A mensagem de Cristo sempre foi uma mensagem de Amor, de dádiva, de compaixão e de proteção aos mais vulneráveis. O aborto parece ser, muitas vezes, a única saída para uma situação difícil, mas não é. Existem outras soluções que não passam pela morte de um ser frágil e inocente.
Inicio esta partilha com uma célebre citação de Jesus Cristo: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo, 13, 34-35).
A mensagem de Cristo sempre foi uma mensagem de Amor, de dádiva, de compaixão e de proteção aos mais vulneráveis. De respeito por cada um, de entrega e aceitação, de apoio e ajuda na sua jornada de vida, desde o seu início até ao seu fim. Recordamos o Amor de Cristo por Lázaro, pela viúva que deu as suas últimas moedas no templo, pelas crianças que o recebiam com alegria, pelos pecadores que se convertiam. E também a tristeza que Ele sentia quando uma pessoa não se convertia, como, por exemplo, quando o jovem rico não foi capaz de largar os bens que possuía para O seguir livremente.
E porque começo esta partilha falando do Amor? Porque sinto que a nossa sociedade tem vindo a perder esta capacidade de amar incondicionalmente e cada vez mais se fecha nas suas razões, nos seus problemas e nas suas condicionantes, para não o fazer.
E um dos exemplos onde a sociedade moderna tem demonstrado a sua falta de amor, de empatia e de proteção aos mais vulneráveis, é na questão da interrupção voluntária da gravidez.
Desde os tempos antigos de Moisés, Deus deu ao Seu povo vários mandamentos, sendo o 5º “Não matarás” (Ex 20, 13). Um mandamento que todos gostamos de pensar que seguimos e cumprimos sem falhar. Mas, infelizmente, tal não acontece sempre. Quando a Igreja Católica afirma, no ponto 2258 do Artigo 5 do Catecismo da Igreja Católica, que “a vida humana é sagrada porque, desde a sua origem, postula a ação criadora de Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim” e que “Só Deus é senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser humano inocente”, ela demonstra a inviolabilidade da vida humana desde o seu início, visto ser uma oferta divina, uma bênção que devemos aproveitar e valorizar. O Catecismo da Igreja Católica reforça a mensagem que já o Profeta Jeremias transmitia no Antigo Testamento: “Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi: antes que saísses do seio da tua mãe, Eu te consagrei” (Jr 1, 5).
Mas o que significa “desde a sua origem”? Desde quando se pode afirmar que uma vida humana teve o seu início?
A Congregação para a Doutrina da Fé, na sua publicação “Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e a dignidade da procriação”, afirma: “a vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da conceção. Desde o primeiro momento da sua existência, devem ser reconhecidos a todo o ser humano os direitos da pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo o ser inocente à vida.” É muito clara a mensagem: “a partir do momento da conceção”. Ou seja, quando a vida humana se forma no ventre materno.
Se olharmos para este início de uma perspetiva genética, verificamos que esse “início” dá-se quando o espermatozoide (gâmeta masculino) fecunda o oócito (gâmeta feminino), originando uma mistura única e específica dos genes dos pais biológicos. Ainda antes de nidar no útero, antes de estabelecer a ligação direta com o organismo materno que o vai ajudar com as trocas nutricionais. E cada ser humano apresenta um conjunto específico de genes, ou seja, as características genéticas de cada um tornam-nos seres humanos únicos e irrepetíveis, com a natural exceção de irmãos gémeos verdadeiros que partilham essa configuração genética específica. Portanto, quando uma mulher engravida, o que está a desenvolver-se no seu ventre é um ser humano único e irrepetível, um ser humano diferente do pai e da mãe biológicos, um novo ser.
Esta visão colide com a mensagem que tantas vezes ouvimos: “é o meu corpo e faço o que quiser dele”. Sim, é o corpo da mãe que passa por várias alterações fisiológicas para albergar e alimentar uma vida nova, mas essa vida não é pertence à mãe. É uma vida inocente, frágil, vulnerável, que a mãe protege e acarinha com o seu corpo. E o que faz ao seu corpo tem implicações nesta nova vida. O facto de o feto ser dependente da mãe, totalmente dependente, não dá à mãe o direito de terminar a sua vida. Dá à mãe a responsabilidade de a proteger! É a visão do amor que Cristo apela, de proteção aos mais frágeis e vulneráveis. E Ele lembra-nos “que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mt 25, 40).
Mas este tema tem ainda dois aspetos que, humanamente falando, são muito duros e difíceis de compreender: uma gravidez indesejada resultante de violação e uma gravidez marcada por uma má formação congénita que irá terminar num desfecho fatal para o bebé.
Em ambas as situações, parece que interromper a gravidez é a solução humanamente certa. Que acabará com o sofrimento e a dor que essa mulher ou esse casal sente. Não é uma situação fácil nem pretendo dar qualquer lição ou apontar dedos. Só quem passa por algo assim é que poderá dizer que sentimentos a/os invadiram. Mas partilho duas pequenas histórias que presenciei. Relativamente a uma gravidez por violação, afirmava um amigo meu, na altura em que se debatia o referendo do aborto há vários anos, que compreendia a dor dessa mulher/jovem e que não a condenava. Mas que, se ela optasse por levar a gravidez até ao fim e, caso não conseguisse ficar com a criança (compreensivelmente), a desse para adoção, ela seria uma heroína como não há igual. Porque deu todo o amor que podia àquele bebé e deu-lhe uma oportunidade de viver a vida, pois esse bebé não tinha qualquer culpa do sucedido e não deveria pagar pelo ato ignóbil de um homem. E partilho desta convicção, que uma criança, que se desenvolve no ventre materno, não tem culpa de nada e não devia perder a sua vida.
A segunda história é sobre um casal amigo dos meus pais, que frequentava a nossa casa. Um casal jovem, católico, crente em Deus, que pretendia acolher os filhos que Deus lhes desse. Na primeira gravidez, na ecografia morfológica das 22 semanas, a médica verificou que o bebé era anencéfalo, ou seja, não tinha cérebro. Ora, esta gravidez iria gerar uma criança que faleceria em minutos, não existindo qualquer possibilidade de cura ou intervenção que pudesse alterar este destino. Imediatamente a médica começou a preencher os papéis para uma interrupção da gravidez e apresentou essa opção ao casal. Eles pediram para refletir no assunto. Não eram capazes de tomar, naquele momento, essa decisão. E, após refletirem, decidiram não interromper a gravidez. São uns loucos, dir-me-ão. E concordo! São uns loucos… de amor! O bebé faleceu cerca de 15/30 minutos após o parto, mas aqueles pais afirmavam que puderam ver a cara do seu bebé, dar-lhe um nome e todo o seu amor no tempo que tiveram. Choraram, mas estavam gratos pelo tempo e pela oportunidade de amar que tiveram. Que exemplo magnífico!
O aborto parece ser, muitas vezes, a única saída para uma situação difícil, mas não é. Existem outras soluções que não passam pela morte de um ser frágil e inocente. E não posso deixar de mencionar o trabalho fantástico de tantas instituições e famílias que acolhem bebés sem pais e associações pró-vida que ajudam mães em dificuldades, como, por exemplo, a Associação Vida Norte (www.vidanorte.org/home). São exemplos de uma dádiva de amor sem igual e que mimetizam o Amor de Cristo neste Mundo. Busquemos essas opções, criemos condições que evitem situações que levem as pessoas a recorrer ao aborto, numa situação de desespero e aflição. Ouçamos as palavras da Santa Madre Teresa de Calcutá, quando nos avisava que “um país que aceita o aborto não está ensinando os seus cidadãos a amarem, mas a usarem a violência para obter o que querem”.
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