A parábola do jardim

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Ó que belíssimo Claustro, estimados amigos, onde nos voltamos a encontrar! Desta vez para escutarmos Santa Teresa de Jesus numa parábola sobre a oração.

Vamos recorrer ao Livro da Vida, que é a sua primeira obra de literatura espiritual, e descobrir que mais que uma autobiografia, narra as maravilhas que o Senhor fez na sua vida. Teresa vai contar-nos, através desta parábola, a sua experiência orante que a levou a contemplar os mistérios de Deus e de como, através da oração, vão crescendo na sua alma as virtudes como resultado da sua vida espiritual. Damos-lhe por momentos a palavra: «Imagine-se o principiante a começar a plantar um horto em terra muito infrutífera e com muitas más ervas a fim de que nele o Senhor se possa deleitar. Sua Majestade arranca as ervas más e vai plantando as boas. Vamos supor que isso já está feito quando uma alma se determina a ter oração e começa a exercitar-se nela. Como bons hortelãos, e com a ajuda de Deus, devemos procurar que estas plantas cresçam, cuidando de as regar a fim de que não morram e venham a dar flores que exalem um forte odor, capaz de satisfazer a este nosso Senhor. Assim, Ele virá muitas vezes a este horto para se deleitar e recrear no meio destas virtudes» (Vida 11, 6).

«Vejamos, agora, a maneira de o regar, a fim de saber o que temos a fazer e o trabalho que nos vai custar, se o lucro dá para o trabalho e por quanto tempo há de durar. A mim, parece-me que se pode regar de quatro maneiras: Primeira, tirar a água de um poço à custa de muito esforço pessoal; segunda, tirá-la com uma nora de alcatruzes, puxada por um torno (assim a tirei algumas vezes): dá menos trabalho do que a primeira e tira-se mais água; terceira, trazê-la de um rio ou ribeiro: rega-se muito melhor, a terra fica mais empapada de água, não é preciso regar tantas vezes, o hortelão tem muito menos trabalho; quarta, a muita chuva com que o Senhor o rega sem trabalho algum da nossa parte e incomparavelmente muito melhor do que tudo quanto ficou dito» (V 11, 7).

Santa Teresa começa com a belíssima imagem de que a pessoa é um jardim, que se pode regar de quatro maneiras até despontarem flores de suave beleza e perfume. E dar flores ou frutos é uma linda imagem evangélica de S. João: «nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto» (Jo 15, 8).

Para entender donde surge esta linguagem simbólica olhamos para o processo de comunicação das experiências místicas e podemos distinguir três momentos: receber a graça, entendê-la e expressá-la. Ora o símbolo surge entre o segundo e o terceiro momento para verbalizar uma experiência inefável que se deseja transmitir e que se pretende seja entendida. Nasce, pois, a linguagem simbólica do esforço de partilhar uma experiência. Teresa, como todos os místicos, escreve desde a sua vivência pessoal e fala por experiência: «do que o Senhor me tem ensinado por experiência» (V 10, 9), e «digo-o porque o sei por experiência» (V 11, 13).

Voltando à parábola, Teresa começa no capítulo 11 a falar do primeiro grau de oração e dá conselhos práticos ao principiante. Começa assim o tratado de oração explicando-nos que vamos iniciar uma tarefa séria, e não apenas uma prática, porque a oração envolve a nossa vida toda e, naturalmente, traz exigências e consequências muito próprias. A primeira exigência é de que o orante tem de cuidar a fundo da sua vida de cada dia, porque a oração não acontece fora da vida. Pede coerência entre o que se reza e o que se vive e, como consequência, passaremos a ser «servos do amor» (Vida 11, 1) que não é escravidão, mas uma grande dignidade que nos confere o Senhor: a de nos relacionarmos com Ele e a partir d’Ele qualificar a relação com a família, amigos, conhecidos…

Para compreendermos a importância desta relação diz-nos Teresa que «a meu ver, a oração mental não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós, com Quem sabemos que nos ama» (V 8, 5). No centro desta definição encontramos a explicação de que Deus é quem nos amou primeiro (cf. Jo 15, 15-16) e a oração é a resposta a esse amor numa relação de amigos, dedicando a essa amizade momentos em que o mais importante não são as palavras, mas a presença, criar um momento e um espaço onde estamos presentes apesar das distrações e fadigas da nossa vida do dia a dia.

Olhemos então para as quatro formas de regar o jardim, quer dizer os quatro graus de oração que indicam um intensificar da nossa relação com Deus, a intuição da progressiva ação de Deus na alma, ilustrada pela gradual facilidade com que a água é levada ao jardim. A água é o símbolo de caráter evolutivo que toma diferentes formas conforme o grau de oração. O jardim é o símbolo que dá estrutura a esta parábola e contém todos os outros símbolos, depois encontramos o Jardineiro que é quem faz avançar os graus de oração. Por último as flores que se encarregam de narrar o avanço do processo que representa cada um dos graus de oração. São quatro símbolos, mas que cada um de nós, conforme a nossa experiência orante, os pode interpretar desde a própria existência.

Teresa, no entanto, não se esquece de referir as virtudes que correspondem a cada maneira de regar o jardim e dá bons conselhos sobre a oração: i) o primeiro grau é a procura de Deus através da oração vocal e da meditação, com uma orientação voltada para contemplação, pois devemos elevar a mente e o coração à presença de Cristo e à meditação dos Seus mistérios, e recomenda-nos que avaliemos o que pode estar a impedir a nossa oração;

ii) o segundo grau orienta-nos rumo à quietude, uma forma de oração mais mística, doada por Deus, sentindo os efeitos da presença de Deus que garantem uma oração autêntica, sem esquecer a nossa colaboração na humildade e fortaleza no caminho da cruz;

iii) o terceiro grau intensifica a passividade e refere-se à comunhão entre os que amam Cristo e se ajudam mutuamente no caminho da oração, na missão apostólica e em ser cada dia mais Igreja;

iv) o quarto grau é rico de oração mística e mostra formas sempre novas de relacionamento com Deus suscitadas pelo próprio Deus, e onde Deus se manifesta na profunda interioridade humana. Santa Teresa valoriza muito os frutos maduros que produz esta forma de receber a água de Deus, porque tudo deve estar em função do serviço aos irmãos.

Reparemos: Santa Teresa não faz uma rigorosa exposição científica dos graus de oração cristã; antes nos propõe ir mais além e procurar progredir no relacionamento com Deus ao qual todos somos chamados. A experiência de Teresa deve, por isso, ajudar-nos a discernir a nossa oração que sempre nos leva à santidade. Deus aproximando-se de nós transforma-nos e conforma-nos com Cristo crucificado para o serviço da Igreja e do mundo.

Esta imagem da parábola teresiana do jardim ajuda-nos a lançar um novo olhar sobre a pessoa humana e a darmo-nos conta dos diferentes graus de relação com Deus, e de uns com os outros, além de termos um olhar positivo sobre a formosura e beleza do ser humano. Fica-nos o desafio de uma boa leitura – O Livro da Vida de Santa Teresa de Jesus. (https://carmelo.pt/inicio/44-livro-da-vida-autobiografia.html)

Isabela Neves

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