Se calhar, caro leitor e cara leitora, estão enganados! Este título não deseja mimetizar a “percepção” das migrações humanas no Ocidente, embora, à primeira vista, fosse legítimo pensar nesse sentido. Refere-se, sim, ao processo que, na longa duração, mudou as nossas paisagens. Irrompeu no século XV, uma “protoglobalização” empreendida pela Península Ibérica. Logo nos seus começos, a circulação de homens e mulheres, bens e recursos foi acompanhada pelo transporte de seres vivos do Novo Mundo. E no século XX, começaram a surgir dúvidas sobre o entusiasmo inicial da “aventura das plantas” nos ecossistemas europeus.
A partir do século XV, a expansão marítima europeia e as novas redes de circulação de recursos naturais vão pouco a pouco reconfigurar a distribuição de espécies vegetais na nossa Terra. De regresso à Europa, os navios não traziam apenas pessoas, mercadorias, ouro, prata e outras riquezas, mas também sementes, tubérculos ou estacas de plantas desconhecidas, que foram estudadas e introduzidas em primeiro lugar nas áreas cultivadas e nos jardins botânicos.
Entre as plantas do Novo Mundo, algumas são hoje básicas na nossa alimentação, como o milho, o arroz e vários tipos de feijão e batata, além de plantas complementares (citrinos, bananeiras, tomate, ananás, girassol, especiarias, etc.) [1]. Outras espécies, arbóreas estas, e de menor porte, encontram-se mais ou menos naturalizadas nos ecossistemas da atualidade. São as chamadas plantas exóticas[2], introduzidas fora da sua área de distribuição natural, ou seja, as “plantas migrantes” da nossa conversa.
Segundo as estatísticas da União Europeia, foram inventariadas cerca de 12.000 espécies exóticas na Europa, das quais 10-15% são classificadas como invasoras, «espécies exóticas cuja introdução na natureza ou propagação num dado território ameaçam ou têm um impacto adverso na diversidade biológica e nos serviços dos ecossistemas”[3], estes últimos integrando o aprovisionamento de recursos para a transformação industrial, a regulação e manutenção do meio natural e numerosos serviços culturais e de lazer.
Em Portugal continental, são referenciadas perto de 670 plantas exóticas, vindas de todos os continentes, das quais cerca de 30% são consideradas invasoras pelo Decreto-Lei de 2019. Entre elas, figuram várias espécies de acácias oriundas da Austrália e da Tasmânia, “aclimatadas”, primeiro, em jardins botânicos, como Kew Gardens (Londres) e o Jardin des Plantes (Paris), nos finais do século XVIII. Seguiu-se depois a difusão espacial destas espécies no Sudoeste da Europa, que oferece condições climáticas parecidas com as áreas de origem.
De início, não ultrapassaram os muros das quintas ou dos jardins botânicos, pois eram novidades muito apreciadas como plantas ornamentais. Mas passados poucos anos, estimularam-se experiências de plantação florestal, como aconteceu perto de Abrantes. Sendo as acácias espécies de crescimento muito rápido e pouco exigentes quanto ao solo, foram as primeiras escolhidas nos planos de florestação das terras incultas, quer no litoral, quer nas serras do interior. Nessa época, o país estava muito desarborizado e precisava de matérias-primas para abastecimento em lenhas nas cidades e madeiras nas carpintarias.
No país, existem, actualmente, onze espécies de acácias, mas três têm mais forte expressão no território. A acácia-de-espigas, ou acácia-das-praias (Acacia longifólia), foi plantada antes dos pinheiros, para a fixação das areias nas dunas do litoral. Disseminou-se naturalmente até à atualidade por toda a faixa litoral do norte e centro do país. A acácia-austrália (Acacia melanoxylon), constou do cortejo arbóreo para a arborização dos baldios serranos e ocupa hoje em dia o sub-bosque e as orlas de muitas áreas arbóreas do norte e do centro, com menos frequência no Nordeste e Beira interior. A acácia-mimosa (Acacia dealbata) é um arbusto ou uma árvore com folhagem mais delicada e florzinhas amarelas odoríferas. Saltou as sebes dos jardins e, com um poder de proliferação muito elevado (rebentação pelas raízes), espalha-se atualmente mais para Sul do país. Todas as acácias são hoje consideradas invasoras e indesejáveis nos ecossistemas, não só porque ameaçam o equilíbrio natural e a biodiversidade, mas também porque deixaram de ser um recurso para a florestação, energético e outras atividades de transformação. Daí o planeamento regular de campanhas de erradicação.
Exploremos o caso da acácia-mimosa[4], gracioso arbusto ou árvore cujas flores aromáticas aparecem ainda no inverno, pintando as paisagens de amarelo com as giestas e os tojos. A proliferação da mimosa nos terrenos abandonados ou incendiados aumentou drasticamente, a partir dos anos 1980, com o processo da emigração e êxodo rural dos camponeses. A sustentabilidade do sistema agrícola e florestal sofreu uma rutura irreversível com o despovoamento, abandono agrícola e a florestação maciça, nomeadamente de eucalipto[5]. Desapareceu a articulação entre população, atividade agrícola e exploração florestal que assegurava a gestão do território. Parcelas florestadas, campos e incultos eram percorridos e cuidados, controlando-se deste modo o risco das invasoras e dos incêndios.
Qual é exatamente a área ocupada pela mimosa? Não sabemos. O Inventário Florestal de 2015 aponta cerca de 8.400 hectares de matas onde as acácias têm presença dominante, ou seja, acaciais com outras espécies. Mas muitas mimosas encontram-se também em matas, pinhais e incultos, em que não foram inventariadas por serem minoritárias. Calcula-se que ocupariam uma superfície quarenta vezes mais ampla em relação a área dos acaciais, ou seja, cerca de 340.000 hectares. A mimosa é considerada como uma das piores espécies invasoras em Portugal, com uma política de controlo e erradicação por corte e herbicidas que, aliás, não consegue travar a sua expansão.
Mas não foi sempre assim. No Minho, existe a tradição das maias (giestas com flores amarelas colocadas nas casas na noite de 30 de abril para 1 de maio para afastar o mal); juntou-se outra na Serra de Santa Luzia, em Viana de Castelo: a Festa da Mimosa. Porque o povo gosta muito de mimosas e de festas. Em agosto ocorre em Viana uma das maiores romarias do país: a Festa da Senhora da Agonia, de origem religiosa, mas que se converteu num evento mais turístico. No mês de fevereiro, nos anos 1968-1989, realizava-se a Festa da Mimosa: «Grande parte dos vianenses bem se lembram desta festa, que se realizava nos últimos dias da terceira semana de fevereiro, e que tinha mais ruído do que grandeza de programa. Na verdade, até Viana vinha muita gente, que subia o monte, enfeitava as viaturas com ramos de mimosa e participavam nos espetáculos, que normalmente se realizavam no segundo dia da festa, domingo, na Praça da República, onde predominavam os grupos folclóricos».[6]
No entanto, a Festa veio a ser cancelada porque a mimosa se tinha tornado um perigo para a biodiversidade local. Foi substituída recentemente por outro evento: «Entre os dias 04 e 12 de maio [de 2024], a Câmara Municipal de Viana do Castelo irá realizar a V Semana Municipal de Combate à Vegetação Invasora. A iniciativa contará com a dinamização de atividades diversas, desde workshops a caminhadas interpretativas da paisagem, mapeamento de espécies exóticas invasoras e ações de voluntariado ambiental de combate às espécies invasoras»[7]. Acabou-se a festa para, institucionalmente, promover uma iniciativa conforme aos nossos dias em que se radicalizaram as posições científicas e as políticas ambientais no país: tudo para as espécies autóctones, nativas, e as respetivas políticas de conservação da natureza, nada para as espécies exóticas e invasoras que ameaçam a sustentabilidade dos ecossistemas e, por isso, devem ser eliminadas.
No início do século XXI, começaram a desenvolver-se orientações diferentes na abordagem das invasoras nos ecossistemas. Em vários países anglo-saxónicos, surgiu uma reflexão inovadora no próprio seio da ecologia, que reformula o estudo da evolução dos ecossistemas, pondo de lado o clássico modelo da sucessão ecológica e da natureza “primitiva” anterior à “degradação“ de origem humana[8].
Esta reflexão enraizou-se também na Europa onde vários grupos de ecólogos enveredam por metodologias descritivas das mudanças nos ecossistemas, todos sob influência de uma ação humana mais ou menos intensa; o estudo estende-se também aos ecossistemas urbanos[9], os mais transformados pelas sociedades, mas sempre com formas de vida que não sejam humanas. Daí a necessidade de encontrar outro termo para os diferenciar dos ecossistemas convencionais da sucessão ecológica. São novel ecosystems, de difícil tradução nas línguas latinas. Nestes “ecossistemas inovadores”, observa-se e descreve-se a evolução dos agrupamentos de espécies, que resultam da intervenção humana, deliberada ou não, mas que não dependem dela para a sua manutenção. Daí o termo abrangente de ecological novelty para esta nova abordagem no estudo temporal e espacial dos ecossistemas.
Em 2011, a Revista Nature publicou um manifesto, subscrito por dezoito cientistas adeptos da ecological novelty, que desvalorizou a dicotomia entre espécies nativas e espécies exóticas[10]. Teve um forte impacto junto dos cientistas, uns contestando a “novidade”, outros mais entusiasmados (sobretudo os novos investigadores), porque mais aberta a soluções de inclusão funcional das exóticas, até invasoras.
O manifesta salienta a mudança radical de paradigma: a maioria das comunidades humanas e naturais são conjuntos de residentes de longa duração e de recém-chegados, formando “ecossistemas inovadores”. É, portanto, praticamente impossível a sua conservação e restauração num estado “legítimo” que seria primitivo. Nestes ecossistemas, pode-se incorporar espécies exóticas na gestão dos planos de conservação, com base em sólidas evidências empíricas, porque muitas espécies exóticas são úteis. Como também muitas espécies nativas podem ser invasoras. Prossegue o manifesto: «Não estamos a sugerir que os conservadores abandonem os seus esforços para mitigar os graves problemas causados por algumas espécies. É tempo de nos concentrarmos muito mais sobre as funções das espécies e muito menos sobre as suas origens.»
Neste ano de 2025 em que celebramos o décimo aniversário da Encíclica Laudato si’ do Papa Francisco, este manifesto dá para pensar melhor como tratamos o jardim que Deus nos entregou na Criação e como «tudo está estreitamente ligado no mundo» (16), pois o aumento da pobreza e das desigualdades acompanha uma maior fragilidade da Terra. E «nós mesmos somos terra» (2), fazemos todos parte da natureza. «É fundamental buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais.» (139).
Mimetizando a advertência contida no título do manifesto, “não julguemos os seres vivos e a humanidade segundo as suas origens”. Oxalá as novas gerações de cientistas aprofundem a compreensão da integração dos sistemas naturais e socioeconómicos, premissa fundamental para a construção da ecologia integral preconizada na Encíclica Laudato Si’.
[1] Ferrão, José E. Mendes, 1992 – A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, IICT, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 241 p., 1ª edição.
[2] https://invasoras.pt/pt/plantas-exóticas.
[3] Decreto-Lei nº 92/2019 de 10 de julho, que substituí outro de 1999 em que o eucalipto, espécie exótica e naturalizada no país e muito contreversa consta na lista das invasoras.
[4] M. Fernandes, 2018, Acácias errantes, acácias infestantes: notas sobre a ascensão e queda de uma utopia florida, Lucanus, Revista de Ambiente e Sociedade, Município da Lousada, nº 2, p. 180-191
[5] O eucalipto, espécie exótica e naturalizada no país, consta na lista de invasoras promulgada em 1999, mas não na lista do decreto de 2019. Na ficha da espécie Eucaliptus globulus, dominante nas plantações, refere-se que a sua ampla distribuição – 845.000 hectares que correspondem a um quarto da área florestal do país – constitui um risco de ter um comportamento invasor, a par do facto de as plantações contínuas no espaço favorecerem a propagação dos incêndios.
[6] A Aurora do Lima, Jornal de Viana do Castelo, 2/10/2022
[7] A Aurora do Lima, Jornal de Viana do Castelo, 26/04/2024
[8] Desenvolvemos este último tema no Claustro com o contributo Em busca de um novo modelo científico para as dinâmicas naturais.
[9] Hobbs, R.J. et al. 2006. Novel ecosystems: theoretical and management aspects of the new ecological world order, Global ecology and biogeography 15 (1), 1-7, Disponível na web.
[10] Davis, M. A., et al. 2011. Don’t judge species on their origins. Nature, 474: 153-154. Dísponível na web.


