Vivemos num tempo em que a saúde mental se tornou preocupação global. A Organização Mundial da Saúde estima que 5,7% dos adultos sofram de depressão, doença que afeta relações, trabalho e vida comunitária, e que em 2021 esteve associada a 727 mil mortes por suicídio (OMS, Depressive disorder (depression) https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/depression). Nos Estados Unidos, os dados mais recentes do U.S. Centers for Disease Control and Prevention revelam que 13,1% das pessoas com doze ou mais anos apresentaram sintomas depressivos nas duas semanas anteriores ao inquérito, chegando a 19,2% nos adolescentes (CDC, Data Brief No. 527 https://www.cdc.gov/nchs/data/databriefs/db527.pdf). Globalmente, os transtornos mentais representaram em 2019 cerca de 125 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade, equivalendo a 4,9% do total mundial (GBD 2019, The Lancet Psychiatry https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(21)00395-3/fulltext).
Nesta altura do ano, em que estamos constantemente rodeados da iluminação festiva, das músicas alegres e festivas, do cheiro dos bolos e biscoitos do Natal, seria de esperar que se observasse um alívio nos sintomas depressivos. No entanto, a “obrigação” de nos mostrarmos alegres, por vezes intensifica a infelicidade através da tomada de consciência de que a alegria envolvente não nos contagia como “deveria” ou como vemos acontecer com tantas e tantas pessoas. De facto, um estudo da American Psychological Association indica que 89% dos adultos sentem stress entre novembro e janeiro, e 41% afirmam que esse stress aumenta durante a quadra natalícia (APA, Press release https://www.apa.org/news/press/releases/2023/11/holiday-season-stress). E embora os chamados holiday blues sejam temporários, a verdade é que trazem consigo tristeza e ansiedade, ainda que sem aumento das taxas de suicídio no Natal (Cornell, Evidence-Based Living).
Mesmo fora das épocas festivas, o stress é uma constante; e em situações de maior fragilidade, a grande questão que muitos de nós colocamos é: qual o segredo para encontrar a verdadeira felicidade? Ter uma casa? Ter o emprego que sempre desejamos? Ter muito dinheiro? Ser famoso? Ser o CEO de uma multinacional? Viajar até ao espaço? Talvez as concretizações destes sonhos nos tragam alguma alegria, mas quase nunca nos dão a verdadeira felicidade que tanto desejamos. Temos valores, vida espiritual, uma família que amamos e que nos ama, mas a tristeza, a insegurança, a falta de sentido da própria vida, por vezes, é mais forte e conduz-nos ao desânimo. Diante destes sentimentos, que são reais, mas subjetivos – ou seja, que não se conseguem objetivar, que não se conseguem encontrar razões claras e concretas que os expliquem –, devemos procurar apoio técnico especializado que nos ajude a sair desta situação. Esse apoio especializado é fundamental para conseguir recuperar o equilíbrio biológico e emocional que nos permita viver a vida da forma mais tranquila possível, dentro das circunstâncias de cada um.
A neurociência tem mostrado que experiências de consumo e recompensa social ativam circuitos dopaminérgicos, ligados à motivação e ao prazer e modulam a hormona oxitocina, que influenciam os vínculos e a confiança, mas os efeitos destas hormonas neurológicas, ou seja do cérebro, são dependentes do contexto e variam de pessoa para pessoa (Di Simplicio & Harmer, Journal of Psychopharmacology https://psycnet.apa.org/record/2016-54999-011). Estudos recentes confirmaram que a interação oxitocina-dopamina está presente em comportamentos sociais e em condições como ansiedade e depressão, mas não garante estabilidade emocional (Petersson & Uvnäs-Moberg, Biomedicines, 2024 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39595007/). Isto explica a razão porque a “alegria de estímulo” típica da quadra natalícia — luzes, compras, prendas, convívios — sobe depressa e depressa desce: os sistemas de recompensa habituam-se ao estímulo e exigem novidade permanente para manter o mesmo efeito. Já a alegria ligada a vínculo, à gratidão e ao sentido tende a ser mais estável, porque envolve redes afetivas profundas e não apenas picos de prazer.
Para nós, cristãos, esta alegria vinculada e estável, é robustecida pela vivência da nossa fé. Sabermo-nos habitados por Cristo, amados por Deus e fortalecidos pelo Espírito Santo, é uma graça de Deus que pode e deve ser usada em prol da nossa saúde mental, a par do tratamento médico. Neste tempo do Advento, a Igreja desafia-nos a abrandar o ritmo para nos recentrarmos no essencial, preparando o nosso coração e a nossa alma para a alegria da vinda de Deus no Natal.
Bento XVI descreveu o Advento como um tempo que «convida a pausar em silêncio para compreender uma Presença» (Homilia nas I Vésperas do primeiro Domingo do Advento, 28/11/2009). E Francisco reforçou: «Advento é o tempo para recordar a proximidade de Deus que desceu para habitar no meio de nós. Façamos nossa a oração tradicional: ‘Vem, Senhor Jesus’» (Homilia, Basílica de São Pedro, 29/11/2020). Por sua vez, Leão XIV, na Audiência Jubilar deste ano, acrescentou: «O Advento é um tempo para reacender a esperança e para aprender a reconhecer Deus que vem, não apenas nos grandes sinais, mas na simplicidade do quotidiano. É um convite a abrir espaço para a luz que não se apaga» (Audiência Jubilar, 6/12/2025, Vaticano https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2025/documents/20251206-udienza-giubilare.html).
Os Santos Carmelitas traduzem este convite em ensinamentos para a vida concreta. Santa Teresa de Jesus ensina-nos que a felicidade não é euforia, mas paz ativa de quem sabe que Deus o ama e mais nada o deve preocupar: «Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa; Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta; só Deus basta». Por sua vez, São João da Cruz recorda-nos que a alegria verdadeira amadurece na noite: «Ó noite que me guiaste, ó noite mais amável que a aurora…». E Santa Isabel da Trindade, filha espiritual de ambos, ensina-nos que a verdadeira felicidade está em Deus e Deus quer habitar em nós, já nesta terra: «Encontrei o meu Céu na terra… Deus está na minha alma. Tu em mim e eu em Ti». Todas estas vozes santas convergem para uma certeza: a alegria cristã não é fuga, é companhia; não depende de estímulos externos, mas de um encontro que dá um sentido profundo e duradouro: «Com Cristo a alegria nasce e renasce sempre» (EVANGELII GAUDIUM, Papa Francisco).
O desafio de encontrar a verdadeira felicidade é muito exigente e, por vezes, difícil e angustiante, mas, com as ajudas técnicas certas e com a graça de Deus, pode ser ultrapassado.
Linhas de apoio psicológico:
- SNS 24 (808 24 24 24 – Opção 4)
- Linha 1411
- SOS Voz Amiga: 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 (Diariamente das 15:30h às 00:30h).
- Conversa Amiga: 808 237 327 / 210 027 159 (Diariamente das 15:00h às 22:00h).
- Vozes Amigas de Esperança de Portugal: 222 030 707 (16:00h – 22:00h).
- Telefone da Amizade: 222 080 707 (16:00h – 23:00h).
- Voz de Apoio: 225 506 070 (21:00h – 24:00h).


