Abr 14, 2026 | Desafios, Sabedoria da Cruz

Carmelo de Aveiro

O «Fazei isto em memória de mim» de Jesus à luz de S. João da Cruz

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Quando Deus nos eleva ao miradouro da Cruz e nos abre a porta para o Mistério Trinitário a nossa visão do homem, da vida e das coisas torna-se diferente. Os nossos olhos ficam impregnados duma luz clara, pura, pacifica, divina, uma luz que é o próprio Deus, de tal maneira que, de forma natural, que o que eles veem é o dinamismo da presença de Deus na realidade circundante. E a luz de Deus que ilumina os nossos olhos vê a Deus presente, reconhece-O, acolhe-O, louva-O e permanece n’Ele participando na Luz da Luz.

Com os olhos iluminados por esta Luz, sempre que lia narração da última Ceia de Jesus, quando chegava às palavras de Jesus: «Fazei isto em memória de Mim» (Lc 22, 19) o meu entendimento voava para a intimidade da Santíssima Trindade e perdia-me na comunhão dos Três e as palavras de Jesus tornavam-se um ténue reflexo da mutua troca de amor vivida entre os Três, ou do mutuo dom que fazem entre si. Esta entrega mútua não tinha nada de estático, pelo contrário, era um fluxo de vida divina a jorrar de forma tão intensa que sempre me levava ao mistério da Eucaristia da Vida, como Memória Viva da Trindade. Fui criando a minha própria linguagem carregada de uma carga divina própria de quem participa no Mistério, o vive e, por graça, o assume como seu.

Neste ano Jubilar de S. João da Cruz determinei-me a olhar para o dinamismo trinitário do «Fazei isto em memória de mim» à sua luz e deixar iluminar a minha vivencia pela sua experiência. Caminhamos juntos no mistério da comunhão dos santos e mais uma vez me senti acompanhada por ele, herdeira em fidelidade criativa da sua experiência e por isso continuadora, no hoje da nossa história, da espiritualidade do carmelo. Caminhar com os santos é um desafio que nos ultrapassa, um desafio em que sentimos ser levados pela mão do Espírito Santo e, por isso, um desafio de grande beleza divina e profundidade espiritual.

Descalcemos as sandálias e partamos. O primeiro que descobrimos é que a intuição da presença do dinamismo trinitário na afirmação de Jesus é profunda e toca o coração de S. João da Cruz. Ele convida-nos a fundamentar o dinamismo trinitário do “Fazei isto em memória de mim” num olhar novo sobre a Eucaristia. Um olhar contemplativo em que a Eucaristia surgecomo um fluxo de comunicação substancial entre as pessoas divinas e a alma.

De seguida apresentamos os três eixos fundamentais para esta fundamentação:

1. O “Romance” da Criação e a Memória como Participação

Nos seus Romances (Poemas sobre a Trindade), S. João da Cruz descreve o Filho como o “esplendor” do Pai e a “figura da sua substância”. O “Fazei isto” é o convite para entrar no movimento de amor eterno entre o Pai e o Filho.

Para o Santo, a “memória” não é uma recordação psicológica de um evento passado, mas uma das potências da alma que deve ser “purificada e esvaziada” para ser preenchida pela posse de Deus. Fazer isto em memória d’Ele é despojar-se do humano para que o Verbo realize em nós o mesmo movimento de entrega que realiza ao Pai. 

2. A “Chama de Amor Viva” e o Banquete Eucarístico

Na obra Chama de Amor Viva, S. João da Cruz fala de como o Espírito Santo (a chama) transforma a alma no que ela ama. 

Quando Jesus diz “Fazei isto”, Ele está a pedir a nossa transformação. Ao comungar e “fazer a memória”, a alma é aspirada para o centro da Trindade. O Santo afirma que a alma chega a realizar, por participação, o mesmo respiro de amor que o Pai realiza no Filho e o Filho no Pai. A Eucaristia é o combustível para esse “viver na Trindade”.

3. O Mistério da Cruz como Entrega Trinitária

Para São João da Cruz, a Eucaristia é a extensão sacramental do Calvário. No Cântico Espiritual, ele explica que o Filho de Deus veio “reconciliar e unir todas as coisas” pelo amor.

O dinamismo é divino porque o sacrifício do Filho é, na verdade, o dom total do Pai. Ao repetir o gesto de Jesus, a alma entra na Kénosis (esvaziamento). Ao fazer a memória da entrega, a alma torna-se o próprio espaço onde a Trindade habita e opera. João da Cruz diria que este gesto nos torna “deuses por participação”.

Contemplemos, agora, a beleza do pensamento sanjoanista:

  1. Memória: Esvaziamento das lembranças temporais.
  2. Ação (Fazei isto): Identificação com a entrega do Filho.
  3. Vida Trinitária: O Espírito Santo assume a vontade da alma e leva-a ao seio do Pai. 

Para São João da Cruz, a Eucaristia é a janela sacramental pela qual a alma acede ao movimento eterno de amor da Trindade. Este dinamismo não é estático; é um fluxo de entrega e receção que o Santo descreve como uma “fonte” que jorra mesmo na noite escura. 

Para conhecer melhor este movimento entre as Pessoas Divinas e o Sacramento, podemos estruturar o pensamento em três dinâmicas características do nosso Santo:

1. A Eucaristia como o “Respiro” da Trindade na Alma

Na obra Chama de Amor Viva, João da Cruz afirma que, na união transformante, a alma participa no respiro de amor (o Spiratio) que ocorre entre o Pai e o Filho. 

 Na Eucaristia, recebemos o Filho que é o “esplendor da glória do Pai”. Ao comungar, o Espírito Santo (a Chama) opera na alma o mesmo movimento de “retorno” do Filho ao Pai. A alma não apenas recebe Deus, mas é inserida no ato de Deus amar-se a Si mesmo. 

2. A Memória: O Altar da Comunicação Substancial

Segundo S. João da Cruz, a memória é a potência da alma que nos liga à esperança e à eternidade. 

Este mandato de Jesus: Fazei isto em memória de Mim, para o Santo, purifica a memória e todas as imagens criadas para que ela se torne um “vazio capaz de Deus”. No momento eucarístico, a memória deixa de recordar factos e passa a conter a Presença. É o Pai comunicando o Filho à alma através do “toque delicado” do Espírito. 

3. A “Fonte” de Toledo: O Dinamismo da Unidade

O poema sobre a Fonte, escrito por São João na prisão, é o texto onde ele mais explicitamente une Trindade e Eucaristia: 

  • O Pai (A Origem): “Aquela eterna fonte está escondida / bem sei eu onde tem sua morada”.
  • O Filho (O Fluxo): “Bem sei que outra corrente dela nasce / e que o mesmo efeito dela faz”.
  • O Espírito (A União): “Bem sei que destas duas correntes / nenhuma delas à outra se adianta”.
  • A Eucaristia (A Manifestação): “Esta eterna fonte está escondida / neste vivo pão para dar-nos vida”. 

Neste dinamismo, a Eucaristia é a corrente que traz a fonte até nós. Ao “fazer isto”, a alma bebe da corrente (Filho) para chegar à origem (Pai), movida pela força da água (Espírito). 


Para São João da Cruz, a Eucaristia é o exercício da vida trinitária na terra. Não comungamos apenas um “objeto” sagrado, mas entramos num fluxo de relações: o Pai dá-nos o Filho, e o Espírito torna-nos um só com esse Filho para que possamos, com Ele, voltar ao Pai. 

O poema “A Fonte” (escrito na escuridão do cárcere de Toledo) é a explicação máxima de como a Trindade se “derrama” na Eucaristia. Ele usa a metáfora da água para descrever o dinamismo substancial.

Deixemo-nos levar da mão do santo e entremos dentro dos versos que fundamentam esse movimento:

1. O Pai: A Origem Escondida

“Aquela eterna fonte está escondida,
bem sei eu onde tem sua morada,
embora seja noite.” 

O Pai é a Fonte. No pensamento sanjoanista, Ele é o princípio sem princípio. A Eucaristia começa aqui: no desejo do Pai de comunicar a Sua vida. Ele está “escondido”, mas o Sacramento (o Pão) é o lugar onde essa morada se torna acessível.

2. O Filho: A Corrente Gerada

“Bem sei que outra corrente dela nasce,
e que o mesmo efeito dela faz,
embora seja noite.” 

Aqui reside o dinamismo: a “corrente” (o Filho) nasce da “fonte” (o Pai). São João da Cruz enfatiza que o Filho possui o “mesmo efeito”, ou seja, a mesma natureza e poder. Na Eucaristia, quando Jesus diz “Fazei isto”, Ele está a oferecer-nos essa “corrente” que flui eternamente do Pai.

3. O Espírito Santo: A União das Correntes

“Bem sei que destas duas correntes”
“nenhuma delas à outra se adianta,”
“embora seja noite.” 

O Espírito é o laço de igualdade e amor. Não há anterioridade; é um fluxo simultâneo. Na espiritualidade de São João da Cruz, o Espírito é quem “prepara” a alma para que o Pão Eucarístico não seja apenas alimento, mas comunhão trinitária.

4. A Síntese Eucarística

“Esta eterna fonte está escondida
neste vivo pão para dar-nos vida,
embora seja noite.” [1]

Este é o verso final do dinamismo. O “Vivo Pão” (Eucaristia) é a própria Fonte Trinitária condensada. Ao “fazer isto em memória d’Ele”, a alma:

  • Bebe da Corrente (Filho);
  • É impulsionada pela Igualdade (Espírito);
  • Repousa na Origem (Pai).

Concluimos dizento quepara S. João da Cruz, o “Fazei isto” é um convite para mergulhar nesta fonte. A Eucaristia é o “fluxo de Deus” que vence a “noite” da criatura. O dinamismo é divino porque não para no rito: ele arrasta a alma para dentro do movimento de geração (Pai-Filho) e de amor (Espírito).

Na Eucaristia, Jesus convida-nos a fazer o que Ele faz: entregar-se por amor. Para São João da Cruz, ao aceitarmos este convite, deixamos de ser nós mesmos para nos tornarmos ‘Deus por participação’, amando o Pai com o próprio amor do Filho.

Deixamos uma proposta orante para quem quiser mergulhar na fonte.

Para rezar este mistério à luz de São João da Cruz, a oração deixa de ser um “falar com Deus” para se tornar um “estar em Deus”, deixando que o fluxo da Trindade passe por nós.

Aqui estão três tópicos de oração para a oração pessoal ou diante do Santíssimo Sacramento:

1. A Adoração da Fonte (O Pai)

  • Ação: Silencie a mente de todas as preocupações e imagens (“fazer memória” de nada que não seja Deus).
  • Oração: “Pai, Tu és a fonte escondida no Pão Vivo. Adoro o Teu desejo eterno de Te comunicares a mim. Esvazio a minha memória de tudo o que não és Tu, para que a Tua vida ocupe todo o meu espaço.”
  • Sentimento: Pura confiança e repouso na origem de todas as coisas.

2. A Identificação com a Corrente (O Filho)

  • Ação: Visualize o “Fazei isto” como o gesto de Jesus entregando-se nas suas mãos e no seu coração.
  • Oração: “Jesus, Verbo do Pai, Tu és a corrente que me arrasta. Ao dizeres ‘Fazei isto em memória de mim’, convidas-me a ser um só contigo. Que o meu sofrimento e a minha alegria hoje sejam a Tua própria entrega ao Pai. Não sou eu que me ofereço, és Tu em mim.”
  • Sentimento: União e kénosis (esvaziamento de si para que Cristo aja).

3. O Respiro de Amor (O Espírito Santo)

  • Ação: Sintonize a sua respiração física com a presença de Deus. Sinta que cada inspiração é o amor que recebe e cada expiração é o amor que devolve.
  • Oração: “Espírito Santo, Chama de Amor Viva, respira em mim. Que eu ame o Pai com o Teu ímpeto. Transforma a minha vontade na Tua, para que o meu viver seja o Teu próprio respiro entre o Pai e o Filho.”
  • Sentimento: Ardor, paz profunda e transformação.

Chegaremos ao fim da nossa oração com a mesma certeza interior que S. João da Cruz: «Bem eu sei a fonte que mana e corre embora seja noite».

Ir. Sofia da Cruz

Carmelo de Aveiro

Quando Deus nos eleva ao miradouro da Cruz e nos abre a porta para o Mistério Trinitário a nossa visão do homem, da vida e das coisas torna-se diferente. Os nossos olhos ficam impregnados duma luz clara, pura, pacifica, divina, uma luz que é o próprio Deus, de tal maneira que, de forma natural, que o que eles veem é o dinamismo da presença de Deus na realidade circundante. E a luz de Deus que ilumina os nossos olhos vê a Deus presente, reconhece-O, acolhe-O, louva-O e permanece n’Ele participando na Luz da Luz.

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