Mar 3, 2026 | Casa comum, Economia e fé

Professora. Carmelita Secular

A fé sanjoanista em tempos de calamidade

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Há cerca de um mês, a zona centro de Portugal acordava para uma realidade até então desconhecida desta geração e até impensável…

Eram cerca das 3h30m da manhã, ouviu-se um barulho estranho e um estrondo enorme – uma árvore no telhado! Da janela da sala que dava para uma ribeira, parecia assistir-se a um baile apressado das muitas árvores que acompanham a margem, as árvores pareciam ganhar pernas e moviam-se numa harmonia veloz. A janela não podia estar aberta pela força do vento.  Logo de seguida outros estrondos ecoavam, mais uma árvore no chão. Alguns, vendo a sua incapacidade e com uma confiança no Amor de Deus, voltaram a dormir, outros, tomados de ansiedade não pregaram olho. Outros ainda, em casas, cuja fúria do vento era demasiado forte, o barulho das persianas, das chapas e outros instrumentos metálicos não terminava, por isso não foi permitido o seu descanso. Além da ansiedade, também o medo teve o seu papel… quantos pensaram ser a última noite… muitos são os relatos.

Pela manhã, tudo estava calmo, mas os olhos não podiam estar preparados para o cenário devastador… telhados que desapareceram, postes vergados, árvores centenárias, pinheiros, oliveiras, eucaliptos, com raízes enormes retiradas abruptamente da terra… poucas foram poupadas… Como seria possível a mãe natureza mostrar esta força? Para nós, habituados a este cantinho à beira-mar plantado, este pedacinho de céu, não podíamos imaginar… os rostos, os olhares apavorados transmitiam essa triste surpresa.

As justificações para a ocorrência da tempestade Kristin foram variadas: a fúria de Deus (não me parece assertiva); o cansaço da mãe terra face a todas as atrocidades do homem (parece-me mais razoável); a oportunidade de treinar caraterísticas humanas fundamentais como a persistência, a resiliência, a solidariedade, o trabalho, a proximidade e tantas outras (voto nesta, como a razão mais acertada e sábia).

Nesse dia, pela manhã, já se ouviam motosserras a libertar caminhos, visitas a casa de familiares para ver como estavam, alimentos a circular de aldeia em aldeia ou de rua em rua, pois não se conseguia sair para a rotina das compras e tantas outras; e nos dias seguintes foram-se organizando vários grupos de voluntários. Foi louvável a atuação da proteção civil e dos bombeiros, atentos, alegres e focados. Quantos de nós não o sentiram! Os dias infinitos sem água, eletricidade e comunicações fizeram-nos repensar as prioridades e as dependências tecnológicas e energéticas…

Muitos tiveram de sair das suas casas, foram acolhidos por pais, filhos, sogros, primos, e os laços estreitaram-se…

Foi fácil? Não! Muito difícil. E continua a ser para muitas famílias… e aqui temos de fazer uma sábia escolha “sãojoanista”: ficarmos presos na tristeza e na desolação das circunstâncias ou aproveitar a oportunidade de sofrimento e exigência para nos abrirmos a uma leitura de fé?

Acredito que São João da Cruz, perito nas Noite Escuras, pode dar-nos critérios de leitura de acontecimentos como estes.

Ele foi preso em 1577 pelos seus próprios irmãos. Ficou, cerca de 9 meses, num quartinho escuro, anexo ao Convento Carmelita de Toledo, em condições quase desumanas. A revolta, o desespero, o ódio, a vingança podiam ter tomado conta deste frade…, mas não… fez uma escolha, uma opção, e aproveitou esse tempo de trevas, de prova, de noite escura, para se tornar mais livre, para se aproximar mais de Deus, para perceber melhor a sua vocação e missão.

Na noite de 2 de dezembro, é sequestrado na sua pequena casa da Encarnação, pelos religiosos do antigo Carmelo; poucos dias depois é levado para Toledo, fica preso numa pequena cela estreita e incomunicável, sendo tratado de forma agreste. Os nove meses ali passados, até ao mês de agosto de 1578, influenciaram muito a sua maturidade humana e espiritual, mística e poética. Nesta prisão conventual, escreve os poemas Romances, a Fonte, a Noite Escura e parte das canções do Cântico Espiritual.

Este tempo de prova e purificação ajudou-o a refazer o seu projeto de vida, a sua visão sobre a natureza humana, o sentido da existência à face da terra. Criou uma visão interpretativa da realidade que se foi unificando e dinamizando por três elementos que se entrelaçam mutuamente: 1) a busca de Deus em fé, esperança e amor é o que dá todo o sentido à sua existência, é a razão iluminadora das suas crises e decisões vocacionais e o motor das suas tarefas na vida quotidiana; 2) essa mesma experiência de amor que o invade, pela sua mesma força, leva-o a fazer renúncias, como consequência de procurar ativamente a Deus; 3) como fruto do amor e da renúncia, Deus revela-se de forma transbordante, satisfazendo as suas aspirações de união e devolvendo-lhe aumentadas as capacidades humanas (*).

Assim, nesta fase em que muitos ainda estamos a “braços” com situações complicadas, fruto da calamidade, ou de outras “calamidades da vida”, S. João da Cruz será, sem dúvida um mestre e guia para caminharmos no meio destas noites, sem perder a fé e a esperança. A sua reflexão inspira-nos! Aprofundar a sua vida e os seus escritos pode ser uma decisão importante para cada um dos leitores, pois João ajuda-nos a passar pelas noites, tenham elas as caraterísticas e configurações que tiverem. Por difíceis que sejam as nossas calamidades, já outros antes de nós passaram por elas e saíram mais fortes e resilientes para enfrentar a vida com os seus desafios. Aprendamos humildemente algo com eles.   

(*) Informação adaptada das Obras Completas de S. João da Cruz, Edições Carmelo, 6ª edição, 2005, p. 15-17. 

Imagem de https://x.com/TSFRadio/status/2026726013825114591

Teresa Eugénio

Professora. Carmelita Secular

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