O Tempo da Criação que acabou no domingo 4 de outubro despertou em mim um mundo de imagens e vivências da natureza, aliadas a reminiscências de leituras, científicas ou poéticas, e a ideias mais ou menos controversas sobre o futuro da nossa Terra. E tudo isso por causa do tema do ano, Água Viva, inspirado na visão do profeta Ezequiel sobre a nascente saindo do Templo que se torna rio, revitalizando as terras ressequidas e apelando à conversão dos nossos corações para o bem-estar universal da humanidade (Ez 47, 9-12). Neste ano jubilar do Santo, lembrei-me do primeiro verso de Fonte: «Que bem sei eu a fonte que mana e corre mesmo sendo noite»[1].
Algumas obras de João da Cruz são repletas de elementos da natureza e da criação, que o Santo considera como um reflexo encoberto de Deus para quem busca a união com o Amado, cerne da sua doutrina. No poema Cântico Espiritual, escrito na prisão de Toledo durante a noite escura e transformadora da sua alma, abundam as imagens vegetais – prados, bosques, flores, frutos; de animais da terra e do céu; de relevos, grutas e vales; águas e ventos… Toda a criação participa no diálogo entre a alma e o Esposo e ilumina a escuridão da cela. Mais tarde, João da Cruz comentará as metáforas da natureza e deste «reflexo do que Ele é em si mesmo, e no qual a alma experimenta a bondade das coisas» (Cântico B 14 e 15, 5).
Nomeado superior do convento do Calvário (Andaluzia) após a fuga do cárcere de Toledo, confronta-se com excessos de penitência praticados pelos seus irmãos religiosos. Configurado, porém, com o humanismo teresiano que prefere as virtudes ao rigor, sai muitas vezes do convento e partilha com eles a beleza natural do lugar onde se encontram, convidando-os à oração por entre as árvores, junto de uma fonte ou num penhasco, para despertar a devoção em Deus pela beleza da criação[2]. Mas que tenham cuidado com a satisfação negativa dos sentidos e a distração da mente, andando de um lado para o outro… Na sua obra Subida do Monte Carmelo, advertirá que os lugares aprazíveis da natureza e as paisagens são apenas um meio que nos conduzem à Deus, pois só o recolhimento e o silêncio interior favorecem o sossego espiritual na sua busca: «Portanto, estando num sítio, hão de esquecer-se dele e procurar estar com Deus dentro de si como se não estivessem lá» (III Subida 42, 2).
Existem numerosos testemunhos que relatam o seu gosto em «estar a sós com Quem nos ama», durante as suas viagens na Andaluzia. Nas longas caminhadas com um companheiro, a pé ou num burro, João da Cruz, além de maravilhar-se com a natureza, cantava hinos à Nossa Senhora, salmos e lia a Sagrada Escritura, gostando particularmente de recitar ou cantar a Oração Sacerdotal de Jesus no Evangelho de São João (Jo 17[3]. Mas nos momentos de descanso, isolava-se «num bosque ou numa floresta, procurando uma ribeira, dedicando-se mais livre e intensamente à oração e contemplação, olhando para as flores, o campo e escutando o correr da água, que o encantava e revigorava»[4]. Já no fim da vida, caluniado, marginalizado, destituído de qualquer ofício, no Capítulo Geral de 1591, retira-se para o Convento de La Peñuela, na Serra Morena, um deserto que muito apreciava. E ali «levantava-se antes do amanhecer e saía para fora; e, entre uns vimeiros junto a um tanque de água, punha-se de joelhos e ficava ali até o sol escaldar. A seguir ia celebrar missa e, terminada esta, entrava na sua cela, onde ficava em oração, ou a escrever uns livros sobre umas canções que deixou»[5].
Na sua plenitude espiritual e humana, João da Cruz continuava a sentir necessidade de entranhar-se fisicamente na natureza para orar e contemplar no seu coração Deus Pai, «criador do céu e da terra», em união de amor com o Seu Filho, Jesus, feito homem «pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria» e Redentor de todas as criaturas. Mistério de Amor de Deus para com toda criação, que João da Cruz apreendeu e exprimiu de um modo sublime na Oração da Alma Enamorada, com um louvor a Deus pelos céus, a terra, a gente justa e pecadora, os anjos, a Mãe de Deus, enfim, todas as coisas, «porque Cristo é meu e todo para mim».
Ah, e continua:
«Meu Deus, não me ireis roubar o que me destes um dia no vosso único Filho, Jesus Cristo, no qual me destes tudo quanto quero; por isso, espero e confio em que não tardarás.
E porquê tanta demora, se já podes amar a Deus no teu coração?
Os céus são meus e a terra é minha. Os povos são meus; meus são os justos e os pecadores. Os anjos são meus, a Mãe de Deus é minha, e minhas são todas as coisas. O próprio Deus é meu e para mim, porque Cristo é meu e todo para mim. Então, que pedes e procuras alma minha? Tudo isto é teu e para ti. Não te rebaixes nem olhes às migalhas que caem da mesa do teu Pai.
Sai para fora e gloria-te na tua glória; esconde-te nela e goza, pois alcançarás o que o teu coração deseja».
Resta-nos pedir a intercessão de São João da Cruz e de São Francisco de Assis para que Deus ajude a Igreja a cuidar melhor da criação, que «encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de fazer-Se comer pela sua criatura! No apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria […] A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão Eucarístico, a criação inclina-se para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador. Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira» (Laudato Si’, 236).
E eis que concluo, rezando em comunhão com toda a criação:
Vós, Senhor, sois verdadeiramente santo
e todas as criaturas cantam os vossos louvores,
porque dais a vida e santificais todas as coisas,
por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
com o poder do Espírito Santo,
e não cessais de reunir para Vós um povo,
que, de um extremo ao outro da terra,
Vos ofereça uma oblação pura.
(Oração Eucarística III)
[1] Obras Completas, Ed. Carmelo, M.de Canaveses, 6ª ed., 2005, p. 729. Nota do poema A fonte de São João da Cruz: «Escrito na prisão de Toledo. João da Cruz vai lembrando e saboreando contemplativamente os mistérios da fé, começando no Deus Uno e Trino até à Eucaristia. É um credo, uma oração, um canto».
[2] Crisógono de Jesus, ocd (1904-1945), São João da Cruz, Ed. Carmelo, Oeiras, 1986, p. 223.
[3] Emílio J. Martínez, ocd, João da Cruz, o rosto humano do mistério, Ed. Carmelo, Marco de Canaveses, 2025. p. 97.
[4] José Vicente Rodriguez, ocd, San Juan de la Cruz, La biografia, San Pablo, Madrid, 4ª ed. Atualizada, 2016, p. 534.
[5] Id. Obras Completas, p. 729. O que escreve então João da Cruz, alguns meses antes de falecer? Talvez uma nova versão, com retoques doutrinais, do comentário ao poema Chama de amor viva que escreveu em 1584, a pedido da sua amiga Ana Peñalosa.


