Jun 2, 2026 | Cinzas e pão, Cultura

Tomás de Picos

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Este não é um texto sobre Tomé. Nem sobre Tomás. Nem sobre Tomás de Picos. Também não é sobre anjos como, ao início, parece que se insinua. Este texto é sobre o que é, mas para o saber terás de o ler. E não precisas de saber alemão. Não me parece nada justo que se desvele já aqui o seu argumento. Por isso, por favor, lê. Lê muito, leitor.

1. Quem me conhece sabe que me visitam e assistem anjos. Uns vejo-os, outros não; ou porque durma de olhos fechados, ou com eles veladamente abertos. Enfim, são tantos, e tão incansáveis, que seria impossível registá-los todos. A ti também, leitor.

Esta manhã vieram pelo menos dois, ambos varões. Um de barbichas e era muito novo; outro muito velho e muito bem escanhoado. O novo chamava-se Luís; o velho, José. Este era lavrador, aquele youtuber. O velho trazia o rosto curtido por mil sóis, o novo por écrans mil. O primeiro dera muitos frutos – era até avô; o segundo, fizera uns vídeos sobre a Antiga Aliança e, quando lhe perguntei por um, disse-me que nunca subira algum.

Do primeiro mais não falarei, senão que me mandou chamar, ia a manhã mais que alta; e já eu trabalhava mais que de vento em popa, quando ele se achegou exigindo que fosse eu a impor-lhe o Escapulário do Carmo.

Já o velho, alto como um pinheiro bravio, depois da Missa das Oito, entrou-me desajeitado pela sacristia com um livro das Migalhas Terceiras na mão; e disse-me assim:

– O senhor botava-me aqui o seu nome neste livro?

– Boto, sim Senhor! – anuí. E qual é a sua Graça?

– José Nunes Berdelhe e para mim era uma honra!

– Não o percebi…

– Sou José Nunes Berdelhe com B! E era para mim uma honra se levasse aqui, neste livro, o nome do Senhor Padre escrito pela sua mão, que um Padre com um cálice e uma patena é mais cum home cum arado nas duas!

– Mas sem o home do arado, que é o Padre co’a patena e o cálix?

E enquanto lhe mirava o rosto tisnado e o impecável negro fato de ver a Deus, mas sem gravata preta sobre a camisa branca, apertei-lhe a pequenina mão direita calosa, e atirei-lhe idêntica cortesia:

– A honra é toda minha! Mas porque quer o meu nome aí?

– Pelo que o Senhor Padre dixe agora ali dentro na igreija!

Já mais que arrependido e descoroçoado, aprestava-me eu a rabiscar algo na folha, quando lhe atirei mais uma:

– Donde é o senhor?

– Sou de Ponte de Lima. E a minha vida já não está para muitas cavalgadelas?

– Cavadelas?!

– Senhor Padre, cavar cavei muito! Mas agora já não. Uns micos aqui, outros além para umas alfácias, uns pés de salsa e uns pimentos, e uma ferrém para os coelhos! Qu’isto fica tudo prós filhos e netos, qu’eu agora sou mais de bir uma vez por semana à cidade.

– Ora, faz o Senhor muito bem, que a vida também vai no gozar.

– E no rezar também Senhor Padre! E é que o Senhor dixe ali dentro duas coisas bem ditas que me tocaram muito! É qu’eu cando beinho a Braga, beinho comprar a lotaria para uma sociedade de amigos. Você sabe: é sempre um número certo! Chego, beinho à missinha, rezo nesta igreija, vou almoçar, e ósdespois do almoço regresso de carreira à minha terra com o número bem defendido.

– Pronto, Senhor José, já sei quem você é – ó incorrigível palermice a minha! – apressei-me eu a dizer-lhe, para o despachar.

– Repare, Senhor Padre: eu nesta igreija consigo rezar. Gosto de mesmo de rezar. É um consolo! É um consolo mesmo! Consolo, consolo! Nesta Igreija do Carmo, só depois da minha reforma já li vinte vezes a Imitação de Cristo!

– Não me diga! – Parvo eu lhe respondi, ao ver um rústico tão laborioso com os óculos de leitura como com a enxada!

– E agora vou-me sentar ali em baixo, adiante do Sãojoãozinho da Cruz, a ler, que esse é Santo de muita luz, até de noite! I olhe o que eu le digo! Olhe o que eu le digo, Senhor Padre: até de noite bem noite, ouviu?!

2. É, pois, aqui que entra São João da Cruz neste texto.

Um dia também eu o li.

Para dizer a verdade, a primeira vez que o fiz foi aos dezoito anos, sendo noviço, e por dever. E lendo-o pensei que lia alemão! Sim, ainda hoje a leitura dos seus textos não é de todo fácil, mas vale a pena arriscar lê-los, mesmo não sabendo alemão.

Hoje, porém, quando recomendo a sua leitura a alguém, digo sempre: «há um encontro à tua espera, e é com São João da Cruz! Faz-te ao encontro com ele, pois vale a pena, visto que é homem sereno, límpido e cristalino!». E logo acrescento que no alfobre da sua escrita tem ele dois tipos de escritos: os grandes e os pequenos. E que obviamente recomendável é que o iniciante o comece a ler pelos seus textos pequenos: aquelas pequenas sentenças, que de tão pequenas são por demais assimiláveis, saborosas e substanciais. E prometo uma outra coisa: através delas, leitor, encontrar-te-ás com a Luz.

3. E de seguida aproveito sempre para lembrar que ele é poeta.

E agora que tu, leitor, leitora, o sabes, proponho que, quando possas, passes da leitura das sentenças ou ditos para os poemas. Mas faz-me primeiro um favor: esquece que analisaste poemas nas aulas do Secundário. Não, não é isso que nesta leitura te peço. Apenas te desejo lembrar que ele é um poeta encantado por Deus! E que assim como um rapaz se enamora por uma rapariga, ele se enamorou-se de Deus! E escreveu-lhe poemas de amor! Vá, vai lá ler sem medo o que ele escreveu. Lê os seus poemas sem cuidar de os interpretar, lê-os sem os procurar entender. Lê, apenas, sem analisar, apenas como quem escuta com o coração!

Sim, amigo, experimenta ler os seus poemas (mesmo sem procurar compreender). E lembra sempre que o ler e o coçar vão do começar; ou seja: ao começares a ler, lembra que apenas estás a iniciar um caminho. Um longo caminho. E que não precisas de perceber tudo já hoje. Ou de chegar ao fim já amanhã. E que, lendo-os em voz alta, irás sendo tocado pelo encanto da música daqueles divinos versos. Sim, basta-me que lendo, oiças esses versos de amor. Ah, e é que também te lembro que ele é um guia top, experimentado, sabedor. Ele sabe de poesia, como sabe de música e de fé. Sabe trabalhar as palavras e amaciar as pedras, abrir caminhos e voar. E ao falar da fé, ele fala duma noite; e ao falar da alma, fala dela como de um amante; e de Deus como dum fogo! E ainda que hoje, na tua vida, possas, possamos usar outras palavras e imagens, enfim, no fundo, a experiência que ele viveu, bem pode ela ser também a tua. E a minha também.

Repara: a esta altura já deves saber que São João da Cruz não se lê como quem lê um autor actual e que, talvez, o melhor será lê-lo em grupo, e até com alguém a teu lado que seja mais crescido espiritualmente. Não é que tenha que ser; é um pode ser, se tu quiseres caminhar assim.

Ah, e verás que aquela algaraviada inicial irá, pouco a pouco, fazendo-se luz e até fogo e, alevantando-te, far-te-á subir aos cumes do Amor. Assim mesmo, sem mais! Aliás, não tem ele outro objectivo senão a que também tu descubras que Deus te ama apaixonadamente, perdidamente, e que também tu podes (e sabes) co-responder a esse amor, com toda a tua alma, com todo o teu coração e inteligência, com todo o teu ser – e que não, amigo, não, amiga, nós não nascemos para outra coisa, não!

Isso, acredita em mim, pois eu recordo-me que num dos seus livros ele escreveu que «a alma vive mais onde ama do que no corpo que anima» (Cântico Espiritual (8,3)).

Vai, pois, por aí, leitor, leitora, vai por onde ele te levar.

4. Apostila final: São João da Cruz nunca, mas nunca mesmo, escreveu para sábios ou intelectuais, mas para fradicos e, sobretudo, para grupos de freirinhas sem curso teológico! É por isso que não me resigno a que, nestes tempos, só falem dele em congressos e a doutores de teologia e filosofia. Não me parece justo, não, porque ele é nosso e escreveu para nós; é do povo e escreveu para avultar o povo! É dos pobres e escreveu para pobres, para andarilhos e famélicos, para os que perderem o sentido, os sentidos e andam por aí, vazios. À procura.

Ao que sei, ele ensinava pelos caminhos, andarilhando com dois ou três companheiros. Ou abancando num terreiro sobre uma pedra, com discípulos à volta, sentados no chão, escuitando-o com prazer. E quando digo discípulos, digo noviços, mas também leigos, serviçais, rapazotes.

É por isso que te inquiro: atreveste a começar? Atreves-te a ler poesia?

Vá! Não tenhas medo, mesmo se lendo, nem mesmo à segunda e terceira vez, algo entendes. Vá, vai sem medo! Lê até que algo em ti desperte e comece a cantar como uma fonte!

Para não te perderes pelo caminho – estás lembrado que te falei que isto é um caminho longo, certo? – procura conhecer a época de São João da Cruz. A verdade é que para compreender bem o Santo precisas de ler bem mais que aquilo que, grande ou pequeno, ele escreveu. Porque tal como com os grandes escritores e poetas, a sua escrita nasce da vida real, da sua experiência vivida, sofrida, rezada. Nasce do seu encontro com Deus. E nasce também do contexto histórico e espiritual em que cresceu e viveu. Procura tu, portanto, ler uma biografia sua. Desse modo entenderás porque quis ele escrever e escreveu, e fazendo-o, fê-lo deste modo e não daqueloutro. A estes destinatários e não a outro público mais selecto.

Vá, o que te prometo é um caminho acompanhado por um homem pequenino e amável de nome frei João da Cruz. Ele fará com que a tua marcha a seu lado seja clara e serena, porque o que ele mais quer é levar-te aos braços do Amor.

Frei João

Este não é um texto sobre Tomé. Nem sobre Tomás. Nem sobre Tomás de Picos. Também não é sobre anjos como, ao início, parece que se insinua. Este texto é sobre o que é, mas para o saber terás de o ler. E não precisas de saber alemão. Não me parece nada justo que se desvele já aqui o seu argumento. Por isso, por favor, lê. Lê muito, leitor.

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