Na data em que escrevo esta reflexão, o barril de petróleo ronda os setenta e três dólares. Fiz uma pesquisa rápida na teia digital sobre este produto, uma vez que o sobe-e-desce da economia mundial parece centrar-se nele e fez-me recordar conversas acerca de Jesus que tive com alunos. Mas o que terá Jesus a ver com o petróleo? Acompanhe-me e descobriremos a razão.
Jesus é uma das pessoas mais influentes da história da humanidade. No entanto, ao longo dos séculos, os estudiosos passaram a distinguir duas formas principais de o compreender: o Jesus histórico e o Jesus cristão (ou Cristo da fé).
O artigo que apresento resulta de várias exposições realizadas ao longo da minha experiência docente, pois os alunos colocavam — e muitas — perguntas sobre Jesus. Enquanto, para uns, Jesus não passava de uma personalidade marcante que trouxe uma nova reflexão à sociedade da sua época, para outros era Deus encarnado.
Discussão lançada na sala de aula! Muitas vezes terminava a aula sem chegar a uma conclusão, tendo de retomar o tema na semana seguinte.
Passemos, então, à distinção entre os conceitos de «Jesus histórico» e «Jesus cristão».
O Jesus histórico
É do conhecimento geral que Jesus foi um pregador judeu que viveu na Galileia, no século I, durante o domínio do Império Romano. Anunciou a chegada do Reino de Deus, reuniu discípulos, escolheu os Doze Apóstolos e acabou por ser crucificado durante o governo de Pôncio Pilatos. Pelo menos neste ponto existia consenso.
O chamado «Jesus histórico» é aquele que pode ser investigado através dos métodos da investigação histórica. Os estudiosos recorrem a critérios que permitem avaliar, nas fontes antigas — Evangelhos, Cartas de São Paulo, Flávio Josefo, Tácito e Plínio, o Jovem, – maior probabilidade de corresponder aos acontecimentos históricos.
Todavia, as fontes, por si só, não são suficientes. É necessário aplicar critérios historiográficos. Vejamos alguns.
O Critério da Múltipla Atestação considera mais provável um acontecimento quando este surge em fontes independentes entre si. Por exemplo, a crucificação de Jesus é referida nos quatro Evangelhos e também por Tácito, reforçando a sua historicidade.
O Critério do Embaraço defende que episódios potencialmente embaraçosos para a Igreja primitiva dificilmente teriam sido inventados. Um exemplo clássico é o batismo de Jesus por João Batista. Sendo João considerado inferior a Jesus na fé cristã, este episódio poderia levantar dúvidas entre os primeiros cristãos, o que sugere a sua autenticidade histórica.
O Critério da Coerência afirma que uma tradição é tanto mais plausível quanto mais estiver em harmonia com outros elementos já considerados historicamente consistentes, como o contexto judaico de Jesus, a sua pregação sobre o Reino de Deus ou a sua atividade itinerante.
O Critério da Contextualização Histórica analisa se os ensinamentos e as ações atribuídos a Jesus fazem sentido no contexto político, social e religioso da Judeia do século I, sob o domínio romano.
Por fim, o Critério da Rejeição e da Execução procura compreender quais os aspetos da atuação de Jesus que poderão ter conduzido à sua condenação. Como a crucificação era uma pena reservada pelos Romanos para crimes considerados políticos, os historiadores interrogam-se sobre o modo como a sua mensagem poderia ter sido entendida como uma ameaça à ordem estabelecida. A execução sob Pôncio Pilatos constitui um dos pontos mais sólidos do consenso histórico.
Em síntese, estes critérios não pretendem provar nem negar a fé, mas apenas permitem aos historiadores afirmar, com elevado grau de consenso, que Jesus existiu, foi um pregador judeu do século I e morreu crucificado sob a autoridade romana.
O Jesus cristão (Cristo da fé)
O «Jesus cristão» é Aquele que a Igreja proclama na sua fé. Não é apenas um mestre ou um profeta, mas o Filho de Deus, o Messias prometido e o Salvador da humanidade.
Esta compreensão assenta sobretudo nos escritos do Novo Testamento, que apresentam não apenas os ensinamentos e as ações de Jesus, mas também a interpretação teológica da sua vida, morte e ressurreição.
Nos Evangelhos, Jesus realiza milagres, perdoa pecados, revela uma relação única com Deus Pai e é reconhecido como o Cristo — palavra grega que significa «Ungido», equivalente ao termo hebraico «Messias». A ressurreição constitui o centro desta fé, pois confirma, para os cristãos, a sua identidade divina.
O «combustível»
Os combustíveis deste artigo são Jesus e o petróleo, mas até agora apenas falámos de Jesus. Que relação existe, afinal, entre ambos?
Se, para algumas pessoas, o petróleo constitui o impulsor da economia e, em certa medida, da própria vida moderna, para os cristãos, Jesus é o sentido da existência. O petróleo move máquinas; Cristo move pessoas. Basta olhar para alguns santos carmelitas, frequentemente estudados não apenas como grandes teólogos, mas sobretudo como testemunhas de uma profunda experiência de encontro com Jesus, centrada na oração, no silêncio e na união com Deus.
São João da Cruz apresenta a união da alma com Cristo como um caminho de purificação interior. Nas suas obras, especialmente A Noite Escura e o Cântico Espiritual, descreve a jornada espiritual como um percurso em que Jesus conduz a alma através da escuridão, do desapego e da transformação até à união plena com Deus.
Santa Teresa de Ávila é, provavelmente, a carmelita que mais escreveu sobre a relação pessoal com Jesus. Uma das suas frases mais conhecidas resume bem essa intimidade: «Tratai com Ele como com um amigo».
Na sua obra Castelo Interior, descreve a alma como um castelo cujo centro é habitado por Cristo, convidando cada pessoa a caminhar para uma união cada vez mais profunda com Ele. Para Teresa, Jesus não era uma ideia abstrata, mas um amigo vivo.
Recordo, a este propósito, as palavras do Papa Francisco, na homilia de 5 de maio de 2024: “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15, 15), incentivando todos os cristãos a crescer na amizade com o Senhor.
Santa Teresa de Lisieux foi a primeira carmelita que conheci e de quem guardo uma memória muito viva. Impressionou-me pela humildade no trato com os outros e pela confiança absoluta em Jesus. Foi uma referência importante na minha adolescência, porque me ensinou que não são necessárias grandes penitências nem feitos extraordinários: basta realizar as pequenas coisas com grande amor e confiar plenamente em Cristo. Confesso que nem sempre consegui…
Diferenças e diálogo, em jeito de resumo
Sem dúvida, Jesus continua a ser uma das pessoas mais influentes da história da humanidade. Uns observam sobretudo o Jesus histórico; outros reconhecem n’Ele o Cristo da fé.
Significa esta distinção uma oposição? Penso que não. Trata-se, antes, de duas abordagens distintas da mesma pessoa. A principal diferença reside no método e na perspetiva. O Jesus histórico resulta da investigação científica e ajuda-nos a compreender o contexto humano em que viveu. O Jesus cristão pertence ao âmbito da fé, da experiência religiosa e da interpretação do significado profundo da sua vida. Enquanto a História procura demonstrar aquilo que pode ser conhecido pelos métodos científicos, a fé acolhe verdades que ultrapassam a demonstração empírica.
Faço uma comparação simples. Se várias pessoas escrevessem uma biografia minha, umas diriam que sou professor; outras, guarda-redes; outras ainda, catequista; outras… Todas estariam corretas. Apenas me conhecem a partir de diferentes perspetivas.
Assim, a distinção entre Jesus histórico e Jesus cristão pode favorecer um diálogo mais rico entre fé e razão e, juntas, revelam a riqueza e a complexidade de uma figura que continua a inspirar milhares de milhões de pessoas em todo o mundo. A tónica deixa de estar apenas em debates teológicos para se centrar numa experiência viva de relacionamento com Cristo, como testemunham tantos santos, particularmente os da tradição carmelita.
Assim, não existem dois «Jesuses», mas duas formas de abordar a mesma realidade, tal como acontece com o petróleo: para uns representa progresso e desenvolvimento; para outros, simboliza poluição e degradação ambiental.
Em que perspetiva ficará quem me lê?
Quanto ao petróleo, considero-o importante para o desenvolvimento da humanidade, embora reconheça os seus impactos na Natureza e a necessidade de procurar alternativas mais sustentáveis.
Quanto a Jesus, permaneço na perspetiva definida pelo Concílio de Calcedónia, em 451: a união hipostática, segundo a qual Jesus Cristo possui duas naturezas — divina e humana — inseparavelmente unidas numa única Pessoa.
Fontes
BULTMANN, Rudolf – Jesus. São Paulo: Editora Teológica, 2005.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Gráfica de Coimbra, 1993.
Filho de Deus – música. In https://www.youtube.com/watch?v=DdHcREs0bfs&list=RDDdHcREs0bfs&start_radio=1
https://carmelitas.pt/santos/
https://www.erse.pt/combustiveis-e-gpl/funcionamento/combustiveis-liquidos-derivados-do-petroleo/
Imagem retirada de https://stock.adobe.com/pt/search?k=crude+oil&asset_id=428799446
MCDOWELL, Josh. Mais que um carpinteiro. Belo Horizonte: Betânia, 1989.
Todos 6 – 6.º Ano de Escolaridade. Manual de Educação Moral e Religiosa Católica. Fundação Secretariado Nacional da Educação Cristã: Lisboa, 2025.
YOUCAT. Catecismo jovem da Igreja Católica. Paulus Editora: Lisboa, 2011.
ZUURMOND, Rochus. Procurais o Jesus Histórico? São Paulo: Loyola, 1998.


