Jul 15, 2025 | Casa comum, Vida da Terra

Professora aposentada. Carmelita secular.

A desventura de algumas plantas migrantes: de bem-vindas a invasoras

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Se calhar, caro leitor e cara leitora, estão enganados! Este título não deseja mimetizar a “percepção” das migrações humanas no Ocidente, embora, à primeira vista, fosse legítimo pensar nesse sentido. Refere-se, sim, ao processo que, na longa duração, mudou as nossas paisagens. Irrompeu no século XV, uma “protoglobalização” empreendida pela Península Ibérica. Logo nos seus começos, a circulação de homens e mulheres, bens e recursos foi acompanhada pelo transporte de seres vivos do Novo Mundo. E no século XX, começaram a surgir dúvidas sobre o entusiasmo inicial da “aventura das plantas” nos ecossistemas europeus.

A partir do século XV, a expansão marítima europeia e as novas redes de circulação de recursos naturais vão pouco a pouco reconfigurar a distribuição de espécies vegetais na nossa Terra. De regresso à Europa, os navios não traziam apenas pessoas, mercadorias, ouro, prata e outras riquezas, mas também sementes, tubérculos ou estacas de plantas desconhecidas, que foram estudadas e introduzidas em primeiro lugar nas áreas cultivadas e nos jardins botânicos.

Entre as plantas do Novo Mundo, algumas são hoje básicas na nossa alimentação, como o milho, o arroz e vários tipos de feijão e batata, além de plantas complementares (citrinos, bananeiras, tomate, ananás, girassol, especiarias, etc.) [1]. Outras espécies, arbóreas estas, e de menor porte, encontram-se mais ou menos naturalizadas nos ecossistemas da atualidade. São as chamadas plantas exóticas[2], introduzidas fora da sua área de distribuição natural, ou seja, as “plantas migrantes” da nossa conversa.

Segundo as estatísticas da União Europeia, foram inventariadas cerca de 12.000 espécies exóticas na Europa, das quais 10-15% são classificadas como invasoras, «espécies exóticas cuja introdução na natureza ou propagação num dado território ameaçam ou têm um impacto adverso na diversidade biológica e nos serviços dos ecossistemas”[3], estes últimos integrando o aprovisionamento de recursos para a transformação industrial, a regulação e manutenção do meio natural e numerosos serviços culturais e de lazer.

Em Portugal continental, são referenciadas perto de 670 plantas exóticas, vindas de todos os continentes, das quais cerca de 30% são consideradas invasoras pelo Decreto-Lei de 2019. Entre elas, figuram várias espécies de acácias oriundas da Austrália e da Tasmânia, “aclimatadas”, primeiro, em jardins botânicos, como Kew Gardens (Londres) e o Jardin des Plantes (Paris), nos finais do século XVIII. Seguiu-se depois a difusão espacial destas espécies no Sudoeste da Europa, que oferece condições climáticas parecidas com as áreas de origem.

De início, não ultrapassaram os muros das quintas ou dos jardins botânicos, pois eram novidades muito apreciadas como plantas ornamentais. Mas passados poucos anos, estimularam-se experiências de plantação florestal, como aconteceu perto de Abrantes. Sendo as acácias espécies de crescimento muito rápido e pouco exigentes quanto ao solo, foram as primeiras escolhidas nos planos de florestação das terras incultas, quer no litoral, quer nas serras do interior. Nessa época, o país estava muito desarborizado e precisava de matérias-primas para abastecimento em lenhas nas cidades e madeiras nas carpintarias.

No país, existem, actualmente, onze espécies de acácias, mas três têm mais forte expressão no território. A acácia-de-espigas, ou acácia-das-praias (Acacia longifólia), foi plantada antes dos pinheiros, para a fixação das areias nas dunas do litoral. Disseminou-se naturalmente até à atualidade por toda a faixa litoral do norte e centro do país. A acácia-austrália (Acacia melanoxylon), constou do cortejo arbóreo para a arborização dos baldios serranos e ocupa hoje em dia o sub-bosque e as orlas de muitas áreas arbóreas do norte e do centro, com menos frequência no Nordeste e Beira interior. A acácia-mimosa (Acacia dealbata) é um arbusto ou uma árvore com folhagem mais delicada e florzinhas amarelas odoríferas. Saltou as sebes dos jardins e, com um poder de proliferação muito elevado (rebentação pelas raízes), espalha-se atualmente mais para Sul do país. Todas as acácias são hoje consideradas invasoras e indesejáveis nos ecossistemas, não só porque ameaçam o equilíbrio natural e a biodiversidade, mas também porque deixaram de ser um recurso para a florestação, energético e outras atividades de transformação. Daí o planeamento regular de campanhas de erradicação.

Exploremos o caso da acácia-mimosa[4], gracioso arbusto ou árvore cujas flores aromáticas aparecem ainda no inverno, pintando as paisagens de amarelo com as giestas e os tojos. A proliferação da mimosa nos terrenos abandonados ou incendiados aumentou drasticamente, a partir dos anos 1980, com o processo da emigração e êxodo rural dos camponeses. A sustentabilidade do sistema agrícola e florestal sofreu uma rutura irreversível com o despovoamento, abandono agrícola e a florestação maciça, nomeadamente de eucalipto[5]. Desapareceu a articulação entre população, atividade agrícola e exploração florestal que assegurava a gestão do território. Parcelas florestadas, campos e incultos eram percorridos e cuidados, controlando-se deste modo o risco das invasoras e dos incêndios.

Qual é exatamente a área ocupada pela mimosa? Não sabemos. O Inventário Florestal de 2015 aponta cerca de 8.400 hectares de matas onde as acácias têm presença dominante, ou seja, acaciais com outras espécies. Mas muitas mimosas encontram-se também em matas, pinhais e incultos, em que não foram inventariadas por serem minoritárias. Calcula-se que ocupariam uma superfície quarenta vezes mais ampla em relação a área dos acaciais, ou seja, cerca de 340.000 hectares. A mimosa é considerada como uma das piores espécies invasoras em Portugal, com uma política de controlo e erradicação por corte e herbicidas que, aliás, não consegue travar a sua expansão.

Mas não foi sempre assim. No Minho, existe a tradição das maias (giestas com flores amarelas colocadas nas casas na noite de 30 de abril para 1 de maio para afastar o mal); juntou-se outra na Serra de Santa Luzia, em Viana de Castelo: a Festa da Mimosa. Porque o povo gosta muito de mimosas e de festas. Em agosto ocorre em Viana uma das maiores romarias do país: a Festa da Senhora da Agonia, de origem religiosa, mas que se converteu num evento mais turístico. No mês de fevereiro, nos anos 1968-1989, realizava-se a Festa da Mimosa: «Grande parte dos vianenses bem se lembram desta festa, que se realizava nos últimos dias da terceira semana de fevereiro, e que tinha mais ruído do que grandeza de programa. Na verdade, até Viana vinha muita gente, que subia o monte, enfeitava as viaturas com ramos de mimosa e participavam nos espetáculos, que normalmente se realizavam no segundo dia da festa, domingo, na Praça da República, onde predominavam os grupos folclóricos».[6]

No entanto, a Festa veio a ser cancelada porque a mimosa se tinha tornado um perigo para a biodiversidade local. Foi substituída recentemente por outro evento: «Entre os dias 04 e 12 de maio [de 2024], a Câmara Municipal de Viana do Castelo irá realizar a V Semana Municipal de Combate à Vegetação Invasora. A iniciativa contará com a dinamização de atividades diversas, desde workshops a caminhadas interpretativas da paisagem, mapeamento de espécies exóticas invasoras e ações de voluntariado ambiental de combate às espécies invasoras»[7]. Acabou-se a festa para, institucionalmente, promover uma iniciativa conforme aos nossos dias em que se radicalizaram as posições científicas e as políticas ambientais no país: tudo para as espécies autóctones, nativas, e as respetivas políticas de conservação da natureza, nada para as espécies exóticas e invasoras que ameaçam a sustentabilidade dos ecossistemas e, por isso, devem ser eliminadas.

No início do século XXI, começaram a desenvolver-se orientações diferentes na abordagem das invasoras nos ecossistemas. Em vários países anglo-saxónicos, surgiu uma reflexão inovadora no próprio seio da ecologia, que reformula o estudo da evolução dos ecossistemas, pondo de lado o clássico modelo da sucessão ecológica e da natureza “primitiva” anterior à “degradação“ de origem humana[8].

Esta reflexão enraizou-se também na Europa onde vários grupos de ecólogos enveredam por metodologias descritivas das mudanças nos ecossistemas, todos sob influência de uma ação humana mais ou menos intensa; o estudo estende-se também aos ecossistemas urbanos[9], os mais transformados pelas sociedades, mas sempre com formas de vida que não sejam humanas. Daí a necessidade de encontrar outro termo para os diferenciar dos ecossistemas convencionais da sucessão ecológica. São novel ecosystems, de difícil tradução nas línguas latinas. Nestes “ecossistemas inovadores”, observa-se e descreve-se a evolução dos agrupamentos de espécies, que resultam da intervenção humana, deliberada ou não, mas que não dependem dela para a sua manutenção. Daí o termo abrangente de ecological novelty para esta nova abordagem no estudo temporal e espacial dos ecossistemas.

Em 2011, a Revista Nature publicou um manifesto, subscrito por dezoito cientistas adeptos da ecological novelty, que desvalorizou a dicotomia entre espécies nativas e espécies exóticas[10]. Teve um forte impacto junto dos cientistas, uns contestando a “novidade”, outros mais entusiasmados (sobretudo os novos investigadores), porque mais aberta a soluções de inclusão funcional das exóticas, até invasoras.

O manifesta salienta a mudança radical de paradigma: a maioria das comunidades humanas e naturais são conjuntos de residentes de longa duração e de recém-chegados, formando “ecossistemas inovadores”. É, portanto, praticamente impossível a sua conservação e restauração num estado “legítimo” que seria primitivo. Nestes ecossistemas, pode-se incorporar espécies exóticas na gestão dos planos de conservação, com base em sólidas evidências empíricas, porque muitas espécies exóticas são úteis. Como também muitas espécies nativas podem ser invasoras. Prossegue o manifesto: «Não estamos a sugerir que os conservadores abandonem os seus esforços para mitigar os graves problemas causados ​​por algumas espécies. É tempo de nos concentrarmos muito mais sobre as funções das espécies e muito menos sobre as suas origens.»

Neste ano de 2025 em que celebramos o décimo aniversário da Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, este manifesto dá para pensar melhor como tratamos o jardim que Deus nos entregou na Criação e como «tudo está estreitamente ligado no mundo» (16), pois o aumento da pobreza e das desigualdades acompanha uma maior fragilidade da Terra. E «nós mesmos somos terra» (2), fazemos todos parte da natureza. «É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais.» (139).

Mimetizando a advertência contida no título do manifesto, “não julguemos os seres vivos e a humanidade segundo as suas origens”. Oxalá as novas gerações de cientistas aprofundem a compreensão da integração dos sistemas naturais e socioeconómicos, premissa fundamental para a construção da ecologia integral preconizada na Encíclica Laudato Si’.


[1] Ferrão, José E. Mendes, 1992 – A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, IICT, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 241 p., 1ª edição.

[2] https://invasoras.pt/pt/plantas-exóticas.

[3] Decreto-Lei nº 92/2019 de 10 de julho, que substituí outro de 1999 em que o eucalipto, espécie exótica e naturalizada no país e muito contreversa consta na lista das invasoras.

[4] M. Fernandes, 2018, Acácias errantes, acácias infestantes: notas sobre a ascensão e queda de uma utopia florida, Lucanus, Revista de Ambiente e Sociedade, Município da Lousada, nº 2, p. 180-191

[5] O eucalipto, espécie exótica e naturalizada no país, consta na lista de invasoras promulgada em 1999, mas não na lista do decreto de 2019. Na ficha da espécie Eucaliptus globulus, dominante nas plantações, refere-se que a sua ampla distribuição – 845.000 hectares que correspondem a um quarto da área florestal do país – constitui um risco de ter um comportamento invasor, a par do facto de as plantações contínuas no espaço favorecerem a propagação dos incêndios.

[6] A Aurora do Lima, Jornal de Viana do Castelo, 2/10/2022

[7] A Aurora do Lima, Jornal de Viana do Castelo, 26/04/2024

[8] Desenvolvemos este último tema no Claustro com o contributo Em busca de um novo modelo científico para as dinâmicas naturais.

[9] Hobbs, R.J. et al. 2006. Novel ecosystems: theoretical and management aspects of the new ecological world order, Global ecology and biogeography 15 (1), 1-7, Disponível na web.

[10] Davis, M. A., et al. 2011. Don’t judge species on their origins. Nature, 474: 153-154. Dísponível na web.

Nicole Vareta

Professora aposentada. Carmelita secular.

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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