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A porta branca e o abraço do Pai

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Uma noite com Thérèse Martin no Coliseu do Porto

Na ligação entre memória, arte e espiritualidade, certas experiências renovam a forma como olhamos o mundo e a nós mesmos.

A crónica que segue pretende partilhar uma dessas experiências vividas no Coliseu do Porto, na noite de 30 de setembro de 2025, durante a apresentação de um espetáculo de teatro musical THÉRÈSE MARTIN da Autoria, letras, encenação e figurinos de Matilde Trocado. Mais do que um musical foi um encontro com a vida e a essência de alguém que de pequenina se fez grande, um convite a atravessar portais simbólicos de confiança, entrega e amor. As palavras que aqui escrevo procuram transmitir não apenas o que se viu e ouviu, mas sobretudo o que se sentiu: a formosura que se revela no pequeno caminho e a força do gesto simples de Thérèse Martin que continua a metamorfosear corações.

No coração do Porto, no Coliseu, abriu-se na noite do dia 30 de setembro de 2025 uma janela para o invisível. Naquela noite, as paredes antigas do teatro guardaram a respiração suspensa de milhares de pessoas e o teto alto tornou-se firmamento.

(Ah, e impossível foi não recordar ali que, em boa hora, em agosto de 1995, milhares de portuenses, motivados por um forte sentimento de identidade, se manifestaram e acorrentaram impedindo a venda do Coliseu a interesses estranhos!).

Na noite daquele 30 de setembro não assisti apenas a um musical, nem apenas a um teatro, nem apenas a música, mas a um sopro de eternidade que atravessou a plateia; a uma brisa delicada que, ao mesmo tempo, se transformou em vento impetuoso. Quem entrou naquela sala entrou como espectador, mas saiu como peregrino. Sim, peregrino! Pois fomos convidados a continuar a fazer um caminho ao lado de Thérèse Martin.

O Coliseu, espaço de tantas memórias mundanas, parecia ter-se transfigurado: o palco acendeu-se e foi-se convertendo em casa familiar, onde a vida de Thérèse e suas irmãs se bordava em gestos simples, como quem tece a ternura num delicado pano de linho. E depois, em Carmelo, onde o silêncio falava mais do que as palavras, onde o eco do invisível se insinuava em cada canto. Por fim, em terra prometida, onde a fragilidade se convertia em força e a pequenez ganhava a forma da eternidade.

O palco não foi palco: foi limiar. Um portal entre o visível e o invisível. Aconteceu!

Os corpos dançavam como orações, as músicas sustentavam cada respiração como incenso que sobe e a história de Thérèse Martin desenrolava-se como quem desfolha uma rosa diante dum povo sedento de beleza, tal como a criança que perante nossos atónitos olhos a rosa desfolhou! E cada pétala caía suavemente e cada gesto era semente. Havia em cada movimento a marca do essencial: o amor que se oferece sem medida, a esperança que não se curva, a fé que não precisa de discursos nem de solenidades para incendiar o mundo. Assim foi a vida de Thérèse Martin – e aqui compreendi melhor a intuição de João Paulo II, quando escreveu que «a arte é por sua natureza uma chamada ao Mistério. Mesmo quando interpela a realidade mais dura, deixa sempre entrever uma abertura para o infinito» (Carta aos Artistas, n.º 6).

Quando os acordes da orquestra (ao vivo!) evocaram Debussy, Ravel e Satie, nós não escutávamos apenas música. Escutávamos o rumor do Céu a encontrar-se com a terra, o segredo do Infinito a encostar-se ao instante. Era como se os sons descessem das alturas e se misturassem com o respirar coletivo da sala, como se o tempo tivesse sido suspenso numa eternidade breve. Em cada cena, o público era convidado a atravessar a grade que separa e ao mesmo tempo une, a partilhar a clausura que não aprisiona, mas liberta, a ouvir a tosse frágil de Thérèse Martin que, paradoxalmente, soava como um hino de confiança e abandono nos braços do Pai! 

E no final, quando a pequena carmelita prometeu passar o céu a fazer o bem sobre a terra, não havia no Coliseu apenas olhos fixos num palco. Havia corações acesos, havia lágrimas discretas, havia uma comunhão invisível. A certeza era comum: a grandeza habita no pequeno e a luz pode acender-se mesmo no mais breve dos dias.

Mas o que mais me ficou gravado em mim, não foi uma canção, nem sequer uma palavra. Foi uma imagem simples, mas fulgurante: uma porta branca.

Ali, no meio da cenografia, surgiu essa porta, despojada de ornamentos. A porta branca rasgava o espaço como um limiar. Não era apenas um adereço, era uma passagem, um convite, uma fronteira entre dois mundos. O silêncio falava mais alto do que qualquer melodia, e a presença da porta irradiava como farol discreto no meio da cena.

A passagem…

Fiquei a pensar que talvez a vida de Teresa tivesse sido sempre isto: uma porta. Uma abertura discreta para o Mistério, uma fresta por onde o invisível se deixa ver. Porta de infância para maturidade, porta de casa para Carmelo, porta de fragilidade para coragem, porta da morte para a Vida maior. E talvez por isso a porta branca tenha brilhado tanto nos meus olhos: era a metáfora do «pequeno caminho», discreto e desarmado, mas absolutamente revolucionário – «O meu caminho é todo de confiança e de amor, não compreendo as almas que têm medo de um tão terno Amigo» (História de uma alma, Manuscrito C, 36rº).

A brancura daquela porta não falou de uma pureza distante, rígida ou fria. Falou de brancura cálida, luminosa, que acolhe mais do que afastava a «historia de uma alma». Uma porta branca que se abre não para clausurar, mas para a liberdade. Não para um fim, mas para um início. Era como se toda a noite, toda a música, toda a dança, toda a história tivessem sido apenas preparação para aquele instante em que a porta se revelava como um sacramento. E, no entanto, foi outro gesto que deu ainda mais corpo a esta imagem: o momento em que Teresinha correu para os braços do Pai.

Um gesto tão breve, tão simples, mas que condensava todo o mistério da sua vida. O pai, Luís Martin, já fragilizado pela doença, surgia ali não apenas como pai humano, mas como ícone do Pai maior, Aquele que acolhe, ampara, sustém.

Ah, aquele abraço!

O abraço parecia deter o tempo e apagar todas as distâncias: Thérèse, pequenina e confiante, lançava-se sem reservas e, neste gesto, via-se a sua alma inteira. Não havia cálculo, não havia temor: apenas entrega – confiança plena como afirma: – «É a confiança e nada mais do que a confiança que deve conduzir-nos ao Amor» (História de uma alma, Manuscrito C, 36rº).

Corria Thérèse porque bem sabia que seria recebida. Corria porque tinha aprendido na família Martin, desde cedo, que o amor é mais forte do que qualquer fraqueza. Corria como quem atravessa a porta branca da confiança: sem olhar para trás, sem hesitar, como quem sabe que do outro lado não há vazio, mas plenitude. E neste correr reconhecemo-nos todos: nós também a correr, nós também a atravessar, nós também a sermos recebidos, nós também a sermos abraçados, nós também fragilizados e de braços abertos, à espera!

Este abraço, mais do que qualquer palavra, era a tradução viva do «pequeno caminho»: confiar, abandonar-se, entregar-se totalmente ao Amor. E foi neste instante que o Coliseu deixou de ser apenas teatro. Tornou-se casa. Tornou-se lar. Tornou-se colo. Tornou-se templo. Tornou-se lugar de reencontro.

Obrigada, Matilde Trocado.

Obrigada por me ter ajudado a recordar as palavras de Bento XVI: «A verdadeira função da arte é arrancar o homem da rotina e torná-lo capaz de elevar o olhar para o alto, para a beleza e para o Mistério» (Discurso aos artistas, 21 de novembro de 2009).

Ao sair, os abraços dos amigos que ali se encontravam foi presença. E sim, o bulício da Invicta retomava o seu ritmo, os carros continuavam a apitar, as luzes dos cafés continuavam a brilhar, mas dentro de mim ficaram estas duas imagens que não se desvanecem: a porta branca e o abraço do pai. Símbolos diferentes e ao mesmo tempo inseparáveis: passagem e acolhimento, coragem e confiança, entrega e plenitude, esforço e doçura.

A porta branca como promessa.

O abraço como cumprimento.

E é isto que permanece.

Matilde Trocado, mostrou-nos que a vida de Thérèse Martin, não foi um enredo de feitos espetaculares, mas um contínuo atravessar de portas, sempre com a leveza de quem corre para os braços do Pai. Talvez por isso Thérèse ainda hoje agite corações: porque nos lembra que a verdadeira grandeza está em ousar ser-se pequenino. Porque nos mostra que a santidade não se mede por feitos estrondosos, mas pela confiança absoluta, pelo gesto humilde, pela ousadia de amar sem reservas, pois «a santidade consiste em estar sempre pronta a sofrer, a tudo deixar fazer ao bom Deus, contente de si mesma com todas as pequenas coisas» (História de uma alma, Manuscrito C, 2vº).

No Coliseu do Porto, no dia 30 de setembro, Teresa voltou para nós. Voltou não como figura distante, nem como santa intocável, mas como irmã próxima, amiga, companheira de caminho. E reforçado deixo que o seu testamento vivo: o caminho mais curto para a eternidade é o amor simples, puro, sem reservas.

A porta branca continua diante de nós.

O Pai continua de braços abertos à nossa espera.

Resta-nos apenas correr, como Teresinha, e deixarmo-nos encontrar e ela, em nós, continuará o seu legado – «Não encontro outra maneira de vos provar o meu amor senão lançar flores…» (História de uma alma, Manuscrito B, 4rº).

Que seja este o Caminho!

Referência Bibliográfica
Bento XVI. (2009, 21 novembro). Discurso aos artistas. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.
João Paulo II. (1999). Carta aos artistas. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana.
Santa Teresa do Menino Jesus. (1997). História de uma alma: Manuscritos autobiográficos. Lisboa: Edições Carmelo.

Verónica Parente

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
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Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
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(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
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Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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