Abr 28, 2026 | Casa comum, Vida da Terra

Professora aposentada. Carmelita secular.

Pelas paisagens da Andaluzia com João da Cruz

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Neste ano dedicado a São João da Cruz, a Casa Geral OCD de Roma propõe uma leitura muito inovadora dos seus escritos sobre a criação, por meio de um diálogo entre textos escolhidos na sua obra e outros selecionados na Encíclica Laudato Si do Papa Francisco. Os escritos do santo são repletos de natureza que o santo considera como «uma pegada do Amado» para quem busca a união com Deus. Por isso, gostava de acompanhar João da Cruz pelos montes e vales da Andaluzia, onde passou a maior parte da sua vida a seguir o seu encarceramento no convento carmelita de Toledo.

A Reforma do Carmelo encontra-se muito ameaçada após as sucessivas fundações de conventos de irmãs e irmãos descalços. A discórdia instala-se entre calçados e descalços, levando ao rapto de João de Cruz em Ávila em dezembro de 1577. Preso no convento do Carmo em Toledo, é duramente maltratado por não renunciar à descalcez. Numa noite de agosto de 1578, João da Cruz, com 36 anos, consegue fugir, levando consigo alguns papéis com os seus principais poemas. Com a ajuda de um cónego, permanece uns tempos e em segredo num hospital de Toledo para restabelecer a saúde. Daí vai para Almodovar del Campo e participa num Capítulo de Descalços no início de outubro: é decidida a sua nomeação como prior no convento do Calvário, numa serra da Andaluzia oriental e João parte imediatamente dirigindo-se para sul. (1).

Quem quiser também caminhar com João da Cruz para o seu novo destino pode fazê-lo com muita facilidade. A Província Ibérica ocd criou um site Camino de San Juan de la Cruz – Un camino hacia el interior, que apresenta um guião de caminhadas em colaboração com os respetivos municípios. Foram reconstituídos os itinerários da região que o santo percorreu a pé, geralmente acompanhado por um irmão. Calcula-se que caminhou cerca de 20.000 kms na Andaluzia para cumprir as suas múltiplas missões e atividades de prior, fundador, mestre de obras, autor de escritos sobre o Amor… e mestre espiritual junto das carmelitas e irmãos, durante a sua estadia de 1578 a 1588 (2).

O site foi também concebido como «caminho para o interior», este caminho «que pode ser percorrido mesmo sem o percorrer». Tal como o percorreu João da Cruz, preso na sua pequena cela escura, humanamente desamparado e maltratado, como Deus Pai deixou o Seu Filho na Cruz redentora da humanidade. E João descobriu que a luz da fé brilhava na sua alma enamorada de Cristo Jesus. Como o sol que já não conseguia ver, este sol de que não sentia o calor aprazível, mas que continuava a regular a luz das estações do ano e daí o crescimento das criaturas, das sementes até aos seus frutos. Na escuridão repetia e rezava palavras das Escrituras e o Espírito Santo inspirava-lhe outras que, todas juntas, formaram as canções dos poemas que nos deixou, particularmente o Cântico Espiritual, carregado de metáforas da natureza. Não, o João da Cruz que saiu em segredo de Castela, e entrou na Andaluzia pela senda estreita do desfiladeiro de Despeñaperros na Serra Morena, não era o mesmo. Dez anos depois de ter abraçado a Reforma teresiana, iniciava-se para ele uma vida transfigurada pelo Amor de Deus.

Ainda em outubro de 1578, chegou João da Cruz ao convento de Jesús María do Monte de La Peñuela, fundado cinco anos antes na vertente sul da Serra Morena. Havia de passar mais vezes por este convento nas suas idas e voltas para tratar de assuntos da Ordem em Castela, por gostar de lá estar pela solidão e silêncio do lugar (3). Sem demora segue caminho para leste, passando por montes e vales da Andaluzia oriental, e particularmente o vale de Guadalimar aos pés das serras, ou melhor, montanhas béticas. Talvez fosse até Beas de Segura. Vindo de La Peñuela, o acesso ao convento de Nossa Senhora do Monte Calvário era mais fácil por Beas; fundado em 1576, encontrava-se na serra de Cazorla, a 10 kms a sul de Beas, onde Teresa de Jesus, no ano anterior, tinha fundado um convento de descalças, com Ana de Jesus como prioresa. O Calvário, embora muito isolado, estava bem posicionado numa vertente soalheira do vale encaixado do Guadalquivir. Lá o esperavam cerca de 30 frades, a maior parte jovens que já conheciam o frei João.

O P. Crisógono de Jesus ocd oferece uma descrição muito interessante da subida de João da Cruz para o Calvário (4). As vertentes norte que dominam Beas são agrestes e pedregosas; o caminho atinge os 1000 m por altos e baixos, com uma vegetação mista de árvores atlânticas (pinheiro bravo) e arbustos mediterráneos. A vertente sul do lado do Guadalquivir oferece uma paisagem verdejante com a mesma mistura de plantas, a que acrescem azinheiras, sobreiros e olmeiros, e na horta do convento, árvores frutíferas (5).

Um ambiente completamente novo para o recém-chegado e pobre castelhano da aldeia de Fontiveros, marcado pela recente vivência dos nove meses na prisão de Toledo. João da Cruz compreendeu rapidamente que doravante devia integrar este ambiente no seu magistério. Durante os meses que ficou no Calvário, dividiu o seu tempo entre a vida conventual, as visitas das irmãs em Beas e o início da redação das suas obras. Moderou as penitências excessivas dos seus irmãos e levava-os fora do convento para a oração no meio da paisagem, louvando a beleza da criação como imagem da formosura de Deus (6). Em Beas, assistia espiritualmente as irmãs com os sacramentos todas as semanas, de sábado a segunda-feira. Mas também partilhava com elas, como verdadeiras irmãs, a sua experiência de vida por meio das sentenças dos Ditos, das canções do Cântico espiritual composto na prisão e da redação da Subida que comente o poema Noite Escura, escrito em 1578-79.

Como diz o P. Emílio Martinez, «após este prolífico período entre os seus irmãos do Calvário e as suas freiras de Beas», João da Cruz é nomeado reitor do Colégio da Reforma em Baeza num momento de apaziguamento das tensões. Acabam estes tempos mais tranquilos antes de assumir maiores responsabilidades após a fundação da Província dos Descalços pelo Papa em 1580.

Referências:

Fichas de leitura dos escritos de S. João da Cruz publicadas em português de janeiro a agosto de 2026 em https://carmelitas.pt/category/joaodacruz/fichas-joaodacruz/

  1. Martínez, Emílio J. ocd, João da Cruz, o rosto humano do mistério, Ed. Carmelo, Marco de Canaveses, 2025
  2. https://caminodesanjuandelacruz.org/ ou https://www.turismobeasdesegura.es/san-juan-de-la-cruz
  3. durante 1767, se fundó La Carolina -en honor a Carlos III-, en una amplia extensión que incluía el “Desierto de La Peñuela”. Poco después, los frailes se trasladaron a Cazorla
  4. Crisógono de Jesus, ocd (1904-1945), São João da Cruz, Ed. Carmelo, Oeiras, 1986 (tradução da 11ªed.), p. 217-218.
  5. A descrição revela também uma experiência direta da subida, mas de tudo isto resta muito pouco na atualidade. Nos finais do século XIX, após a crise da filoxera, o olival invadiu a província de Jaen, como nota o autor. Entretanto, permanecem ainda núcleos ou pequenas manchas de várias espécies de pinheiros (hoje protegidas), que a investigação paleoecológica e biogeográfica do último quarto do século passado considera naturais, contrariando o modelo do equilíbrio climácico apenas constituído por folhosas (azinheiras, sobreiros e . [Los bosques ibéricos, una interpretación geobotânica, M. Costa Tenorio, C. Morla Juaristi y H. Sainz Ollero (Ed.), Planeta, Barcelona, 2001, (1ªed.1997)]
  6. Crisógono de Jesus, p. 223.
Nicole Vareta

Professora aposentada. Carmelita secular.

Neste ano dedicado a São João da Cruz, a Casa Geral OCD de Roma propõe uma leitura muito inovadora dos seus escritos sobre a criação, por meio de um diálogo entre textos escolhidos na sua obra e outros selecionados na Encíclica Laudato Si do Papa Francisco. Os escritos do santo são repletos de natureza que o santo considera como «uma pegada do Amado» para quem busca a união com Deus.Por isso, gostava de acompanhar João da Cruz pelos montes e vales da Andaluzia, onde passou a maior parte da sua vida a seguir o seu encarceramento no convento carmelita de Toledo.

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Cada ser humano é protagonista e responsável pela história, assumindo o dever de construção da paz e da transformação do mundo. Como é que a perspetiva cardiocêntrica, profundamente humana, de João de Yepes Alvarez, continua hoje a interpelar um mundo ferido e a apontar-nos o caminho de reconciliação?
«São João, nas suas epístolas, deseja que tenhamos “sociedade” com a Santíssima Trindade: esta palavra é tão doce, é tão simples. Basta – di-lo São Paulo – basta acreditar: Deus é espírito e é pela fé que nos aproximamos d’Ele» (Santa Isabel da Trindade 1880–1906 | Carta 273).

Que homem será hoje o cristão para poder acolher e escutar, na sua circunstância histórica específica, a palavra da revelação essencial, a única capaz de sustentar sentido a um ser que vive imerso numa angustiante incerteza ontológica, quanto ao presente e ao futuro?
Encarando o homem como o necessário pressuposto da adesão à revelação, ele terá de ser entendido como dimensão de liberdade que pode acolher ou rejeitar a Palavra. Todavia, o homem, experienciando-se como limitado, finito e incapaz de sustentar a sua própria existência, sentiu desde sempre a necessidade de busca da transcendência libertadora de um solipsismo que lhe impedia uma vida plena – mesmo antes de tomar consciência, ele já é porta aberta ao mistério inefável.
O ser humano, na trajetória de se constituir como pessoa, depara-se com um feixe de possibilidades que exigem escolha, compromisso e responsabilidade. Toda a sua ação implica o homem na sua totalidade como ser a caminho, tendo por horizonte o Mistério Absoluto. A criatura, no seu ser, depende do vínculo que ela tem com o Criador. Desfazer este vínculo significaria voltar ao nada, a ser aniquilada. A criatura, entendida como radicalmente derivada do Ser, depende deste vínculo ontológico com o Absoluto, deste laço de amor, para poder ser, e assim não ser aniquilada no nada. Deus é mais próximo à criatura que ela a si mesma, uma vez que o seu ser lhe é comunicado pelo Absoluto, por participação e analogia. Deus tem o seu ser em si mesmo, que por amor absoluto se dá, de modo gratuito, na criação. A criatura emerge, assim, da essência do Absoluto e pode ser lida como Palavra de Deus viva, como traço da matriz transcendente no imanente.
O ser humano, entendido como espírito no mundo imerso numa realidade terrena, numa contingência espacial e temporal, assume um duplo desafio: o conhecimento da matéria, na qual deixa a marca da sua mão transformadora e, simultaneamente, o projeto de se constituir como pessoa, entendida como racionalidade e liberdade. Neste processo vislumbra a presença constante de uma transcendência doadora de sentido, mas que escapa ao conhecimento conceptual e discursivo.
Segundo Rahner, eminente teólogo jesuíta do séc. XX, a busca de Deus não pode olvidar a realidade física e material, que é em si um ente diferencial da transcendência e, simultaneamente, o resultado da marca de água do Criador na substância criada. A inquietante e radical interrogação pelo Absoluto não foi silenciada nem pelas críticas racionalistas, que a consideravam como exemplo de vãs derivas metafísicas, nem pelo sucesso da sistematização experimentalista e matematizante.
Todavia, a situação existencial observada no mundo ocidental contemporâneo, carateriza-se pelo simultâneo declínio de católicos comprometidos que assumem o mundo como espaço privilegiado de revelação da Palavra, assim como o aumento vertiginoso de pessoas que, negando os dogmas e a transcendência, se dizem sem religião.
Serão múltiplos os fatores explicativos para este declínio, mas a verdade é que a humanidade, ao afastar-se de Deus, cai numa orfandade, num vazio interior que a priva dum horizonte de sentido, dum rumo novo, duma vinculação de amor que lhe permita viver de modo pleno. Há, contudo, que saber aceitar que, mesmo na vivência de crises profundas, o Mistério está presente – como Ele prometeu, o Paráclito ficará connosco! – e caminhando, pela fé, em escura noite, abdicando da vontade de tudo explicar e controlar, podemos antever o encontro com o Senhor da vida.
Há certamente uma decisão a tomar que implica a viagem por um caminho terapêutico de superações ativas, passivas, empenhadas e difíceis, em que somos convidados a prescindir da luz natural do entendimento e, por livre adesão, por pura fé, a aceitar a direção da luz divina capaz de iluminar os sentidos do espírito, que nos permitirá saborear a doçura do vínculo estreito com Jesus, do aroma de perfume que o vento não dissipa.
Apesar dos templos semivazios, penso que entre o homem e Deus existe um laço tão estreito, tão íntimo, que nos permite afirmar que o homem comum, no seu dia a dia, já caminha com Deus, mesmo que não tenha palavras para significar esta relação ou ainda não vivencie a graça divina de se sentir habitado por um amor que só espera ser livremente aceite para dar o abraço gratuito da Vida e da Luz – aliás, a Palavra de Deus não está destinada apenas a alguns: ela é para santos e para pecadores, para crentes e para indiferentes. Deus espera, afinal, para que mesmo o coração mais endurecido possa, um dia, abrir-se à graça.
(Veja-se a parábola do Semeador, na qual Deus não reserva a semente apenas para os lugares mais prometedores, mas para todos!)
A Igreja terá de assumir a missão de levar cada homem a descobrir o Deus que já habita, secretamente, no seu coração, denunciando os falsos profetas que invertem o caminho para o exterior. Um coração tocado pelo Evangelho é capaz de desenhar, mesmo num mundo ferido pela solidão, pela indiferença e pela guerra, uma nova possibilidade de relação do homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo. No tempo que nos cabe, é desejável que a Igreja seja o fermento de reconciliação universal e o agente de transformação da história individual de cada homem, convidando-o a descobrir o Deus que já habita a sua interioridade.
Sim, a humanidade já vive imersa em Deus. A cidade de Deus atravessa a cidade dos homens, fazendo de cada um de nós protagonistas e responsáveis de uma história de encontro com o divino. Deus quis, de facto, habitar connosco, e a criação pode converter-se um lar composto pela delicadeza do Amor do Unigénito de Deus para com a alma-esposa.
Efetivamente, assistimos, em nossos dias, à emergência de um movimento de busca, de resistência ao vazio e ao nada, explorado, por vezes, por alguns hábeis gestores de bens espirituais, que se movimentam em sendas estreitas e tortuosamente moldadas por interesses obscuros, surgindo como respostas mais ou menos maquilhadas à questão radical e fundadora.
Porém, se, estruturalmente, o homem é sempre abertura ao Mistério e ao Absoluto, qual a razão para o seu afastamento de uma vida plena, de uma vivência de amor autêntico, simples, verdadeiro e gratuito de Deus?
Nas democracias liberais ocidentais é colocada a tónica no homem entendido como individualidade autónoma, cuja ação utilitária e autossuficiente é responsável pelo desenvolvimento coletivo e pelo sucesso económico. Esta perspetiva política e antropológica, ao exacerbar o primado do individualismo, dos interesses subjetivos, da competição desenfreada, da mercantilização dos microcosmos humanos, introduzindo o interesse como tónica primordial nas relações pessoais, gerou a dissolução dos laços tradicionais que garantiam a coesão e cooperação sociais.
A consequência deste contexto epocal é a vivência de uma escura noite das relações que surgem fragmentadas pela falta de amor, de empatia, pela desesperança, pelo desgaste do eu que se vê imerso numa profunda, dorida e, por vezes, patológica solidão. A hiperbolização do individualismo desemboca, pois, num isolamento pautado por ligações humanas superficiais, pela anulação de algo inato ao homem: a abertura ao outro.
As teorias sociais e as políticas modernas, ao promoverem uma visão do homem que acentuam a autonomia, criam a ilusão da autossuficiência e ferem profundamente a interação familiar e social.
Esta conceção de sociedade implica uma oposição ao pensamento clássico, que considerava o espaço comunitário como campo natural de realização humana. O liberalismo moderno encara a busca permanente da felicidade individual como objetivo prioritário, delegando para plano inferior a promoção do bem comum.
Contra a atomização social, é, pois, imprescindível repensar os pressupostos duma visão puramente individualista e voltar a valorizar o papel da virtude, da amizade e da pertença nas relações sociais.
A ilusão liberal de que o indivíduo é um projeto de construção autónoma, ignorando a importância da interdependência social como resposta fecunda à fragilidade humana, a redução do outro ao estatuto de descartabilidade que apenas é valorizado enquanto consome ou produz, e a destruição do sentido de corresponsabilidade, imerge a sociedade numa solidão existencial ímpar.
Zygmunt Bauman, sociólogo, analisando exaustivamente esta problemática, refere-se ao nosso tempo, como o de uma sociedade líquida, fluída, onde impera a instabilidade e a transformação constantes das interações humanas e dos quadros axiológicos das instituições, gerando, no mundo globalizado, sentimentos permanentes de insegurança, solidão e consequente ansiedade social desencadeadora de infelicidade.
O paradigma tecnocrático desenvolvido por um novo feudalismo tecnológico, implica uma híper-conexão virtual que mergulha o homem numa rede digital, permanentemente preso a um ecrã, podendo comunicar continuamente com todo o planeta, mas de modo superficial. E assim, desse modo, o conceito de comunidade desaparece, mesmo se se instaura a ilusão da comunicação. Não, o excesso de ecrãs não elimina a solidão, antes corrompe os laços humanos e a real partilha facilitadora da ultrapassagem de fragilidades, e possibilitando a fermentação e formação de grupos fechados que desencadeiam atitudes de intolerância e de violência.
A obscuridade racional e a violência das emoções conduzem o homem das sociedades hodiernas a penetrar numa profunda noite muito escura. Perante este cenário, eu, como mulher cristã sinto o dever de manter a esperança na superação e de acreditar que até a noite mais escura encerra sempre a luminosidade de Deus que nunca abandona a Humanidade – Ó noite ditosa onde Amado e amada se unem e a amada é no amado transformada. A noite é, assim, proposta como caminho de purificação, iluminação e transformação, com o consentimento de cada um e correspondência teologal. Tocada pelo amor de Deus, a alma humana reconhece o seu estado miserável de escravidão, tomando consciência de tudo a que tem de renunciar para se preencher pelo Amado.
A criação começou com a separação da luz e das trevas – desde o início, aliás, foi necessário algo em que a luz se refletisse. Luz e trevas necessitam, portanto, de mútua sustentação. Ao nível da geografia interior, a noite escura é o contexto existencial que permite que a alma não seja encadeada pela luz de Deus, pois a abundância de luz tanto ilumina como cega! O homem, como ser histórico, experiencia-se e conhece a sua interioridade no intervalo luz-sombra.
A noite em São João da Cruz, transcendendo a dimensão puramente ética e moral, assume uma nítida dimensão antropológica correlacionada com um desenvolvimento psicoafetivo que visa uma maturidade emocional e o desapego do ego – a noite surge, assim, como a plataforma em que o eu experiencia o limite, a falência sensorial e racional-discursiva, para poder acolher a luz de Deus, pelo que só com a fé e a confiança absolutas se pode caminhar habitado pelo amor.
Apesar da abertura inata do homem ao Absoluto, a relação é assimétrica e o nosso imenso desejo de conhecer a imensidão maior de bem e de amor exige caminho e admite um aprofundamento infinito marcado por um amor estreito vinculado em Jesus, como O próprio exorta os discípulos no discurso de adeus, presente no Evangelho de João.
Vivemos, hoje, imersos em ambientes demasiado luminescentes. Somos invadidos continuamente por estímulos que induzem a fadiga e a anomia, que nos encadeiam e cegam o intelecto, que evitam a noite e criam a ilusão, que anulam o espírito crítico e a procura da verdade. Impõe-se a urgência de uma noite dos sentidos que nos permita aprofundar a nossa relação com a fonte que mana e corre. Vivemos um problema cultural e societal caraterizado pela profunda exaustão, pela ausência de sentido, pela incerteza existencial, pela fragmentação dos laços de comunidade que exige uma profunda reforma – a noite do espírito entendida como noite de amor, de caridade e de compaixão, capaz de curar e refazer uma nova sociabilidade em que, sem medo, nos possamos assumir, ora como fortes, ora como fracos, feríveis, vulneráveis e necessitados dos outros.
A proposta da antropologia cristã face à solidão e ao individualismo liberal, coloca a tónica na vinculação estreita que deve existir entre os homens – criados, afinal, à semelhança dialógica do Deus uno e trino. E, por certo, sempre sentiremos o isolamento social como uma vivência contrária à essência humana e, como tal, geradora de profunda infelicidade. Este é, pois, o tempo do exército dos que buscando o sentido e a Verdade, sem medo da ditosa noite, tomarem a decisão de subir ao Monte Carmelo, sem receios e sem trevas, indo por amor em fé.
É necessário restaurar continuamente o Reino de Deus entre nós, caminhando para o Deus Amado, tomando o Amor como guia numa viagem para a verdadeira liberdade.

Ana Paula Capão

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