Carmelita Descalço, responsável pela pastoral juvenil da Ordem

O que procuramos quando não conseguimos estar sós?

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«Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saberem permanecer em repouso num quarto.» Esta observação de Blaise Pascal, nos Pensamentos, continua a interpelar-nos mais de três séculos depois. Talvez porque toca numa experiência profundamente humana. Quantas vezes procuramos preencher cada instante de silêncio? Quantas vezes sentimos necessidade de verificar o telemóvel, abrir uma nova página, iniciar uma conversa, ouvir uma música ou encontrar qualquer ocupação que afaste o vazio?

A frase de Pascal parece descrever uma simples incapacidade de estar sozinho. Contudo, talvez a questão seja mais profunda. Pascal chamou-lhe divertissement: essa tendência para nos desviarmos de nós mesmos através de ocupações, ruídos, preocupações e distrações. Não se trata apenas de entretenimento. Trata-se de tudo aquilo que nos impede de permanecer diante da nossa verdade mais profunda. Por isso, talvez devamos perguntar: o que procuramos quando não conseguimos estar sós?

A resposta não é evidente. Nem sempre fugimos de alguma coisa. Muitas vezes procuramos alguma coisa. Procuramos companhia, reconhecimento, segurança, sentido. Procuramos uma promessa capaz de sustentar a vida e dar sentido ao caminho. Mesmo quando não sabemos nomeá-la, existe em nós uma expectativa de plenitude que nos impele para diante.

O problema surge quando tentamos satisfazer essa expectativa com realidades incapazes de corresponder à sua medida. O coração humano possui uma estranha amplitude. Nada do que alcança parece bastar-lhe por muito tempo. Obtém aquilo que desejava e, pouco depois, descobre em si um novo desejo. Encontra uma meta e começa a procurar outra. Como se estivesse sempre à espera de algo que ainda não chegou.

Como nota D. José Cordeiro no prefácio à edição portuguesa de Romper a solidão, vivemos num tempo que «perdeu o primado da interioridade». A expressão resume de forma feliz uma preocupação recorrente em Erik Varden: a dificuldade contemporânea em habitar aquele espaço interior onde o ser humano se encontra consigo mesmo, com os outros e com Deus.

Sem essa interioridade, o desejo dispersa-se. Corre de estímulo em estímulo, de novidade em novidade, sem encontrar repouso. Procuramos incessantemente alguma coisa, mas nem sempre sabemos o quê. Talvez seja por isso que a abundância de possibilidades nem sempre produz maior liberdade. Por vezes produz apenas mais inquietação.

A dispersão tornou-se uma das marcas da cultura contemporânea. Vivemos cercados por solicitações constantes. A atenção fragmenta-se em mil e uma coisas. O silêncio torna-se raro. A espera parece intolerável. Tudo nos convida a procurar satisfação imediata. O divertissement assume hoje formas novas, mas continua a afastar-nos das perguntas fundamentais da existência: o que procuro? O que amo? O que dá sentido ao meu caminho? São perguntas exigentes, mas só elas podem devolver unidade à nossa existência.

Talvez seja precisamente aqui que a observação de Pascal revela toda a sua profundidade. A dificuldade de permanecer num quarto não nasce apenas da incapacidade de estar parado e só. Surge também da dificuldade de permanecer diante dessas perguntas. Quando deixamos de as escutar, o desejo perde progressivamente a sua direção. Continua vivo, mas torna-se errante. Corre de experiência em experiência, de novidade em novidade, procurando uma satisfação que nunca parece definitiva.

É então que a dispersão se instala. Não porque desejemos demasiado, mas porque já não sabemos orientar o desejo.

A tradição espiritual cristã reconheceu há muito esta dinâmica. Séculos antes dos debates contemporâneos sobre atenção, ansiedade ou dispersão, São João da Cruz descreveu-a numa linguagem diferente. Falava dos apetites que ocupam o coração e o impedem de encontrar o seu verdadeiro repouso.

Importa, porém, deter-nos um pouco no que São João da Cruz vê quando fala dos apetites. Por detrás deles encontra uma sede. O coração procura alegria, segurança, reconhecimento, pertença, amor. Procura repousar em algo que não se desfaça ao primeiro abalo. Por isso se prende tantas vezes a bens que prometem muito e dão tão pouco. Esses bens podem ser bons, necessários e belos; porém, revelam-se insuficientes quando lhes pedimos que sustentem sozinhos o peso da nossa esperança.

Há momentos em que esta desproporção se torna evidente. Um êxito desejado perde rapidamente o brilho. Uma segurança cuidadosamente construída revela-se frágil. Uma relação bela, quando transformada em absoluto, começa a sufocar aquilo que devia libertar. Então o coração descobre que continua sedento. Procurou repouso definitivo onde só podia encontrar sinais, mediações e caminhos.

Aqui São João da Cruz revela-se um especial companheiro de caminho, ajudando a ler com profundidade esta experiência. Como quem acompanha alguém que caminha de noite, ajuda a distinguir entre a luz que guia e os brilhos que desviam. A sua palavra é exigente porque leva a sério a grandeza do desejo humano. Se o coração foi criado para Deus, nenhuma realidade finita pode ser tratada como se fosse Deus.

Um dos seus Ditos de Luz e Amor exprime esta pedagogia com extrema simplicidade: «Nega os teus desejos e encontrarás o que o teu coração deseja» (D, 15). A frase não pretende sufocar a vida interior, mas conduzi-la à sua verdade mais profunda. Há desejos que prometem plenitude e acabam por estreitar o coração; há renúncias que, atravessadas por amor, abrem no coração uma nova capacidade de receber.

Assim se compreende a força da ascese sanjoanista. O coração vai aprendendo, por graça, a abrir as mãos e a deixar partir aquilo que antes procurava reter. Aprende a amar sem possuir, a receber sem absolutizar, a caminhar sem exigir que cada etapa contenha já a plenitude da meta. Assim, pouco a pouco, o desejo deixa de se dispersar e começa a unificar-se.

São João da Cruz exprime esta passagem numa fórmula admirável: «Para vires a possuir tudo, não queiras possuir coisa alguma» (1 S 13, 11). A frase parece dura enquanto a escutamos de fora. Torna-se luminosa quando a lemos a partir da experiência de quem percebeu que o coração não se torna livre acumulando apoios, mas deixando-se conduzir para além deles.

Neste caminho, a esperança deixa de ser uma palavra genérica. Aparece como dom de Deus. Há momentos em que nada mudou exteriormente: a fragilidade permanece, a noite permanece, as interrogações permanecem. E, no entanto, a pessoa continua a caminhar. Algo a sustenta. Algo a atrai. Deus dá ao coração a capacidade de se abrir para além do imediato, de não se fechar no que já possui, de continuar a avançar quando ainda não vê claramente.

É neste espaço interior que a oração encontra o seu lugar. Não como fuga, mas como permanência. A oração torna-se o lugar onde o coração aprende a esperar, não porque domina o caminho, mas porque se deixa habitar por Deus no próprio caminho. Quem reza começa a descobrir que o silêncio não é apenas ausência de palavras; pode ser o lugar onde a alma deixa de fugir e começa a escutar.

Quem espera em Deus aprende a permanecer. Permanece diante das perguntas, sem fugir para a primeira compensação. Habita a demora, sem transformar a impaciência em dispersão. Atravessa o vazio, descobrindo que nem todo o vazio é ausência de sentido. Há silêncios em que começamos finalmente a escutar o que se move dentro de nós. Há noites que retiram os apoios habituais para que a alma aprenda a apoiar-se mais profundamente em Deus.

É por isso que a noite ocupa um lugar tão decisivo em São João da Cruz. A noite não é apenas imagem do sofrimento. É o lugar onde a esperança é purificada. Quando muitas luzes se apagam, a alma começa a descobrir uma claridade que não depende da evidência imediata, do consolo sensível ou da segurança psicológica. É uma luz mais discreta, mais profunda, mais livre.

O próprio poema da Noite escura começa com esta experiência paradoxal: «Em uma noite escura, / com ânsias, em amores inflamada» (N, canção 1). Há noite, mas há também amor. Há obscuridade, mas há um fogo secreto que move a alma. A travessia não nasce da simples força humana. Nasce de uma atração mais profunda, de um amor que precede a própria caminhada pelo desconhecido.

Quem atravessa a noite descobre algo inesperado. Deus não está apenas no termo da viagem. Está já presente na própria travessia. Não como evidência possuída, mas como presença que atrai, sustenta e purifica. A pessoa já não caminha apenas porque vê; caminha porque é atraída.

Então a inquietação que antes empurrava para fora começa a conduzir para dentro. A solidão deixa de ser apenas ameaça. Pode tornar-se lugar de verdade. E, nessa verdade, Deus não aparece como uma resposta exterior às nossas perguntas, mas como Aquele que já nos esperava no fundo delas.

A esperança dada por Deus não elimina a espera. Dá-lhe espessura. Permite atravessar a demora sem a reduzir a frustração. Permite viver a ausência sem a transformar em abandono. Permite aceitar que há caminhos nos quais só se avança quando se deixa de possuir tudo antecipadamente.

Por isso, a noite sanjoanista não é um beco sem saída. É uma passagem. Nela, a alma aprende que Deus não é apenas a meta distante do caminho, mas a presença escondida que sustenta cada passo. É como uma chama no coração da noite: ainda não dissipa toda a escuridão, mas já impede que a alma se entregue a ela.

No fundo, a pergunta inicial permanece: o que procuramos quando não conseguimos estar sós?

Talvez procuremos aquilo para que fomos criados. Talvez a dispersão esconda uma sede mais profunda do que imaginamos. Talvez o coração humano continue à procura de uma esperança suficientemente grande para corresponder à sua medida.

É neste horizonte que ganham sentido as palavras de São João da Cruz: «a esperança do céu / tanto alcança quanto espera» (Poesias, “Após amoroso lance”, est. 4). A espera não tem poder por si mesma. O que transforma é Aquele em quem se espera. A esperança dilata o coração à medida do dom que recebe de Deus e que ainda aguarda receber em plenitude.

Talvez Pascal tivesse razão. Custa-nos permanecer em repouso porque o coração humano foi criado para mais do que qualquer distração pode oferecer. Mas São João da Cruz ajuda-nos a perceber que essa inquietação não precisa de se perder na dispersão. Pode tornar-se caminho. Aquilo que parecia vazio pode tornar-se espaço de visitação. E aquilo que parecia ausência sem sentido pode revelar-se, discretamente, como promessa de encontro.

Carlos Vieira

Carmelita Descalço, responsável pela pastoral juvenil da Ordem

«Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa: não saberem permanecer em repouso num quarto.» Esta observação de Blaise Pascal, nos Pensamentos, continua a interpelar-nos mais de três séculos depois. Talvez porque toca numa experiência profundamente humana. Quantas vezes procuramos preencher cada instante de silêncio? Quantas vezes sentimos necessidade de verificar o telemóvel, abrir uma nova página, iniciar uma conversa, ouvir uma música ou encontrar qualquer ocupação que afaste o vazio?

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