexão de Tomáš Halík sobre uma fé que também se vive na angústia ajuda a abrir essa possibilidade. Há encontros que começam precisamente quando as certezas deixam de chegar.
A noite tem horas
Quando ouvimos falar de uma “noite escura”, pensamos quase sempre num período difícil. Uma doença, uma perda, uma crise. Algo que se atravessa como se pode, à espera de que passe e a luz regresse.
É uma leitura compreensível. O poema, porém, leva-nos um pouco mais longe.
Na Subida do Monte Carmelo, São João da Cruz compara este caminho às horas de uma noite:
«A primeira, a dos sentidos, é parecida à primeira parte da noite, quando se começa a carecer do objeto das coisas. A segunda, que é a fé, compara-se à meia-noite, por ser totalmente escura. A terceira, que é Deus, compara-se à aurora que precede imediatamente a luz do dia».
São momentos diferentes de uma só noite. Mesmo a aurora ainda pertence a ela: anuncia o dia, mas não é o dia.
No poema, aliás, nunca assistimos ao amanhecer. A alvorada aparece apenas na quinta estrofe, numa comparação em que a noite acaba por ser declarada mais amável.
Vale a pena demorarmo-nos aqui. Se esperarmos apenas que a escuridão termine, talvez nos escape o que acontece dentro dela. Para São João da Cruz, a noite é já lugar de encontro. A luz plena fica além desta vida; por agora, há vislumbres, e aprende-se a caminhar com eles.
Mas como se caminha assim?
Na obra do santo, a fé, a esperança e a caridade sustentam esse percurso. Cada uma corresponde a uma potência da alma: a fé ao entendimento, a esperança à memória, a caridade à vontade. E a sua ação passa por libertar a alma daquilo a que se agarra. A propósito da memória, escreve:
«Quanto mais a alma limpar a memória das formas e recordações que não são de Deus, tanto mais em Deus terá a memória e mais vazia para esperar que Ele a preencha plenamente.» (Subida do Monte Carmelo, livro III, capítulo XV)
Estas palavras exigem cuidado, sobretudo quando as aproximamos do luto. Purificar a memória não pode ser entendido, sem mais, como apagar as recordações ou deixar para trás quem morreu.
No caso de um pai que perdeu dois filhos, como Nick Cave, seria particularmente insensível transformar esta passagem numa explicação da sua dor. Não sabemos o que se passa na intimidade de outra pessoa, e uma canção não nos dá esse acesso.
Podemos, no entanto, reconhecer aqui uma pergunta: como continuar a amar alguém cuja presença já não podemos recuperar?
Talvez a esperança permita guardar a memória sem lhe pedir o impossível. As recordações continuam connosco, mas não conseguem devolver-nos quem perdemos. Aprender a viver com essa distância leva tempo e não obedece a uma fórmula. Deus não ocupa o lugar de um filho. A esperança pode, ainda assim, abrir espaço para que a vida prossiga, levando consigo esse amor.
O início da noite
Há um pormenor que aproxima as duas obras e que facilmente passa despercebido: ambas começam num espaço doméstico. Antes das grandes interpretações, há uma casa e alguém no silêncio da noite.
«Em uma noite escura, / Com ânsias, em amores inflamada, / Ó ditosa ventura! / Saí sem ser notada, / Estando a minha casa sossegada»
O último verso regressa no fim da estrofe seguinte. No comentário em prosa, a casa tem um significado preciso: representa as potências e os apetites da alma, que precisam de sossegar para que a saída seja possível.
Mas a imagem chega-nos antes da explicação. A casa adormeceu. Alguém se levanta e sai.
E sai «às escuras, segura». A expressão surpreende porque junta duas coisas que, para nós, raramente andam juntas. Gostamos de saber onde pomos os pés. Procuramos sinais, garantias, alguma confirmação de que vamos na direção certa. Aqui, a segurança nasce de uma confiança que já não depende de ver o caminho.
Na canção de Cave, o primeiro refrão parece deter-se à entrada dessa experiência: «Talvez uma longa noite escura esteja a chegar.»(“Maybe a long dark night is coming down.”)
O “talvez” deixa tudo em suspenso. Ainda não sabemos o que vem, nem quanto tempo ficará.
Os cabelos
No sonho do narrador surge uma figura desconhecida. Tem longos cabelos e pousa junto da cama:
«Através da porta do meu sonho irrompeu / Nenhum zombie, nenhum ogre, nenhum demónio ali / Mas um homem voador com longos cabelos esvoaçantes / Que pousou na grade de ferro da minha cama / Oh Senhor, penteando os seus longos cabelos brancos…» (“Through the door of my dream burst / No zombie, no ogre, no devil there / But a flying man with long trailing hair / Who perched upon the iron rail of my bed / Oh Lord, combing his long white hair…”)
A imagem é estranha, quase desconcertante. No entanto, os cabelos também têm um lugar inesperado no poema de São João da Cruz. Surgem na sétima estrofe, já na intimidade do encontro:
«Da ameia a brisa amena, / Quando eu os seus cabelos espargia, / Com sua mão serena / O colo me feria / E os meus sentidos todos suspendia.»
Há uma proximidade entre estas cenas que merece atenção: o corpo em repouso, os cabelos, um toque que fere. Os gestos não coincidem. No poema, é a mão que fere; na canção, são os cabelos que golpeiam. Em São João da Cruz, o toque suspende os sentidos. Em Cave, o efeito fica em aberto, e o refrão devolve-nos à noite.
Não precisamos de fazer corresponder cada pormenor para ouvir um possível eco. Os cabelos aproximam a canção de uma das passagens mais físicas do poema, depois de a estrofe anterior nos ter mostrado o Amado adormecido sobre o peito da amada.
O encontro místico tem corpo. Há uma mão, um pescoço, o movimento dos cabelos. Talvez seja também isso que prende Cave ao poema: a maneira como uma experiência difícil de dizer se torna próxima através de gestos tão concretos.
Meia-noite
«Nessa noite ditosa, / Em segredo, pois que ninguém me via / Nem via eu mais cousa, / Sem outra luz nem guia, / Senão a que no coração ardia.»
«Nem via eu mais cousa.» Quem caminha já não consegue orientar-se pelo que vê. Resta-lhe aquela luz interior, que o poema descreve como ardor. Não permite distinguir o que está à frente, mas mantém vivo o desejo de avançar.
É a hora da fé, a meia-noite que São João da Cruz diz ser totalmente escura. A canção de Cave parece permanecer aí durante grande parte do tempo, sem pressa de resolver o que a noite trouxe.
O próprio santo aproxima esta experiência da paixão de Jesus. No horto, Jesus pede que o cálice lhe seja afastado e entrega-se à vontade do Pai. Na cruz, o abandono toma a forma de um grito: «Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?»
Os evangelhos contam que, em pleno dia, as trevas cobriram a terra. Ao comentar esse momento, São João da Cruz fala do «maior abandono que recebeu nos sentidos durante a sua vida» e acrescenta: «Mas, foi também com ele que realizou a maior obra da sua vida, maior do que as obras e milagres que tinha feito no céu e na terra, que foi reconciliar e unir pela graça o género humano com Deus.» (Subida do Monte Carmelo, livro II, capítulo 7)
São palavras difíceis. Não tornam o sofrimento desejável nem autorizam ninguém a explicar, de fora, a dor dos outros. Dizem, antes, que o abandono sentido por Jesus não tornou impossível a sua entrega. Naquele momento em que a presença do Pai parece faltar, a relação com Ele continua a exprimir-se, mesmo que seja num grito.
Talvez por isso esta passagem ajude a compreender a noite escura. A ausência de consolo não permite concluir que se está sozinho.
O nome
A certa altura, a figura da canção diz o nome do narrador. E ele espanta-se: como podia aquele desconhecido sabê-lo, se nem ele próprio sabia o seu nome?
«Ó Senhor, a pentear os seus longos cabelos brancos e a dizer o meu nome / Como podia ele saber, se nem eu sabia o meu nome?» (“Oh, Lord, combing his long white hair and saying my name / How could he know, when I did not even know my name?”)
O gesto de pentear os cabelos e a revelação do nome pertencem à mesma cena. Há qualquer coisa de familiar naquele movimento, apesar da estranheza de quem o faz. É nesse ambiente, junto da cama, que o narrador se descobre conhecido.
No poema, a quarta estrofe abre uma possibilidade de aproximação:
«Só esta me guiava / Mais certa do que a luz do meio-dia / Aonde me esperava quem eu o bem sabia / Em parte onde ninguém aparecia»
O Amado já a espera. Ela ainda atravessa a noite, mas a relação que a move existe antes da chegada. Não vê o caminho e, no entanto, sabe para quem vai.
Há também uma particularidade no verbo escolhido: «sabía», no original castelhano. Podemos deter-nos nele sem o obrigar a dizer mais do que diz. Não há aqui uma referência explícita ao nome, mas há um conhecimento íntimo, difícil de reduzir ao simples reconhecimento de alguém.
Nos comentários, São João da Cruz descreve a noite como «oculta e secreta para quem a sofre» e fala de Deus a ensinar a alma «sem que ela faça alguma coisa ou a entenda» (Noite Escura, livro I, capítulo 9, e livro II, capítulo 5).
Reconhecemos, por vezes, alguma coisa desta experiência: só mais tarde percebemos o que se estava a transformar em nós. Enquanto acontece, faltam-nos palavras. Na leitura do santo, essa falta de compreensão não impede a ação de Deus.
É a esta luz que o nome dito na canção ganha uma ressonância particular. O narrador não recebe uma explicação para a noite ou para a perda. Recebe o seu nome da boca de outro. Quando já não sabe dizer quem é, alguém o reconhece.
A aproximação ao poema pode fazer-se aqui, sem confundir as duas obras. Em ambas, o encontro depende de uma relação que a personagem não domina por inteiro. Há alguém à sua espera, alguém que sabe dela.
São Paulo dá palavras a esta esperança quando escreve que agora vemos como por um espelho, em enigma, e conhecemos apenas em parte; um dia conheceremos como somos conhecidos. Por enquanto, pode bastar esta confiança: o pouco que sabemos de Deus não mede tudo o que Ele sabe de nós.
A alvorada
«Ó noite que guiaste! / Ó noite amável mais do que a alvorada! Ó noite que juntaste / Amado com amada, / Amada no Amado transformada!»
Nesta estrofe, a noite é tratada como alguém a quem se agradece. Foi ela que guiou e tornou possível a união. A voz do poema chega a preferi-la à alvorada.
Mas é preciso escutar de onde vem este louvor. Fala quem já encontrou o Amado. Quem ainda está a meio do caminho talvez só consiga sentir o medo, a demora ou o cansaço.
Não podemos exigir a quem sofre que agradeça a sua noite. A estrofe nasce de uma experiência de união e olha para trás a partir dela. Usá-la como uma resposta pronta à dor seria esquecer o percurso que a tornou possível.
Na última estrofe, já quase não há movimento:
«Quedei-me e olvidei-me, / O rosto reclinei sobre o Amado, / Cessou tudo e deixei-me / Deixando o meu cuidado / Por entre as açucenas olvidado»
Depois da saída e da procura, chega o repouso. A amada deixa de estar ocupada consigo. Pode abandonar o cuidado porque encontrou em quem descansar.
É uma imagem delicada da confiança. Não há uma explicação final de tudo o que aconteceu. Há um rosto reclinado sobre o Amado e, por momentos, a possibilidade de deixar de segurar a própria vida com tanta força.
Uma bonita canção country
No fim, apetece voltar à observação de Cave. Uma bonita canção country.
A frase parece ligeira depois de tudo isto. Talvez faça bem ouvi-la assim.
Antes dos comentários e dos tratados, o poema de São João da Cruz era uma canção. As imagens já lá estavam: a casa sossegada, a escada secreta, a luz no coração, os cabelos, as açucenas. A explicação em prosa viria depois, procurando acompanhar aquilo que os versos tinham conseguido dizer de outra maneira.
Quatro séculos e meio mais tarde, Cave escuta o poema e escreve a sua própria canção. Podemos ouvi-la sem conhecer os graus da oração ou o sentido de cada imagem na obra do santo. Entramos num sonho, vemos uma figura junto da cama e ouvimos um nome que o narrador já não sabia.
A noite continua. A canção não nos dá a certeza de que esteja prestes a acabar.
Talvez seja aí que este encontro entre Cave e São João da Cruz mais nos toque: alguém continua sem ver o caminho, mas descobre, no escuro, que há quem o conheça.
A música: https://youtu.be/J7cgUhkEB_U?si=EZCu9Ia9ZYKhAA2B


