A Ascensão de Jesus ao Céu é uma solenidade que sempre me faz sentir envolvida pelo abraço amoroso do Pai a Jesus. É o reencontro de Ambos do qual brota a plenitude do fluxo de amor do Verbo ter deixado o Pai e ter vindo ao mundo e agora deixar o mundo e voltar ao Pai. Sentir-nos envolvidos por este intenso fluxo de amor é algo natural, que nos é dado pelo facto de Jesus ter assumido a nossa humanidade e desta forma nos ter levado consigo para o céu. Este ano decidi rezar este mistério à luz de S. João da Cruz e partilho algo da minha vivencia orante e da minha busca de compreensão do mistério. É um desafio bonito que lanço a cada leitor.
Olhemos juntos para um breve texto de S. Paulo:
“Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, deu-nos a vida juntamente com Cristo, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas — é por graça que estais salvos! — e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus, em Cristo Jesus.” Efésios 2, 4-6
Este texto da Carta aos Efésios é o que melhor reflete a realidade da união mística entre a Cabeça (Cristo) e o Corpo (a Igreja), em ligação com a Sua exaltação e subida ao céu. E isto por duas razões:
- O Mistério do “Já e Ainda Não”: O verbo que está no passado (“nos fez sentar”). Espiritualmente, isto significa que a nossa alma e toda a Igreja já ascenderam com a Cabeça. Na eternidade de Deus, o Corpo já participa na glória da Ascensão do noivo, embora historicamente ainda caminhe na Terra.
- A Expressão “Em Cristo Jesus”: Esta pequena expressão paulina é a chave da mística. Não nos sentamos nos céus ao lado de Cristo como espectadores; sentamo-mo-nos n’Ele. A nossa humanidade foi inserida no próprio ser de Jesus quando Ele subiu ao Pai.
Outros complementos bíblicos breves:
- Efésios 1, 22-23: “Deus submeteu todas as coisas debaixo dos seus pés e constituiu-O Cabeça suprema da Igreja, que é o seu Corpo (…)” — Mostra que a exaltação cósmica de Jesus (Ascensão) visa diretamente a Sua união com o Corpo.
- Colossenses 3, 1-3: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus (…) porque a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.” — O convite prático à ascensão espiritual diária do coração.
Ligação entre a ascensão de Jesus ao céu e o matrimonio espiritual
A Ascensão de Jesus ao céu e o matrimónio espiritual estão em profunda conexão na mística cristã: a Ascensão representa a exaltação da natureza humana e a preparação da “morada”, enquanto o matrimónio espiritual é a união íntima e transformante da alma (a “noiva”) com o divino (o “Esposo”).
Na espiritualidade, podemos estabelecer as seguintes ligações essenciais entre ambos:
- O Destino Nupcial da Humanidade: A Ascensão não é apenas a partida física de Jesus, mas a elevação da nossa natureza humana e corporal ao seio da Trindade. Ao subir, Cristo senta-se no trono celestial como o Noivo que abre caminho para a união final e eterna com a Sua “Esposa” (que representa a Igreja ou a alma).
- A Transfiguração do Amor: Como ensina São João da Cruz, o Matrimónio Espiritual é o grau mais alto de união com Deus nesta vida. A Ascensão espelha esse movimento, onde o espírito humano é progressivamente “elevado” para além do ego e do mundo material, para encontrar o Senhor nas alturas da contemplação.
- A Ausência que Gera Intimidade: Na mística, a ausência aparente do Amado (Esposo) serve para purificar e expandir a capacidade de amar da alma. A Ascensão de Jesus, que deixa os discípulos aparentemente sós, reflete a dinâmica da “noite escura” e do noivado espiritual, onde a alma anseia pelo encontro pleno.
- A Câmara Nupcial: Na tradição, a Ascensão é vista como a entrada definitiva na “Câmara Nupcial” celestial. Ao ascender, o Esposo Divino prepara o lugar para a união consumada, transformando a alma pela caridade perfeita.
A imagem da Ascensão como a entrada da Cabeça (Cristo) no céu, arrastando consigo o Corpo (a Igreja), é um dos pilares da mística eclesial e sacramental. Esta perspetiva baseia-se fortemente na teologia de Santo Agostinho e de São Paulo.
Para aprofundar esta imagem e a sua relação com a união mística, olhemos a realidade através de quatro dimensões fundamentais:
1. O Princípio da Indivisibilidade (A Cabeça e o Corpo são Um)
- União Orgânica: Na mística cristã, Cristo e a Igreja não são duas realidades separadas, mas o “Cristo Total” (Christus Totus).
- Antecipação da Glória: Quando a Cabeça sobe ao céu, o Corpo já está lá misteriosamente implantado por direito e esperança. A humanidade, outrora decaída, entra definitivamente na intimidade trinitária.
- Citação Mística: Santo Agostinho expressa isto perfeitamente: “Assim como Ele subiu, mas não se afastou de nós, assim também nós já estamos lá com Ele, embora no nosso corpo ainda não se tenha realizado o que nos está prometido.”
2. A Ascensão Existencial (A Elevação do Coração)
- Desapego da Terra: A união mística exige que a alma eleve os seus afetos e desejos acima das realidades puramente materiais.
- Desejo Escatológico: Unir-se à Cabeça significa viver com o “coração no céu”. A Ascensão orienta a bússola interior do crente: as ações terrenas passam a ser movidas e santificadas pela realidade celestial.
3. A Dimensão Esponsal e Sacramental
- Consumação no Altar: Esta união mística entre a Cabeça e o Corpo não é uma ideia abstrata, ela atualiza-se na Eucaristia.
- Fusão de Naturezas: Ao comungar, o Corpo (Igreja) une-se à Cabeça (Cristo). Cada comunhão é uma micro-ascensão, onde a alma é capturada pela torrente de vida divina que Jesus levou para o Pai.
- O Casamento Cósmico: A entrada da Cabeça no céu inicia a liturgia celestial, que culminará nas Bodas do Cordeiro, onde a Igreja-Esposa será totalmente unificada com o seu Esposo-Cabeça.
4. O Fluxo de Graça (O Espírito Santo)
- A Conexão Vital: O sistema nervoso que une a Cabeça ao Corpo é o Espírito Santo.
- Pentecostes como Consequência: A Cabeça entra no céu para poder derramar o Espírito sobre o Corpo na Terra. É este Espírito que realiza a união mística prática, transformando cada fiel em “outro Cristo”.
Ascensão e a alma Pomba
No tratado místico Cântico Espiritual, mais especificamente ao comentar as estrofes 33 e 34 (na versão B), São João da Cruz atribui à alma o nome de pomba. Esta metáfora — inspirada diretamente no livro bíblico do Cântico dos Cânticos — destaca o estado de união transformadora, pureza e elevação espiritual que a alma alcançou após atravessar as provações da purificação.
O Doutor Místico identifica as características e propriedades da alma comparando-a a este pássaro através de cinco aspetos fundamentais:
1. Altíssima Contemplação (Voo Elevado)
- A característica da pomba: Costuma pousar e fazer os seus ninhos nos lugares mais altos.
- A aplicação à alma: Representa a capacidade da alma de se elevar acima das coisas terrenas e temporais. Ela coloca-se num estado de altíssima contemplação e intimidade com Deus, habitando nas alturas da vida espiritual.
2. Orientação Exclusiva para Deus (Bico voltado para o vento)
- A característica da pomba: Tem por hábito pousar com o bico sempre voltado na direção de onde sopra o vento.
- A aplicação à alma: O vento simboliza o Espírito Santo (o sopro divino). Significa que a alma direciona continuamente o “bico do seu afeto” e toda a sua atenção para o Espírito de amor, permanecendo recetiva às suas inspirações e moções.
3. Solidão Desapegada (Isolamento do mundo)
- A característica da pomba: É uma ave solitária que não se mistura com bandos de outras espécies nem tolera companhias alheias.
- A aplicação à alma: Mostra o desapego total das criaturas. A alma já não encontra satisfação ou descanso nas distrações do mundo ou em afetos desordenados; ela escolhe a solidão interior para estar a sós com o seu Amado.
4. Castidade e Fidelidade Amorosa (Fidelidade ao companheiro)
- A característica da pomba: É conhecida pela sua mansidão e pela fidelidade estrita ao seu parceiro, não aceitando outro se este morrer.
- A aplicação à alma: Simboliza a fidelidade inviolável e a pureza do matrimónio espiritual entre a alma e Cristo. A alma guarda-se pura, casta e totalmente dedicada ao seu Esposo divino, rejeitando qualquer outra forma de união espiritual ou idolatria.
5. Simplicidade e Mansidão (Olhos de pomba)
- A característica da pomba: Não possui amargura, não tem fel e os seus olhos transmitem uma pureza sem duplicidade.
- A aplicação à alma: Reflete a simplicidade de intenção e a mansidão que a alma adquire na união com Deus. Os seus olhos espirituais (a sua inteligência e vontade) tornam-se limpos, agindo sempre com retidão, paz e amor puro, livre de qualquer malícia ou falsidade.
A relação entre a alma com características de pomba e a Ascensão de Jesus ao céu estabelece-se através do mistério da atração mística e do destino final do ser humano. Na teologia cristã e na mística joanina, a Ascensão não é apenas um evento histórico de Jesus, mas o caminho aberto para que a alma o siga.
A ligação faz-se através de três pontos fundamentais:
1. O Voo de Regresso ao Centro (Atração Espiritual)
- A Ascensão: Jesus sobe ao céu e regressa ao Pai, mostrando que o destino do ser humano não é a Terra, mas a eternidade.
- A Alma-Pomba: São João da Cruz explica que a alma, ao purificar-se, ganha “asas” espirituais. Tal como a pomba voa instintivamente para o alto, a alma — atraída pelo rasto de Cristo que subiu aos céus — eleva o seu voo na contemplação para se unir a Ele. A Ascensão de Jesus é o íman que puxa o voo da alma-pomba para cima.
2. A Solidão da Pomba e a Ausência do Esposo
- A Ascensão: Ao subir ao céu, Jesus retira a sua presença física da Terra, gerando uma aparente ausência.
- A Alma-Pomba: No Cântico Espiritual, a alma assume as características de uma pomba solitária exatamente porque o seu Esposo (Jesus) se “ausentou” (subiu ao céu). É esta aparente solidão que a faz desprender-se do mundo. Ela não encontra consolo nas coisas terrenas porque o seu companheiro já não está na Terra; o seu bico e os seus olhos estão virados para o céu, para onde Ele subiu.
3. O Espírito Santo como o Vento que Eleva a Ave
- A Ascensão: Jesus promete que, ao subir ao Pai, enviará o Espírito Santo (o Paráclito) sob a forma de vento, fogo e, noutros contextos bíblicos, sob a própria forma de pomba.
- A Alma-Pomba: A alma só consegue imitar a Ascensão de Jesus e elevar-se aos céus porque está cheia do Espírito Santo. Como vimos, a pomba pousa com o bico voltado para o vento. Ao receber o “vento” do Espírito Santo (enviado após a Ascensão), a alma-pomba ganha a força aerodinâmica espiritual necessária para subir e habitar nas alturas divinas, participando na própria vida celestial de Jesus.
Quando jesus chama a alma de pomba no dia da celebração da sua Ascensão ao Céu
Se interpretarmos a Ascensão sob uma perspetiva puramente poética e mística (uma vez que os relatos bíblicos tradicionais dos Atos dos Apóstolos não registam um diálogo verbal de Jesus a chamar a alma de pomba nesse dia específico), este gesto simbólico carrega um significado profundo de libertação, envio e promessa de reencontro.
Se Jesus chamasse a alma de pomba no momento exato em que sobe ao Céu, isso significaria:
1. Uma Declaração de Amor e Pertença (A Esposa)
Ao usar o termo “pomba” — que na linguagem mística e bíblica do Cântico dos Cânticos é o nome carinhoso que o Esposo dá à sua amada —, Jesus estaria a lembrar à alma a sua identidade mais profunda. Significa que, embora Ele esteja a subir e a ausentar-se visivelmente, a alma não foi esquecida nem abandonada. Ela continua a ser a sua eleita, unida a Ele por um laço de fidelidade e amor indissolúvel que a distância física não pode quebrar.
2. A Autorização para o Voo (A Libertação)
A Ascensão rompe os limites entre o plano terreno e o divino. Ao olhar para a alma e chamar-lhe pomba, Jesus estaria a dizer-lhe: “Tu também tens asas, o teu lugar não é no chão”. É um convite e uma ordem espiritual para que a alma se desprenda do apego às coisas mundanas e comece a erguer o seu próprio voo de contemplação e busca interior, sabendo exatamente para onde deve voar.
3. O Espelho do Espírito Santo
Como a pomba é o símbolo por excelência do Espírito Santo, ao chamar a alma de pomba no dia em que promete enviar o Paráclito, Jesus estaria a revelar a transformação total da alma. Significa que a alma se tornou tão dócil, tão pura e tão cheia de Deus que já partilha da mesma “natureza” e forma do Espírito Santo. Ela move-se e voa sob o mesmo sopro divino.
4. Uma Promessa de Reencontro (“Espera-me nas Alturas”)
A pomba regressa sempre ao seu ninho. Ao despedir-se da alma com este nome, Jesus estaria a apontar para o destino final dela. É como se dissesse: “Vou à frente preparar-te um lugar; voa na minha direção”. A Ascensão deixa de ser uma despedida triste e passa a ser o início de uma perseguição amorosa, onde a alma-pomba passa a vida a subir espiritualmente até alcançar o Céu onde o seu Esposo entrou.
Deixemos que Jesus chame à nossa de “pomba” e nos diga: “Vou à frente preparar-te um lugar; voa na minha direção”.
Oração do Voo Nupcial
Senhor Jesus, Rei da Glória e Esposo da minha alma,
No dia da Tua gloriosa Ascensão, subiste às alturas
para me mostrares que o meu destino não é o chão, mas o Teu Peito.
Ao retirares a Tua presença visível, deixaste em mim uma santa solidão,
transformando a minha alma nesta pomba solitária que só encontra descanso em Ti.
Olha para as feridas do meu coração, curadas já pela Tua graça,
e concede-me as asas da fé e do amor puro para erguer o meu voo.
Que eu não me misture com as distrações do mundo,
mas guarde, na castidade e na mansidão, a fidelidade ao nosso compromisso.
Atrai-me para as alturas onde entraste!
Sopra em mim o vento suave do Teu Espírito Santo,
para que, com o bico do meu afeto sempre voltado para as Tuas moções,
eu possa subir acima de todas as criaturas e de mim mesma.
Ó Amado, introduz esta Tua pomba na adega interior.
Ali, onde o Teu voo e o meu se tornam um só,
transforma-me em Ti pela força do Amor consumado.
Que os meus olhos vejam apenas a Tua beleza,
e que a minha vida seja um eterno canto de gratidão,
escondida contigo em Deus, na plenitude do Teu dom.
Ámen.


