Ago 26, 2025 | Casa comum, Economia e fé

Professora. Carmelita Secular

Retalhos da vida de Josefa – Natureza, Juventude, Comunhão

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Quando era criança recordo-me de gostar muito de ver uma série que passava num dos dois canais existentes (a RTP1 e a RTP2). Chamava-se “Retalhos da Vida de um Médico”. Ainda não compreendia tudo pela tenra idade, mas aliciava-me as histórias daquele médico numa aldeia do interior que generosamente, sempre com muita dedicação, cuidava dos seus doentes…

Este título ficou-me na memória “retalhos da vida de …” Retalhos, pedaços, vivências, experiências… e todos temos tantas que daria um livro, vários episódios, noites à fogueira a contar histórias. Estes pedaços são valiosos. São aprendizagens, são conhecimento, e são, tantas vezes, tesouros… tesouros de pedaços de vida que Deus nos oferece e que devemos louvar e dar graças! Todos os momentos, curtos ou prolongados, compõem este puzzle, este azulejo, esta pintura, esta paisagem que é a nossa história.

Assim, hoje decidi falar-vos da Josefa, que poderia ser a Maria ou a Leonor. Dar-vos um pedacinho da sua vida, um retalho da vida de Josefa. Talvez esta decisão tenha por base um livro que acabei de ler e de que tanto gostei – Eugénia Kraft –   a história do Tiago que se viu a braços com a possibilidade de em dois meses perder a memória. O livro está muito bem entrelaçado e o autor subtilmente vai-nos falando do perdão, da solidão, das decisões precipitadas, da fé e da ausência de fé, da vida centrada em Deus e da vida longe de Deus, do casamento, da generosidade e do AMOR. Fica esta boa sugestão de leitura para as férias que aí vêm (Eugénia Krfat, de Nuno Tovar Lemos, Editora Frente e Verso).

Retalhos da vida de Josefa

Ontem Josefa acordou cedo com as galinhas, como tanto gosta que aconteça. O despertador sugeria 7.30h, mas às 7.00h já estava pronta para acolher a vida daquele domingo, um domingo especial, uma solenidade, a Santíssima Trindade!

O cesto da roupa de cinco pessoas reclamava atenção, havia máquinas de roupa a fazer, mas o sol quente dava o seu contributo e ajudaria a secar rapidamente. Em breve, estaria assegurado que, na 2ª feira, a D. Otília tivesse a pilha de roupa pronta para passar a ferro.

Foi dar o seu passeio matinal até ao portão. Contemplava com satisfação a sua “nova casa” florida com tons de primavera. Como gostava de viver ali! Levava as cascas de fruta para as ovelhas. Josefa recuperou o seu gosto por animais. Há quatro anos “quase por acidente” recebeu duas ovelhas. Como nunca deram muito trabalho e estavam em “autogestão” foram ficando e agora o rebanho já conta doze animais, mas sete são pequeninos que nasceram há meses. Gosta de os contemplar e perceber como a mãe natureza é bela. Sempre que nasce um cordeirinho, sente uma alegria de criança. São tão lindos, frágeis e ainda mal se aguentam de pé e já vão atrás da sua mãe a pedir alimento… uma ternura!

Ontem, era o dia da eucaristia nas Pinheiras, uma missa campal instituída na altura do Padre Aníbal que passou sete anos pela paróquia e que, sendo um homem de ação, implementou um conjunto de convívios e celebrações que aproximaram muito o povo das diferentes aldeias da freguesia. Nesta celebração, festejava-se o encerramento das atividades da catequese e a festa do envio dos adolescentes que tinham recebido o sacramento do Crisma. Josefa estava muito vaidosa com o seu grupo. Com o marido, tinha assumido o seu acompanhamento há quatro anos! Eram bons adolescentes, assíduos e abertos a acolher muitas histórias. Claro que a fé não se instala só pela razão, é preciso experienciá-la. Dizem que hoje os adolescentes são muito distraídos, sim, nós também éramos, mas o seu coração é capaz de amar e permanece sedento de se dar… Josefa saía daquelas catequeses sempre de coração cheio! Valia a pena estar com eles. Era um sentimento que enquanto professora conhecia e a fazia sempre acreditar que a Educação transforma o mundo.

E lá apareceu nas Pinheiras a maioria do grupo.

A sombra era majestosa, o local estava fresco. O atual sacerdote foi missionário durante muitos anos em África e todo o seu jeito é de envangelização Ad Gentes! Estenderam-se mantas no chão, havia um altar e um púlpito de madeira, atrás estavam muitos bancos que, após a rito de entrada, ficaram cheios de acólitos. O branco das suas vestes e o verde das árvores, as vozes do coro e o silêncio do vento, o canto dos pequenos passarinhos, tudo se misturava numa harmoniosa festa do pão e do vinho, do corpo e do sangue de Jesus.

A memória de Josefa viajou para longe, os muitos anos em que foi catequista e acompanhou crianças pequenas e grandes, as passagens em terras de missão onde sentia Deus em cada respirar, tantos momentos simples, mas que marcaram profundamente a sua vida!

Após a bifana e o caldo verde promovido pelos jovens que angariavam fundos para o Jubileu dos jovens, Josefa regressou a casa, com a sua filha que também fazia parte do animado grupo de adolescentes. De tarde, esperava-a outra saída a uma casa muito bonita. A casa de comunhão. Sendo a Solenidade da Santíssima Trindade, reuniam-se para a mesma reflexão, a mesma partilha, a mesma oração, Irmãs, Frades e Leigos seculares. Uma riqueza da nossa Igreja, tão ao jeito da comunhão anunciada pelo nosso Papa Francisco. Na base esteve um texto dos escritos espirituais da Irmã Lúcia, belíssimo. Como tinha grande profundidade a nossa irmã Lúcia! No texto, o grupo foi presenteado com expressões como: “Aceita-me Senhor, como essa pequena areia escondida no cimento do Teu edifício que És Tu, morada onde habito, oceano onde me perco, Trindade onde vivo do Teu amor em mim”.

“Que me importam as coisas da terra se o meu viver é para as do céu? Esse céu onde já me encontro, onde já moro, no Seio do meu Deus que para mim é tudo! Trindade Santa! Luz de imensa claridade que me tomas para Ti como insignificante parcela do Teu Ser!”

Josefa fica perdida nos braços de Deus, apesar da sua pequeníssima capacidade de compreender esta delicadeza amorosa de Deus, ver-se permitida a ausentar-se para um espaço divino onde apenas habita Deus, onde sente forte que “eu já não vivo, é Deus que vive em mim”. Onde apetece permanecer…

Após o convívio fraterno do lanche, regressa a casa ainda para um jantar em família. Como Deus é bom, sente Josefa. Será que Lhe diz isso todos os dias? Será que reflete cada pedacinho de vida, todos os dias? Será que olha os seus “retalhos” e analisa os seus “azulejos”? Talvez não, mas quer começar a fazê-lo, deixando igual convite a todos os leitores!

Teresa Eugénio

Professora. Carmelita Secular

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