Jan 20, 2026 | Colina da Moria, Desafios

Carmelita Descalço

O desafio de cantar a glória de Deus e a dignidade do homem

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No dia 13 de dezembro de 2025 realizou-se a Abertura do Ano Jubilar Sanjoanino, em Segóvia, para comemorar os 300 anos da sua canonização e os 100 anos do seu doutoramento, com uma Eucaristia solene presidida pelo Bispo de Segóvia. No dia 14 de dezembro, o P. Geral Miguel Márquez celebrou a Eucaristia na Capela do Sepulcro do Santo com toda a família do Carmelo Descalço. No mesmo dia celebramos em Portugal com muita alegria a solenidade de São João da Cruz, evocando os 434 anos da sua morte e a abertura do Ano Jubilar.

Como viver este Ano Jubilar? Não faltarão propostas. Nós apresentamos aos leitores do Claustro o desafio de cantarmos jubilosamente com o Santo a glória de Deus e honrarmos alegremente a dignidade do homem. Para tal inspiramo-nos no Cântico dos Cânticos, o mais belo cântico de amor nupcial da Bíblia, o seu poema preferido, do qual se serviu para cantar as relações de amor de Cristo com a Igreja e a união das almas com o Deus de amor.

O Cântico dos Cânticos deixou marca na teologia e na espiritualidade de São João da Cruz. Alguns testemunhos dizem que ia pelos caminhos cantando hinos a Nossa Senhora, salmos e versos do Cântico dos Cânticos. É possível que João conhecesse a Exposición al Cantar de los Cantares de Frei Luís de León que corria por Salamanca nos seus anos de estudante. João assume o esquema nupcial do Cântico dos Cânticos da Bíblia, como expressão definitiva do encontro do homem com Deus. É seu poema favorito. Leu-o e meditou-o na tradução da Vulgata. Aparece citado explicitamente 7 vezes em Subida, 18 vezes em Noite, 64 vezes em Cântico Espiritual B, e 16 vezes em Chama. João não copia, nem imita o poema, mas revive-o e recria-o. É o fundamento bíblico da expressão simbólica da relação recíproca de amor entre a alma e Deus nas suas Canções entre a alma e o Esposo, Canções que tratam do exercício de amor entre a alma e o Esposo Cristo. Inicialmente foram chamadas Canções Espirituais e o comentário: Declarações das canções. Jerónimo de São José batizou-o de Cântico Espiritual (Madrid, 1630) e assim se chama ainda hoje à poesia e ao comentário. Alonso da Mãe de Deus chama-lhe Divino Cântico. É «o mais belo cântico de amor da literatura espanhola».

O Santo é o «pássaro solitário» que «cantou suavemente na contemplação e amor do seu Esposo» (Ditos 125). Cantou «o exercício de amor entre a sua alma e o Esposo Cristo» e viveu o «ofício do amor»: «já só em amar é meu exercício» (Cântico Espiritual B 28). O amor é tanto a manifestação da glória de Jesus que transformou a água em vinho e suscitou a fé dos discípulos (João 2, 9. 11), quanto a proclamação da dignidade da vocação do ser humano à união com Deus e com os irmãos: «E onde não há amor, ponha amor e tirará amor» (Carta 26).

 João é, por excelência, o cantor da glória de Deus e da dignidade do homem. O homem é «epifania da glória de Deus» e a «vocação do homem é a união com Deus».  A «verdadeira glória do homem» consiste em «buscar com ardor a glória que vem da glória do Senhor». A sua «experiência de glória» é «a plenitude da união de amor» com Deus. A «consumação em glória» causa na sua alma «um sentimento de grande deleite e glória» que o «faz saber a que sabe a vida eterna». De fato, «a glória de Deus é o homem vivo», o homem salvo; a «glória de Deus é o bem comum do género humano». «Falava sempre de Deus», «fala sempre do homem». «Que é o homem para que vos lembrardes dele, o filho do homem para dele cuidardes?» (Salmo 8, 4-5). «Um só pensamento do homem vale mais do que todo o mundo; portanto, só Deus é digno dele» (Ditos 39). Cantou a promessa do «rosto humano de Deus» e do «rosto divino do homem»«Deus seria homem e o homem Deus seria» – e a sua realização no mistério da Encarnação redentora de Cristo: «O pranto do homem em Deus e no homem a alegria». «O mesmo Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim» (Ditos 31).

Eis a sua mais alta teologia do amor de Deus ao homem: «Sendo ele a virtude da suma humildade, com suma bondade e com suma estimação te ama, igualando-te consigo, mostrando-se-te nestas vias das suas notícias alegremente, com este seu rosto cheio de graças e dizendo-te nesta sua união, não sem grande júbilo teu: eu sou teu e para ti e gosto de ser tal qual sou para ser teu e para me dar a ti» (Chama 3, 6). Na sua oração agradece a graça do Pai no Filho, no júbilo de ser amado e amar: «Meu Deus, não me tirarás o que uma vez me deste no teu único Filho Jesus Cristo, no qual me deste tudo o que quero; por isso, folgarei pois não tardarás se eu espero. Com que dilações esperas, pois desde já podes amar a Deus no teu coração?» (Ditos 29-30).

A Chama de amor viva, na continuação do Cântico Espiritual, é um poema e um tratado de teologia e antropologia. A plenitude de amor é autorrevelação de Deus e do homem. Deus comunicando-se como Deus, manifesta a capacidade recetiva infinita do homem e a sua abismal capacidade ativa de se transcender a si mesmo, dando Deus a Deus, e comunicando dignidade ao homem. A alma transformada «no mais profundo centro» pela «chama de amor viva» do Espírito, «delicadamente enamorada», «calor e luz dá junto a seu Querido». Esta plenitude é uma palavra de esperança que «a vida eterna sabe», todavia em esperança do que lhe falta, a saber, em tensão de glória ou glorificação essencial. «Quem procurar a honra e a glória de Deus em todas as coisas», receberá de Deus, na «vida eterna», a «coroa eterna de glória». «De honra e glória o coroastes», a saber, Deus, nos seus «encontros gloriosos», dignifica o homem na «grandeza» da sua vocação de «filho de Deus», até o consumar no «doce encontro» da glória da eternidade.

«Penso que para compreender a dignidade do homem, as possibilidades da pessoa humana, é necessário passar pelo menos uma vez pela teologia de São João da Cruz; passar, diria, pela dimensão do homem que a doutrina sanjoanina descobre. Então sabe-se o que quer dizer “homem”. Daí não podermos esquecer a sua dignidade» (João Paulo II).

Manuel Reis

Carmelita Descalço

No dia 13 de dezembro de 2025 realizou-se a Abertura do Ano Jubilar Sanjoanino, em Segóvia, para comemorar os 300 anos da sua canonização e os 100 anos do seu doutoramento, com uma Eucaristia solene presidida pelo Bispo de Segóvia. No dia 14 de dezembro, o P. Geral Miguel Márquez celebrou a Eucaristia na Capela do Sepulcro do Santo com toda a família do Carmelo Descalço.No mesmo dia celebramos em Portugal com muita alegria a solenidade de São João da Cruz, evocando os 434 anos da sua morte e a abertura do Ano Jubilar.

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