Vivemos tempos estranhos, em que a palavra “amor” permanece frequente no discurso, mas é cada vez mais rara na experiência concreta. Basta acompanhar com atenção o fluxo diário das notícias para perceber como o outro é tantas vezes reduzido a ameaça, obstáculo ou mero dano colateral.
Aqui e ali as guerras prolongam‑se com uma inquietante normalização do sofrimento humano; decisões políticas e económicas são tomadas em função de interesses imediatos, mesmo quando isso implica o empobrecimento coletivo; as pessoas são discriminadas de acordo com a sua etnia ou origem e o espaço público tende a ser ocupado por uma lógica de autoafirmação permanente, onde o “eu” se sobrepõe quase automaticamente ao “nós”. O Papa Francisco sintetizou esta realidade com uma lucidez difícil de contornar quando afirmou que «a globalização da indiferença tirou‑nos a capacidade de chorar» (Homilia em Lampedusa, 8 de julho de 2013) e lembrou que «a guerra é sempre uma derrota da humanidade» (Fratelli tutti, n.º 261, 2020).
Esta erosão do amor ao outro não se limita aos grandes conflitos internacionais. Ela infiltra‑se silenciosamente no quotidiano, nas pequenas escolhas, nas relações profissionais, familiares, comunitárias e até eclesiais, onde o calculismo individual tende a substituir a responsabilidade partilhada. O outro deixa progressivamente de ser tratado como pessoa, como um ser que é digno e merecedor de ser reconhecido e valorizado como tal, para ser uma variável lucrativa (porque me beneficia) ou dispensável (porque não me traz vantagens). Talvez por isso, mesmo fora do discurso religioso ou académico, esta pobreza relacional seja hoje percebida com grande nitidez. Numa linguagem inesperada, mas de uma honestidade desarmante, os Da Weasel escrevem: «Ou pensei que amei porque é agora que eu sei / A razão da palavra consagrada / Que tanta gente dá à toa em troca de quase nada» (“Dialectos de Ternura”, Amor, Escárnio e Maldizer, 2007). Há nestes versos uma consciência aguda da banalização do amor, tratado como moeda corrente, como palavra gasta, usada sem peso nem compromisso.
A ciência contemporânea, por seu lado, tem vindo a confirmar que o amor não é um mero ornamento da vida humana, mas um dos seus alicerces mais profundos. Estudos em psicologia, neurociência e medicina mostram de forma consistente que relações fortes e saudáveis reduzem a mortalidade, melhoram a recuperação da doença e aumentam a resiliência emocional. Julianne Holt‑Lunstad demonstrou que a qualidade das relações sociais tem um impacto na mortalidade comparável ao abandono do tabaco e superior ao da obesidade ou da inatividade física (“Social Relationships and Mortality Risk”, PLoS Medicine, 2010). O amor aparece, assim, não como algo que simplesmente se transmite, mas como um espaço vital onde se pode viver e recuperar.
O psiquiatra Viktor Frankl, refletindo a partir da experiência extrema dos campos de concentração, afirmou que «o amor é a única forma de compreender outro ser humano no mais profundo núcleo da sua personalidade» (Man’s Search for Meaning, 1946). Para Frankl, amar não significa projetar desejos ou recolher gratificação emocional; significa acolher o outro como ele é, reconhecendo‑lhe um valor que não depende da sua utilidade. O amor surge aqui como um lugar interior capaz de receber o outro – um recetáculo, mais do que um desempenho.
Esta dimensão é igualmente sublinhada por Erich Fromm, quando distingue o amor maduro de formas imaturas de ligação. No seu clássico The Art of Loving, escreve que o amor não é um sentimento passivo, mas uma atitude ativa e responsável, marcada pela capacidade de dar espaço ao outro sem o possuir (Fromm, 1956). Amar não é ocupar, é permitir existir. Não é prender, é sustentar.
Curiosamente, este percurso científico converge de forma notável com aquilo que a fé cristã sempre afirmou. Como escreveu Bento XVI, «ser cristão não é o resultado de uma decisão ética ou de uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa» (Deus caritas est, n.º 1, 2005). O amor cristão nasce, não da iniciativa voluntarista, mas da experiência de se ter sido amado primeiro. Antes de qualquer ação, há uma receção; antes de qualquer anúncio, um acolhimento.
A espiritualidade dos Santos Carmelitas soube exprimir esta verdade com uma sobriedade luminosa. Santa Teresa de Jesus recordava que «não é pensar muito, mas amar muito» (Moradas IV, 1, 7) que se transforma a vida, não porque o pensamento seja dispensável, mas porque não é o fim último. E São João da Cruz levou esta lógica ao extremo da sua simplicidade exigente ao afirmar: «Onde não há amor, põe amor, e encontrarás amor» (Carta 26). Não como promessa fácil, mas como critério de fidelidade num mundo frequentemente árido, porque é criador de sentido, mesmo – ou sobretudo – quando não é vantajoso. E Santa Teresa do Menino Jesus condensou tudo isto numa frase de surpreendente densidade: «A minha vocação é o amor» (Manuscrito B, 3v). Não um amor abstrato ou grandioso, mas vivido no concreto, no quotidiano, na fidelidade silenciosa.
Também a psicologia do desenvolvimento confirma esta intuição. John Bowlby demonstrou que a saúde emocional não nasce da autonomia precoce, mas da experiência de vínculos seguros, afirmando que a capacidade de amar e de confiar tem origem na experiência primária de acolhimento (Attachment and Loss, vol. I, 1969). Mais uma vez, o amor não aparece como emissão heroica, mas como base habitável a partir da qual a liberdade se pode construir.
Talvez por isso o cristianismo tenha sido, desde o início, mais convincente pelas relações do que pelos discursos. Não foi pela sofisticação teórica nem pelo peso institucional que marcou o mundo, mas pela forma concreta como os cristãos cuidavam uns dos outros, permaneciam juntos na adversidade e assumiam consequências reais por fidelidade ao outro e a Deus. Foi essa evidência que levou observadores externos a exclamar: «vede como eles se amam» (Tertuliano, Apologeticum, 39,7). Não como slogan, mas como constatação desconcertante.
No início do seu pontificado, o Papa Leão XIV escolheu nomear o tempo presente com uma frase simples e exigente, afirmando: «Irmãos e irmãs, esta é a hora do amor» (Homilia de início do Pontificado, 18 de maio de 2025). Não como entrega emotiva, mas como discernimento. Porque num mundo cansado de palavras e saturado de trocas pobres, o amor vivido – acolhido antes de ser exibido – continua a ser linguagem inteligível. E esperemos que alguém, olhando de fora, possa dizer sobre nós, não por hábito, mas por evidência: vede como eles se amam.


