Ao ser-me sugerida esta temática para a presente crónica na Claustro, brotou em meu coração uma leve angústia, como consequência da minha preocupação pelo rigor da verdade, nos relatos que sempre presidiram à descrição do que foi o nosso convívio e a minha relação pessoal com a Irmã Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado.
Na realidade, este não foi tema de conversa directa entre nós.
Sei, sim, que nela sempre imperaram sentimentos de profundo amor pelos Santos que, no seu querido Carmelo, foram mestres e guias para ela. Santa Teresa de Jesus, Santa Teresinha do Menino Jesus, São João da Cruz e tantos outros Santos da sua amada comunidade tiveram lugar muito importante na sua atracção para este carisma, onde Nossa Senhora do Carmo, na sua aparição de 13 de Outubro de 1917, foi, efectivamente, a amada Mãe que, possivelmente, a atraiu para a promessa de que “nunca a deixaria só e que o Seu Imaculado Coração seria o caminho que a conduziria até Deus”.
Sobre São João da Cruz, nunca mantivemos pessoalmente conversas concretas e exclusivas que me permitam opinar, por palavras suas, sobre os seus discernimentos a respeito deste grande Santo da Igreja.
No entanto, permitir-me-ei reflectir sobre este tema e tirar algumas ilações que, conjuntamente com alguns autores que neste momento estudam e analisam vários manuscritos seus — dos quais tem especial relevância o Diário da Irmã Lúcia —, me possibilitam chegar a conclusões verídicas e sólidas.
Tendo os seus manuscritos sido já objecto de palestras e congressos acerca da sua vida, poderei afirmar com convicção o que Lúcia de Jesus terá vivido e sentido ao longo de alguns períodos da sua existência, sobretudo no espaço temporal entre 1952 e 1985, aproximadamente, em que lhe foram prescritas normas de conduta pela Igreja que a inquietaram e lhe causaram grande sofrimento.
Tribulações e angústias abateram a sua alma, submergindo-a em dor, amargura e trevas.
De carácter forte, com uma noção clara das “areias” que tinha de ir afastando do seu caminho espiritual e das “arestas” que permanentemente ia limando, a obediência rigorosa a Deus, aos apelos de Nossa Senhora, à Igreja e aos seus legítimos representantes foi o seu foco inquebrantável e inabalável em toda a sua vida. A fidelidade, a coerência e a entrega à missão que Deus lhe confiara foram, até ao fim da sua vida terrena, propósito firme e imutável, presentes na sua plena consciência até ao momento da morte.
Com efeito, a minha ida para o Carmelo e, consequentemente, o meu primeiro encontro com ela datam de 1991, quando Lúcia de Jesus tinha já 84 anos de idade. Nessa época, e à luz da análise que hoje se faz dos seus escritos, já o período de verdadeira “noite escura” poderia ter sido maioritariamente ultrapassado ou, pelo menos, suavizado.
E, se é certo que nenhum assunto foi “tabu” entre nós, tendo-se estabelecido diálogos muito interessantes acerca de quase todos os factos e assuntos, a realidade é que sempre respeitámos a sua sensibilidade e a sua postura, nunca forçando nem nos tornando inconvenientes quando pressentíamos o seu silêncio ou a sua prudência.
Sabemos que São João da Cruz, santo carmelita e Doutor da Igreja, importantíssimo na reforma do Carmelo, inseparável companheiro contemporâneo da Santa Madre Teresa de Jesus, se
notabilizou pelo seu grande amor a Deus, à Igreja e a Jesus, que cantou magistralmente nas suas obras poéticas, bem como pela desértica travessia da aridez da “noite escura”, registada nas Obras Completas que este grande Santo nos deixou em legado.
Lúcia foi igualmente uma testemunha viva da travessia do seu tempo de escuridão e trevas, vivenciado durante longo espaço temporal, em que o seu consolo era a presença maternal e amorosa prometida por Nossa Senhora, quando lhe afirmou: “Eu nunca te deixarei só! O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus!”
Testemunhámos o seu permanente recurso à “Fonte da Água Viva”, que era o Sacrário, onde o seu Jesus lhe infundia a força e a tenacidade tão importantes para que o seu SIM se renovasse e fortalecesse dia a dia. E como ela amava orar e fazer companhia ao seu Senhor, Jesus escondido por amor na Hóstia Consagrada, que ali se encontrava, consolando-a e alimentando-a permanentemente. Sabemos que a sua intimidade com Deus era o seu amor maior, consubstanciando-se numa entrega permanente à Sua Vontade, que dia a dia procurava que fosse mais profunda. Começámos a ter cada vez mais essa noção ao tomarmos conhecimento dos seus escritos, onde é notório o amadurecimento do seu caminho espiritual, que rumou a uma união íntima e perfeita com o seu Senhor, chegando ela a declarar que era “Seu Sacrário Vivo!”
Este estado de “matrimónio espiritual” traduziu-se no visível desapego total da mundaneidade, para se tornar num caudal de Água Viva, jorrando da Fonte onde ela bebia permanentemente e nos ia alimentando a cada momento, com a sua obediência, humildade, alegria e esperança.
De facto, não teria ela também de levar a Cruz, ao longo do seu percurso de vida, cumprindo a sua parte em união íntima com Aquele que por todos nós subiu o Monte Calvário?
Acredito que o facto de não ter conversado comigo directamente sobre este assunto talvez se devesse à circunstância de ter pressentido que esse não era ainda o momento adequado, nem o tema certo, para eu reforçar a minha Fé, na altura tão frágil e tão abalada pelas vicissitudes da vida e dos caminhos que eu percorria naquela época.
Acredito e constatei, apesar de a ter conhecido já num período mais maduro e aperfeiçoado do seu trajecto espiritual, que esta determinação do seu carácter em caminhar rumo à união transformante e plena do seu coração ao coração de Deus foi visível e notada por todas nós, que com ela convivemos intimamente por longo período de tempo.
Testemunhei o seu despojamento total, vendo em cada momento a sua inquestionável obediência, fidelidade e humildade, virtudes de que sempre se revestiu, apesar das contrariedades e obstáculos. De uma esperança inabalável e de uma alegria interior só possíveis a quem está em Deus e a Ele pertence inteiramente, tornou-se também para mim mestra e sustento em períodos de tribulação e de manifesta debilidade da Fé.
Quem nunca sofreu, na carne e no espírito, as dores da travessia de um árido deserto, que desponta na alma daqueles que aspiram ao supremo encontro com o “AMOR MAIOR” pelo qual um dia foram seduzidos?
Lúcia de Jesus cumpriu com rigor e coragem toda a missão para a qual foi chamada, imprimindo sempre o seu imenso amor e entrega a Deus através das mais humildes e simples tarefas diárias que lhe eram destinadas e dos ofícios a que foi chamada, no cumprimento integral das regras da sua Comunidade. Sem qualquer estatuto especial que pudéssemos pressupor ser-lhe devido em virtude dos factos extraordinários de que foi protagonista, nunca foi centro de qualquer
favorecimento por esse motivo. E, se devemos salientar algum fundamento para abordar esta temática, será, pelo contrário, o de ela nunca ter exercido o ofício de Priora ou Madre Superiora em todos estes anos (57) em que viveu no seu amado Convento de Santa Teresa, em Coimbra, onde, a 13 de Fevereiro de 2005, voou para os braços do Eterno Pai, certamente com Nossa Senhora e os Santos Pastorinhos, seus queridos primos, de quem ela dizia ter muitas saudades!
E permitam-me salientar aqui um desabafo que tantas e tantas vezes me confidenciou:
– Nossa Senhora disse-me que eu ficaria cá mais algum tempo… mas já está a ser tanto!…
– É por vosso amor, ó Jesus!
– É tudo por causa de Nossa Senhora!


