Out 24, 2023 | Casa comum, Vida da Terra

Professora aposentada. Carmelita secular.

Se vivesse hoje em Gaza ou Israel, importava-me com a Amazónia?

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Sobre a Amazónia, que está atualmente a sofrer um período de seca muito intensa, já tinha em mão muito informação para partilhar no Claustro. Entretanto, no sábado 7 de outubro, dia da Memória de Nossa Senhora do Rosário, acordámos todos com as notícias sobre o atentado do Hamas em Israel. O desenrolar dos primeiros comentários e imagens deixaramme sem voz. Meu Deus, mais um massacre… Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores… “Querida Amazónia”, a vida da nossa Terra está a sofrer noutro lugar: não te importas que esclareça mais tarde a tua sede de água e de paz? 

Logo na noite de domingo, outras imagens se me impuseram na minha mente. A minha memória viajou até aos meus treze anos, frente à televisão a preto e branco que os meus pais acabavam de comprar. Durante o ano de 1961, vi grande parte das reportagens sobre o processo de Adolf Eichmann em Jerusalém. Este antigo oficial da Gestapo, raptado na Argentina pelos serviços secretos israelitas, em 1960, fora um dos principais responsáveis pela organização da deportação dos judeus europeus para os campos de extermínio. 

Quinze anos depois do julgamento de Nüremberg, aquele foi o primeiro processo baseado em testemunhos de dezenas de sobreviventes dos campos, e foi amplamente difundido em todo o mundo pela rádio e televisão. Muitos adolescentes e jovens, sobretudo em Israel, na Europa e na América do Norte, descobriram então a organização minuciosa do aniquilamento sistemático dos judeus: a Shoah, a destruição, catástrofe, em hebraico, ou o Holocausto, termo anglo-saxónico mais usado em Portugal. 

Muitos sobreviventes não conseguiram partilhar as suas memórias aquando do seu regresso. Na sociedade muita gente também não estava preparada ou disposta a ouvi-las. A Shoah foi considerada «indizível ou inaudível» nas primeiras narrativas divulgadas logo após a guerra. O abastecimento alimentar, a reconstrução e a busca de um novo equilíbrio emocional eram as preocupações prioritárias neste difícil pós-guerra. De tal modo que tenho recordações destes tempos, apesar da minha tenra idade.

O processo Eichmann e a descoberta da Shoah abriu-me bruscamente ao mundo dos adultos; foi um choque terrível para mim. Como foi possível?, perguntava ao meu pai com quem ficava a ver as reportagens do processo e os documentários sobre os campos. A minha mãe encontrava sempre outras ocupações, só mais tarde percebi que não gostava de recordar estes tempos. Acabado o processo e as reportagens, procurei saber mais sobre o extermínio dos judeus na Europa. Na época, só com revistas e livros, que se multiplicaram precisamente após o processo Eichmann. Ou no liceu público do centro de Toulouse, França, onde estudava e onde também cresceu a minha fé nas aulas de Instrução Religiosa e nos grupos da JEC.

Nasci, cresci, estudei nesta cidade – hoje multicultural e cosmopolita –, antes de emigrar para Portugal, em 1971, após o meu casamento com o Pedro. A minha família francesa também é multicultural, como muitas outras em França. Houve uma intensa mobilidade interna das pessoas no século passado, sobretudo durante e depois da crise mundial de 1929 e 2ª Guerra Mundial. O meu pai é oriundo das Ardenas, perto da Bélgica, e migrou para sul, ainda criança, com a família, nos anos 1930; a minha mãe nasceu numa aldeia (hoje vila) a sudoeste de Toulouse. Conheceram-se na aldeia durante a guerra, casaram em 1945, e instalaram-se em Toulouse, já repleta de refugiados de várias guerras europeias: judeus, espanhóis, italianos, polacos… 

Ao longo da minha vida em Portugal, nunca deixei de me documentar sobre a Shoah. A partir dos anos 1980, surgiram obras fundamentais que comprava em França. Ainda vou comprando um ou outro, mas com menos frequência, já tenho tantos… Interessam-me mais agora as suas raízes antropológicas e filosóficas, procurando completar a resposta à pergunta «Como foi possível?» da minha adolescência. A cobertura jornalística do processo de Eichmann que fez a filósofa Hannah Arendt abriu uma polémica que ainda não acabou sobre a «banalidade do mal». Arendt descreve Eichmann como uma pessoa inteligente, mas repetindo sempre os mesmos clichés, um burocrata incapaz de pensar e julgar por si próprio. Um homem comum, banal, mas que cometeu crimes descomunais, sendo, portanto, culpado. Pelo contrário, uma biografia mais recente apresenta-o como um antissemita com fortes convicções políticas desde a sua juventude, disfarçado durante o processo.

E agora, depois do atentado descomunal do Hamas, depois dos bombardeamentos israelitas em Gaza, em que ficamos? Como a mesma «banalidade do mal»? Quem são os culpados? Não há uma responsabilidade coletiva no que se refere à situação no Médio-Oriente? A Shoah já passou, mas permanece como uma herança pesada na nossa memória. Talvez seja preciso libertar-nos do peso da herança para compreender o presente e procurar soluções para um futuro melhor.

Nicole Vareta

Professora aposentada. Carmelita secular.

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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