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Educadora Social | Estudante de Doutoramento UMinho

Almas Jovens, Corações Vivos: Emoções e Vivências Profundas no Âmago da Igreja

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A relação entre a Igreja e o estado emocional dos mais novos pode ser complexa e influenciada por uma variedade de fatores interconectados. Estes fatores complexos interagem de maneira única, impactando as perceções e emoções dos mais novos em relação à Igreja. Entender esta interação é crucial para criar ambientes religiosos que promovam o bem-estar emocional. E a Igreja, será que desempenha um papel fundamental nesta tela? Caminha ela de forma salutar, passo a passo, com o mundo emocional dos mais novos?

Numa mensagem divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé, o Papa Francisco compartilhou palavras de inspiração e esperança em antecipação à primeira Jornada Mundial da Criança, marcada para os dias 25 e 26 de maio de 2024. Sob o tema «Eu faço novas todas as coisas» (Apocalipse 21:5), a jornada visa destacar a importância espiritual e a beleza intrínseca da inocência e da fé dos mais jovens.

Na sua profunda sabedoria espiritual, o Papa Francisco expressou a necessidade de reconhecer e valorizar a pureza do coração das crianças, como um reflexo da renovação constante e da promessa divina de fazer novas todas as coisas. Num mundo muitas vezes marcado por desafios demasiado complexos e interconectados entre si (e. g. educação de qualidade; saúde e nutrição; violência e abuso; pobreza e desigualdade; tecnologia e exposição online; desafios emocionais e sociais; mudanças na estrutura familiar; insegurança alimentar; desastres naturais e conflitos armados…), o olhar simples e cheio de fé dos mais novos é uma fonte de esperança, sugerindo que, através deles, a renovação espiritual pode florescer.

Esta mensagem destaca a responsabilidade compartilhada de proteger e nutrir a espiritualidade infantil, incentivando uma abordagem acolhedora e inclusiva na comunidade religiosa e na sociedade em geral. O tema bíblico escolhido, retirado do Livro do Apocalipse, ressoa como um convite a contemplar a beleza da criação divina através dos olhos puros e curiosos dos mais novos. Além disso, o Papa Francisco enfatiza a importância de promover uma educação que vá além do académico, cultivando as emoções e os valores fundamentais da compaixão, solidariedade e respeito pelos outros. Francisco destaca ainda que, ao fazer novas todas as coisas, os mais novos se tornam num farol de esperança, guiando-nos para um futuro mais compassivo e inspirador.

Convém entender que, para muitos dos mais novos, a Igreja é um espaço onde procuram respostas para questões existenciais, um refúgio para as suas ansiedades, um lugar para expressar as suas emoções e os seus sonhos de maneira autêntica. Nesse contexto, será que as emoções desempenham papel vital, servindo de veículo para a experiência espiritual e construção de uma conexão mais profunda com a fé?

A compreensão das emoções no contexto espiritual e religioso ganha, nos dias de hoje, uma dimensão ainda mais profunda e significativa. Mais que simples reações automáticas do corpo, elas desempenham um papel fundamental na experiência espiritual e na construção de uma ligação mais profunda com a fé religiosa.

Ao reconhecer as emoções como respostas automáticas e integradas do corpo, conforme descrito por Damásio (2003), percebemos que elas não são apenas fenómenos isolados, mas também manifestações emaranhadas da interação entre o biológico, o psicológico e o social. Por esta razão, as experiências emocionais em contexto religioso podem ser vistas como expressões complexas deste vasto intercâmbio.

A regulação emocional, conforme abordagem de Gross (1998), torna-se crucial neste contexto. Assumir a consciência emocional, como ponto de partida, implica reconhecer e compreender o papel das emoções no desenrolar do dia a dia da pessoa, neste caso, dos mais jovens, quer na relação com entre pares, como entre si e a comunidade, e ainda entre si e Deus. Como se compreende, no âmbito espiritual, esta consciência emocional vai além da identificação superficial das emoções, pois ela implica uma compreensão mais profunda das emoções como veículos para a experiência espiritual e como elementos que moldam a relação com a fé. O modelo processual da regulação emocional proposto por Gross (1998) destaca a dinâmica multifacetada deste processo. A seleção consciente de emoções em contextos religiosos pode incluir a escolha de expressar gratidão, compaixão ou reverência, por exemplo. Por outro lado, a modelação do timing emocional pode ser especialmente relevante na expressão das emoções durante as práticas religiosas. Por sua vez, o controle da experiência e da expressão emocional, está intrinsecamente ligado à procura duma ligação espiritual mais profunda, influenciando o modo como os mais novos experienciam e expressam a sua fé.

Reconhecer e compreender as emoções no contexto religioso fortalece a conexão espiritual e abre espaço para uma regulação emocional mais consciente e intencional. Deste modo, a consciência emocional enriquece a experiência religiosa, melhora e revela-se facilitadora do relacionamento mais profundo com o divino.

As emoções, consideradas componentes normais e necessários da experiência humana, desempenham papéis multifacetados no nosso bem-estar psicológico, nas relações sociais e na tomada de decisões (Belzung, 2010). Aceitá-las e compreendê-las, em vez de simplesmente as suprimir, torna-se essencial para uma vida equilibrada e adaptativa também ao nível da experiência de fé.

A abordagem que valoriza a importância da aceitação e compreensão das emoções ressoa especialmente no contexto religioso, onde a espiritualidade frequentemente se entrelaça com experiências emocionais profundas. Em vez de negar ou reprimir as emoções, o reconhecimento da sua influência e o explorar da sua expressão dentro do contexto espiritual pode levar a uma vivência mais autêntica da fé. Por essa razão, com Belzung (2010) assumimos que a emoção é um sinal que prepara o organismo para o comportamento de urgência, visando restaurar a segurança, pelo que no contexto religioso, esse comportamento de urgência pode ser manifestado como uma ânsia ou procura espiritual mais profunda através de uma forte entrega emocional durante os rituais religiosos ou uma resposta compassiva diante das adversidades.

Ao abraçar as emoções como parte integrante da jornada espiritual, os mais novos podem encontrar um caminho mais autêntico para a conexão com a fé. Neste caso, em vez de encarar as emoções como obstáculos, elas são assumidas como aliadas na procura de significado, orientação e consolo espiritual. Esta abordagem evidencia a importância de uma jornada espiritual que, mais que racional, seja profundamente emocional e humana.
Existe uma variedade de emoções que os mais novos podem vivenciar dentro do ambiente eclesial-celebrativo: a alegria e a gratidão podem surgir durante momentos de louvor e exultação, enquanto a tristeza e a compaixão podem emergir diante de reflexões sobre a dor no mundo e a procura de justiça social. Além disso, a fé entrelaça-se muitas vezes com emoções como esperança, amor, amizade, compreensão e perdão, proporcionando um contexto emocional rico para explorar e expressar a sua espiritualidade.

Por outro lado, é na infância e, mais intensamente na adolescência, que se inicia uma fase propícia para desafios emocionais. A procura de identidade, a pressão social e as dúvidas sobre crenças podem gerar conflitos internos muito fortes. A Igreja, porém, ao reconhecer estas lutas emocionais, pode oferecer um espaço seguro para os mais novos compartilharem as suas inquietações, e encontrarem apoio e orientação. Por essa razão se considera que a abordagem da Igreja em relação às emoções dos mais novos desempenha um papel crucial. É importante que as comunidades religiosas promovam uma compreensão equilibrada das emoções, encorajando a sua autenticidade sem julgamento. Sublinho, no entanto, que ninguém pode dar aquilo que não tem. E a Igreja para se tornar um ambiente inclusivo, onde os mais novos se sintam à vontade para explorar e expressar as suas emoções, fortalecendo assim a jornada espiritual, tem de se assumir como tal. Na verdade, quem lidera os mais novos tem de saber lidar com as suas próprias emoções.

Em última análise, a interação entre os mais novos, os líderes da Igreja e as emoções é um processo dinâmico e multifacetado. Sempre que a Igreja reconhece e abraça a riqueza emocional dos mais novos está a desempenhar um papel fundamental na formação de uma geração que procura significado, propósito e conexão mais profunda com o absoluto.
A primeira Jornada Mundial da Criança é mais do que um evento! Ela é um convite à reflexão profunda sobre o papel dos mais novos na renovação espiritual da humanidade. Em última análise, ao abraçarmos o tema «Eu faço novas todas as coisas», somos todos convidados a reconhecer o poder transformador do sagrado presente nas aspirações e nas descobertas, na simplicidade e na fé dos mais novos. Que esta experiência inspire, ao longe e ao largo, uma reflexão profunda sobre o futuro da espiritualidade e da ligação dos mais novos ao absoluto através da pessoa de Jesus – tal é o que mais desejamos.

REFERÊNCIAS
Belzung, C. (2010). Biologia das Emoções. Lisboa: Instituto Piaget.
Damásio, A. (2003). Ao encontro de Espinosa: As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir. Lisboa: Publicações Europa-América.
Gross, J. J. (1998). The emerging field of emotion regulation: An integrative review. Review of General Psychology, 2(3), 271–299. https://doi.org/10.1037/1089-2680.2.3.271

Verónica Parente

Educadora Social | Estudante de Doutoramento UMinho

A relação entre a Igreja e o estado emocional dos mais novos pode ser complexa e influenciada por uma variedade de fatores interconectados. Estes fatores complexos interagem de maneira única, impactando as perceções e emoções dos mais novos em relação à Igreja. Entender esta interação é crucial para criar ambientes religiosos que promovam o bem-estar emocional. E a Igreja, será que desempenha um papel fundamental nesta tela? Caminha ela de forma salutar, passo a passo, com o mundo emocional dos mais novos?

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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