Fev 18, 2025 | A luz obscura, Espiritualidade

Professor universitário. Carmelita secular

Dilemas espirituais de um cientista católico

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Assim, a certa altura do meu percurso espiritual e intelectual tinha dois dilemas; dois complexos de culpa que não conseguia resolver. Do lado espiritual parecia-me que procurar a alegria de pensar estava em desacordo com a renúncia a si próprio descrita em Mt 16, 24. Do lado humano e racional parecia-me que procurar a alegria de pensar sem se preocupar com aplicações práticas era ser socialmente egoísta e imerecedor do salário pago pelo Estado.

Este texto que hoje vos apresento foi inspirado, em parte, pelo artigo publicado neste Claustro pela Alexandra Lisboa, intitulado “A Luz na Idade das Trevas” (https://claustro.carmelitas.pt/?p=1693). Aí se lê, logo a começar, que

A arte, como produção humana, enquadra-se nesta lógica devendo seguir, portanto, esta hierarquia no amor – amar a Deus sobre todas as coisas. Poder-se-á, então, formular o seguinte pensamento: toda a arte tem como propósito principal louvar e adorar a Deus e, como consequência, elevar-nos a Ele.

Ocorreu-me de imediato que a última frase também é verdadeira se substituirmos a palavra “arte” pela palavra “ciência”: toda a ciência tem como propósito principal louvar e adorar a Deus e, como consequência, elevar-nos a Ele. Na verdade, ainda poderíamos fazer a substituição por “atividade humana”. Mas agora vou só considerar a questão da ciência. Porque este é um tema que me tem perseguido toda a vida.

Na minha juventude afastei-me bastante da Igreja. Na verdade, considerava-me até ateu. Durante os primeiros anos da faculdade comecei a reaproximar-me. Mas de forma lenta e sinuosa. Houve uma leitura, em particular, que me deixou paralisado durante muito tempo. Foi Mateus 16, 24:

Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me.

O que é renunciar a si mesmo se não deixar para trás tudo o que nos parece importante, para seguir a Deus? Ora, nessa altura eu era um jovem aspirante a físico teórico cujo maior prazer e sentido na vida era pensar. Compreender o Universo e as leis que o regem, nada me parecia mais nobre, mais atrativo, mais vivo. Renunciar a mim seria, portanto, renunciar à felicidade de pensar e compreender as leis da Física. E sem isso a vida ficava muito pobre, vazia de sentido – um buraco negro, mas não dos do espaço, um buraco negro intelectual, que na altura era sinónimo, para mim, de buraco negro espiritual!

O chamamento que começava a sentir tropeçava sempre nesse temor que a vida em Deus fosse uma vida desprovida de mim próprio. E isso era um preço demasiado elevado que, decididamente, não conseguiria pagar. E assim me mantive, nesse impasse.

Passei por várias fases ao longo da vida profissional, em que tenho tido o privilégio de poder ensinar e investigar. Ao início tomava a vida interior, do pensamento racional, como vida espiritual. As pessoas que trabalham em ciência e não são religiosas (e são a maior parte) tomam a ciência como o bem supremo; o ato de pensar como o mais nobre. E eu também era assim. Mas, aos poucos, a infelicidade acabou por se instalar. Porque a vida intelectual estava colocada na posição errada da hierarquia de valores.

Se o trabalho intelectual é assumido como o ponto central da nossa vida, então tudo acaba por se submeter às necessidades do intelecto. Um dos sintomas da colocação do intelecto no centro do ser é a obsessão. Se havia um problema que não conseguia resolver (o que é muito frequente), então não conseguia parar de pensar nesse problema, revendo centenas de vezes equações e esquemas mentalmente, enquanto comia, via televisão ou falava com outras pessoas. E este comportamento acabou mesmo por afetar a minha disponibilidade para a família.

O outro problema é o orgulho e a vaidade. Porque se o intelecto é o centro da minha vida, questionar o meu trabalho é questionar-me a mim. E aí surge o impulso de mostrar superioridade relativamente aos pares. Este instinto básico é amplificado pela obsessão atual do sistema científico pela quantificação dos resultados de investigação, e que é sumarizado pela famosa máxima “publish or perish” (“publicar ou morrer”). Isto quer dizer que quem não publica frequentemente resultados de investigação nas revistas científicas da sua área será rapidamente arredado do sistema, pois será muito difícil garantir novo contrato ou projeto. Este quadro mental levou à corrida ao paper (nome universal para “artigo científico”), à pressa de publicar a todo o custo, à competição desenfreada e a uma preferência subliminar mas generalizada pela quantidade em detrimento da qualidade.

Obsessão, orgulho, vaidade e competitividade doentia são assim alguns dos pecados em que é fácil cair se trabalharmos em ciência e tivermos a ordem dos valores desregulada. E realmente, é um facto bem conhecido que nas universidades e institutos de investigação, a par de muita gente equilibrada, encontram-se muitos egos inchados.

Outra tendência relativamente recente na ciência é a ânsia pela mercantilização dos resultados da investigação. Sem dúvida que a ciência deve ser útil. Mas tudo começa na ciência fundamental. As políticas de investigação atuais colocam muito ênfase na transferência de conhecimento e na criação de produtos e empresas, o que acaba por colocar problemas de consciência a muitos investigadores: estarei a ser socialmente egoísta por trabalhar numa área com pouca aplicação direta?

Assim, a certa altura do meu percurso espiritual e intelectual tinha dois dilemas; dois complexos de culpa que não conseguia resolver. Do lado espiritual parecia-me que procurar a alegria de pensar estava em desacordo com a renúncia a si próprio descrita em Mt 16, 24. Do lado humano e racional parecia-me que procurar a alegria de pensar sem se preocupar com aplicações práticas era ser socialmente egoísta e imerecedor do salário pago pelo Estado. E tudo isto por entre períodos mais ou menos intensos de obsessão, orgulho, vaidade e competitividade doentia…

Não posso, pois, dizer que a ciência me levou a Deus, porque a forma como a vivia estava a levar-me cada vez mais para longe d’Ele. Na verdade, a minha reaproximação decisiva à Igreja deu-se apesar da ciência. E para a solução final do “problema Mt 16, 24” muitos contribuíram as leituras de Santa Teresa, Santa Isabel da Trindade, Santa Teresinha e, mais tarde, de Santa Teresa Benedita da Cruz.

Com Santa Teresa compreendi que há uma verdadeira interioridade espiritual, que é a versão verdadeira daquela interioridade que eu pensava ser apenas intelectual. E na altura em que comecei a ler o Livro da Vida já frequentava de novo a Igreja. Como foi então possível frequentar a Igreja e não conhecer já essa interioridade espiritual? Nessa altura eu vivia a oração como uma relação exterior: eu cá, Deus lá. E acho que é assim para a maior parte dos fiéis. Embora a oração se produza no espaço interior mental (vocalizada ou não), não penetra no espaço interior do coração. É uma projeção da voz mental (de novo: vocalizada ou não) para o exterior. Lendo e relendo Santa Teresa, e depois com o reforço de Isabel da Trindade, acabei por intuir que essa espiritualidade profunda existe, que há um espaço comum de encontro com Deus, no interior da nossa alma.

Com Santa Teresinha fui percebendo lentamente, com o coração, aquilo que já sabia de uma forma puramente intelectual: como a grandiosidade da vida é tecida pelo heroísmo dos pequenos gestos.

Mais tarde encontrei Santa Teresa Benedita da Cruz e identifiquei-me logo com ela, ainda na versão Edith Stein, através da descrição que fez do seu sofrimento intelectual durante o trabalho de doutoramento (excepto que no fim desta citação ela parece descrever um estado agudo de esgotamento, a que não cheguei)

Encontrei, pela primeira vez, o que seria, repetidamente, a minha experiência em todos os trabalhos seguintes: os livros não me serviam de nada até que eu esclarecesse o assunto em questão pelo meu próprio esforço. Essa luta excruciante para obter clareza foi travada incessantemente dentro de mim, privando-me de descanso dia e noite. Naquela época, perdi a arte de dormir e demorei muitos anos até as noites tranquilas me serem concedidas novamente. Pouco a pouco, entrei em estado de verdadeiro desespero. Pela primeira vez na minha vida fui confrontado por algo que eu não poderia conquistar por pura força de vontade … Tudo isso me levou a um ponto em que a própria vida parecia insuportável … O raciocínio não adiantava. Eu não podia mais atravessar a rua sem desejar que pudesse ser atropelado por algum veículo. Nada do que eu havia feito até então tinha exigido um preço tão alto em esforço mental. Penso que ninguém pode imaginar o que se exigia de mim sem ter pessoalmente feito um trabalho filosófico tão criativo. (Vida de uma família judia)

E o percurso que Edith seguiu também foi uma fonte de inspiração e uma prova de que é possível conciliar o mundo da fé e o mundo da razão. Edith entregou-se intensamente a Deus, mas não deixou também de se dedicar intensamente ao estudo da filosofia. Sem dúvida que Edith gostava de pensar. E isso não foi impedimento para se consagrar inteiramente a Deus.

Lentamente fui resolvendo os meus dois dilemas. Com a inspiração da vivência interior espiritual, que fui descobrindo nos santos do Carmelo consegui perceber (acho eu) de forma insipiente (ainda o é), o que seria a imagem dessa vivência no plano intelectual. Para isso tive de começar por aceitar que a vivência interior intelectual decorre da vida interior espiritual e que dela é subsidiária. A vida intelectual, só por si, não se pode sustentar. É por isso que, entregue a si própria, descamba na obsessão, no orgulho, na vaidade e muitas vezes na depressão. E isto, no fundo, é a história do Génesis. Se o homem se tentar apropriar da árvore do conhecimento como coisa própria, então passa a colocar-se no centro do Universo, em vez de Deus. E a desgraça começou aí.

Depois comecei a perceber que a resposta aos meus dilemas era a sua negação, ou seja: no lado espiritual, SIM, deves procurar a alegria de pensar, na medida em que seja um louvor a Deus; e no lado humano, SIM, deves procurar a alegria de pensar sem te preocupares com aplicações práticas, porque a liberdade de pensar é a condição mais importante da criatividade.

“Renuncia a ti mesmo” não é “renuncia a pensar”; é antes “renuncia a pensar centrado em ti”. O problema não é a atividade de pensar, mas sim a atitude de pensar apenas para glória ou prazer próprios. Vou tentar explicar isto de uma forma ainda mais geral. O nosso estado mental alterna entre o modo “ligado a Deus” e o modo “ligado ao mundo”. Quando rezamos e temos a atenção profundamente focada em Deus, estamos a funcionar no modo ligado a Deus. Mas na maior parte das vezes estamos no modo ligado ao mundo, num túnel escuro, focados nas nossas tarefas e preocupações, com o pensamento muito longe de Deus.

Estes dois modos correspondem também a uma forma de viver em louvor de Deus, por um lado, e, por outro, a uma forma de viver centrada em si. Assim, renunciar a si próprio é renunciar a esta atitude centrada em si próprio; é renunciar a viver convicta e permanentemente no modo ligado ao mundo. Quando São Paulo nos exorta a orar sem cessar, está a dizer que devemos procurar estar permanentemente no modo centrado em Deus.

Mas a transição para o modo centrado em Deus é lenta e pode ser difícil. É preciso recolher as potências, como dizia Santa Teresa, e isso necessita de tempo e treino. Por outro lado, a transição para o modo ligado ao mundo é quase instatânea: as potências saltam num instante cá para fora, e eis-nos de novo no túnel escuro.

Voltando ao problema do pensamento, como se consegue pensar num problema complicado, que exige concentração, e louvar a Deus ao mesmo tempo? Como se consegue pensar e estar no modo ligado a Deus? Parecem duas atitudes incompatíveis.

Na minha experiência, o pensamento tem a estrutura da matéria: minúsculos átomos sólidos de raciocínio rodeados por um vazio de intuição e instrospeção. Ou, com outra imagem, é uma forma de respiração, onde os raciocínios são inspirações ruidosas a que se seguem expirações silenciosas. E é nestas entrelinhas de silêncio que podemos sempre recentrar o ser em Deus. É uma tarefa difícil, porque se há pressão para terminar uma tarefa intelectual dentro de um certo prazo, por exemplo, é muito fácil cair no modo ligado ao mundo, com a tarefa a tornar-se um percurso de obstáculos aflitivo. Mas se conseguirmos resistir a esta queda, mantendo-nos no modo ligado a Deus, então podemos agradecer-Lhe nas entrelinhas silenciosas, podemos adorá-Lo através da beleza que se deixa capturar fugazmente pelos nossos raciocínios limitados. Evidentemente, há alegria neste pensar. Portanto, a alegria de pensar pode (e deve) ser um louvor a Deus.

E tudo isto não depende da grandiosidade do problema em que estou a trabalhar. Pode ser o problema mais simples de todos, mas pode ser igualmente um louvor a Deus – pode até ser o melhor louvor a Deus! Perceber qualquer tipo de relação entre as coisas criadas, ou mesmo abstratas, como os números, é penetrar um pouco na arquitetura divina. Nesta perspetiva, tudo é bom: todos os raciocínios são bons se tentam acercar-se um pouco mais de Deus. E o que disse Santa Teresinha sobre as flores humildes aplica-se igualmente aos pensamentos humildes:

Jesus quis instruir-me a respeito deste mistério. Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, e que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da humilde violeta nem a simplicidade encantadora da margarida… Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia sua pompa primaveril e os campos já não seriam salpicados de florzinhas… (História de uma alma, manuscrito A)

Hoje já não tenho grandes dúvidas: encher-se de alegria por entender a beleza de uma equação pode ser um ato de louvor e amor a Deus. Transmitir essa realização aos outros através de um texto que procura capturar essa beleza em palavras, também pode ser um ato de louvor e amor a Deus. Mas também aqui Deus é ciumento. A preocupação com o reconhecimento dos homens rapidamente degradará a alegria e o louvor. Por isso, a atividade científica de um cristão tem de ser, na medida do possível, absolutamente livre e despreocupada de reconhecimento ou importância.

p.s.: a imagem deste texto é a Anunciação, de Fra Angelico. Diz-se de Fra Angelico que pintava apenas para louvar a Deus e muitos dos seus frescos ficavam em mosteiros remotos onde, provavelmente, nunca seriam vistos por muita gente. Mas isso não lhe importava, porque ele pintava apenas para a glória de Deus e para quem Deus quiseesse levar até aos seus frescos. Dizia que quem ilustrava os atos de Cristo devia estar com Cristo e conta-se que nunca pegava nos pincéis antes de fervorosa oração. Ele é a ilustração perfeita para o que quis transmitir. (Retirado de Wikimedia Commons. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:La_Anunciaci%C3%B3n_de_Fra_Angelico.jpg)

Rui Guerra

Professor universitário. Carmelita secular

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