Ago 22, 2023 | A luz obscura, Espiritualidade

Professor universitário. Carmelita secular

A propósito da cananeia e da samaritana

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O Evangelho de hoje ajudou-me neste processo lento que é a integração da Liturgia das Horas na minha oração diária. É preciso manter viva a fonte da História da Salvação, pois só assim poderemos viver a fé de forma plena.

No Evangelho de hoje, Jesus começa por afastar a Cananeia (Mateus 15, 21-28):

«Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio». Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós». Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».

Hoje, no século XXI, esta resposta parece cruel. Como é que a Igreja que é de “todos, todos, todos”, como insistiu tanto o Papa Francisco nestas Jornadas Mundiais da Juventude, pode ter este episófio no cerne da sua fundação? Sabemos o que aconteceu depois. A Igreja foi rapidamente aberta aos gentios por São Paulo. E mesmo esta passagem, logo a seguir se contraria a si própria, porque Jesus, movido pela fé da cananeia, lhe concede o seu pedido:

“Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor». Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos». Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos». Então, Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.”

E o Evangelho tem mais episódios em que Jesus acolhe os gentios, como o centurião romano e a samaritana. Portanto, o que resulta daqui é que o que importa é a fé. Há uma espécie de lei geral, «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel», mas há sempre exceções à regra, e essas exceções, nos Evangelhos, são baseadas na fé.

Mas, mesmo assim, é lícito interrogarmo-nos sobre o porquê dessa regra geral. Também no episódio da samaritana Jesus diz

«Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus» (João 4, 22).

Portanto, a história da salvação atravessa a história do povo judeu e Jesus é o culminar dessa história. Assim, não podemos desligar o Antigo Testamento (AT) do Novo Testamento (NT). Esta é uma afirmação que pode parecer banal a um católico sólido e esclarecido, mas que anda mal cimentada em almas menos lúcidas, como a minha. Por exemplo, tenho dificuldades na Liturgia das Horas, não tanto por falta de tempo (embora também seja um problema, por vezes), mas principalmente porque o contexto do AT nalguns salmos me parece demasiado longínquo.

O Evagelho de hoje ajudou-me neste processo lento que é a integração da Liturgia das Horas na minha oração diária. É preciso manter viva a fonte da História da Salvação, pois só assim poderemos viver a fé de forma plena. E a linguagem do AT, por mais distante que nos pareça, tem uma função dupla. Por um lado, aponta desde as origens até Jesus, no que revivemos o passado e a nossa própria história; por outro lado, dada a riqueza de interpretações que possui, pode ser a base de uma oração que efetivamente se dirige ao presente ou ao futuro. A forma como a Liturgia das Horas nos vai interpelando é uma medida da nossa fé – e essa, efetivamente, não pode ser desligada do AT.

Falando de fé, Jesus pedi-a (ou estimulava-a a manifestar-se) a quem o interpelava, como pré-requisito para receber uma graça. Isto está relacionado com outra passagem que, à primeira vista, é difícil de entender:

“E ele disse-lhes: «A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas. Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados” (Marcos 4, 11-12).

Como entender isto? “Para que não se convertam“? A questão é que se a verdade fosse explicada de forma direta e simples, de tal forma que todos compreendessem muito claramente o que teriam de fazer para se salvar, então a conversão não seria por fé mas por simples interesse próprio ou calculismo. Seria, no fundo, uma conversão forçada. Mas a verdadeira conversão, aquela pretendida por Deus, é uma conversão por amor. Isto implica um grau de incerteza e convicção interna – a fé -, para avançar no escuro. A “engenharia” prodigiosa da Salvação faz-se de tal forma que o crente avança no caminho indicado, mas atravessando zonas de luz e escuridão em que avança no limite das forças da razão, do amor e da fé. Uma fé que é comunicada por Deus na quantidade certa para manter o crente no caminho, mas exigindo simultaneamente dele o exercício da vontade. É por isso que, salvo algumas exceções, como São Paulo, não há “conversões de graça”. Tem de haver um esforço de fé e amor. Aliás, é este caminho de altos e baixos, de presenças e ausências de Deus, que é efetivamente, o caminho de amor, ou melhor, que define o amor. O amor que Deus pede é esta fidelidade no caminho difícil e longo. Tal como o amor de um casal não se mede pela paixão romântica dos primeiros anos mas pela consistência do querer estar, ao longo dos anos, assim o amor a Deus é esta longa fidelidade, tantas vezes sustentada pela fé sem sentimento.

E é neste contexto, parece-me, que se tem de entender Marcos 4, 11-12. As parábolas apontam a direção, mas não a localização exata do ponto de chegada. Porque é necessário fazer o caminho da conversão por amor.

Rui Guerra

Professor universitário. Carmelita secular

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