Out 20, 2026 | Cultura, Trans(formar)-Se

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

S. João da Cruz – misticismo e transformação

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Celebramos, em 2026, o primeiro centenário da proclamação de São João da Cruz como doutor da Igreja e o terceiro centenário da sua canonização. Dito assim, São João da Cruz quase parece nosso contemporâneo. Realmente, a leitura da sua biografia evidencia semelhanças com o início de vida de tantas crianças e famílias mergulhadas repentinamente na pobreza, em particular, pela incompreensão, dureza de coração e crueldade dos próprios familiares. Uma condição que poderá ter marcado o seu corpo e determinado a fragilidade da sua saúde até à sua morte, com apenas 49 anos, mas não limitou a grandeza da sua caminhada espiritual.

Não obstante esse início de vida difícil, em 1542, no lugar de Fontiveros, perto de Ávila, Espanha, São João da Cruz, tornou-se uma das figuras mais célebres do Cristianismo e da Literatura Ocidental, sendo considerado um dos mais marcantes escritores da literatura espanhola. Este religioso carmelita é, juntamente com Santa Teresa de Jesus, fundador da Ordem dos Carmelitas Descalços. Quando a 3 de Março de 1581, no I Capítulo Geral da Ordem, foi eleito como um dos “definidores”, foi também encarregue de escrever a primeira Constituição da Ordem, depois de o Papa Gregório XIII ter aprovado o decreto que autorizou a separação entre Carmelitas (22 de Junho de 1580). Efetivamente, ele fundou o primeiro convento masculino onde se viveu segundo a observância primitiva do Carmelo: pobreza, recolhimento, oração contínua e entrega total a Deus. Este projeto de entrega total a Deus como união íntima de amor marcou a sua experiência espiritual desde muito cedo, e ficou claro no seu desejo de se juntar aos Cartuxos, manifestado após a sua ordenação sacerdotal, em 1567. Ele ansiava por mais contemplação, mais tempo para se dedicar a apreciar as belezas onde Deus se esconde e apresenta, e a saborear a habitação de Deus nesse lugar secreto e único que era o seu mundo interior, a sua alma. Teresa de Jesus falou-lhe ao coração, quando o chamou exatamente para fundar conventos carmelitas masculinos, onde se vivesse assim, isto é, onde se regressasse aos fundamentos da vida monástica carmelitana.

O seu nome de nascença, Juan de Yepes y Alvarez, passou a ser Frei João de S. Matias, quando, aos 22 anos, fez a profissão dos seus votos no Carmelo Descalço. Ao ser enviado para a universidade de Salamanca, a fim de realizar os seus estudos de Filosofia e Teologia, contactou com Frei Luís de León, que foi seu professor de estudos bíblicos, com quem aprendeu exegese, hebraico e aramaico. Este célebre professor agostinho, eminente figura do renascimento espanhol, tornou-se uma importante influência no pensamento de João da Cruz, tanto mais que foi o primeiro a traduzir para Castelhano o livro bíblico “Cântico dos Cânticos”, quando ainda era proibida a tradução dos textos sagrados para as línguas vernáculas. Tal tradução valeu ao controverso agostinho a perseguição por parte da Inquisição.  Também São João da Cruz sofreu a perseguição e a prisão ao longo do seu percurso, quando os Carmelitas da Antiga Observância – que não concordavam com a reforma do Carmelo em curso –, o prenderam e colocaram numa cela exímia, sujeitando-o ao isolamento absoluto, alimentando-o a pão e água, e açoitando-o publicamente ao menos uma vez por semana. Passou por estes tormentos cerca de 8 meses, entre 1577 e 1578.  No entanto, foi durante esse período que escreveu uma das suas obras mais belas – o poema “Cântico Espiritual”, em pequenos papéis que lhe eram fornecidos pelo guardião da sua cela.

Parece humanamente impossível que uma pessoa sujeita a tamanho sofrimento e maus tratos possa ter espírito para produzir uma tão profunda obra mística, mas é ele próprio que explica porque tal aconteceu no prólogo da obra, que envia à Irmã Maria de Jesus, prioresa das Irmãs Carmelitas Descalças de Granada, em 1584. O próprio título do conjunto de poemas é elucidativo: «Declaração das canções que tratam do exercício de amor entre a alma e o esposo Cristo, na qual se tocam e declaram alguns pontos e efeitos de oração». Trata-se de oração amorosa e amorisante. Trata-se de um encontro profundo com a fonte do amor no íntimo do ser; um encontro que salva do ódio e cura profundamente a alma do ressentimento. Este testemunho de amor profundo, vivido na oração em face do sofrimento, permite-nos compreender o quão alto a oração eleva a alma, a ponto de nela só existir a presença do amado, libertando-a de toda a dor e sofrimentos espirituais e corporais do momento presente para a encontrar nessas profundezas interiores onde habita o Verbo. Afirma São João da Cruz no seu prólogo: «não penso declarar agora toda a extensão e riqueza que o espírito fecundo do amor nelas (canções) encerra. Seria até ignorância pensar que os ditos de amor em inteligência mística, como são os das presentes canções, se possam explicar bem por qualquer forma de palavras; porque o Espírito do Senhor, que ajuda a nossa fraqueza, morando em nós, como diz S. Paulo, pede por nós com gemidos inefáveis aquilo que não podemos bem entender nem compreender para o manifestar»[1].

São João da Cruz tem consciência de que as suas palavras não podem exprimir a experiência interior que viveu, quando sentiu que foram “derramados” na sua alma “segredos e mistérios” que “não pode declarar” unicamente pela razão.  Por isso, diz ele, utiliza «figuras, comparações e semelhanças» que «manifestam algo» daquilo que sentiu, para poder fazer compreender de algum modo a abundância do Espírito derramada no seu “coração”.  Esta experiência profunda é sentida, vivida e assumida como algo único, intransmissível, que se aninha no segredo da alma. Por isso, o dizer, re-vela, isto é, continua a velar; o mistério permanece, ainda que experimentado, como indizível, inefável, inatingível pela inteligência humana e apenas acessível temporariamente à «inteligência mística». Quando o Espírito Santo deseja dar-se a conhecer, propicia Ele-mesmo o encontro no «castelo interior» da alma.  Mas uma tão rica e profunda experiência, geradora de uma tão grande alegria e consolação não poderia ficar só para si. Todos os seus escritos parecem dizer sempre o mesmo gemido – o chamamento do Verbo a esta relação íntima de amor que transforma por completo a vida e lhe dá um sentido que transcende o tempo e o espaço e atravessa a história: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos» (Mt 11,28).

João da Cruz seguiu este gemido interior e viveu na sua vida a profecia que Jesus faz de si mesmo no Evangelho de João 12,24-25: «se o grão de trigo lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto. Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna». Ansiava e vivia no já, aqui e agora, a presença do Verbo de Deus, e tinha consciência de que há uma singularidade na vida espiritual, não havendo duas pessoas que possam fazer exatamente o mesmo caminho. Simultaneamente, reconhece que todos somos chamados, cada um na medida das suas capacidades, a desenvolver o seu máximo potencial no que diz respeito à vida espiritual. Veja-se o que afirma no livro da Subida do Monte Carmelo: «E ainda que nesta vida achemos algumas almas com igual paz e sossego no estado de perfeição, e cada uma esteja satisfeita, contudo poderá uma delas estar muitos graus acima da outra, e estarem ambas igualmente satisfeitas, porque têm satisfeita a sua capacidade. Porém aquela que não chegar à pureza competente à sua capacidade, nunca chega à verdadeira paz e satisfação; porque não chegou a ter em suas potências a desnudez e o vazio que se requer para a simples união”[2]. Para a união com o Verbo de Deus é necessário que cada um se esvazie de si mesmo, se desnude de tudo aquilo que oferece resistência e ofusca a visão interior dessa presença inefável que nos mostra quem realmente somos e para que fomos criados (Cfr GS 22).

O curto caminho existencial de São João da Cruz foi marcado por esta busca incessante de se transformar no trigo que se oferece à terra para dar muito fruto – os frutos do Espírito Santo. Será incontável a quantidade de pessoas que encontraram a santidade de vida seguindo a orientação espiritual deste grande místico da Igreja, aliás venerado também nas Igrejas Anglicana  e Luterana, além dos muitos que, no Carmelo, seguindo o seu exemplo, encontraram um caminho seguro para a união íntima com o mistério de Cristo na Cruz, até dar a própria vida, como aconteceu com tantos mártires carmelitas, e em particular com Edith Stein, que entrando no Carmelo, adotou o nome de Teresa Benedita da Cruz e morreu oferecendo a sua vida por todos os seus irmãos judeus, martirizados durante a II Guerra Mundial.

O grande mistério que marcou encontro com João da Cruz ao longo da sua vida é Aquele que hoje continua a marcar encontro connosco. Ele inspira-nos, através do seu extraordinário exemplo de vida, a desenvolver em nós a mesma humildade e despojamento necessários ao acolhimento desse mistério que já nos habita[3]. Só assim, Cristo pode operar a transformação essencial que nos leva a ser outros Cristos neste mundo tão carente de sentido divino. A Cruz de São João é a mesma que nos desafia a um compromisso de vida pela paz, pela fraternidade, pela unidade, pela concórdia, pelo perdão, pela aceitação de todos os homens e mulheres de boa vontade de todas as línguas e culturas, num esforço contínuo por contribuir com a obra salvífica de transformar a humanidade num lugar onde Deus possa habitar, no lugar do Reino de Deus.


[1] Cântico Espiritual, Prólogo.  

[2] 2Subida 5,11.

[3] Ver, especialmente, os livros III a V da obra Subida do Monte Carmelo.

Helena Castro

Professora. Doutorada em Ciências da Educação

Celebramos, em 2026, o primeiro centenário da proclamação de São João da Cruz como doutor da Igreja e o terceiro centenário da sua canonização. Dito assim, São João da Cruz quase parece nosso contemporâneo. Realmente, a leitura da sua biografia evidencia semelhanças com o início de vida de tantas crianças e famílias mergulhadas repentinamente na pobreza, em particular, pela incompreensão, dureza de coração e crueldade dos próprios familiares. Uma condição que poderá ter marcado o seu corpo e determinado a fragilidade da sua saúde até à sua morte, com apenas 49 anos, mas não limitou a grandeza da sua caminhada espiritual.

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