Na Exortação Apostólica Familiaris Consortio, o Papa João Paulo II faz uma afirmação que contundente: “O futuro da humanidade passa pela Família” (86).
Desde os primórdios da humanidade, a família tem tido um papel fundamental na organização social e tem sido o lugar onde a pessoa encontra proteção, identidade e sentido. Em diferentes culturas e em diferentes épocas, a família é esse espaço de transmissão de vida, de preservação de valores e de educação das gerações seguintes.
Em cada momento, a família foi uma instituição confrontada com diversos desafios e os tempos atuais não são diferentes. As rápidas transformações culturais, as dificuldades económicas, a promoção do individualismo e a cultura do provisório colocam diretamente em causa a estabilidade e a missão da família na nossa sociedade. Não podemos também deixar de ficar apreensivos ao olhar para a realidade familiar das nossas comunidades paroquiais. O aumento de divórcios entre casais cristãos, a diminuição da participação nos sacramentos, em especial a eucaristia, a falta de compromisso na catequese dos filhos, são sintomas de um mal que vai atingindo as famílias cristãs hoje e pondo em causa a sua unidade e relevância.
Ciente desta realidade, a Igreja Católica continua a defender com renovada esperança a Família como um pilar insubstituível da sociedade e como caminho de santidade.
O exemplo da Família de Nazaré
A Sagrada Família de Nazaré é o espelho da vocação e missão de todas as famílias cristãs. Mesmo sem compreenderem muito bem o que lhes estava a acontecer, Maria e José aceitam e confiam no desígnio de Deus para as suas vidas. Em família, vivem uma vida simples, marcada pelo trabalho, pela oração e pelo amor conjugal. Uma vida não isenta de dificuldades desde a primeira hora: não conseguiram um lugar digno para o nascimento do seu filho e logo depois tiveram de fugir para o Egipto. No entanto, tudo viveram com total confiança em Deus Pai, transformando o seu lar num verdadeiro santuário onde Deus se fez realmente com o nascimento de Jesus.
Na Família de Nazaré, podemos ver a centralidade da vontade de Deus na vivência da família; a obediência de Maria que acolhe a vontade de Deus sem reservas; a fidelidade de José a Maria e ao projeto de Deus para as suas vidas, garantindo sustento e segurança para a sua família e a obediência filial de Jesus aos seus pais, permitindo-o crescer como homem em sabedoria, estatura e graça (Lc 2, 52). A família de nazaré ensinamos que uma família constrói-se na fidelidade às pequenas coisas de cada dia, vividas com amor e comunhão com Deus.
O lar como espaço de crescimento cristão
O Concílio Vaticano II recorda que a família cristã é chamada a ser “Igreja doméstica” (Lumen Gentium, 11), lugar onde a fé é vivida e transmitida de geração em geração. Como referiu o Papa Bento XVI, “na família nascem e crescem as primeiras experiências de comunhão, de partilha, de respeito e de perdão, que são fundamentais para a vida em sociedade” (Angelus, 31/12/2006). O Papa Francisco insiste que “o lar deve continuar a ser o lugar onde se aprende a reconhecer os motivos e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo” (Amoris Laetitia, 287).
Entre outras, podemos destacar três dimensões importantes da família cristã: Escola de virtudes onde se aprende a amar, a perdoar, a partilhar e cuidar; lugar de oração onde se reza em família, se é inserido na participação dos sacramentos e onde cada gesto quotidiano é uma oportunidade de encontro com Deus; Lugar onde Deus se faz presente e continua a realizar o seu desígnio de Amor e de Vida. A realização de cada uma destas dimensões implica diretamente cada um dos membros da família a viver de uma forma coerente e dar o exemplo entre si, especialmente dos pais para os filhos. Ensina-se a amar, amando, a perdoar, perdoando, a rezar, rezando.
Desafios atuais colocados à família
Alguns dados retirados da PORDATA. Em 2023, realizaram-se 36.980 casamentos; verificaram-se 17.430 divórcios e a idade média ao primeiro casamento é de 34,3 anos nas mulheres e 35,8 nos homens. Ainda que estes dados se refiram aos casamentos civis, sabemos que o divórcio está cada vez mais presente entre os casais que se casam pela Igreja (o objetivo desta reflexão não é entrar na questão acerca da indissolubilidade do Sacramento). Refletindo nas possíveis causas para este fenómeno, podemos aflorar algumas ideias:
1. Cultura do individualismo.
A relação conjugal pressupõe uma doação mútua e um compromisso total que o individualismo põe em causa. O “Eu” muitas vezes sobrepõe-se ao “Nós”. “Casamos para fazer o outro feliz!”. É nesta confluência de vontades (do que cada um deseja para o outro) que se alcança a realização pessoal. Há uns meses, circulou um vídeo muito interessante no Instagram sobre o compromisso no matrimónio cristão. Basicamente dizia o seguinte. «Não nos casamos porque nos amamos, casamos para nos amarmos. Numa cerimónia cristã, o sacerdote não pergunta aos noivos “Como te sentes? Estais apaixonados?” Antes pergunta: “estais dispostos a amar-vos?” “Prometeis amar-vos e respeitar-vos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza até que a morte vos separe?”» Há uma virtude no compromisso, em não desistir, em dar todos os dias o melhor de si para que a relação se fortaleça e para que a família se mantenha unida.
2. Secularização e Trabalho
As famílias têm perdido o hábito da oração e da participação na vida sacramental. Tantas vezes, as atividades extracurriculares dos filhos (desporto, música, dança, …) impõem-se à organização familiar e põem em causa o tempo para participarem na eucaristia em família, para estarem em família e dialogarem entre si. Muitas destas atividades são organizadas para o fim de semana, ocupando o tempo que poderia ser aproveitado para estarem uns com os outros, para criarem memórias. As responsabilidades laborais também tiram tantas vezes demasiado tempo à família. Por outro lado, desde cedo é imposta socialmente uma cultura de busca do sucesso que coloca as crianças entre inúmeras atividades e ocupações, podendo gerar ansiedade e frustração no seio da família.
3. Influência dos meios digitais
A falta de diálogo ou a comunicação ineficaz entre os diferentes membros da família pode originar problemas e relacionamento e quebras de vínculos afetivos. O progressivo alheamento face à situação “do outro”, desgasta a relação familiar e torna-a mais frágil para lidar com problemas e dificuldades que possam surgir. O uso dos meios digitais em ambiente familiar intensificou este gradual isolamento: as pessoas estão no mesmo espaço, por exemplo, à mesa da refeição, onde cada um está no seu mundo, sem que hajam interações entre si.
Família sinal de esperança na Igreja e no mundo
Terminamos com um pequeno excerto do Discurso do Papa Francisco em Filadélfia em 2015 na Vigília de Oração com as Famílias.
“Na família há dificuldades. Nas famílias discutimos. Nas famílias, às vezes, «voam os pratos». Nas famílias os filhos dão dor de cabeça. Não vou falar das sogras. Mas nas famílias sempre, sempre, existe a cruz. Sempre. Porque o amor de Deus, o Filho de Deus, também nos abriu este caminho. Mas nas famílias também, depois da cruz, há ressurreição, porque o Filho de Deus nos abriu esse caminho. Por isso, a família é – perdoai-me a palavra – uma fábrica de esperança; esperança de vida e ressurreição, porque foi Deus quem abriu esse caminho. E os filhos. Os filhos dão trabalho. Nós, como filhos, dêmos trabalho. Na família há dificuldades, mas essas dificuldades são superadas com amor. O ódio não supera nenhuma dificuldade. A divisão dos corações não supera nenhuma dificuldade. Só o amor é capaz de superar a dificuldade. Amor é festa, o amor é a alegria, o amor é seguir em frente. (…) a família é bela, mas custa, traz problemas. Na família, às vezes, há inimizades. O marido briga com a mulher, ou olham-se mal, ou os filhos com o pai. Dou-vos um conselho: Nunca termineis o dia sem fazer as pazes na família. Numa família não se pode terminar o dia em guerra. Que Deus vos abençoe. Que Deus vos dê forças. Que Deus vos incentive a seguir em frente. Cuidemos da família. Defendamos a família, porque nela o nosso futuro está em jogo.”


