Quando a Igreja portuguesa apresenta e traz á luz o Quadro de Referência Para a Pastoral Juvenil, o Autor fala aqui, no Claustro, de pastoral juvenil, entre os carmelitas descalços portugueses. E que base sólida temos nós, Carmelitas, para oferecer aos jovens portugueses?
Na sequência da Jornadas Mundiais da Juventude 2023, de Lisboa, o tema da juventude tem mexido de forma mais intensa com as preocupações da missão da Igreja em Portugal. Uma das mudanças mais fortes que se pretende imprimir é a de dar lugar aos jovens, deixá-los expressar-se e que os adultos tenham capacidade de escutá-los, se deixem surpreender e interpelar pelas gerações mais jovens que são e querem ser mesmo protagonistas da sua vida e da missão da Igreja, sobretudo quando se reflete sobre o lugar deles na vida das comunidades.
A escuta dos seus ideais e anseios, sem preconceitos, suspendendo tanto quanto seja possível os nossos juízos, a nossa grelha prévia de leitura, é, pois, fundamental. Quando se diz que um adulto tem «espírito jovem» é exatamente porque tem capacidade de escuta dos mais jovens, porque se deixa interpelar e surpreender, porque é capaz de se pôr na pele deles, de calçar os seus sapatos e caminhar com eles, sem deixar de ser adulto, porque os jovens também esperam que os adultos sejam iguais a si mesmos, adultos! Oh, como é caricato observar um adulto imaturo, com comportamentos não apropriados à sua faixa etária.
Há dias o Departamento da Pastoral Juvenil Nacional apresentou um documento com um quadro de referência para a pastoral com os jovens em Portugal, um documento que pretende ser mais inspirador do que normativo, com pautas que abram o diálogo, onde a escuta dos jovens tenha um lugar especial, porque eles têm muito a dizer e a dar à Igreja e ao mundo de hoje.
Também nós, carmelitas, saídos de um Capítulo Provincial, realizado no mês passado, estamos a aplicar à nossa realidade carismática este quadro de referência e a ousar começar de novo, não do zero, mas de novo, de «bem em melhor», lema que Santa Teresa nos deixou. Temos o nosso, sempre humilde, caminho feito, mas queremos sintonizar cada vez mais com os jovens de hoje, tal como eles são, com as suas grandezas e também com as suas fragilidades, como os de cada geração. Reconhecemos sobretudo os seus desejos de verdade e transparência, a sua determinação em exercitarem a esperança que os leva à luta, a enfrentar os imensos desafios que a vida lhes traz: a construção de uma família, uma digna habitação, um emprego que compense a sua excelente preparação e não os obrigue a emigrar, uma comunidade cristã onde vivam a alegria de uma fé partilhada que irriga todas as dimensões da sua vida.
O Carmelo herda e tenta cultivar no presente os valores carismáticos e espirituais dos seus santos, que são a joia, o tesouro que lhe foi confiado para pôr a render. Gosto de recordar um dos meus irmãos confrades, que vive encantado no meio dos jovens, a dizer que o Carmelo não tem propriamente um carisma específico de pastoral juvenil, como outros carismas o têm; mas então o que têm os carmelitas a dar aos jovens? Uma proposta de vida interior, do cultivo da vida de oração, do trato amigo com Jesus! Aqui sim, o Carmelo tem muito a dar aos jovens que continuam a querer viver uma espiritualidade séria e consistente. Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz desenharam itinerários de vida espiritual, primeiro nas suas próprias experiências, depois nos seus escritos, que são de uma atualidade e pertinência imensas. Ao apresentar a vida da fé como um caminho, um itinerário, com etapas bem definidas, o Carmelo tem uma proposta e uma linguagem que os jovens captam facilmente e querem integrar nas suas vidas. A nossa proposta é, sobretudo, no domínio do ser mais do que do fazer, pois vivemos e partimos desta convicção: quando os encantos e belezas da vida espiritual tocam e apanham o coração de qualquer pessoa, e dos jovens mais ainda, toda a sua vida, atitudes e comportamentos se transformam; e então o fazer aparece como o fruto maduro de uma vida interior; este fazer cria impacto, não faz ruído, mas deixa marcas consistentes no presente e no futuro da vida dos mais novos. É esta convicção e este humilde contributo que o Carmelo tem para dar aos jovens desta geração.


