Mai 27, 2025 | Casa comum, Permanecei no amor

Educadora Social | Estudante de Doutoramento UMinho

BÊTANIA, ENTRE LINHAS E CLIQUES

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Betânia somos nós: espiritualidade, amizade e crescimento na adolescência como caminho de montanha.

Seguem linhas que ajudam à hermenêutica do livro BETÂNIA, e linhas cliques a ser apresentado no primeiro dia do mês de junho de 2025, Dia Mundial da Criança, no Convento do Carmo de Braga, às 15:00. Desde já, sintam-se todos convidados! O livro centra-se na figura de Betânia, uma adolescente que, em diálogo com dois adultos, consolida uma jornada de descoberta interior, de crescimento espiritual e construção de sentido. Através duma análise cuidadosa do conteúdo e seu enquadramento simbólico, propomos, neste texto uma leitura que se articula em torno duma dupla chave – educativa e espiritual –, fundamentadas numa pedagogia da escuta e da amizade com maiúscula. A narrativa releva da importância do vínculo intergeracional, da comunicação como espaço de encontro e da abertura à relação eu/tu, e ao mistério relacional como condição essencial para o crescimento humano.

1. A adolescência como tempo de travessia. A adolescência é, por excelência, um período de passagem, repleto de questões e mais questões que se avolumam e de procuras que desafiam o sentido do andar e da vida. É um verdadeiro caminho que, quando iniciado, parece não ter fim. A personagem, por nós criada para este livro, de seu nome Betânia, simboliza este espaço da adolescência que, enraizada na terra da tradição e da comunidade, levanta os olhos à procura de respostas e mais respostas, querendo caminhar com segurança e nunca só. Não é por acaso que transporta o nome dum lugar bíblico – nada mais que a casa da amizade, da escuta e do acolhimento tanto corporal como espiritual; assim vemos Betânia. O livro aqui em análise, apresenta-se, pois, como um diálogo em curso mediado por uma troca de e-mails entre Betânia e dois adultos – eu, Verónica Parente, e o Frei João Costa; propõe-se também como um itinerário de atenção à interioridade, mas não só, de reflexão, educação e espiritualidade.

É sempre Betânia quem abre as portas ao diálogo.

2. A adolescência como lugar de procura e de sentido. Betânia enquanto personagem evoca uma adolescência sedenta de sabedoria, inquietude e sensibilidade pelo invisível. A sua alma crescentemente “curiosa e ágil”, remete para o que Viktor Frankl (2008) designou como a “vontade de sentido”, uma característica inerente à condição humana. Para Frankl, o ser humano não vive apenas de instinto ou prazer, mas da procura incessante por um significado, um sentido para a vida. Esta sede de procura e de transcendência é também apontada por Buber (2002) como expressão do “Eu-Tu”, ou seja, de relação autêntica com o outro e com o sagrado. Ao procurar entender o mundo e o coração dos outros, Betânia inscreve-se numa pedagogia da escuta e da alteridade e, muitas vezes, de urgência de silêncio, para que possa parar, pensar, solidificar o caminho que a espera, e também questionar. A educação, como referem Freire (1996) e Gadotti (2003), deve ser um ato dialógico, onde o educando é um sujeito ativo da sua aprendizagem, e não um mero recetor de conteúdos. Betânia é, neste sentido, tanto educanda como educadora, na medida em que provoca em nós, adultos, que a acompanhamos, um constante (re)aprender.

Que grande didata temos entre nós!

3. A amizade como espaço educativo e espiritual. A relação entre Betânia, Verónica, João e os leitores, não é meramente orientadora; é uma verdadeira amizade espiritual. Esta amizade recorda a hospitalidade evangélica de Marta, Maria e Lázaro. Tal capacidade de acolhimento expressa na amizade genuína é também um espaço de crescimento mútuo.  Assim foi a escrita deste livro. Assim foi escrita cada página e cada badana e lavrado cada desenho. Como afirma Nouwen (1989), o verdadeiro acompanhamento espiritual nasce da vulnerabilidade partilhada e da escuta silenciosa. Já o grupo português Silence 4, cantava, há alguns anos, na música “Eu não sei dizer” que:

“O silêncio, deixa-me ileso,
e que importância tem?
se assim, tu vês em mim,
alguém melhor que alguém,
sei que minto, pois o que sinto,
não é diferente de ti,
 não cedo, este segredo,
é frágil e é meu”.

Quem acompanha os mais novos deve assumir-se como “candeia” e “oleiro fanado», consciente de que, mais do que ensinar ou errar, importa caminhar juntos. Esta relação educativa, sustentada no afeto, no amor e na escuta, liga-se àquilo que Pestalozzi já defendia no século XIX: a educação do coração. Segundo ele, ensinar é amar – e é na ternura dos vínculos que o saber se transforma em vida. Assim o fizemos em cada clique dado no teclado do computador, e na troca de palavras para alcançarmos escrever as páginas deste livro dirigidas às muitas Betânias do Carmo Jovem e não só, incluindo meninos.

Hoje, autores como Carbone (2019) ou Delors (1996) reforçam que aprender a ser e aprender a conviver são pilares incontornáveis da formação integral. Só assim vemos e nos (re)vemos neste “caminho da montanha” que queremos comum!

4. A linguagem como mediação de crescimento. Esta troca de e-mails revela o poder da palavra escrita como espaço de encontro, usado de forma positiva, mesmo se a velocidades espontâneas. Num tempo marcado pela aceleração digital e pela superficialidade comunicativa (Han, 2017), a escrita pausada, meditativa e interpelante dos e-mails da adolescente Betânia propõe-nos uma contra narrativa. Cada mensagem é um convite à introspeção, ao silêncio e à escuta interior – aquilo a que Rilke (2001) chamava de “vida interior”. Para ela, escrever é mais do que comunicar: é transformar, significar e também orar. E para quem a lê, é também aprender a escutar no intervalo das palavras – escutar um mundo questionadoramente adolescente que exige e grita por presença, embora o não pareça.  A linguagem torna-se, assim, um lugar de encontro maior, um lugar teológico onde se manifesta uma Presença que guia e ilumina todos os intervenientes deste livro de que hoje vos falo. Esta ideia ressoa na teopoética de Lévinas (1993), ao defender que o rosto do outro nos interpela com exigência ética e espiritual.

5. A espiritualidade como horizonte educativo. O livro propõe também uma espiritualidade quotidiana, enraizada na experiência concreta, onde se escuta a voz do Espírito na rotina e nas palavras simples das perguntas da adolescência. A fé aqui não é um dogma imposto, mas um caminho oferecido, um trilho que se percorre em liberdade e em comunidade. Nunca só. Nunca desérticos. Nunca ocos. Nunca ilhas. Segundo Marcel (2006), a fé é uma abertura ao mistério e um compromisso com a esperança – uma atitude fundamental para qualquer educador. Ao procurar compreender o sagrado, Betânia reconhece-se como principiante e interroga-se diante das incertezas. Esta humildade é, como refere Santa Teresa de Jesus (2007), condição para a verdadeira vida espiritual: “humildade é andar em verdade”. A espiritualidade proposta no livro é, portanto, um ethos de escuta, de interdependência, relação e compromisso com o bem comum.

6. Caminhar juntos: educação como peregrinação. A imagem do “caminho de montanha” atravessa todas as páginas do livro. Este símbolo, profundamente bíblico e existencial, remete para a pedagogia da peregrinação: um caminhar que forma, transforma e une, inclusive o diferente e diverso, que rompe sola de sapatos nas pedras aguçadas dos caminhos, que bebe das frescas fontes, que vê amanheceres e por de sóis, que colhe flores, que abraça, chora e ri, que escuta o chilrear dos pássaros, o ronronar da terra e se deita a descansar à sombra duma árvore generosa…Tal como em Emaús, e em tantos outros lugares, o caminho torna-se escola, onde se aprende a interpretar os sinais da vida (Lucas 24:13-35). A educação aqui, porém, não é linear, mas feita de hesitações, surpresas, quedas e avanços. Aqui os adultos reconhecem-se aprendizes, tal como Betânia, a personagem deste livro, e assumem que o melhor caminho nunca é aquele em que “se caminha só”. Como lembra Palmer (1998), ensinar é criar espaços onde a alma possa emergir. E isso só é possível em ambientes marcados pela confiança, pela escuta e pela presença do outro na nossa vida. É este ambiente que a troca de e-mails simboliza.

7. Betânia é também Kiko e Anna. Betânia não é apenas uma celebridade; é uma presença que se multiplica e se espelha noutras vidas, em muitos amores. É também o Kiko e a Anna, jovens catalães multidesafiados; ela é pessoa autista; ele, portador de paralisia cerebral. Eles, como Betânia, são nossos mestres e nossos aprendizes – ensinam-nos com a sua generosidade silenciosa e com a arte que nasce dos seus ágeis lápis e pincéis postos a voar pelas suas mãos e seus corações. Também eles pertencem à comunidade da nova Betânia, a de hoje, onde as fronteiras não são geográficas nem institucionais, mas delineadas no território invisível do amor, da paz e dos silêncios acolhedores que trazem consigo, disponíveis para nos acolher e acolher o mistério. Talvez ambos nunca leiam este nosso livro, escrito em português; e ainda assim, já nos disseram tanto, já fizeram outro tanto no tanto destas páginas, através dos traços e das cores, da permissão generosa de publicarmos o que criam, da entrega das suas presenças e das presenças das suas famílias que chegam até nós por meio deles. E é assim que Betânia continua alargando-se em círculos afetivos e criativos, numa comunidade que se funda não na origem, mas na entrega, no amor absoluto que passa fronteiras, que une, por agora, a península. Para completar esta ideia só me ocorre concluir com uma citação de São João da Cruz que reflete a entrega bondosa e amor absoluto: “Onde não há amor, coloca amor e encontrarás amor”. Sim. É por aqui o caminho: a essência da generosidade, com destaque para a importância de cultivar o amor, mesmo onde ele parece ausente. E tanto, mas tanto, esta ausência me recorda o mundo em que vivemos.

8. Conclusão. Centrando-me na figura de Betânia, só posso reconhecer que ela é mais do que um compêndio de mensagens: é uma narrativa iniciática, uma proposta de educação integral, onde se cruzam espiritualidade, amizade, acolhimento, interrogação, incerteza, relação, sagrado, mistério, linguagem e sentido. Sim, quando pensámos este livro, o nosso sentido foi dar sentido. Tal foi a forma como o sonhamos e, por fim, concretizamos! Este livro é também um convite a ler a adolescência como terreno fértil de revelações e possibilidades. A metáfora do pão partilhado – “nunca sós comemos o pão” – revela, por último, o espírito que atravessa estas páginas: ninguém cresce sozinho, ninguém diante do horizonte deve interrogar-se sozinho, todos somos mestres e aprendizes ao longo da vida. Termino afirmando que, em breves linhas, procurámos demonstrar que a escrita, quando atravessada pelo desejo de sentido, pode ser um potente instrumento educativo e espiritual.

9. Arrisca-te também nesta aventura! – Sempre.

Referências
Buber, M. (2002). Eu e Tu. São Paulo: Centauro.
Carbone, E. (2019). Educar com o coração: pedagogia da presença e da empatia. Vozes.
Silence 4. (1998). Eu não sei dizer [Canção]. Em Silence 4. BMG.
Delors, J. (Ed.). (1996). Educação: um tesouro a descobrir. UNESCO.
Frankl, V. E. (2008). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Vozes.
Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra.
Gadotti, M. (2003). Pedagogia da Terra. Peirópolis.
Han, B.-C. (2017). A sociedade do cansaço. Edições 70.
Lévinas, E. (1993). Ética e Infinito: diálogos com Philippe Nemo. Vozes.
João da Cruz, S. (2005). Obras completas. Edições Carmelo.
Marcel, G. (2006). O mistério do ser. Paulus.
Nouwen, H. J. M. (1989). A vida espiritual. Paulinas.
Palmer, P. J. (1998). A educação como uma jornada espiritual. Edições 70.
Rilke, R. M. (2001). Cartas a um jovem poeta. Relógio D’Água.
Teresa de Ávila. (2007). Caminho de perfeição. Paulinas.

Verónica Parente

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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