Set 8, 2026 | Perspetivas

Sacerdote Carmelita Descalço | Pároco

Tu, Amado, passaste e transformaste a minha vida: Jesus, Zaqueu e João da Cruz

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A bíblia conta-nos várias passagens onde Jesus passou e atravessou; não somente cidades, os desertos e as aldeias das terras de Israel, mas também passou e atravessou a vida de muitas pessoas que esperavam por uma liberdade maior.

Os Evangelistas contam-nos as caminhadas que Jesus fazia onde muitas vezes, pelo caminho, encontrava tantas pessoas abandonadas, ignoradas, solitárias, órfãos e viúvas, os famintos, os sedentos, os que andavam tristes e abandonados, os pescadores, os publicanos, as mulheres de má vida e muitas outras pessoas em muitas outras situações de vida. Um exemplo concreto foi daquela passagem de Jesus pelos caminhos de Jericó onde pelo caminho encontrou Zaqueu que era um chefe dos cobradores de impostos. No Evangelho de Lucas 19,1 lê-se esta frase: «Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade». Logo de seguida diz que aí, naquela cidade da qual Jesus atravessava e passava pelos seus caminhos, vivia um homem rico, chamado Zaqueu que era chefe dos cobradores de imposto.

São Lucas conta com algum detalhe esta passagem de Jesus por aquela cidade. Atravessava a cidade e deu-Se conta de que alguém O queria ver. Era um homem de baixa estatura e com uma fama menos boa por ser chefe de cobradores de impostos. Fez um grande esforço e correu mais depressa e subiu a um sicómoro porque sabia que Jesus iria passar por aquele lugar. A intuição de Zaqueu acertou. E, não é que Jesus passou mesmo por aquele local? Ao dar-se conta das dificuldades que aquele homem encontrava para O ver, quando ali chegou, Jesus aproximou-Se e pediu para que Zaqueu descesse depressa porque gostava de ficar em sua casa.

Lucas diz que Zaqueu «desceu imediatamente e acolheu Jesus cheio de alegria». Ao ter passado por aquela cidade e ao tê-la atravessado, Lucas comenta que Jesus fora hospedar-se em casa de um pecador.  Já na casa, São Lucas fala da mesa como lugar onde Jesus perscruta o coração de Zaqueu. Na mesa, Jesus fez sentir-lhe que Deus é Aquele que desce às condições mais miseráveis da vida humana, mergulha nos sofrimentos, nas lágrimas, nas rejeições, nas murmurações que cada pessoa humana sente, na marginalização constante dos mais fracos.

E Zaqueu sentiu esse grande amor e a misericórdia de Deus… Um coração terno que se compadece das misérias humanas porque ama àqueles que Ele criou segundo a sua imagem e semelhança.  

Jesus, ao passar pela vida de Zaqueu, transformou-a totalmente. De facto, Zaqueu que até então era «egoísta» ou «individualista» tornou-se agora um homem generoso que partilha dos seus bens com os mais necessitados. Zaqueu que defraudara os pobres, tomou consciência do seu acto e prometeu a Jesus que iria restituir até quatro vezes mais àqueles que defraudara.

Ao atravessar a cidade ֪ qualquer cidade – Jesus foi ter com aqueles que estavam perdidos dos caminhos de Deus. Ao passar pela cidade, melhor dito, ao passar pela vida dos que estavam perdidos, Jesus dividiu as suas vidas em dois momentos: a vida passada e a vida do presente que se deve levar e viver de hoje em diante em Deus e com Deus, porque «o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».

A passagem de Jesus por Jericó foi um momento de graça. Aquele que procurava vê-l’O, foi visto por Ele. O olhar do pecador Zaqueu cruzou-se com o olhar de amor de Jesus, pois «o olhar de Deus é amar e fazer mercês» – como diz São João da Cruz. Foi um momento de transformação.

O cruza de olhares de Jesus e de Zaqueu foi um acontecimento extraordinário. Jesus passou pela vida de Zaqueu. Olhou a pessoa de Zaqueu. Entrou na sua vida e transformou-a total e radicalmente.

A passagem de Jesus pela cidade de Jericó fez com que Zaqueu sentisse que Deus não era um Deus longínquo, mas próximo; que deseja encontrar-Se com aqueles que andam perdidos e sem rumo. E enquanto outros murmuravam dizendo que ele era um pecador, Zaqueu fixou o seu olhar n’Aquele que estava a sua frente porque «depois que Ele o olhou, / Sua graça e formosura nele deixou» (cfr CB Poema, 33). De facto, São João da Cruz também experimentou este fixar o olhar no olhar de Jesus. Ou melhor, sentiu o olhar penetrante de Jesus. Aquele olhar que faz sentir a proximidade de Deus.

Deus é amor, olha com amor; chama e abraça num abraço abrasado de amor que transforma aqueles que procuram uma vida nova. Se Zaqueu, num frente a frente, olhou fisicamente a Jesus, João da Cruz olhou Jesus espiritualmente na contemplação daquela «fonte que mana e corre / mesmo sendo noite». E eis que escreve assim: «depois que olhaste para mim, dando-me pela primeira vez a graça e tirando-me essa cor morena e desprezível da culpa, com a qual não estava para ser vista, já bem podes olhar-me. Quer dizer, eu já posso e mereço ser vista, recebendo mais graça do teu olhar. Foi com ele que, pela primeira vez, me tiraste a cor morena e me tornaste digna de ser vista, pois, com o teu olhar de amor, graça e formosura em mim deixaste» (CB 33,6).   

E continua dizendo que: «na verdade, quando Deus vê a alma adornada de graça, apressa-Se a conceder-lhe maior graça, porquanto habita nela com muito agrado» (CB 33,7).

Foi isto, de facto, o que aconteceu na passagem de Jesus pelas terras de Jericó onde encontrou Zaqueu. Jesus viu a alma de Zaqueu adornada de humildade, pois não se importava com as murmurações das pessoas, subiu a um sicómoro para ver o Deus que passava humildemente por aqueles caminhos trilhando a mesma estrada pisada pelos pecadores, um deles o próprio Zaqueu. Vendo a humildade e o amor, a fé e o desprendimento de Zaqueu, Jesus foi hospedar-Se em sua casa: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa» (Lc 19,5). De facto, «para Deus, amar mais é conceder mais mercês» (CB 33,7). Ao conceder tudo a Zaqueu, o amor, a graça, o perdão, fez com que Zaqueu ficou cheio de Deus e não precisava de mais nada: «Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: «Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais» (Lc 19,8). O mesmo passou com João da Cruz. Depois de sentir o amor de Deus, João da Cruz somente exclama:

«Ó meu Amado, Senhor Deus! […]

Não me ireis tirar, meu Deus, o que um dia me destes no vosso filho único, Jesus Cristo, em quem me destes tudo o que eu quero. Por isso, se eu espero, alegrar-me-ei porque não tardaras.

Meus são os céus e minha é a terra. Meus são os povos. Meus são os justos e os pecadores. Os anjos são meus, e a Mãe de Deus e todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e todo para mim, porque Cristo é meu e tudo para mim» (Oração da Alma Enamorada).

Aqui se resume as experiências de Zaqueu e de João da Cruz no encontro com Jesus. Dois homens de baixa estatura, mas de grande desejo de querer ver Jesus, pois sabendo que Aquele que passava pela vida de cada um deles, era Aquele que sempre passa e fazendo o bem.

No seu outro Livro, o dos Actos dos Apóstolos, Lucas diz de Jesus: «depois do batismo que João pregou, Deus ungiu com o Espírito Santo a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com Ele» (Lc 10,36-38). E, o bem que Jesus faz é transformar vidas.  

No Livro do Cântico Espiritual, São João da Cruz comparava Jesus, o Amado, a um veado que «passa» e «foge», correndo velozmente deixando uma chaga de amor tatuada no coração «da alma enamorada». Essa chaga tatuada com amor estava presente tanto em João da Cruz como em Zaqueu. Essa chaga, deixada pelo Amado-Cristo, será o início do caminho da transformação na vida de cada um deles. Deixada impressa na alma, essa chaga só encontrará o seu remédio e cura na união transformante com o Amado; ou dito por João da Cruz: «amada no Amado transformada».

Deixando-se guiar pelo Amado, a alma encontrará uma verdadeira transformação de amor. João da Cruz diz que «em Jesus Cristo, filho de Deus, a alma, de acordos com estes conhecimentos dos mistérios divinos, transforma-se de modo elevado e profundo no amor de Deus, agradecendo e amando novamente o Pai com grande sabor e deleite em Jesus Cristo, seu Filho. É o que faz unida a Cristo, juntamente com Cristo. E o sabor deste louvor é duma tal delicadeza, que é totalmente inefável» (CB 37,6). Pois, neste encontro final onde os olhares de amor se cruzam definitivamente e se entrelaçam os corações nas brasas de amor, amada no Amado transformada, o Amado fará com que a amada O veja e se veja na Sua própria formosura: «E assim, extasiada eu na tua formosura, olhando um para o outro, cada um veja no outro a sua formosura, sendo apenas a de um e outro a tua formosura. Portanto, eu ver-Te-ei na tua formosura, e Tu a mim na tua formosura; eu ver-me-ei em Ti na tua formosura, e Tu ver-Te-ás em mim na tua formosura. Que eu me pareça contigo na tua formosura e que Tu Te pareças comigo na tua formosura. Que a minha formosura seja a tua formosura e a tua formosura a minha formosura; assim, eu serei igual a Ti na tua formosura, e Tu serás igual a mim na tua formosura, porque a tua própria formosura será a minha formosura. É por isso que nos veremos um ao outro na tua formosura» (CB 36,5).      

P. Noé Martins

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