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Ruy de Carvalho: Advento duma Vida, Esperança dum Legado*

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Ruy de Carvalho, 98 anos, é mais do que um ator em cena. Diante de nós, a sua presença parece transcender o tempo, fazendo-nos sentir que cada gesto, cada palavra e cada memória suas carregam uma força que ultrapassa o instante do espetáculo. O palco transforma-se, assim, num espaço onde passado e presente se encontram, onde o visível e o invisível se entrelaçam. Para mim, este encontro revela que a vida, tal como o teatro, é um legado de afetos, sabedoria e esperança.

Ao refletir sobre o Tempo de Advento que se avizinhava e sobre o Ano Jubilar de Esperança em curso (escrevo em meados de novembro de 2025, depois de ter participado na peça «Ruy: A História Devida», no Teatro Sá de Miranda, Viana do Castelo), percebo que tudo se conecta àquilo que permanece: a autenticidade dos gestos, a força das memórias e a luz que cada vida pode acender nos corações que a observam e com ela caminham. Esta é, portanto, a minha forma de relacionar aquele espetáculo com o tempo em que vivemos, como um momento de reflexão sobre o presente, a memória agradecida e a continuidade da vida.

Permitam-me que diga que Ruy de Carvalho é imortal – não o digo no sentido literal, mas pela presença que perdura, pela energia que vibra para lá do visível, pelo impacto que se entranha na vida das pessoas e pela marca luminosa que deixou e deixa no teatro, atravessando gerações como quem acende tochas no meio da noite.

Inesperadamente, algures, recebi um telefonema – quase um chamamento – em forma de convite, que parecia sussurrar ao meu coração para assistir à peça «Ruy de Carvalho, a História Devida». – Vamos a isso!  – disse comigo – eu que sou apaixonada pelo mundo do espetáculo e das artes! E foi com enorme satisfação que assisti à encenação de Paulo Sousa Costa, com Ruy de Carvalho e Luís Pacheco, como atores duma peça que surge como um encontro rarefeito de tempos e almas, onde o palco se torna lugar de revelação, ponte entre o visível e o invisível.

Ruy de Carvalho tem 98 anos e, desde sempre me fascinou a sua voz, profunda e pausada, carregada de vida e de mistério; prendeu-me desde criança, como um eco de algo antigo e verdadeiro que sempre reconheci sem compreender. Ruy é um homem que já fascinava o meu pai, João Parente, e ainda hoje me fascina a mim, porque tenho uma admiração por Homens e Mulheres que transmitem o pulsar da vida, que se deixam tocar pelo instante, que percebem a beleza nos gestos simples e na força das emoções que atravessam o tempo. Homens e Mulheres assim vivem com presença, com entrega, e tornam o mundo ao seu redor mais vívido e intenso.

Mas regressando à peça. Antes do espetáculo começar, o ator Luís Pacheco movia-se por entre as mesas do Café Teatro com suavidade, aproximando-se delicadamente, recolhendo perguntas e desejos. Cada espectador deixava no ar uma semente de afeto, de reverência, de curiosidade viva. E, talvez por estarmos no início do Advento – tempo de espera, de recolhimento, de promessa – eu senti que ali, cada pequena semente lançada ao ar era uma oração silenciosa, uma luz acesa no íntimo de cada um.

A peça começou. Quando os acordes da música Pagliacci, Act I:  Vesti la giubba começaram a ecoar pelas paredes do admirável teatro Sá de Miranda, e Ruy de Carvalho entrou em cena, senti que todas as sementes floresciam num diálogo invisível, feito de presença e emoção, que cada gesto seu parecia abrir espaço dentro dos espectadores, como se revelassem um segredo guardado no tempo.

Havia, naquele momento, um sopro jubilar – como se o seu caminhar pausado trouxesse em si a sabedoria de décadas e a serenidade de quem compreendeu a arte de saber esperar. E o Advento é isso mesmo: a espera que ilumina, o silêncio que anuncia, a esperança que se tece devagar.

O Ruy falou do som que mais gosta – e quando disse isto, senti a sua alma a respirar, os seus olhos a acenderem uma luz profunda. Não era música nem voz amiga, mas o som das palmas: cada palma, para Ruy de Carvalho, é um abraço entre palco e plateia. Um sinal de vida que responde à vida. Ali, compreendi que as palmas são um Ámen humano: a confirmação de que a entrega foi recebida. Tal como no Advento, quando o coração humano se abre ao que chega, acolhendo-o com reverência.

O próprio cenário transmitia uma atmosfera elegante e intimista, e ao mesmo tempo clássica e acolhedora. O palco estava decorado com emoldurados, quadros de diferentes tamanhos, dispostos de forma irregular, criando um efeito visual de memória e história. No centro, duas poltronas de couro castanho e uma pequena mesa de apoio, sugerindo um ambiente de conversas ou encontros próximos, com tapetes e móveis auxiliares, tais como uma mesinha com uma lâmpada e outros objetos que evocam vida cotidiana e lembranças. O conjunto transmitia uma sensação de acolhimento, memória e reflexão, como se o palco fosse ao mesmo tempo um espaço de história pessoal e um ritual teatral de presença e intimidade. Numa das mesas repousavam uma garrafa e copos. Ruy encheu o copo, não de whisky, mas de chá; segurava-o com cuidado, explicando que precisa de «molhar a palavra». Cada gole aquecia-lhe a voz e tornava a palavra carne, gesto, presença. Havia algo de ritual naquele simples movimento – como se preparasse a sua voz para a missão telúrica de tocar os outros. O Advento também é assim: preparar o terreno, aquecer a palavra, purificar o gesto.

Atrás dele, os quadros guardavam silenciosamente os rostos de vidas que o acompanharam. Ao longo da peça Ruy evocará nomes como Varela Silva, Paulo Renato, Armando Cortez, Laura Alves, e também Eunice Muñoz… Memórias tornadas imagem, faróis discretos que iluminam a travessia – no Advento, também somos chamados a olhar para trás e a reconhecer quem nos ergueu, quem nos guiou, quem acendeu luzes quando o caminho escurecia.

E no meio de tudo, estavam também os palhaços – alguns da sua coleção. Cada figura trazia ternura, humor, fragilidade e força. Ruy falava deles com um sorriso que parecia vir dum lugar onde o tempo já não manda. Neles, havia uma graça jubilosa, uma humildade radiante, como se recordassem que a alegria é também um caminho espiritual, uma forma de esperança. Neste finalzinho do Ano de Esperança, percebi que os palhaços eram mais do que objetos: eram metáforas vivas da leveza que cura, da inocência que salva.

Depois, Ruy começou a refletir sobre a vida longa que percorreu, sobre décadas de palco, sobre a entrega diária, sobre o público que sempre o acompanhou. Disse que o que mais o emociona é a soma dos encontros: cada olhar, cada riso, cada lágrima. O teatro, percebi, é uma liturgia humana: um lugar onde o coração fala ao coração, onde a vulnerabilidade se torna ponte. O Advento também nos chama a este encontro, a reconhecer no outro a luz que nos revela. E recordou a memória mais bonita: sentir que tocou alguém. Que a sua palavra encontrou eco noutro coração. E eu senti que essa é também a essência do Ano Jubilar: regressar ao essencial, ao que une, ao que salva, à verdadeira fecundidade dos gestos simples.

Falou do legado que deseja deixar: que as novas gerações aprendam a ouvir, a sentir, a entregar-se com verdade. Que não vivam para aplausos, mas para a autenticidade do gesto e da palavra. Estas palavras, vindas de um homem de 98 anos, pareciam ter sido moldadas por uma sabedoria antiga e amorosa, por uma espécie de profecia mansa, uma lição viva do Advento e do Ano de Esperança.

Ao longo do espetáculo, tudo parecia conter uma mensagem velada: as palmas, o chá que molha a palavra, os quadros que guardam afetos, os palhaços que guardam poesia, a voz que aquece, a memória que se oferece. Tudo se entrançava numa tapeçaria invisível, onde cada detalhe tinha um significado secreto. E um pormenor simbólico se revelou: chama-se Ruy de Carvalho – e o carvalho é árvore forte, antiga, resistente às estações. Tal como Ruy de Carvalho o é. Raiz, sombra e solidez.

Como vivi este espetáculo! Nada parecia ao acaso. Nem o telefonema inesperado, nem o convite, nem o fascínio antigo pela sua voz. Tudo era parte de uma revelação discreta – um Advento íntimo – a «História Devida» que toca, atravessa e transforma. No final, cada espectador levou consigo um fragmento do mistério que Ruy partilhou: uma vida inteira condensada em palavras, gestos, memórias e afetos.

Quando o espetáculo terminou, outra história começou. O silêncio que se seguiu era denso, luminoso, cheio de presença. Momentos depois, tive oportunidade de estar com o Ruy, de ver-lhe a gratidão nos olhos ao receber o palhaço feito pelo Senhor Alfredo, pai duma grande amiga dos tempos de adolescência, a Patrícia Viana. Generosamente, a Paula, a Patrícia e o Álvaro, irmãos, ofereceram o cabeçudo-palhaço feito pelo pai Alfredo, artesão vianense, para a coleção pessoal de Ruy de Carvalho. Encontramo-nos no seu hotel, à volta dum chá redondo, em forma de jubileu, de advento. Delicado e reconhecido, ele recebeu o palhaço. Nós, uma bênção esperançosamente grávida de beleza e generosidade.

Saí do Sá de Miranda com a sensação de ter vivido mais que um espetáculo – um encontro com a própria essência da vida: uma jubilosa epifania discreta. E, neste Ano de Esperança que o Advento quase encerra, saí também com a certeza de que a vida, quando se dá, torna-se luz para os passos dos peregrinos. Luz mansa que permanece. Luz gentil que guia. Luz suscitadora que renova.

Obrigada, Ruy, por este abraço!

Verónica Parente

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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