Há cerca de seis meses fiquei sem rádio no carro.
Não foi uma coisa que me preocupasse muito. No início, ainda senti a falta da música, mas depois habituei-me. Passei a conduzir em silêncio ou simplesmente a deixar os quilómetros passar. E a verdade é que, com o tempo, deixei de pensar no assunto.
Até que, há poucos dias, levei finalmente o carro à oficina e arranjaram o rádio.
Ao final da tarde, fomos, os cinco, dar um passeio. Liguei o rádio e começou a tocar música. A reação deles foi completamente desproporcionada para aquilo que estava a acontecer. Fizeram uma festa dentro do carro, aumentaram o volume, começaram a cantar, a rir, a fazer barulho.
Era apenas o rádio.
Mas naquele momento parecia uma coisa extraordinária.
Fiquei a pensar nisso.
Há coisas que fazem parte da nossa vida de tal maneira que deixamos de reparar nelas. A música no carro, um gelado no verão, abrir a torneira e ter água, chegar a casa e encontrar as pessoas de quem gostamos, ver um filme ou ler um livro, sentarmo-nos à mesa e jantar.
Enquanto as temos, parecem-nos banais. Quando desaparecem durante algum tempo, percebemos que, afinal, não eram.
Talvez uma parte da felicidade tenha a ver com esta capacidade de voltar a reparar. O “caer en la cuenta”…
São João da Cruz escreveu muito sobre o desprendimento. Sobre a necessidade de não ficarmos agarrados às coisas, porque aquilo a que nos prendemos demasiado acaba, de certa forma, por nos prender a nós. Não significa que as coisas não tenham valor. Talvez signifique precisamente o contrário: quando deixamos de precisar delas para sermos felizes, conseguimos apreciá-las melhor. No meu último artigo para o Claustro abordei esta ideia.
E Santa Teresinha do Menino Jesus descobriu uma coisa ainda mais simples: que não é preciso fazer coisas extraordinárias para viver uma vida extraordinária. E isto é extraordinário, proporcionando, afinal, uma vida extraordinária (ainda que não aos olhos deste mundo). A sua pequena via passa pelas coisas de todos os dias, pelos pequenos gestos, pela paciência, pelo amor colocado nas tarefas mais simples.
Gosto muito desta ideia.
Porque a nossa vida é feita sobretudo dessas coisas. Não é feita apenas dos grandes acontecimentos que recordaremos daqui a vinte anos. É feita de milhares de pequenos momentos que, quase sempre, nem sequer registamos.
Uma conversa inesperada.
Uma refeição em família.
Uma gargalhada dos filhos.
Uma música de que gostamos.
Uma tarde de sol.
Um abraço.
Um café apreciado sem pressa.
Talvez o problema seja este: acinzentamos demasiado depressa as coisas boas.
E talvez precisemos, de vez em quando, de ficar sem algumas delas para voltar a perceber o seu valor.
Foi isso que aconteceu comigo com um simples autorrádio.
Durante seis meses, não tinha música.
No dia em que a voltei a ter, os meus filhos fizeram uma festa.
E, enquanto os ouvia rir e cantar naquele carro, pensei que talvez a vida seja um pouco isto: aprender a não passar tão depressa pelas coisas pequenas.
Também a nível profissional. Ainda anteontem partilhava isso com colegas. O que vamos recordar, um dia, já velhinhos, não será porventura algum feito profissional pomposo, os objetivos cumpridos, as centenas de pessoas que nos estivaram a escutar num auditório. Não. Serão os bons momentos profundamente, humanos, entre colegas, entre pessoas.
Porque, às vezes, são precisamente essas coisas pequenas que estão a tornar a nossa vida bonita. Ainda há pouco voltei a escutar “Aquele que é fiel no pouco também é fiel no muito” e também, num domingo recentemente “Olhai como crescem os lírios do campo”.
Nós é que já nos esquecemos de olhar. Como se fosse a primeira vez.


