O Papa Leão XIV, na Magnifica Humanitas, refere-se a «Deus» (91 v.), ao homem (34 v.), a Cristo (30 v.), à Igreja (99 v.), a Maria (9 v.) e à inteligência artificial (57 v). A sua pretensão é «salvaguardar o primado da pessoa» (n. 97).
Eis «o cerne da questão: «Corremos o risco de que a revolução digital e a IA façam parecer justa e normal uma visão anti-humana» (n. 97).
Parte da visão do «ser humano, como imagem do Deus trinitário» (n. 48) e da «igual dignidade de todos os seres humanos» (n. 51). «O que salva o ser humano não é a autossuficiência aperfeiçoada, mas uma relação que liberta, uma comunhão que transforma» (n. 128). «O homem é sempre digno de Deus cujo amor salva o homem» (n. 232).
Na verdade, «em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude» (n. 1). «A verdade que não devemos perder é aquela sobre Deus e sobre o ser humano, tal como Cristo nos revelou» (n. 237). «O ser humano, chamado à comunhão com Deus, não está confinado aos limites da própria natureza, mas é chamado a transcender-se a si mesmo» (nn. 48.127).
Por isso, «a Igreja reconhece nas questões e nos desafios do tempo atual o lugar onde deve exercer a própria vocação à escuta, ao diálogo e ao serviço, deixando-se interpelar por tudo o que diz respeito à existência dos homens e das mulheres de hoje» (n. 19). «A pessoa humana permanece sempre «a via da Igreja» e o coração de todo o caminho autêntico de desenvolvimento humano integral» (n. 50).
Na era da IA, «temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo» (n. 231). Somos convidados «a contemplar no rosto do Filho uma magnífica humanidade que ilumina também a era da IA. Mesmo quando as máquinas se destacam pela eficiência, o centro da história continua a ser um rosto humano que pede para ser olhado. Este rosto humano é a plenitude para a qual caminha a história» (n. 233).
Neste contexto, «a questão decisiva foi indicada por São João Paulo II: a IA torna «a vida humana sobre a terra, em todos os seus aspetos, “mais humana”? Torna-a mais “digna do homem”?» (n. 129). «A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos» (n. 1). «A todos dirijo um sentido apelo: não tenhamos medo de sujar as mãos no canteiro de obras do nosso tempo. Que a humanidade nunca perca a própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar» (n. 16). «Também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus» (n. 245).
Tudo porque «no centro está o mistério da Encarnação. Nesta carne ferida e amada do Verbo encarnado, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu. O Deus vivo desce à nossa história e transforma-a num lugar de salvação. O que salva o homem é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente» (nn. 231-232).
Por conseguinte, «na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade» (n. 15).
Daí o valor divino do humano: «A humanidade – magnífica e ferida – não deve ser substituída nem superada… Impõe-se uma questão decisiva: se existe um autêntico “mais que humano”, onde se encontra? A fé cristã responde indicando uma plenitude que não deriva duma divinização tecnológica, mas daquela realizada pela graça de Deus recebida em Cristo» (n. 126). «Quando aceitamos esta possibilidade de nos transcendermos a nós mesmos com a graça de Deus, não nos negamos a nós próprios nem nos tornamos menos humanos» (n. 128).
O humanismo transcendente de Leão XIV não é o humanismo fechado do homem-que-domina, mas o humanismo aberto do homem-em-relação-com Deus, com os outros e com a criação. Por isso, «a história pode mudar quando mesmo um só homem ou mulher leva realmente a sério a dignidade de todos» (n. 124). «Grande parte da humanidade procura permanecer humana e empenhar-se na construção da cidade da convivência e da paz» (n. 185).
A história muda e a humanidade permanece humana, quando Deus é o fundamento, o homem, a regra, e o Evangelho, o estilo: «Hoje a nossa construção deve ter como fundamento a relação com Deus; como regra, a aceitação do limite humano como algo natural e positivo; como estilo, a corresponsabilidade e a linguagem evangélica. Devemos ser fiéis à verdade, investir na educação, cuidar das relações, amar a justiça e a paz» (n. 236).
D. Virgílio Antunes, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, afirmou durante as Jornadas Pastorais do Episcopado, que decorreram em Fátima sob o tema ‘Anúncio da Fé na Nova Revolução Tecnológica (IA) e na Nova Cultura’, que a Igreja deve manter o foco no anúncio do Evangelho, no meio das transformações provocadas pela inteligência artificial. Deste modo, «a Igreja em Portugal quer levar por diante o programa da Igreja iniciado pelo Papa Francisco e, de forma tão expansiva e continuada sob o pontificado do Papa Leão XIV».
Daí, a necessidade de uma espiritualidade evangélica para vivermos esta mudança de época: «No final deste percurso, desejo entregar-vos um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente, com o qual podemos viver esta mudança de época à luz do Evangelho. É um caminho que nasce da contemplação do desígnio de Deus, vive a unidade eclesial alimentando-se da Palavra e da Eucaristia, edifica o mundo no bem e reza com a Virgem Maria» (n. 229).


